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Full text of "Brasões da Sala de Sintra"

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BRASÕES DE SINTRA 
li 



Desta edição imprimiram-se 200 exemplares em papel de linho, 
numerados e rubricados. 



Àft. lo 




BRASÕES 

DA 

SALA DE SINTRA 

DE 

ANSELMO BRAAMCAMP FREIRE 

EDIÇÃO) 

LIVRO SEGUNDO * 




COIMBRA 

IMPRENSA DA UNIVERSIDADE 
I927 




CS 




CARTA AO ADMINISTRADOR 
DA IMPRENSA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 



Lisboa, 19 de Dezembro de 1921. 

Ex. mo Sr. Dr. Joaquim de Carvalho, Ilustre Director 
da Imprensa da Universidade de Coimbra. 

Não estranhe V. Ex. a a longa demora que tenho tido em lhe es- 
crever; mas tenho passado por um período de verdadeiro martírio. 

Se vencer este oiteiro, bem está; mas é preciso pensar no caso 
contrário. 

Para êsse fim mando a V. Ex. a os trechos que formaram o livro 
segundo desta edição dos Brasões, o qual ficará composto de um 
Prólogo, do Prólogo da primeira edição, dos artigos dos Silvas e 
Albuquerques e do índice de Matérias que está sendo organizado 
pelo meu secretário Manuel Vidal que eu julgo com suficiência para 
o pôr em bôa ordem. Em todos os casos advertir-se há que não 
foi revisto por mim. 

Faz tristeza pensar na redução desta obra; mas será o que Deus 
quiser. 

Quanto às condições para a reimpressão dos Brasões são muito 
diversas das que nós julgámos e executámos. 

Na sua carta de 21 de Julho de 19 19 fez-me o dr. Joaquim Mar- 
tins Teixeira de Carvalho a seguinte proposta a qual aceitei : 

« A edição do último volume dos Brasões faz-se. — E agora deixe 



VI 



Brasões 



V. Ex. a falar o director da Imprensa que lhe propõe a edição da 
obra completa, reeditando os volumes anteriores e pagando V. Ex. a 
com exemplares da mesma obra depois de taxados com o desconto 
de revenda de 20 °/ ». 

É pois muito diferente do que posteriormente se praticou, pois 
que a edição deveria ser minha e não da Imprensa da Universidade ; 
agora porém não julgo conveniente que se vão substituir os frontes- 
pícios e capas já impressas e que melhor será aceitar os factos como 
sobrevieram. 

Se V. Ex. a estiver de acordo e creio que essa Imprensa não ficará 
prejudicada, mande pôr à venda o primeiro volume, reservando-me 
os cem exemplares que poderão ter interpolações na numeração 
para satisfazer as pessoas a que V. Ex. a se refere. 

Com toda a consideração sou 

de V. Ex. a 
adm. or sincero e grato. 



« 



PRÓLOGO DA PRIMEIRA EDIÇÃO 



Tenho de resumir o que tencionava aqui dizer, porque não cal- 
culei bem a matéria que reservei para êste tômo, que ficou de maior 
volume do que desejava. Limitar-me hei portanto a umas conside- 
rações, que julgo indispensáveis. 

Começo por uma protestação. 

Alguns chamam-me genealogista : é espécie a que não pertenço. 
Genealogista é sinónimo de mentiroso e parvo (i). Parvo, os outros 
me chamarão; mentiroso, asseguro que o não sou. 

Então, por que escolhi êste género? Por quê? Porque feliz- 
mente me conheço. 

Estimo dizer umas coisas; gosto de averiguar umas datas, uns 
factos; desejo poder ministrar à história pátria o fruto dos meus es- 
tudos, das minhas investigações; mas conheço-me, repito, e sei que 
para historiador me faltam sciência e persistência. 

O historiador de hoje não é o cronista de outros tempos. Este, 
narrou feitos, relacionou acções que presenciou, ou de que houve a 
tradição; e, com quanta maior singeleza o fez, tanto mais nos agrada 
e merece. Aquele, precisa não só de ser narrador, mas sobretudo 
de conhecer as causas e origens dos sucessos, de mostrar as evolu- 
ções nos usos e costumes de épocas para épocas, o sentir e pensar 
dos povos, o seu estado de civilização próprio e relativo, o trato 



(i) Não é idea minha. Li isto algures; num livro francês, julgo; há muito tempo, com 
certeza. 



B 



VIII 



Brasões 



comercial interno e externo, as reformas nas leis, as relações diplo- 
máticas . . . Precisa de saber tudo isto, e muito mais, que só com 
persistente e largo estudo se pode alcançar. Ao cronista, bastava 
ser letrado; o outro, o historiador de hoje, precisa de ser sábio. 

E quem me fez sábio a mim ? 
Sou eu lente ou académico, 
prègador ou coisa assim ! (1) 

Nada não sou; e por isso não me meto em cavalarias altas, e 
rasteiramente me vou entretendo em pesquisar a vida dos nossos 
maiores, em averiguar e narrar uns casos, discorrendo agora sôbre 
um assunto, logo sôbre outro, gastando, em suma, tinta e papel. 
Sem proveito? talvez; oxalá contudo alguém lho encontre. Sem 
proveito pois, é possível; mas sem grandes canceiras, é certo. 

O que eu não sou é genealogista. Renovo a minha afirmação, 
e declaro que muito arrependido estou de no primeiro livro não ter 
pôsto aqueles sujeitos completamente de parte, como o fiz agora 
neste. Eles são mentirosos por índole e ofício, ou por vaidade; são 
parvos, geralmente de nascença. Há excepções, em tudo as há, 
mas de comum só se pode aproveitar a resenha coeva, ou quási, e 
essa mesma com critério e cautela. O mais, é refugo. 

Tudo quanto neste livro vai escrito é firmado em documentos. 
Transcrevo na íntegra, ou extracto largamente, só a poucos, porque 
como Frei Luís de Sousa, « não posso acabar comigo tresladar es- 
cripturas inteiras, onde baste especificar a sustancia. Dar treslado 
de papeis he modo de encurtar trabalho, encher muyto, e cansar os 
leytores » (2). Mas, se não os transcrevo, declaro as fontes, tornando 
por isso fácil o exame. 

Esta é a essência. 

Quanto à forma conservo-a singela e natural, clara sempre, 
ainda que às vezes incorrecta por insuficiência própria. Sim, se- 



(1) Garrett, Versos, vol. 2. , pág. 77. 

(2) Annaes de D. João III, pág. 260. 



Prólogo da primeira edição 



IX 



nhor, porque eu para a gramática estou como certos sujeitos para a 
música: toco de ouvido. Por isso não admira que, assim como 
àqueles escapam fífias e falsetes, eu perprete barbarismos e sole- 
cismos. Vou tratando de me aperfeiçoar, mas felizmente não é para 
a minha linguagem que o leitor olha, e não é como clássico que me 
apresento. 

Nem historiador. Nem clássico. Então . . . ? — Então ? . . . Um 
amante da história e letras pátrias, mais nada. 

Outro ponto. 

Têm estes livros uma pequena tiragem: primeiro porque os não 
destino para o vulgo, com que antipatizo 

Odi profanum vulgos, et arceo(i); 

segundo, porque os seus leitores pertencem a uma classe muito res- 
trita. Por este facto, e por não poder adivinhar onde êles estão, e 
quem são, tenho mandado exemplares para as principais bibliotecas 
públicas e de associações literárias e scientíficas. 

Noto que algumas bibliotecas públicas não se apressam em 
acusar a recepção do exemplar com que as brindo, mas contudo lá 
o vão fazendo, excepto uma, a de Braga. 

Não me admiro, nem deixarei de continuar a mandar para lá os 
meus livros, apesar de não ficar sabendo se deram entrada nas es- 
tantes, ou se foram roubados. Não me admiro, contudo, mas quero 
aqui deixar consignado o facto, não tanto como uma amostra da 
muita falta de chá em pequeno que por aí se nota, como sobretudo 
por ser mais uma prova da leviandade com que se escolhem, e no- 
meiam, os indivíduos para os diferentes cargos públicos. Não se 
averigua da capacidade especial do pretendente; resolve-se pela 
política e pelos empenhos. Por isso vemos por toda a parte o po- 
liticão, a mais daninha das lusas espécies, abarcando todos os 



(i) Odes de Horácio, liv. III, ode I. 



x Brasões 

empregos, abotoando-se com os respectivos ordenados, mas não se 
importando absolutamente nada com os inerentes deveres, abando- 
nando os lugares, deixando correr tudo à matroca. 

Quanto às bibliotecas de sociedades scientíficas e literárias, é 
certamente com o máximo prazer que lhes mando os meus livros; 
mas deverei dizer, para desvanecer qualquer suspeita, que o faço 
com absoluto desinterêsse. 

Não pretendo pertencer a elas. Não é por descabida soberba, 
note-se bem, pois que sou o primeiro que reconheço prestarem elas, 
ou terem prestado, subidos serviços às letras pátrias. Não é pois 
por isso; é pelo meu feitio. 

Já compuz o meu epitáfio que lembra um pouco o de Piron, con- 
cordo; mas, falando na língua dêle, direi, qiCil ri!y a rien de nouveau 
sons le soleil. 

Pedi a um poeta, sempre amigo, e então vizinho, para o pôr, o 
tal epitáfio, em verso, e êle saiu-se assim: 

Jaz sob esta campa fria 
um Par do Reino e escritor, 
que nem foi Comendador, 
nem Sócio da Academia. 

Desejo pois coaservar esta singularidade, ainda que o leitor me 
fique tendo na conta de mágico. 

Acabarei pedindo perdão de não cumprir com a promessa consi- 
gnada no fim do primeiro livro; mas ainda neste volume não pode 
ir o índice alfabético. Será impresso à parte, e não o posso incluir 
aqui pela mesma razão, pela qual tenho de limitar êste prólogo, para 
não engrossar mais a obra. 

A obra ! Vaidoso título para um pobre mosaico de toscas mal 
embutidas pedras que nem merecerão, na frase de Quintiliano, a 
classificação de parva qnidem, sed sine qnibus magna non possunt 
consistere. 



Aldeia, 6 de Janeiro de 1901. 



Prólogo da primeira edição 



VARIAÇÕES DO MAESTRO, O VISCONDE JÚLIO DE CASTILHO, 
SOBRE O TEMA DO EPITÁFIO 

I 

Aqui jaz na cova fria 
um Par do Reino e escritor, 
escapo a Comendador, 
e a Sócio da Academia. 

II 

Jaz dentro nesta cova fria 
um Português, Par do Reino e escritor, 
que se livrou de ser Comendador, 

e Sócio, até, da Academia. 

III 

Jaz sob esta loisa fria 

um Par do Reino e escritor. 
Morreu feliz ! nem foi Comendador, 
e nem Sócio, sequer, da Academia. 

IV 

Debaixo da fria loisa 
para sempre aqui repoisa 
um feliz (quem tal creria ! !), 
que, sendo Par e escritor, 
nunca foi Comendador 
nem sócio da Academia. 

V 

Quem jaz nesta cova fria ? 
um Par do Reino e escritor, 
que ao morrer teve a alegria 
de exclamar: «Graças, Senhor! 
« nunca fui Comendador, 
«nem Sócio da Academia !» 



Brasões 



vi 

Jaz nesta cova um Par e historiador, 
sugeitinho que teve tanta sorte, 

que ao ver chegar a morte 
poude bradar com íntima ufania: 

«Rabisquei, sim senhor; 
« mas surriada ! nem sou Comendador, 
«nem Súcio da Real Academia». 

VII 

Aqui jaz quem contou como ventura 
(pertencendo à actual literatura) 
o escapar a um mal quási epidémico: 
nem foi Comendador, nem Académico 



PRÓLOGO DESTA EDIÇÃO 



No meu estado de saúde seria francamente desculpável não 
escrever êste Prólogo. Tenho porém de o fazer para explicar, 
como apesar dos meus anteriores apodos eu entrei para a Aca- 
demia. 

Em seguida à revolução de 1910 o meu falecido Amigo dr. Tei- 
xeira de Queirós, sócio efectivo da Academia, tomou sôbre si a ta- 
refa de desempoeirar e rejuvenescer os velhos processos académicos, 
fazendo entrar a Academia num período de trabalho fecundo e hon- 
roso. Dirigiu-se-nos, a vários, instando para entrarmos na Aca- 
demia. Muito instado por êle apresentei-lhe as minhas objecções e 
li-lhe o Prólogo deste volume. Insistiu, dizendo que isso não valia 
nada. Que eram umas brincadeiras inofensivas. 

Acabou pois por convencer-me e fui eleito sócio correspondente 
na sessão de 9 de Fevereiro de 191 1 (parecer de Júlio de Vilhena), 
Boletim da Segunda Classe, vol. IV, págs. 281 e 253; sócio efectivo 
eleito na sessão de 10 de Dezembro de 19 14 (parecer de Fernandes 
Costa), Ibidem, vol. IX, págs. 27 e 5 ; director dos Portugaliae monu- 
menta eleito em sessão de 8 de Janeiro de 191 5, Ibidem, vol. IX, 
pág. 235; vice presidente da Segunda Classe, eleito na sessão de 23 
de Dezembro de 191 5, Ibidem, vol. X, pág. 35; presidente da Se- 
gunda Classe, eleito na sessão de 27 de Dezembro de 19 17, Ibidem, 
vol. XII, pág. 19, e finalmente presidente da Academia eleito na 
sessão de Dezembro de 19 18. 

Pois apesar de todas estas extraordinárias distinções que muito 



< 



xiv Brasões 

me penhoraram, ainda hoje estou arrependido de me não ter man- 
tido nas minhas primitivas intenções. 
Espírito frondeur? Talvez. 

Fica-me uma grande saudade de não poder terminar esta. se- 
gunda edição dos Brasões. Mas Deus assim o quis ! 

São inúmeros os apontamentos de novos documentos para ilus- 
tração da obra. O leitor bem o alcança, comparando o que ficou 
escrito na primeira edição e o desenvolvimento dado à matéria na 
segunda edição. 

Lastimo ficarem perdidos todos os apontamentos acerca da ca- 
pela dos Monises na igreja do Carmo de Lisboa. Foram coligidos a 
pretexto do casamento de Felipa Monis com Cristóvão Colombo. 
Anexos a êles em apêndice ou nota iria uma grande colecção de 
documentos relativos aos Perestrelos. Mas tudo isto lá fica perdido. 

Não entro em mais considerações; estou já num estado de aba- 
timento muito profundo. Por isso terminarei. 



Salitre, 17 de Dezembro de 1 921 . 



BIOGRAFIA 



ANSELMO BRAAMCAMP FREIRE 

Filho do i.° barão de Almeirim, nasceu a i de Fevereiro de 1849. 
Par do Reino por Carta Régia de 22 de Julho de 1886, tomou posse 
a 25 de Abril de 1887. Renunciou, porém, estas altas funções em 
1908, depois de se ter filiado, nos fins do ano precedente, no Partido 
Republicano, como protesto contra a ditadura então exercida pelo 
Poder Executivo. Não se tornou, todavia, efectiva a predita re- 
núncia em razão de se ter a Câmara dos Pares julgado incompetente 
para a aceitar. v 

Eleito naquele mesmo ano vereador da Câmara Municipal de 
Lisboa, exerceu as funções de seu vice presidente desde Novembro 
de 1908 até Outubro de 1 9 10, e as de presidente de então por diante, 
até 3o de Janeiro de 191 2, em que a vereação, a instâncias próprias, 
entregou a administração municipal a uma comissão nomeada pelo 
Govêrno. 

Proclamada a República em Portugal, e eleito Deputado pela 
capital à Assembleia Nacional Constituinte, dela foi o Presidente, 
tendo nesta qualidade assinado e promulgado a Constituição da Re- 
pública Portuguesa em 21 e 22 de Agosto de 191 1. 

Ao dividir-se a Assembleia Nacional em dois corpos legislativos 
tomou a presidência do Senado, cujas funções exerceu sempre du- 
rante todo o período legislativo que terminou em 19 14, tendo-se, 
porém, no último ano abstido de comparecer às sessões, havendo 
apenas presidido às duas extraordinárias de Agôsto e Novembro, 
posteriores ao início da guerra europeia. Completamente afastado 
da política se tem mantido desde então. 

VOL. 11 C 



XVI 



Brasões 



O Sr. Anselmo Braamcamp Freire, tão competente bibliófilo, 
como é, possui uma selecta biblioteca, na qual, entre grande número 
de obras de reconhecido mérito, já literário, já estimativo, quer pela 
substância, quer pelos mais predicados, tão gratos aos cultores apai- 
xonados da bibliologia, se especializam muitas versando a História, 
ou seja a Universal, ou a particular a cada Nacionalidade, avultando 
entre estas principalmente as que respeitam a Portugal. S. Ex. a é 
sócio efectivo da Academia das Sciências de Lisboa, tendo sido 
eleito pela Segunda Classe desta corporação, em Janeiro de 191 5, 
director da publicação académica Portvgalice Monvmenta Histó- 
rica^). É, também, presidente da Sociedade de Geografia de Lis- 
boa [e sócio correspondente da Royai Historical Society of En- 
gland]. 

Dedicado aos estudos históricos, genealógicos e arqueológicos, 
tendo em todos estes três ramos da sciência da História produzido 
incessantes e apreciadíssimas provas de competência e saber, é a 
seguinte a sua já extensa e autorizadíssima biblioografia : 

1) Considerações criticas á obra intitulada Archivo Heráldico, de que 

é autor o Sr. Visconde de Sanches de Baena. 

No Diário lllustrado, n.°* 612 e 61 3, correspondendo aos dias 20 e 21 de Maio 

de 1874. 

2) Critica ás Memorias históricas e genealógicas dos Duques portu- 

gueses do século xix, por João Carlos Fêo Cardoso de Castello 
Branco e Torres e Visconde de Sanches de Baena. 

No Diário lllustrado, n. ' 4:109 a 4:112, correspondendo aos dias 8, 9, 10 e u 
de Outubro de 1884. 



(1) [Sócio correspondente eleito na sessão de 9 de Fevereiro de 191 1, parecer de Júlio 
de Vilhena (Boletim, vol. IV, págs. 281 e 253). Sócio efectivo eleito na sessão de 10 de De- 
zembro de 1914, parecer de Fernandes Costa (Ibidem, vol. IX, págs. 27 e 5). Director dos 
Portugaliae Monumenta eleito em sessão de 8 de Janeiro de 191 5 (Ibidem, vol. IX, pág. 235). 
Vice presidente da 2." classe eleito na sessão de 23 de Dezembro de igi5 (Ibidem, vol. X, 
pág. 35). Presidente da 2.» classe eleito na sessão de 27 de Dezembro de 1917 (Ibidem, vol. XII, 
pág. 19). Presidente da Academia eleito na sessão de Dezembro de 1918]. 



é 



Biografia xvu 

3) Brasões da Sala de Cintra. 

Colecção de 44 números do Diário lllustrado, desde o n.° 4:160, de 28 de No- 
vembro de 1884, até o n.° 4:35o, de 9 de Junho de i885, compreendendo 27 artigos, 
dos quais os 20 primeiros, incluindo 3 que apenas haviam sido apontados, foram de 
novo impressos, muito ampliados e corrigidos, no Livro primeiro e Livro segundo 
dos Brasões da Sala de Cintra, como adiante se nota. 

4) Falsidades genealógicas. 

Nota na Historia do Infante D. Duarte, irmão de El-rei D. João IV, por José 
Ramos Coelho. — Tômo II. Lisboa, 1890, págs. 872 a 878. 

5) A Pena. Carta a D. José Pessanha. 

Na Arte Portuguesa, n. ' 1 e 2, correspondentes aos meses de Janeiro e Feve- 
reiro de 1895. 

6) Livro primeiro dos Bra- | sões da Sala de Cin- | tra de Anselmo \ 

Braamcamp \ Freire | >í ( Estados históricos, l). — Emblema : Es- 
quilo (de prata, em campo verde), apainelado, e a divisa 
«Labor vincit oerumnas». Impresso por Francisco Luiz Gon- 
çalves j em Lisboa aos iij dias de | Junho de mdccc.xc.ix — 8.° 
de LV-471 pág. 

«Tiragem de 101 exemplares, todos numerados e assignados pelo autor», e des- 
tinados exclusivamente a ofertas. Neste volume compreendem-se i5 dos 27 artigos 
acima indicados sob o n.° 1:049. 

7) O Conde de Villa Franca e a Inquisição — II Produção dos Estudos 

Históricos do Autor — Emblema, acompanhado pela predita 
divisa. — Lisboa. Imprensa Nacional, 1899 — 8.° de xm-126 
pág., incluídas 16 do índice alphabetico, e as 2 últimas do ín- 
dice das 12 estampas intercaladas no texto; xm de «Ao leitor». 

«Tiragem de 5oo exemplares todos numerados, dos quaes não serão postos á 
venda os 101 primeiros em melhor papel». — Preço i#ooo réis. 

8) índices \ do \ Cancioneiro de Resende \ e das \ Obras de Gil Vicente. \ 

Lisboa | Typographia de Francisco Luiz Gonçalves | 80, Rua 



XVIII 



Brasões 



do Alecrim, 82 | 1900. — 8.° de vii pág. com o ante-rôsto, o 
rôsto e o « Prefácio» datado de Maio de 1900 e assinado Os 
novos « Obsequiosos » de Sacavém. Seguem-se mais 1 1 4 págs., 
das quais as 97 primeiras, com o índice do Cancioneiro e as 
restantes com o das Obras. 

No fim mais 2 pág. s. n. Na primeira lê-se : Acabousse de empremyr a tauoada 
de íodalas cousas que estam no cançyóneyro geeral & nos aytos. Foy ordenada & 
emédada por Julio de Castilho & Anselmo Freyre fidalguos da casa delRey nosso 
senhor. Começouse & acabouse na muyto nobre & sempre leall çidade de Lixboa. 
Per Françisco Gonçalueç empremjdor. Aos xif dias de noiãbro da era de nosso 
senhor Jesu cristo de mil & nouecent.os anos. Na segunda aparecem gravadas as 
armas de ABF, aproveitada a chapa do seu primitivo ex-libris. Na capa de per- 
gaminho : Tauoada do Cancioneiro \ geeral & dos Aytos, em caracteres góticos. 
Edição de 20 exemplares numerados. 

9) Livro segundo dos Bra- \ sões da Sala de Cin- \ tra de Anselmo \ 
Braamcamp \ Freire \ >k (Estudos históricos, UlJ. — Emblema e 
divisa como ficam descritos. Impresso por Francisco Luiz 
Gonçalves | em Lisboa aos xxij dias de | Fevereiro de m.dcd.i. 
— 8.° de xi-543 pág. 

«Tiragem de 10 1 exemplares, todos numerados e assignados pelo autor», e 
destinados exclusivamente a ofertas. Neste volume compreendem-se mais 5 dos 
27 artigos indicados em o n.° 1:049. 

10) As sepulturas do Espinheiro. — IV Produção dos Estudos Histó- 

ricos do Autor. — Lisboa, Imprensa Nacional. — 1901. — 4. 
gr. de vi-io3 pág., fora o rosto e a «Advertência» -\- 1 s. n. 
de índice das estampas. 

«Tiragem de 25o exemplares, todos numerados, dos quaes não serão postos á 
venda os 101 primeiros». E adornado de 6 estampas fotográficas intercaladas no 
texto; e rematado pelo índice alphabetico, compreendendo nomes de pessoas, etc. 

1 1) O Camareiro. s 

Narrativa histórica, publicada sob o pseudónimo Silex, no Jornal do Com- 
mercio, desta capital, de 8 de Março a 12 de Julho de 1902, correspondendo aos 
n. os 14:463 a 14:563. No cap. X (n.° 14:555, referido ao dia 3 de Julho) insere-se a 
Planta de parte da freguesia de S. Bartolomeu, riscada pelo autor desta interes- 
santíssima monografia arqueológico-genealógica, planta que passou para o vol. VI 



Biografia 



XIX 



dos seus Estudos históricos, intitulado Critica e Historia, vindo a lume em 191 o, 
tal qual adiante se menciona, e se repetiu na Revista de Historia, fase. 22 (1917) 
como também adiante se regista. 

Esta narrativa constituiu o i3.° artigo duma série publicada sob aquele pseu- 
dónimo no referiodo periódico, desde o n.° 14:244, de i3 de Junho de 1901; série 
que foi integralmente reproduzida no vol. I do já aludido livro Critica e Historia. 

12) Farias. 

No Jornal do Commercio n.°" 14^77, 14:581, 14:591, 14:600 e 14:605, corres- 
pondendo aos dias 29 de Julho, 2, 14, 26 e 3i de Agosto de 1902. 

13) Genealogistas. 

No Jornal do Commercio n.° 14:571, correspondendo ao dia 22 de Julho de 

1922. 

14) Representante de Affonso de Albuquerque. 

Também publicado no Jornal do Commercio n. ' 14:620, 14:621 e 14:622, cor- 
respondentes aos dias 18, 19 e 20 de Setembro de 1902. 

* 

O Sr. Anselmo Braamcamp Freire fundou em igo3, com o 
Sr. D. José da Silva Pessanha, o Archivo Histórico Portugue\, tendo 
por administrador o Sr. Fernando de Brederode. Neste repositório 
não só os dois escritores têm dado a lume diversos estudos da ín- 
dole desta publicação, mas lhe facultaram as páginas a muitos 
outros que, por igual, as ilustraram com suas locubraçÕes, excepção 
feita do autor do presente artigo. 

A literatura do Sr. Braamcamp Freire nos volumes que se acham 
publicados pode distribuir-se por três categorias, a saber: 

d) Simples transcrições de documentos pertencentes ao Corpo 
Cronológico do Arquivo Nacional da Tôrre do Tombo ou a outros 
repositórios do país; 

b) Breves notícias de introdução a outras transcrições avulsas, 
firmadas com as só as iniciais B. F.; 



XX 



Brasões 



c) Artigos de índole histórica, genealógica e arqueológica, pro- 
priamente tal, assinados por extenso. 

Uma novidade, verdadeiramente digna de aprêço, apresenta esta 
publicação, única no seu género em Portugal. Por ela devem todos 
os leitores do Archivo Histórico Português ser gratos ao Sr. Anselmo 
Braamcamp Freire. Os índices que acompanham cada volume são 
obra valiosíssima sua, e tanto honram a exemplar paciência do seu 
metódico organizador, quanto realce prestam a cada um dos de% 
volumes já publicados, não só pela manifesta utilidade que realmente 
têm, e os leitores milhares de vezes terão apreciado, mas pela per- 
feição com que têm sido executados. 

Eis a nota dos artigos devidos à pena do Sr. Braamcamp Freire, 
compreendidos no vol. I-i()o3: 

1 5) O Almirantado da Índia, data da sua criação. 

16) Auto do conselho havido no Espinheiro em 1477. 

17) Cartas de quitação dei Rei D. Manuel (i. a série). 

18) Compromisso de confraria em 1346. 

1 9) As conspirações no reinado de D. João II — Documentos. 

20) Regimento da gente da Ordenança e das vinte lanças da guarda. 

Cópias de A. F. Barata. — Introdução por B. F. 

21) Armadas. 

No Jornal do Commercio n. os 14:763, 14:778, 14:794, 14:796, 14:811 e 14:840, 
correspondentes aos dias i3 de Março, 2, 22 e 24 de Abril, 12 de Maio e 18 de 
Junho de 1903. Este artigo, bastante ampliado, foi já reproduzido, em opúsculo, 
em 1915, com o título de Expedições e armadas, como em seu lugar se verá (n.° 90). 

22) D. Leonor Afonso. 

No Jornal do Commercio n.° 14:777, correspondendo ao dia 1 de Abril de 1903. 



Biografia 



23) Condado de Borba. 

No Jornal do Commercio n.° 14:803, correspondendo ao dia 2 de Maio de 190J. 

24) O Alferes de Toro. 

No Jornal do Commercio n.° 14:820, correspondendo ao dia 23 de Maio de 1903. 

2 5) O Castelo de Alvito. 

No Jornal do Commercio n.° 14:882, correspondendo ao dia 9 de Agosto 
de ioo3. 

26) San Marcos a par de Coimbra. 

No Jornal do Commercio n. " 14:887, 14:892, 14:895, 14:898, 14:900 e 14:906, 
correspondendo aos dias i5, 22, 26 e 29 de Agosto, 1 e 8 de Setembro de 1903. 

27) Um aventureiro na empresa de Ceuta. 

No Jornal do Commercio n.°' 14:918, 14:925, 14:936 e 14:978, correspondentes 
aos dias 22 e 3o de Setembro, i3 de Outubro e 1 de Dezembro de igo3. Foram 
reproduzidos em volume, em 1913, ampliados e corrigidos. Veja-se o n.° 88. 

28) Livros: I — O Paço de Cintra. II — Livro de Marinheria. III — 

Historia de um fogo morto. 

No Jornal de Commercio n.°* 14:999, i5:oi6, i5:o38 e i5:o39, correspondendo 
aos dias 27 de Dezembro de 1903, 19 de Janeiro, 16 e 18 de Fevereiro de 1904. 

29) Caderno da sisa da marcaria para 1S02. 

Copia do Corpo Cronológico no Archivo Histórico Portuguef. — Vol. II, 1904. 

30) As conspirações no reinado de D. João II. — Documentos (conti- 

nuação). 

Ibidem. 

31) Carta de quitação dei Rei D. Manuel (2.* série). 

Ibidem. 



XXII 



Brasões 



2>2) Rol dos papeis entregues por Antonio Carneiro, quando foi preso. 

Cópia, não assinada, do Corpo Cronológico. Ibidem. 

33) Livro das tenças del-Rei (D. João III). 

Cópia. Ibidem. 

34) Novas de Veneza em i5o8 — Carta do escrivão da nossa feitoria 

a el-Rei D. Manuel. 

Ibidem. 

35) O Cavalleiro de Oliveira e a Inquisição. 

Cópia do processo e da sentença, tirada do respectivo códice na Biblioteca 
Pública Eborense, bem como da «Lista das pessoas que saíram condemnadas no 
Auto publico de fé realisado em Lisboa a 20 de Setembro de 1761, figurando entre 
ellas, em estatua, o predito Cavalleiro de Oliveira». — Náo firmado, mas incluído 
no Índice dos Autores deste volume como pertencendo ao autor de quem se está 
tratando. Ibidem. 

36) A Chancellaria de D. João II. 

Ibidem. 

37) Bibliografia — Noticia do livro de. A. de Sousa Silva Costa Lobo 

— Historia da Sociedade em Portugal no século xv, por B. F. 

Ibidem. 

38) Inventario da guarda roupa de D. Manuel. 

Cópia do livro original, incompleto. Ibidem. 

39) A Chancellaria de D. Afonso V. 

Extensa e documentada notícia. Ibidem. 



4b) Somaryo dos livros da Fazenda tirado por Affonso Mexia. Com 
uma Introducção por — . Lisboa. Off. Typ. Calçada do Ca- 



Biografia 



XXIII 



bra, 7. 1904. 8.° de 4 pág. com o ante-rosto e rosto e mais 
xxvn-77, e ainda uma com «Correcções e acrescentamentos ». 

Separata do Archivo Histórico Portuguej, vol. II. Tiragem de 21 exemplares. 

41) Rui e Rodrigo. 

No Jornal do Commercio n.° i5:oi8, correspondendo ao dia 21 de Janeiro 
de 1904. 

42) Rui de Pina (incompleto). 

No Jornal do Commercio n. ' i5:o82 e i5:o83, correspondendo aos dias 12 e 
i3 de Abril de 1904. 

43) Livro terceiro dos Bra- \ soes da Sala de Cin- \ tra de Anselmo j 

Braamcamp \ Freire | >J< [Estudos históricos, V). — Emblema e 
divisa já notados. Impresso por Augusto Lima & parceiro | 
em Lisboa aos xxxj dias de | Janeiro de m.dcd.v. 8.° de xm-340 
pág. e mais 4 s. n. 

«Tiragem de 101 exemplares, todos numerados e assignados pelo autor», e 
exclusivamente destinados a ofertas. Apesar disto, alguns exemplares dos três 
volumes têm aparecido à venda alcançando preços elevados: 70, 80 e, últimamente, 
120 escudos. 

44) Cartas de quitação del-Rei D. Manuel (3. a série). 

No Archivo Histórico Portugue^. — Vol. III, ioo5. 

45) A Chancellaria de D. Afonso V (continuação). 

Ibidem. 

46) Povoação de Entre Douro e Minho no século xvi. 

Ibidem. 

47) Em volta de uma carta de Garcia de Resende. 

Ibidem. 

vol. n D 



xxiv Brasões 

48) Em volta de uma carta de Garcia de Resende. — Lisboa. Oficina 

Tipográfica da Calçada do Cabra, 7. 1905. 8.° de 19 pág. 

e 2 est. 

Separata do Archivo Histórico Portugue\. — Vol. III. — Tiragem de 21 exem- 

pares. 

49) Cartas de quitação del-Rei D. Manuel (4.* série). 

No Archivo Histórico Portuguej. — Vol. IV. — 1906. 

1 

5 o) A Honra de Resende. 

Ibidem. 

51) D. João de Aboim. 

Notícia firmada por B. F. Ibidem. 

52) Povoação de entre Tejo e Guadiana no xvi século. 

Ibidem. 

53) Os sessenta milhões outorgados em 1478. 

Ibidem. 

54) A Honra de Resende. 

Separata do Archivo Histórico Portugue\. — Vol. IV, tiragem de 21 exem- 
plares. — Lisboa. Oficina Tipográfica da Calçada do Cabra, 7, 1906. — 8.° de 66 pág. 

55) Bibliographia. — As publicações do benemérito dr. Eugénio do 

Canto. 

No Archivo Histórico Portugue\. — Vol. V, 1907. 

56) Cartas de quitação del-Rei D. Manuel (5. a série). 

Ibidem. 

57) A guarda de D. João II em i4go. 

Ibidem. 

1 



Biografia 



XXV 



58) Gil Vicente — Poeta e ourives. 

Estudo publicado sob o pseudónimo Silex no Jornal do Commercio desta ca- 
pital desde n.° i5:gi5 até n.° 15:926 (5 a 19 de Fevereiro de 1907). 

59) Amarrado ao Pelourinho. — Emblema descrito e a conhecida di- 

visa «Labor vincit cerumnas». — Oficina Tipográfica da Cal- 
çada do Cabra, 7. — 1907. 

Foi distribuído este opúsculo, de 77 pág., impresso no formato do Archivo 
Histórico Portuguej, a par com o fascículo de Junho daquele ano. Fez-se uma 
tiragem de i5o exemplares, além dos que se juntaram ao sobredito fascículo. 

60) Ementa da Casa da índia. 

No Boletim da Sociedade de Geographia de Lisboa, 25.» série. — 1907. — Ti- 
rou-se separata, impressa em Lisboa, Tipografia Universal de Coelho da Cunha, 
Brito & C.*, 1907. — 8.° de 72 pág. 

61) Sintra antiga (incompleto). 

No Jornal do Commercio n. 08 16:072, 16:082 e 16:092, correspondendo aos dias 
20 e 3i de Agosto e 12 de Setembro de 1907. 

62) A Gente do Cancioneiro (incompleto). 

Na Revista Lusitana, vol. X e XI, 1907. 1908. 

63) Cartas de quitação del-Rei D. Manuel (6. a série). 

No Archivo Histórico Portugue\. — Vol. VI, 1908. 

64) Maria Brandoa, a do Crisfal. — Cap. I. Os Brandões poetas do 

Cancioneiro. — Cap. II. A Feitoria de Flandres. 

Ibidem. 

65) Outro capitulo das finanças manuelinas, os Cadernos dos assenta- 

mentos. 

• Ibidem. 



xxvi Brasões 

66) Povoação da Estremadura no xvi século. 

Ibidem. 

67) Dois Portuenses Poetas do Cancioneiro. 

Em O Tripeiro, n.° 5, de 10 de Agosto de 1908, ano pág. 69. 

68) Os Cadernos dos assentamentos (continuação). 

No Archivo Histórico Portugue\. — Vol. VII, 1909. 

69) Maria Brandoa, a do Crisfal. Cap. II. — A Feitoria de Flan- 

dres (continuação). 

Ibidem. 

70) Notas ás Noticias da vida de André de Resende, de Leitão Fer- 

reira. 

Ibidem. 

7 1 ) Povoação de Trás-os- Montes no xvi século. 

Ibidem. 

72) Governadores da Relação do Porto (i 582-1 823). 

Em O Tripeiro, n. ,s 32 e 33, correspondentes aos dias 10 e 20 de Maio de 1909, 
ano pág. 227 e 25 1. 

73) A Alexandre Herculano. 

No Archivo Histórico Portuguej. — Vol. VIII, 19 10. 

74) Os Cadernos dos assentamentos (continuação). 

Ibidem. 

75) Cartas de quitação del-Rei D. Manuel (y* série). 

Ibidem. 



Biografia 



XXVII 



76) Inventario da casa de D. João III em 1SS4. 

Ibidem. 

77) Maria Brandoa, a do Crisfal. Cap. II. — A Feitoria de Flan- 

dres (conclusão). 

Ibidem. 

78) Notas ás Noticias da vida de André de Resende, de Leitão Fer- 

reira. 

Ibidem. 

79) Noticia Histórica no Livro dos Bens de D. João de Portel, cartu- 

lario do século xm, publicado por Pedro A. de Acevedo, &. — 
Lisboa, Oficina Tipográfica da Calçada do Cabra, 7. — 1906- 
19 10. — 8.° de cm- 182 pág. e mais 2 contendo o «índice das 
estampas » e as « Correcções ». 

Edição do Archivo Histórico Portuguef. — Tiragem de 101 exemplares. E a 
Noticia intitulada D. João de Aboim, publicada na predita Revista, vol. IV (1906). 

80) Critica e Historia — Estudos. — Vol. I. Dedicado: «A veneranda 

e venerada memoria de Alexandre Herculano, no Centenario 
do seu nascimento». — Lisboa, Tipografia da Antiga Casa 
Bertrand, 100, Rua da Alegria, 100. — 19 10. 

Compreende: Advertência, datada : «Aldeia, Março de 1910», v pág. — Texto: 
414 pág., sendo de texto propriamente tal 370, de índice alfabético, 44. Acrescem 
mais 3 pág., sendo 1 de índice gerai, 1 de «Colocação das estampas* (vii) e 1 de 
Erratas. 

Consta o livro de i3 assuntos, a maior parte dos quais inéditos. Eis os seus 
títulos, bem como as respectivas datas : I. Os Condes de Viana D. Duarte e 
D. Isabel, Aldeia, 6 Junho, 1901. — II. A Ordem de Santiago, Aldeia, 25 Julho, 19Ó1. 

— III. Raparigas do Cancioneiro, Aldeia, 4 Agosto, 1 901. — IV. Garcia de Resende, 
Aldeia, Julho, 1901. — Aditamentos I e II, Aldeia, Retoques de Setembro, 1909. — 
V. A Rainha D. Leonor, Aldeia, Setembro-Outubro, 1901. — VI. Trasladações da 
Batalha, Aldeia, 1 Novembro, 1901. — VII. Descendência de D. João II, Aldeia, 24 
Novembro, 1901. — VIII. A Amante, Aldeia, 12 Fevereiro, 1902. — IX. Na Batalha, 
Aldeia, 28 Novembro, 1901. — X. O Marramaque, Aldeia, 3i Dezembro, 1901. — 
XI. Livros, Aldeia, 12 Janeiro, 1902. — XII. O Envenenado, Aldeia, Fevereiro, 1902. 

— XIII. O Camareiro, Aldeia, Março a Julho, 1902. 



xxviii Brasões 

81) Opúsculos Resendianos (Notas bibliográficas). 

No Boletim da Segunda Classe da Academia das Sciencias de Lisboa, vol. VII,. 
pág. 90. — 191 3. 

82) Bibliografia Resendiana. Parte I: Edições de obras suas. — 

Parte II: Catalogo alfabético. 

No Archivo Histórico Portuguej. — Vol. IV. — 1914. 

83) Cartas de quitação del-Rei D. Manuel (8.* série). 

Ibidem. 

84) Cronologia Resendiana. 

Ibidem. 

85) Inventario da Infanta D. Beatri{, 1S07. 

Ibidem. 

86) Notas ás noticias da vida de André de Resende, de Leitão Fer- 

reira. 

Ibidem. 

87) Colégio Real das Artes de Coimbra (Ligeiras notas). 

No Boletim da Segunda Classe da Academia das Siencias de Lisboa, vol. IX r 
fase. n.° 1. — Novembro a Dezembro, 1914. 

88) Um Aventureiro na Empresa de Ceuta — 191 3. Livraria Ferin, 

Baptista, Torres & C. ta , 70, Rua Nova do Almada, 74, Lisboa, 
8.° de 8 -j- 3o pág. e mais 1 s. n. 

89) Gil Vicente Poeta e Ourives (Novas notas). 

Separata do Boletim da Segunda Classe da Academia das Sciencias de Lisboa, 
vol. VII. — Tiragem, 5o exemplares. — Coimbra, Imprensa da Universidade, 1914. 
8.° de 19 pág. 



Biogi-afia 



XXIX 



90) Expedições e Armadas nos anos de 1488 e i48g. 

Acompanha esta notícia, que é firmada pelo autor como Presidente da So- 
ciedade de Geografia de Lisboa, um grande quadro, em fôlha desdobrável, das 
Armadas dos anos de 1488 e i4go. Livraria Ferin, Torres & C. u , 70, Rua Nova 
1 do Almada, 74 — Lisboa, 191 5. — 8.° de x -j- 112 pág. 

91) Albuquerque no Cancioneiro. 

No Boletim da Sociedade de Geographia de Lisboa, comemorativo do V Cen- 
tenario da tomada de Ceuta — 21 de Agosto de 191 5. 

92) Introdução na Primeira Parte da Crónica de D. João I, por Fernão 

Lopes, Vassalo del-Rey e Guardador das escrituras do Tombo. 

Edição do Arquivo Histórico Português, 191 5. 

Esta Introdução decorre de pág. v a xliv. Acresce : « Apêndice de documentos», 
em número de 12, intercaladas 4 fotogravuras, representando a primeira a «Vista 
de Lisboa conforme a iluminura da primeira folha da Crónica de D. João I». Das 
três restantes, as primeiras duas são transunto do «Testamento do Infante D. Fer- 
nando, que morreu em Fez, todo escrito por Fernão Lopes, seu escrivão da puri- 
dade»; a última é a representação duma ressalva escrita pelo mesmo Fernão Lopes 
em certa escritura por ele assinada. 

93) Nos Centenários de Ceuta e Albuquerque. — Discursos do Presi- 

dente da Grande Comissão oficial dos Centenários — 4. de 
42 pág. — Coimbra, Imprensa da Universidade. — 19 16. 

94) Maria Brandoa, a do Crisfal — Breve- investigação histórica. — 

4. gr. de 25 pág. 

Separata da Atlântida, vol. II. — Ed. de 5o exemplares numerados. Ao centro 
da capa e da página do rosto, o emblema com a respectiva divisa. Lisboa, Im- 
prensa Libânio da Silva, Travessa do Fala-Só, 24. — 19 16. 

95) Cartas de quitação del-Rei D. Manuel (g. a série); 

No Arquivo Histórico Português, — Vol. X, 1916. 

96) Inventários e contas da casa de D. Dini{ (i 278-1 282). 

Ibidem. 



XXX 



Brasões 



97) Os Cadernos dos assentamentos (conclusão). 



Ibidem. 



98) Tombo da comarca da Beira (i3g5). Inquirições de D. João I. 



99) Introdução ás noticias da vida de André de Resende, de Leitão 
Ferreira. 

Ibidem. 

100) Noticias da vida de André de Resende pelo beneficiado Francisco 

Leitão Ferreira, Académico Real de Número, publicadas, ano- 
tadas e editadas por Anselmo Braamcamp Freire. 

Edição do Arquivo Histórico Português. 1916. — 8.° de xxi-l-248 pág. e 
i5 estampas. Separata do vol. IX do Arquivo, com a seguinte dedicatória: «A 
douta Professora D. Carolina Michaelis de Vasconcelos, respeitosa homenagem 
de A. B. F.». Neste livro pertencem ao Sr. Anselmo Braamcamp, além da intro- 
dução e das 299 notas ao texto, a Bibliographia Resendiana, de pág. 196 a 232, e 
a Cronologia Resendiana, de pág. 233 a 244. Edição de 3i exemplares nume- 
rados. 

101) Armaria Portuguesa. 




Folhas de 8 páginas, acompanhando cada uma um fascículo do Archivo His- 
tórico Portugue^, a começar no vol. VI, 1908. 

Estão publicadas 3-j folhas que alcançam a letra V, apelido Vilalobos, e ter- 
minam na letra Z, apelido Zujarte, final da obra. Na página 55g começam os 
Aditamentos e Correcções. Faltam o Glossário de termos heráldicos, acompa- 
nhado com as principais regras, e o indispensável índice das figuras, nos escudos 
e nos timbres. 



1 02) Gil Vicente trovador, mestre da balança. 

Na Revista de Historia, publicação trimestral da Sociedade Portuguesa de 
Estudos Históricos, fascículo n.° 28, Janeiro a Março de 1917 (ano VI), começou o 
Sr. Anselmo Braamcamp Freire a publicar um novo estudo acerca do glorioso fun- 
dador do teatro português, intitulado Gil Vicente trovador, mestre da balança. 
Este primeiro artigo começa por uma introdução, que termina em pág. 7, seguin- 
do-se-lhe o capítulo I, intitulado Dados biográficos — Identificação do poeta e do 
ourives. A pág. 27, o capítulo II, com título igual ao do I e sub-título : Primórdios 
indecisos (1460 (?)-i5o2). A pág. 38, o capítulo III, com o título já mencionado e 



Ibidem. 




Biografia 



XXXI 



sub-título: Reinado de D. Manuel (i5o2-i52i). Intercaladas no texto, entre pág. 18 
e 19, a fotografia da Carta de 4 de Fevereiro de i5i3, nomeando Gil Vicente Mestre 
da Balança da Gasa da Moeda de Lisboa, e no alto da página o sumário: «Gil 
Vicente trovador mestre da balança ». Entre pág. 20 e 21 a fotografia do «Desem- 
bargo de 19 de Junho de 1 53 5 mandando pagar 8:000 reaes a Gil Vicente». Todo 
o texto decorre de pág. 1 a 46. Veio a lume, na emergência em que se redigia a 
presente nota, o fascículo n.° 22 da Revista, com a continuação do mencionado 
estudo e seguimento do começado capítulo III, que vai de pág. 121 a 188 e con- 
tinua. Entre pág. 124 e 1 25 intercala-se a «Planta de parte da freguezia de S. Bar- 
tholomeu», que primitivamente aparecera no Jornal do Commercio, artigo O Ca- 
reiro, conforme se lê em o n.° 1057, supra. 

Esta exaustiva monografia, quando venha a ficar completa, como é, decerto, 
dos votos de quantos se interessam pelo assunto eminentemente nacional que aí 
se ventila, com a abundância de documentos, de citações, de factos e de observa- 
ções, e juízos, sempre tanto a propósito por seu ilustre autor formulados, será, 
sem nenhuma dúvida, um dos mais interessantes e mais notáveis trabalhos que se 
devam à sua pena fluente, erudita e sempre conceituosa. 

Noticias da Feitoria de Flandres, precedidas dos Brandões poetas 
do Cancioneiro. 

Edição do Arquivo Histórico Português. — Lisboa, 1920. 8.° de x-f- 272 pág. 
e uma de erratas. — Tiragem de 65 exemplares. 

Condados de Moncorvo e da Feira. Ousada falsificação de do- 
cumentos desvendada por . . . 

Separata do Boletim da Segunda Classe da Academia das Sciencias de 
Lisboa, vol. VII. — Tiragem de 102 exemplares. — Coimbra, Imprensa da Univer- 
sidade, 1919. 8.° de 9 pág. 

Ida da Imperatriz D. Isabel para Castela. 

Separata do ■ Boletim da Classe de Letras da Academia dás Sciencias de 
Lisboa, vol. XIII. — Tiragem de 3oo exemplares. — Coimbra, Imprensa da Univer- 
sidade, 1920. 8.° de 104 pág. 

A Censura e o Cancioneiro Geral. 

Separata do Boletim da Classe de Letras da Academia das Sciencias de 
Lisboa, vol. XIV. — Tiragem de 352 exemplares. — Coimbra, Imprensa da Univer- 
sidade, 192 1. 8.° de 70 pág. 



vol 11 



E 



XIII 

SILVAS 



VOL. II 



1 



* 




XIII 




Brasões da Sala de Sintra, Vol. II. 



De prata, lião de púrpura, armado e linguado de vermelho. Timbre: lião 
de oiro. 

Da mesma maneira encontra-se o escudo no Livro do Amieiro mor, fl. 54, 
e no Livro da Torre do Tombo, fl. 11. E porem mais vulgar ser o lião 
armado e linguado de azul; mais vulgar e mais correcto, se estas armas 
fossem, como se fantasia, as dos reis de Lião. E ainda mais correcto seria, 
se o lião fosse coroado de oiro, como em Espanha usaram os Silvas das duas 
grandes casas de Cifuentes e Pastrana. 

O timbre está errado, pois todos, lhe assinam um lião igual ao do escudo. 

I 

ORIGEM DA LINHAGEM 

Junto às pitorescas margens do rio Minho, entre v Valença e Vila Nova da 
Cerveira, na freguesia de S. Julião da Silva, foi fundada uma forte torre, 
ninho de ricos homens, vindos da fronteira Galiza para ali fazerem seu 
assento. Nela, na arrogante torre da Silva, entrincheiraram-se eles, e à li- 
nhagem de seus senhores deu ela o nome. O seu mais remoto ascendente 
é D. Goterre Alderete da Silva mencionado, como progenitor da estirpe, 
no Livro Velho das Linhagens (1) e no Nobiliário do Conde D. Pedro (2). 
Toda a mais ascendência aduzida com alvoroço por linhagistas relativamente 
modernos, tanto espanhóis, como portugueses, é pura fantasia, sem funda- 
mento documental, nem tradicional. Ponho hoje completamente de parte a 
descendência de D. Fruela, rei de Lião e Galiza, a qual, com toda a reserva 



(1) Portugaliae monumenta histórica. Scriptores, pág. 170. 

(2) Ibidem, pág. 363, chamando-lhe Goterre Auderete da Silva. 



4 



Brasões 



contudo, aceitara em tempo. O facto do brasão dos Silvas ser um lião é 
mera coincidência, hábilmente aproveitada. Segundo os livros de linhagens 
citados, de D. Goterre Alderete foi filho D. Paio Goterres da Silva, «o que 
fumdou o moesteiro de Cujaes», o convento de S. Martinho de Cucujães, no 
bispado do Porto (i). 

Numa doação das calendas de Agosto da era de 1 1 23, i.° de Agosto do 
ano de io85(2), confirmou Paio Goterres com o título de vigário dei Rei. 
Tornou a confirmar com o mesmo nome, mas sem o título, na carta de pri- 
vilégios da Cornelhã, em g de Dezembro de 1097; finalmente aparece este 
rico homem, em 14 de Março de 11 29, entre os confirmantes da carta de con- 
firmação do castelo de Soure aos Templários, assinando-se Paio Goterres da 
Silva (3). E este o progenitor de toda a família, o alcaide do forte castelo 
de Santa Eulália junto a Montemor o Velho, o fundador do mosteiro de 
Cucujães, o reedificador do de Tibães. 

D. Paio Goterres, se é verdade o que dele conta o Livro velho das Li- 
nhagens, acabou a vida tristemente. A história é esta. 

O fundador do convento de Vilar de Frades, D. Godinho Viegas de Aze- 
vedo, tinha um irmão que matou a mulher de D. Soeiro Mendes, o edificador 
do mosteiro da Várzea. D. Godinho Viegas para se livrar do homizio, isto 
é: para se livrar, não só da pena pecuniária que sobre os seus viria a pesar 
por aquele homicídio, mas também do perigo de ficar exposto à inimizade 
da poderosa família da vítima; para obviar a tudo isto, casou com D. Maria 
Soares, a Tainha, filha da morta. O casamento, é evidente, não foi de in- 
clinação; os cônjuges dentro em pouco não se davam bem e o marido ultima- 
mente abandonava a mulher. 

Nesta altura do drama, que parece de Shakespeare pela matança dos per- 
sonagens, interveio D. Paio Goterres na sua qualidade de adiantado de Por- 
tugal o que correspondia a uma espécie de alter-ego do rei, e, usando do seu 
poder descricionário, mandou matar a D. Godinho Viegas. Tinha este porém 
um primo, de nome bem arrevezado por sinal, no Livro velho umas vezes 



(1) Fr. Lião de Santo Tomas, Bénedictina lusitana, II, 277. 

(2) No documento está a data assim escrita: «Era M. C. XX. III. Kal. Augusti». 
Fr. António Brandão na Monarchia lusitana, part. III, fl. 9 v. leu: «era 1120, 3 das calendas 
de Agosto», e portanto 3o de Julho do ano de 1082; João Pedro Ribeiro porém, nas Disser- 
tações, vol. III, part. I, pág. 20, n.° Si, leu: «era 1 1 23, Calendas de Agosto». No texto adoptei 

esta leitura. 

(3) João Pedro Ribeiro, nas Dissertações, vol. III, part. 1.*, pág. o>, n.° 278, apresenta- 
dos este documento acompanhado do fatal asterisco, sinal de dúvida sôbre sua autentici- 
dade; mas neste caso parece ter havido no sábio crítico aquele demasiado rigor por Her- 
culano já notado na Historia de Portugal, vol. I, nota xvm, pág. 514 mihi. 



Silvas 



nomeado D. Troito Gozendes, outras D. Trocozendo Guedas, e ainda D. Troy- 
tozendes Guaendes, o qual era poderoso, segundo se vai ver. Conseguiu êle 
deitar a mão a D. Paio Goterres, e não o matou, em atenção a êle ser 
adiantado dei Rei, mas quáse.lhe fez pior, pois o mandou cegar dambos os 
olhos (i). 

Custa-me um pouco a acreditar nesta história; mas, se não aconteceu, 
podia ter acontecido, e fica para amostra daqueles bons tempos. Ainda assim, 
olhem lá, os de agora não são melhores. Andamos de comboio e de bici- 
cleta, em quanto não voarmos de balão; falamos ao ouvido de um amigo, ou 
de um maçador, a três ou quatro léguas de distância, é verdade; mas só um 
tiro dos nossos canhões mata mais Cristãos, do que Moiros em toda a sua 
vida mandou o Lidador para o inferno; e ainda há poucos dias um sugeito 
por desfastio assasinou uma Imperatriz bondosa e inofensiva (2). 

Não é porém por ter corrido tanto sangue, que me custa a crer na his- ' 
tória, é por outro motivo. D. Paio Goterres foi vigário de D. Afonso VI de 
Castela, disso não há dúvida, visto encontrar-se com o título em io85, como 
fica dito; ainda era porem vivo em 1129, como também já provado ficou. 
Neste ano governava em Portugal o infante D. Afonso Henriques, excluindo 
o facto a possibilidade do Senhor da Silva exercer no condado, ainda, ou 
outra vez, o cargo de adiantado dei Rei e não é crível andar êle, cego, acom- 
panhando a côrte e confirmando documentos. 

Com vista, ou sem ela, casou D. Paio Goterres mais de uma vez e teve 
vários filhos dos quais nomearei apenas Gomes Pais da Silva (3), primogé- 
nito, conforme o Livro velho. Dêle existem notícias biográficas bastante con- 
fusas, entretanto indicarei o que se me oferece, com as respectivas dúvidas. 

Era Gomes Pais, alcaide do castelo de Santa Eulália quando, na era de 
César de 1204, ano do Nascimento de 1 166, no mês de Dezembro, D. Afonso 
Henriques fez doação daquele castelo ao convento de Santa Cruz de Coimbra. 
Na escritura lê-se êste trecho: Et est sciendum quod predictum castellum 
Sancte Eulalie eodem tempore qaidam meus vassalas nomine Gomes Pelagii 



(1) Livro velho, nos Portugaliae monumenta histórica. Scriptores, pág. 168, combinando 
cuidadosamente com o que ficou escrito na pág. 166, e despresando uma nota de Herculano 
na primeira pág. cit. por êle se ter equivocado. 

(2) Isto data de 1899, o que a humanidade tem avançado em sciência e principalmente 
na técnica da destruição, nestes vinte e dois anos, é inacreditável. 

(3) Na primeira edição deste livro, levado pelas afirmações de um genealogista caste- 
lhano, dei também por filho de D. Paio Goterres a D. Fernão Pais da Cunha; hoje porém 
sou levado a descriminar os dois Paios Goterres, o progenitor dos Cunhas e o progenitor 
dos Silvas, e as minhas razões deixei consignadas na pág. 1 55 do I vol. 



Brasões 



tenebat a me in prestimonio (i). Para o satisfazer ordenou el Rei ao abade 
crúzio D. João e a seus Frades que lhe fizessem doação de certos bens no 
instrumento dela declarados. A ele se refere Fr. António Brandão (2) e ainda 
a outro sem data, mas desses tempos, o qual transcreveu na íntegra (3). 
Neste segundo vem a lista dos alcaides do castelo de Santa Eulália desde 
D. Paio Goterres da Silva até ao Conde D. Gomes Pais, aquele a quem o 
castelo estava entregue quando foi doado a Santa Cruz. Não compreendo 
como nesta segunda escritura se dá o título de conde a Gomes Pais, só se 
com êle queriam designar o governo exercido pelo fidalgo naqueles sítios. 

Gomes Pais casou com D. Urraca Nunes, segundo afirmam os livros de 
linhagens, e eu encontro um Gomes Pais, de Benavela, doando, por escritura 
de Outubro de 1218 (1180), à Ordem do Templo certos casais, no termo 
,do referido lugar de Benavela, e outros bens (4). Este mesmo Gomes Pais 
fez nova doação daqueles bens, ou doutros incluindo alguns situados no 
referido termo, à mesma Ordem, por instrumento não datado, mas certa- 
mente dum dos anos de 1209 a 1212. Começa a escritura: Hec est manda 
quod ego Gomescius Pelagii feci in capitulo de Tomar, in íempore domini 
Gome\ Ramiri\, magistri (5). Ora D. Gomes Ramires foi mestre do Templo 
em Portugal no período acima indicado (6), tendo por tanto a manda sido 
outorgada num dos referidos anos. Sucedeu declarar nela terminantemente 
Gomes Pais que dos bens. legados aos Templários terá usufruto em toda sua 
vida D. Urraca, e só depois de sua morte serão entregues à Ordem. Esta 
D. Urraca é, sem dúvida, apesar de não o declarar a carta, a mulher do tes- 
tador, e isso me leva a identificá-lo com Gomes Pais da Silva, aquele de 
quem provêem todos os Silvas. 

Foi seu filho, alem doutros, D. Paio Gomes da Silva, senhor da quinta 
da Silva na frèguesia de S. Julião da Silva do julgado de Valença, quinta 
honrada, segundo declaram as testemunhas da primeira alçada das Inquiri- 
ções de i32Õ (1288), geralmente designadas por Inquirições da era de i328 
(1290) (7). Esta quinta veio a pertencer a Gonçalo Rodrigues de Abreu e 



(1) Forais antigos, mac. 12. , n.° 3, fl. 68. 

(2) Monarchia lusitana, III, fl. 214 v. 

(3) Ibidem, Escritura xxii, fl. 294. 

(4) Gaveta VII, mac. 10, n.° 26. 

(5) Gaveta VII, mac. i3,n.° 25. — Por esta mesma escritura legou Gomes Pais um casal 
a Santa Maria de Rocamador e a Rocasvales. 

(6) Santa Rosa de Viterbo, Elucidário, II, 363. 

(7) Liv. 4. , das Inquirições de D. Denis, fl. 85. — Preguntado, «sse a hj onrra algúa feyta 
per rei disse q nó q o el soubesse mays disse q a hj a quintaã da silua q a uirõ senpre onr- 
rada e foy de dó paay gomez da silua». 



Silvas 



7 



dela fez D. Pedro I doação, de princípio temporária (em quanto fôsse sua 
mercê), depois para sempre, a Aires Gomes da Silva, aio do infante D. Fer- 
nando (i). Veio posteriormente, quando os bens de Aires Gomes da Silva 
foram confiscados, a ser doada a Lopo Dias de Azevedo e este, juntamente 
com sua mulher Joana Gomes da Silva, irmã do anterior possuidor, fizeram, 
por instrumento de 8 de Dezembro de 145 1 (1413), doação da terra de Jales 
e, juntamente com ela, a referida quinta da Silva a sua filha D. Maria 
Coelha (2), mulher, que veio a ser, se o não era já, de Gonçalo Anes de 
Sousa, de quem enviuvou antes de 3o de Agosto de 1416, quando seus pais 
lhe renovaram a doação de Jales por instrumento daquela data, o qual teve 
confirmação régia em 14 de Outubro de 1458 (1420) (3). Nesta renovação 
nenhuma referência existe à quinta da Silva e, como ela na primitiva doação 
fôra apenas agregada à terra de Jales para o caso das rendas desta não atin- 
girem a quantia estipulada para a mantença de D. Maria Coelho, suponho 
que na nova doação, por se não dar o caso previsto, ficaria excluída a quinta. 
Dela nada mais sei ao certo, apenas encontro no reinado de D. Afonso V um 
João da Silva, do seu conselho, de posse de uma quinta da Silva, provável- 
mente a mesma pois esta também era situada no julgado de Valença, posse 
então litigiosa por ser posta sobre ela demanda por Lionel de Lima, também 
do conselho e posteriormente i.° visconde de Vila Nova da Cerveira. Não 
reparando, ou talvez reparando de mais para o facto, vendeu João da Silva 
a quinta por oitenta mil reais; divulgado porém o caso, intervieram as jus- 
tiças régias; a venda foi anulada e a quinta doada, por carta de 1 de Dezembro 
de 1468, a Rui de Melo, filho do autor no processo de reivindicação da 
posse (4). 

O senhor da quinta da Silva, D* Paio Gomes da Silva, já era falecido 
quando se fizeram as Inquirições de 1258, segundo se deve entender do 
depoimento das testemunhas inquiridas pela primeira alçada na freguesia de 
S. Julião da Silva, onde certo casal pertencia aos filhos do fidalgo (5). Um 
dêles foi outro Gomes Pais da Silva e nos seus descendentes próximos, dos 



(1) Carta de 29 de Setembro de 1396 ( 1 358) de doação a Aires Gomes da Silva, aio do 
infante D. Fernando, em quanto fôsse sua mercê, da quinta da Silva, no almoxarifado de 
Valença; carta de i5 de Julho de 1397 (i359) de doação para sempre da quinta da Silva, 
que foi de Gonçalo Rodrigues de Abreu, ao mesmo Aires Gomes. — Chancelaria de D. Pe- 
dro /, liv. fls. 14 v. e 83 v. 

(2) Chancelaria de D. João I, liv. 4. , fl. i3 v. 

(3) Ibidem. 

(4) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 28. , fl. 122 v. 

(5) «Item filos de don Pelagio Gomez teen un casal de Ganfei, que fazia foro al Rey et 
non faz.» — Portugaliae monumenta histórica, lnquisitiones, pág. 367. 



8 



Brasões 



quais provieram os vários ramos de Silvas em que se dividiu a linhagem, 
tem havido muita confusão nas afirmações feitas pelos genealogistas mais 
modernos; confusão que tratarei de esclarecer o melhor possível. 

Para conhecimento das gerações antigas das famílias portuguesas temos 
de recorrer aos livros de linhagens e aceitar as suas indicações, não só 
quando confirmadas por documentos, mas mesmo quando não invalidadas 
por eles; neste caso, é claro, quando não ofendam a cronologia. 

Dos livros de linhagens o mais moderno é o intitulado Nobiliário do 
Conde D. Pedro, designação talvez devida unicamente a havê-lo o Conde 
possuído, como também possuiu um precioso Livro de Cantigas. Acerca 
da suposta autoria do referido Nobiliário veja-se, não só a Introdução de 
Alexandre Herculano anteposta à publicação dos Livros de linhagens (i), mas 
também o por mim ponderado ao apontar o modo confuso como no Nobi- 
liário se trata dos dois filhos de Pedro Eanes de Portel, ambos de nome João 
Peres, os quais, na sua qualidade de cunhados do Conde D. Pedro, teriam, 
se ele fosse o autor do livro, de ficar nele bem identificados e não em per- 
feita confusão (2). Provado pois que a designação de Conde D. Pedro acres- 
centada ao Nobiliário não indica por forma nenhuma haver ele sido o seu 
autor e nem talvez seu colaborador, segundo se me afigura, levando mais 
longe as afirmações de Herculano, não podemos pois restringir as notícias no 
códice lançadas ao tempo da vida do seu presumido autor. Este era já finado 
em Julho de i354 e no códice existem, como mostrou Herculano, referências 
a sucessos posteriores. A verdade é que o Nobiliário constituía uma espécie 
de registo da nobreza d'então e nêle.iam lançando diferentes pessoas indica- 
ções ocorrentes das quais tinham, conhecimento. Posto isto, e para me guiar 
no complicado labirinto das gerações dos Silvas, na segunda metade do sé- 
culo xiv e primeira do século xv, porei aqui em frente uma árvore genealó- 
gica tirada do referido Nobiliário, mencionando nela apenas as pessoas de 
quem se derivaram ramos da família. 



(1) Portugaliae monumenta histórica. Scriptores, págs. 1 33 e segs. 

(2) Veja-se no vol. I, pág. 272. 



Silvas 



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VOL. I! 



10 



Brasões 



Às indicações pela Árvore genealógica ministradas temos de nos cingir, 
aceitando-as, tanto mais que são, na parte mais duvidosa, a individuação dos 
dois Aires Gomes da Silva, confirmadas por documentos. As deduções que 
vou tirar são bem diferentes das consignadas na primeira edição desta obra, 
onde segui, com imerecida confiança, a Luís de Salazar y Castro na sua His- 
toria genealógica de la casa de Silva. Todo o êrro deste autor, a quem 
não era fácil a consulta de documentos portugueses, proveio, é justo dizê-lo, 
da confusão de Lavanha numa nota à sua edição do Nobiliário de D. Pedro 
conde de Barcelos, onde, à margem da pág. 328, atribui a Aires Gomes da 
Silva, o Velho, os dados biográficos pertencentes a seu primo Aires Gomes 
da Silva, o Moço. 

Aires Gomes da Silva, o Moço, aio do infante D. Fernando, segundo a 
afirmação do chamado Nobiliário do Conde D. Pedro confirmada por vários 
diplomas desde i358 a 1 37 1 , adiante, no seu lugar, apontados, e seu alferes 
mor, como atestam alguns desses mesmos documentos e outros até i38o, 
foi pai de Gonçalo Gomes da Silva (1) e irmão do pai de João Gomes da 
Silva (2). Bastam os dois documentos citados, não só para garantirem, nesta 
parte, a exactidão das informações do cit. Nobiliário, como também para 
destruirem completamente toda a dedução genealógica de D. Luís de Salazar 
y Castro na sua Casa de Silva, quando concede à linha dos Condes de 
Cifuentes castelhanos a representação da linhagem, fazendo-os descendentes 
de Aires Gomes da Silva, o Velho. 

Pôsto isto, meterei ombros à empresa de dar, resumidamente, notícia dos 
Silvas, família que, como o arbusto do mesmo nome, para todos os lados 
deitou ramos e estes em toda a parte enraizaram. Há Silvas em Portugal, 
Espanha, França, Itália, Áustria, Países Baixos, Novo Mundo e não sei por 
onde mais. Dar uma idea destas ramificações sem, como é meu propósito, 
me alongar demasiadamente, não será obra fácil. Vou contudo tentá-la, 
começando por dividir a árvore em sete troncos principais: i.° o dos Silvas 
de Elvas, com o ramúnculo dos alcaides mores de Campo Maior e Ouguela; 
2. o dos Condes de Portalegre, Marqueses de Gouveia; 3.° o dos Condes 



(1) Querendo fazer graça e mercê a Gonçalo Gomes da Silva, nosso vassalo, por muitos 
e estremados serviços que recebemos de Aires Gomes da Silva, nosso vassalo e alferes mor, 
seu padre, etc. Carta de doação por juro de herdade da terra de Aguiar de Pena, dada em 
8 de Fevereiro de 1417 (1379). — Chancelaria de D. Fernando, liv. 2. , fl. 38. 

(2) João Gomes da Silva, nosso vassalo, mostrou um instrumento feito em Guimarães, 
em o qual era escrita uma carta de privilégio dada por D. Fernando a «Airas Gomez da 
Silva, irmão de seu padre», da qual o teor tal é: D. Fernando. . . consirando os muitos ser- 
viços que «Airas Gomez da Silva, meu vassalo, que foi meu aio, fizera a mim», etc. — Chan- 
celaria de D. João I, liv. 2. , fl. 97. 



Silvas 



de Cifuentes, com ramos em Espanha e um cá para Portugal, de torna viagem; 
4. o dos senhores e Marqueses de Vagos; 5.° o dos senhores e Condes de 
Unhão, rebento saído do precedente tronco; 6.° o curto tronco dos alcaides 
mores de Moura, o qual deitou a espessa ramaria dos Marqueses de Alegrete; 
7. o mais avantajado em Espanha, o dos senhores da Chamusca, Duques 
de Pastrana, que provieram dos senhores de Vagos e deixaram em Portugal 
o ramo dos Condes de Santiago. Feito isto, repartirei, como nos precedentes 
artigos, o meu labor em capítulos, e serei breve com os nossos e brevíssimo 
com os estranhos. 

II 

SILVAS DE ELVAS 

Gomes Pais da Silva, o segundo do nome, filho de D. Paio Gomes da 
Silva, senhor da quinta da Silva, casou por duas vezes como ficou exposto 
na Arvore genealógica; e teve, entre outros filhos, a Martim Gomes da 
Silva, havido do primeiro casamento, e João Gomes da Silva, nascido do 
segundo. Da descendência de Martim Gomes, por seu único filho varão, 
Aires Gomes da Silva, tratarei neste capítulo; da de João Gomes me ocuparei 
no IV. 

Aires Gomes da Silva, o Velho, o Grande, como lhe chama o único do- 
cumento registado nas Chancelarias régias que a ele pode ser indubitável- 
mente atribuído, era vassalo de D. Pedro I, quando, por carta de 3 de Julho 
de 1395 (i357), lhe mandou entregar o castelo de Santarém (1). Não sei se 
seria o Alcaide de Santarém, se seu primo do mesmo nome, o embaixador 
enviado naquele mesmo ano pelo Justiceiro, ao subir ao trono, a seu sobrinho 
D. Pedro I de Castela (2). E também não me atrevo a identificá-lo, apesar 
de me não repugnar nada, com um Aires Gomes da Silva, marido de Maria 
Rodrigues, ambos já falecidos em 25 de Abril de 1403 (i365), quando seu 
testamenteiro celebrou certo contrato com os Frades de S. Domingos de 
Lisboa, pelo qual lhes entregou cento e cinquenta libras garantidas pela quinta 
da Azóia, para sepultura e sufrágios (3). Se êste não era o Alcaide de San- 
tarém, estou todavia persuadido dêle não haver tido, após a entrega do cas- 



(1) Chancelaria de D. Pedro /, liv. i.°, fl. 5. , 

(2) Fernão Lopes, Chronica de D. Pedro I, cap. i5, pág. 37. — O Visconde de Santarém, 
no Quadro elementar, I, 200, fundando-se numa Chronica ms. de D. Pedro I, atribuída a 
Fernão Lopes, dá ao Embaixador o nome de Martim Vasques em vez de Aires Gomes da 
Silva. 

(3) Gaspar Alvares de Lousada, Sumários da Torre do Tombo, II, fl. 478 mihi. 



12 



Brasões 



telo, longa vida, não só pela ausência de menção em outros documentos, como 
por ver D. Fernando, ao tomar o governo do reino, ter logo feito mercê do 
castelo de Santarém, por carta de i de Março de 1403 ( 1 375), a Lourenço 
Martins do Avelar (1). 

Aires Gomes da Silva foi casado, conforme o Nobiliário do Conde 
D. Pedro, com D. Senhorinha Martins, filha de Martim Redondo, da Beira, 
e dela teve três filhos: 

i.° — Rui Gomes da Silva, de quem me ocuparei em seguida a seus 
irmãos. 

2. — Fernão Gomes da Silva aparece já mencionado em um diploma de 
27 de Julho de 1406 (1 368), pelo qual el rei D. Fernando lhe fez doação, em 
quanto sua mercê fôsse, dos direitos reais do lugar do Pinheiro de Papízios, 
no almoxarifado de Lamego (2). Estes direitos devem ser os mesmos que 
haviam sido doados por D. Pedro I, como veremos, a Rui Gomes, irmão de 
Fernão Gomes. Em 1872, sendo já seu vassalo, fez-lhe D. Fernando doação 
«le juro e herdade da terra de Boiro, no almoxarifado de Ponte de Lima (3); 
no ano seguinte, por cartas de 28 de Junho e i5 de Julho, mandou-lhe entregar 
os castelos de Torres Novas e de Lanhoso (4); e ainda outras mercês lhe 
outorgou (5). Nas perturbações do reino em seguida à morte de D. Fernando, 
abraçou Fernão Gomes o partido castelhano; apresentou-se em Santarém, 
em Janeiro de 1384, a D. João I de Castela; na primavera do mesmo ano 
acompanhou o Arcebispo de Santiago na sua invasão pela comarca de Entre 
Doiro e Minho (6); e mantinha o castelo de Monsanto e a terra de Penamacor 



( 1 ) Chancelaria de D. Fernando, liv. 1 .°, iiv. 

(2) Ibidem, fl. 3o v. 

(3) Ibidem, fl. 102 v. 

(4) Ibidem, fls. 126 e 129 v. 

(5) Entrega dos direitos e rendas das terras de Penela, Vila Chã, Lalim e Soalhaes, nos 
almoxarifados de Guimarães e Ponte de Lima, em Lisboa a 24 de Maio de 141 1 (i3y3); 
entrega dos direitos do pão dos moinhos de Torres Novas, em Santarém a 20 de Junho do 
mesmo ano; e a 28 desse mês entrega do trigo, cevada, centeio e milho do reguengo de 
Toxe, no almoxarifado de Santarém, todas estas entregas em pagamento de sua contia,para 
servir com certas lanças. Doação em tença, com o castelo de Torres Novas, em quanto 
fôsse mercê dei Rei, de todolos lombos e açougagens da dita vila, em Lisboa a 16 de Julho 
de 141 1 (1373); doação, em quanto sua mercê fôr, dos frutos novos, rendas e direitos da 
terra de Óvoa da infanta D. Beatriz, filha dei Rei, em Folgosinho a 29 de Julho de 1415 (1377) ; 
entrega da terra de Oliveira do Conde, no almoxarifado de Lamego, em pagamento de seus 
maravedis, em preço de 32o libras, em Santarém a 23 de Fevereiro de 1 383 (1421). — Chan- 
celaria de D. Fernando, livs. fls. 123 v., 128 e 129; 2. , fl. 12; e 3 °, fl. 89. 

(6) Fernão Lopes, Crónica de D. João I, part. I, cap. 117, pág. 201. — A seguir men- 
ciona o cronista «Ayras Gomez, o Velho», não se suponha ser êste Aires Gomes da Silva, 
então no castelo de Guimarães, mantendo-o por el Rei de Castela. 



Silvas 



i3 



pelos inimigos (i). Em Castela estava com seu irmão Afonso, quando se 
deu a batalha de Aljubarrota e por lá ficou, sendo-lhe seus bens confiscados 
e doados a diversos (2). Casara Fernão Gomes da Silva com Maria Coelha, 
viúva de João Peres de Soutomaior e filha de João Coelho, senhor da terra de 
Boiro(3). Tendo-se na verdade realizado este casamento, e não há motivo 
para dele duvidar, haveria Fernão Gomes da Silva a terra de Boiro em sucessão 
a seu sogro. Dêste casamento nasceu Beatriz Gomes da Silva, mulher de 
Vasco Martins da Cunha, o Moço, 8.° senhor da Tábua, alcaide mor do cas- 
telo e donatário das rendas riais de Lanhoso, bens confiscados a seu sogro 
e a êle doados. Dizem ter Fernão Gomes da Silva casado segunda vez, em 
Castela, com D. Maria Tenório, irmã de D. Pedro Tenório, arcebispo de 
Toledo, e da segunda mulher de seu parente Aires Gomes da Silva. A êste 
casamento atribui-se descendência castelhana (4). 

3.° — Afonso Gomes da Silva, alcaide do castelo de Coimbra (5), era em 
i 369, no começo da guerra com Castela, fronteiro em Cidade Rodrigo onde 
não persistiu e posteriormente, terminada a guerra, foi enviado em 1 37 1 a 
Castela por el Rei D. Fernando juntamente com o dr. Gil do Sem, a fim de 
receberem de Henrique II o juramento das pazes (6). Aparece-nos intitulado 
vassalo do infante D. João em duas cartas, de 21 e 23 de Fevereiro de 1410 
(1372), de doação da terra de Senhorim de juro e herdade, e da terra do 
Barreiro, no almoxarifado de Lamego, em quanto fôsse mercê dei Rei (7). 
Dois anos depois, em carta de 27 de Junho de 1374, intitu4a-o D. Fernando 
«rico homem da nossa criação» e doa-lhe, de juro e herdade, a terra e jul- 



(1) D. Pedro Lopez de Ayala, Crónica dei Rey don Juan el primero de Castilla e de 
Leon, pág. 197 da ed. de Sancha. 

(2) Doação da terra de Boiro, de juro e herdade, a Lopo Dias de Azevedo por cartas 
de 22 de Maio de 1422 (1384) e 24 de Agosto de 1423 (i385); doação a Gomes Freire da 
quinta de Oliveir.i de Currelos, apar de Santa Combadão, a qual foi de Fernão Gomes da 
Silva, carta de 1 5 de Janeiro de 1424 (i38G); doação da terra de Lanhoso de juro e herdade, 
como a tinha Fernão Gomes da Silva, a Vasco Martins da Cunha, o Moço, carta de 11 de 
Março de 1424 (i3S6). — Chancelaria de D. João I, liv. fls. i3, 88 v. e 171 ; e liv. 2. , fl. 1 v. 

(3) Consta êste casamento de um instrumento de partilhas feito em Braga a 27 de Maio 
de (1377), alegado por Diogo Gomes de Figueiredo no seu Nobiliário, II, 262. Ao instru- 
mento também alude D. Francisco de Meneses, nas suas Familias de Portugal, I, fl. 144 v., 
numa cota à margem, remetendo o leitor para o título dos Coelhos, o qual não chegou a 
passar a limpo e por isso não está incluído nos três tomos da sua obra. 

(4) Salazar y Castro, Historia de la Casa de Silva, I, 586. 

(5) Fci-lhe entregue por carta de 8 de Março de 1403 (1367). — Chancelaria de D. Fer- 
nando, liv. i.*, fl. 4 v. 

(6) Fernão Lopes, Chronica de D. Fernando, págs. 201 e 235. 

(7) Chancelaria de D. Fernando, liv. i.°, fls. 99 v. e 100. 



14 



Brasões 



gado de Celorico de Basto (i), da qual já lhe havia sido entregue o castelo, 
por carta de 8 do mesmo mês (2). Não possuiu só esta alcaidaria, por isso 
que pouco depois, por carta de 14 de Setembro de 142 1 (1 383), foi-lhe man- 
dado entregar o castelo da Covilhã (3), e dos dois continuou a ser alcaide até 
se expatriar. Fez-lhe D. Fernando várias mercês, umas de juro e herdade 
como a honra de Sobrado, da qual lhe deu a jurisdição por carta de 26 de 
Maio de 141 7 (1379) (4), outras temporárias (5). Morto D. Fernando foi 
dúbio o procedimento de Afonso Gomes da Silva nos primeiros tempos 
da luta contra os Castelhanos. Em Janeiro de 1384, entre os fidalgos que 
vieram apresentar-se em Santarém a D. João I de Castela, encontravam-se 
os dois irmãos Afonso Gomes da Silva e Fernão Gomes da Silva e por 
el Rei declararam manter os castelos de que eram alcaides mores (6). Ao 
passo que isto afirmam as crónicas, dos documentos consta haver o Mestre 
de Avis, por cartas de i5, 16 e 17 de Maio do mesmo ano, feito doação de 
certas terras a Afonso Gomes da Silva pelo seu muito serviço e sua grande 
lealdade (7) e mercê em tença, com o castelo da Covilhã, de certos direitos 



(1) Chancelaria de D. Fernando, liv. i.°, fl. 149. — Esta carta é datada do mosteiro de 
Ceiça e a doação da terra foi feita pela guisa, por que a havia Henrique Manuel de Vilhena, 
nosso vassalo. É o futuro conde de Seia. 

(2) Ibidem, fl. i5o. 

(3) A vós Diago Gonçalves de Tavares, alcaide do castelo da Covilhã, mandamos que 
entreguedes logo esse castelo a Lourenço Vasques, nosso porteiro, portador desta carta, 
de guisa que ele o possa entregar, em salvo e sem outro embargo, a Afonso Gomes da Silva, 
nosso vassalo, etc. — Chancelaria de D. Fernando, liv. 3.°, fl. 87. 

(4) Afonso Gomes da Silva, nosso vassalo, nos disse que ele há uma honra que chamam 
Sobrado, no julgado de Paiva, a qual foi sempre honrada em tempo de João Soares, de 
Estêvão Soares e de D. Inês de Paiva, cuja a dita honra foi, etc. Manda-lhe usar da juris- 
dição como fizeram seus predecessores — Chancelaria de D. Fernando, liv. 2. , fl. 46. 

(5) Doação, em quanto sua mercê fôsse, da terra de Senhorim, com todos seus direitos, 
Évora, 4 de Abril de 1407 (1369); entrega do mordomado de Celorico, em tença com o cas- 
telo, Santarém, 20 de Abril de 1414 (1376); doação de jur de herdade da quinta de Canidelo 
e do lugar da Furada, no almoxarifado de Gaia, como os havia e possuía a ifante D. Beatriz, 
nossa irmã, a que Deus perdoi, Lisboa, 24 de Setembro de 1419 (i38i). — Chancelaria de 
D. Fernando, liv. fls. 41 e 192; liv. 2 , fl. 89. 

(6) Fernão Lopes, Crónica de D. João I, part. I, págs. 1 14 e 117; Lopez de Ayala, Cró- 
nica de don Juan el primero cit., págs. 188 e 197. 

(7) Chancelaria de D João /, liv. 1.% fl. to v. — As terras doadas haviam sido de D. João 
Afonso Telo, 6.° conde de Barcelos, e da condessa D. Beatriz de Albuquerque, os quais delas 
se haviam apossado por sentença fundada em falsas provas, pelo que foi anulada e os bens 
mandados restituir a Afonso Gomes e a sua mulher, para os haverem, eles e todos seus 
sucessores, e «especialmente depois da morte do dito Afonso Gomes, os hajam os seus filhos 
e de D. Beatriz que foi sua mulher, já passada, d'onde os ditos bens vieram» ao casal. A 
esta doação alude Fernão Lopes na I parte da Crónica de D. João J, pág. 336. 



Silvas 



i5 



riais da vila e ainda doutros em Lagos, etc. (i). Após a batalha de Aljubar- 
rota, à qual não assistira por se encontrar em Castela (2), voltou Afonso 
Gomes para Portugal para o serviço de D. João I, que, por duas cartas de 
12 e uma de i5 de Outubro, intitulando-o seu vassalo, lhe doou de juro e 
herdade a terra da Maia e outras, e lhe mandou levantar o embargo pôsto 
sobre a posse da honra de Sobrado (3). D'ali a pouco passou Afonso Gomes 
definitivamente para Castela e D. João I coníiscou-lhe os bens, «por quanto 
êle não olhando como lhe havíamos perdoado, se lançou em Celorico da 
Beira e está a nosso desserviço» (4). Por lá se deixou ficar (5), sendo já viúvo 
de D. Beatriz de Sousa, filha de-Vasco Martins de Sousa, chanceler mor (6). 

Rui Gomes da Silva, o primeiro filho de Aires Gomes da Silva, o Velho, 
foi vassalo de D. Pedro I que, por carta de 18 de Janeiro de 1402 (1364), 
lhe doou, em quanto fosse sua mercê, os casais e vinhas por el Rei possuídos 
em Pinheiro e na quinta de Corroles, no almoxarifado de Lamego (7). Mais 
notícias nenhumas encontro de Rui Gomes e suponho haver êle falecido 
pouco depois, por encontrar uma carta, de 27 de Julho de 1406 ( 1 368), acima 
apontada, pela qual foram doados a seu irmão Fernão Gomes da Silva os 
direitos reais do lugar do Pinheiro de Papízios, no almoxarifado de Lamego, 
talvez o mesmo Pinheiro mencionado no diploma acima citado. 

Admitida esta minha suposição, fica imediatamente excluída a outra da 
maior parte dos genealogistas portugueses, que identificam êste Rui Gomes 
da Silva com o que foi alcaide mor de Campo Maior e Ouguela. Mas, ainda 



( 1 ) Chancelaria de D. João I, liv. 1 .°, fl. 6 1 . 

(2) Fernão Lopes, Crónica de D. João i, part. II, cap. 3ç). 

(3) Chancelaria de D. João 7, liv. fls. 1 56 v. e 157. 

(4) Palavras da carta de 20 de Dezembro de 1423 ( 1 385) de doação de juro e herdade 
da terra da Maia a Lopo Vasques da Cunha. Por outras cartas de 3o de Janeiro e i5 de 
Abril do ano seguinte foram doadas, ao dr. Gil do Sem. a quinta de Vinhó, termo de Gui- 
marães, a qual fôra de Afonso Gomes e de sua mulher, e a Gonçalo Vasques de Castel- 
branco a honra de Sobrado. — Chancelaria de D João 7, liv. fls. 167 v., 170 e 174. 

(5) Encontro na Chancelaria de D. João 7, liv. 2. , fl. 65, o registo de uma carta datada 
de Viseu, a 22 de Fevereiro de 1430 (1392), pela qual D. João I doou para sempre a Afonso 
Gomes da Silva, seu vassalo, o lugar de Mangoeiro, junto a Vila Nova da Cerveira, e todos 
os mais bens de Lopo Afonso, escudeiro de Aires Gomes da Silva, por quanto se fôra para 
Castela. Esta carta deve ter sido extratada para o registo com a data errada, ou então o 
Afonso Gomes é pessoa diversa; esta segunda hipótese porem afigura-se-me menos pro- 
vável. 

(6) Consta o casamento, não só de um documento acima citado, mas também do epi- 
táfio de sua filha D. Maria da Silva na igreja de S. Paulo de Valhadolide, transcrito por 
Salazar y Castro na Casa de Silva, I, 58 1. 

(7) Chancelaria de D. Pedro 1, liv. fl. 92. 



i6 



Brasões 



mesmo que Rui Gomes da Silva não estivesse já morto em 1 368, não me 
parece muito crível a suposição de ser êle quem casou em 1422, com perto 
de oitenta anos de idade; quem, tendo mais de noventa anos, combateu em 
Tânger em 1436 e 1437, como declara a Crónica de D. Duarte de Rui de 
Pina; e, finalmente, quem ainda vivia já centenário em Dezembro de 1449, 
quando D. Afonso V, ao tomar conta do govêrno do reino, lhe confirmou 
várias cartas. Não é crível, mas é possível e portanto não me arredarei da 
tradição. 

E certo havê-la quebrado Salazar y Castro, fazendo Rui Gomes da Silva 
filho, não de Aires Gomes da Silva, o Velho, mas sim de Aires Gomes da 
da Silva, o Moço. Vamos examinar a hipótese, advertindo que aquele autor, 
como já lá acima ficou dito, confundiu inteiramente, quanto aos dados bio- 
gráficos, os dois Aires Gomes. 

Funda-se o genealogista espanhol, para afastar a primeira hipótese e 
admitir a segunda, na cronologia e nas primeiras palavras de um documento 
de D. Afonso V: «fazemos saber que Rui Gomes da Silva, do nosso conselho, 
filho de Aires Gomes, etc.» (1). O argumento é forte e está bem deduzido: 
Rui Gomes da Silva era filho de um Aires Gomes da Silva; não pode sê-lo 
do Velho, logo é-o do Moço. De reforço ainda traz as palavras de D. João I 
na carta de doação das aleaidarias mores de Campo Maior e Ouguela, con- 
cedidas a Rui Gomes em satisfação dos seus merecimentos e por ter servido 
a el Rei desde que era Mestre de Avis, apartando-se do parecer de seu pai 
e irmãos que seguiram a voz de Castela e passaram àquele reino (2). A pro- 
posição seria pois para aceitar, se as premissas tivessem fundamento seguro, 
mas não o teem e até documentos autênticos parecem destruí-las. 

O primeiro diploma alegado por Salazar y Castro é uma carta de doação 
de D. Afonso V, do ano de 1458. Não se declara, nem qual era o assunto 
da carta, nem onde ela se encontrava e eu posso acrescentar, que daquele 
ano nenhum diploma de Afonso V, de mercê a Rui Gomes da Silva, aparece 
registado na Chancelaria; existe esta porém hoje mutilada, como é sabido, e, 
além disso, podia suceder deixar algum diploma de ser registado, não basta 
pois aquela prova negativa para declarar apócrifo o documento; mas não fica 
só muito prejudicado por ela, como principalmente pela maneira como é 
apresentado, sem a data completa, sem a indicação do seu paradeiro. 

O outro diploma, a doação das aleaidarias mores de Campo Maior e 
Ouguela, ainda de maneira mais dúbia é apresentado. A data apenas se lhe 



(1) Casa de Silva, II, i5 

(2) Ibidem, pág. 11. 



Silvas 



indica assim: En el tiempo que este Cavallero (sc. Ruy Gome^) servia en 
Zeuta, le i\o merced el Rey Don Iuan I. de las Alcaydias Mayores de 
Campo Mayor, y Ouguela. Isto não é maneira de citar documentos nem 
de os apresentar; e, com relação a este, também não registado na Chance- 
laria, a qual existe hoje tam completa como se encontrava nos tempos do 
genealogista espanhol, há divergência entre a sua afirmação e a verdade dos 
factos. Rui Gomes da Silva já em 24 de Março de 1427 tinha passado para 
a casa' do infante D. Duarte (1), deixando o serviço em Ceuta, e a doação 
das alcaidarias só teve lugar depois da morte de Martini Afonso de Melo, 
guarda mor de D. João I, que as possuiu, e só faleceu pouco antes de Feve- 
reiro de 1432 (2). 

Admita-se porem a existência da tal carta, onde se declara ser Rui Gomes 
da Silva filho de Aires Gomes da Silva, e ver-se-há por outro documento 
não se poder identificar êste Aires Gomes com o antigo aio de D. Fernando. 
O aio foi alcaide de Guimarães, teve, depois de apertado assédio, de entregar 
o castelo a D. João I e morreu logo a seguir. Doou então el Rei a João 
Gomes da Silva, por carta de 5 de Setembro de 1423 (i385), todos os bens 
do falecido, e mais os de sua viúva e de seu filho por estes se terem ausen- 
tado para Castela (3). Passados anos, por carta de 25 de Junho de 1432 
(1394), concedeu el Rei ao referido João Gomes todos os privilégios disfru- 
tados nas suas terras por Aires Gomes da Silva, «por quanto hi não ficara 
outro filho maior lídimo que de direito deva e haja de haver os ditos privi- 
légios» (4). É claro. O único filho existente expatriara-se; no reino ninguém 
ficara da geração de Aires Gomes e os seus privilégios podiam, sem ofensa 
de direito, ser concedidos ao filho de seu irmão. 

Para me conformar com a tradição manterei neste lugar Rui Gomes da 
Silva, alcaide mor de Campo Maior e Ouguela; mas, em obediência à ver- 
dade, tenho de confessar que não sei de quem êle fosse filho. Não o pode 
ter sido, nem de Aires Gomes da Silva, o Velho, como querem Xisto Tavares 
e os mais antigos genealogistas portugueses; não o pode ter sido de Aires 
Gomes da Silva, o Moço, como afirmam Salazar y Castro e os genealogistas 
modernos. Deverei pois escrever, seguindo o autor do meu Nobiliário qui- 
nhentista: «Ruy Gomes da Silva, filho de , foy alcayde mor 
de Campo Mayor e Ouguela...». Isto é o mais conforme à verdade, no 
estado em que nos deixa a falta de documentos. 

(1) Carta de um conto de libras de tença paga pela renda das sisas de Campo Maior. 
— Chancelaria de D. Afonso V, liv. 34. , fl. 63. 

(2) Vol. I, pág. 434. 

(3) Chancelaria de D. João 1, liv. fl. 90 v. 

(4) Ibidem, liv. 2.', fl. 97. 

vou 11 3 



i8 



Brasões 



Foi Rui Gomes da Silva da criação do infante D. Duarte, como declara 
um seu alvará de 16 de Novembro de 1422(1); deveria ter pois aproxima- 
damente a idade do Infante, nascido em 1 3g 1 . Esta indicação vem inteira- 
mente confirmar a impossibilidade dele haver sido filho de qualquer dos dois 
Aires Gomes da Silva, já ambos ao tempo falecidos. Passou Rui Gomes a 
Ceuta e lá ficou servindo após a conquista, com tanto agrado do capitão, o 
conde D. Pedro de Meneses, que ele o casou em 1422 com sua filha natural 
D. Isabel de Meneses (2). 

Continuou servindo em Ceuta e lá foi armado cavaleiro em Agosto de 
1426, em seguida a um ataque dos Moiros à praça (3); mas no ano seguinte 
já se encontrava servindo na casa do infante D. Duarte (4). Em 1433 já era 
do conselho, quando el rei D. Duarte lhe fez mercê do quarto do lugar de 
Ouguela, por carta de 23 de Novembro (5). Por estes tempos deveria ter-lhe 
sido feita mercê das alcaidarias mores de Campo Maior e Ouguela, as quais 
haviam pertencido a Martim Afonso de Melo (6), já falecido em Fevereiro 
de 1432. Passou Rui Gomes novamente a Africa em 1436 com os Infantes, 
quando foi do desastre de Tânger. Era homem «prudente e bom cavaleiro» 
e pelo infante D. Henrique foi então enviado a el Rei de Fez (7). Ainda 
vivia em 1449, quando por três cartas do mês de Dezembro lhe foram con- 
firmadas várias mercês de D. Duarte (8). Mais noticias não encontro de Rui 



(1) Pedro de Azevedo, Documentos relativos a Marrocos, I, 366. 

(2) Ibidem, doe. 3 18, págs. 365 e segs. 

(3) Azurara, Chronica do Conde D. Pedro, pág. 547. 

(4) Carta de 24 de Março de 1427 pela qual D. João I mandou pagar por Gonçalo No- 
gueira, almoxarife em Estremoz, um conto de libras de tença a Rui Gomes da Silva, «cava- 
leiro da casa do Infante meu filho». — Chancelaria de D. Afonso V, liv. 34. , fl. 63. 

(5) Transcrita na de confirmação de 17 de Dezembro de 1449. — Chancelaria de 
D. Afonso V, liv. 1 fl. 27 v. 

(6) Rui Gomes da Silva, do conselho, alcaide do castelo de Campo Maior, haja d'aqui 
em diante, em quanto nossa mercê for, as portagens do dito lugar, como as tinha e havia 
Martim Afonso de Melo com o dito castelo. Évora, 8 de Abril de 1435. Sabede que Rui 
Gomes da Silva, do conselho, enviou dizer que lhe fizéramos mercê do castelo de Campo 
Maior e de Ouguela, com todos direitos reais, e que, em sendo o dito lugar de Ouguela de 
Martim Afonso de Melo, lhe fôra dada carta de D. João I, etc. — Chancelaria de D. Afonso V, 
liv. 1 fl. 28; liv. 37. , fl. 9. 

(7) Rui de Pina, Chronica dei rei D. Duarte, pág. 161. 

(8) Carta de 17 de Dezembro de 1449, confirmando a de 23 de Novembro de 1423 de 
doação do quarto de Ouguela; outra do dia seguinte, confirmando as portagens de Campo 
Maior; e a terceira de 20, confirmando uma tença de um conto e quinhentas mil libras. — 
Chancelaria de D. Afonso V, liv. 11.", fls. 27 v. e 28; liv. 34. °, fl. 73. 



Silvas 



19 



Gomes da Silva que de seu casamento teve, conforme os nobiliários, os filhos 
seguintes: 

i.° — Pero Gomes da Silva, 2. alcaide mor de Campo Maior e Ouguela, 
casou com D. Maria de Sousa, filha de João Falcão, alcaide do castelo de 
Mourão. A Pero Gomes foi passada uma carta, em 29 de Março de 1465, 
de vinte e seis mil reais de tença pelas duas mil e seiscentas coroas de oiro 
de seu casamento (1). Conforme o Nobiliário quinhentista «foy demenuydo 
do saber». Morreu sem geração. 

2. — Fernão da Silva, ou Fernão da Silva de Meneses, de quem tratarei 
lá mais adiante. 

3. 8 — Diogo da Silva de Meneses, i.° conde de Portalegre, de quem me 
ocuparei no cap. III. 

4. — Afonso Teles de Meneses foi 3.° alcaide mor de Campo Maior e 
Ouguela por morte de seu irmão Pero Gomes e, sendo do conselho, já pos- 
suía as alcaidarias em 1472, quando, por carta dada em Sintra a 20 de Ja- 
neiro, lhe foi feita mercê delas passarem por seu falecimento a seu filho 
Luís Gonçalves da Silva (2). Morreu este pouco depois e nova carta se deu 
a Afonso Teles, em Évora a 20 de Agosto de 1478, para nas alcaidarias lhe 
suceder o filho maior ao tempo do seu falecimento (3). Serviu em Africa de 
fronteiro de seu tio o Conde D. Duarte de Meneses e, na sua ausência em 
1460-61, de governador de Arzila. Era já falecido em Fevereiro de i5i 1 (4), 
havendo casado com D. Joana de Azevedo, filha de Luís Gonçalves Malafaia, 
vedor da fazenda de Lisboa. Dêste enlace provieram dois ramos de Silvas; 
o dos alcaides mores de Campo Maior e Ouguela, o qual passou aos Lobos 
e seguidamente aos Alcáçovas Carneiros; e o dos morgados de Xévora extintos 
na varonia, passando o vínculo, segundo creio, aos Meios, alcaides mores de 
Elvas e Condes de S. Lourenço. 

5.° — João de Meneses da Silva, ou simplesmente João da Silva, o beato 
Amadeu, tomou-se de amores pela infanta D. Leonor, irmã de D. Afonso V, 
e adoptou por empresa um falcão volante com esta letra: IGNOTO DEO. 
Em 14D2, no mesmo ano em que a Infanta se recebeu em Siena com o impe- 
rador Frederico III, passou João da Silva ocultamente a Roma, onde viu a Impe- 
ratriz coroada por mão do Papa. Então, desenganado de todo, resolveu entrar 
em religião, vindo a professar a Ordem de S. Francisco. Passou a Milão, 
onde obteve do Duque o terreno necessário para fundar naquela cidade o 



( 1 ) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 3o.°, fl. 146. 

(2) Ibidem, fl. 1 13 v. 

(3) Ibidem, liv. 38.°, fl. g3. 

(4) Vol. I, pág. 232. 



20 



Brasões 



convento da Paz, instituindo nêle em 1460 a congregação dos Amadeus, deri- 
vada esta designação do nome por João da Silva tomado. O papa Xisto IV* 
chamou-o a Roma em 147 1, escolheu-o para seu confessor, aprovou a sua 
congregação e deu-lhe o domicílio de S. Pedro em Montório, em Roma, para 
fundar convento. Aí foi reconhecido por seu primo o bispo de Évora D. Garcia 
de Meneses. Por fim, morto aquele Papa, tornou para Milão, onde faleceu a 
10 de Agosto de 1482. Alguns autores não acreditão nos amores pela Impe- 
ratriz, julgando esta parte da biografia do beato Amadeu um mero romance. 

6.° — D. Branca de Meneses, mulher de João Rodrigues Ribeiro, 3.° senhor 
de Figueiró e Pedrógão. 

7. — D. Guiomar de Meneses, mulher de Alvaro de Sousa, senhor de 
Miranda, alcaide mor de Arronches, mordomo mor de D. Afonso V. 

8.° — D. Beatriz da Silva, dama da rainha D. Isabel, mulher de D. João II 
de Castela, com ela passou àquele reino em 1447. Era D. Beatriz formosís- 
sima e como tal foi muito requestada por todos os da corte. A Rainha, por 
inveja ou ciúme, mandou prender D. Beatriz e teve-a por três dias reclusa 
em estreito cárcere, num cofre, dizem, onde a formosa dama fez voto de cas- 
tidade. Saindo do cofre e da côrte, ao tempo em Tordessilhas, partiu para 
Toledo, entrando então no mosteiro de S. Domingos, o Rial. Naquela cidade 
instituiu, em 1484, nos paços de Galiana, a Ordem da Conceição de Maria e 
veio a morrer em 17 de Agosto de 1490. 

9. — D. Maria de Meneses, mulher de Gil de Magalhães, senhor da terra 
da Nóbrega. 

10. e ii.° — D. Leonor e D. Caterina da Silva falecidas solteiras. 

Fernão da Silva ou Fernão da Silva de Meneses, filho segundo de Rui 
Gomes da Silva, alcaide mor de Campo Maior e Ouguela, passou para o 
reino vizinho onde foi senhor de Torre Galindo e onde se encontrava ao 
tempo da morte de seu irmão primogénito, pelo que lhe não sucedeu na casa. 
Voltou para Portugal onde já estava em 1449, quando, por carta de 9 de 
Julho, lhe foi dada por muito serviço uma tença vitalícia de doze mil reais 
brancos. Passou a morar em Elvas, como consta da carta de 3o de Junho 
de 1473, de confirmação da tença (1). Dizem que lhe fora dada a alcaidaria 
mor de Alpalhão e certo é haver tido a mercê, por morte de D. Guiomar 
de Meneses sua irmã, da quinta de Val de Flores, no almoxarifado de Porta- 
legre, por carta dada em Évora a i5 de Julho de 1479, na qual aparece com 
o nome de Fernão da Silva de Meneses (2). 



(1) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 33.°, fl. 134 v. 

(2) Liv. 5.° de Odiana, fl. 287. 



Silvas 



Casou com D. Maria de Abreu, filha de Fernão de Abreu, senhor da 
quinta da Sempre Noiva junto a Arraiolos, e foram quartos avós de D. Miguel 
da Silva, senhor de casa em Elvas onde viveu e onde casou, em 1624, dizem, 
com D. Maria de Castro, filha de Jorge Pessanha, comendador da Póvoa e 
senhor de uma casa de Pessanhas naquela cidade. De D. Miguel e de sua 
mulher foi filho D. Fernando da Silva, que sucedeu na casa de seu pai e na 
dos Abreus de Elvas. Casou em 1657, "afirmam, com sua tia materna D. Cate- 
rina de Castro e teve a D. Miguel da Silva Pessanha. Veio este a herdar, 
não só as. casas de seu pai, mas também a dos Pessanhas e desde então se 
ficaram sempre chamando os desta família Silvas Pessanhas. 

A D. Miguel seguiu-se seu filho D. José da Silva Pessanha, ministro ple- 
nipotenciário em Nápoles e embaixador em Madrid. Casou com D. Leonor 
Spinello, filha de D. Sebastião Spinello, príncipe de Cariati nas Duas Sicí- 
lias, e da princesa D. Rosa Maria Caraccioli. Faleceu D. José em 1775 e 
sua mulher em 1773 e foram bisavós de D. António da Silva Pessanha, senhor 
da casa, moço fidalgo, o qual, tendo casado com D. Rita de Cacia de Noronha, 
condessa viúva das Alcáçovas e filha dos i. os Condes de Paraty, só deixou 
uma filha sucessora, D. Francisca da Silva Pessanha, condessa de Sampaio 
pelo seu casamento com António Pedro de Sampaio Melo e Castro Moniz de 
Torres e Lusinhano, 5.° conde de Sampaio. São ambos já falecidos, dei- 
xando numerosa descendência. 

Apesar de na primeira linha dos Silvas Pessanhas, os Silvas de Elvas, 
ter acabado a varonia dos Silvas, esta conserva-se ainda nos sobrinhos de 
D. António da Silva Pessanha, um dos -quais é o simpático escritor D. José 
da Silva Pessanha. 

Jorge Pessanha, comendador da Póvoa, acima nomeado, era ao tempo o 
único descendente varão de Manuel Pessagno, Genovês, almirante de Por- 
tugal em 1 3 1 7, de quem vinha a ser sétimo netó. As armas dos Pessanhas 
em Portugal são: de prata, banda dentada de vermelho, carregada de três 
flores de lis do campo postas no sentido da banda. Timbre: aza de vermelho 
carregada das três flores de lis do escudo postas em banda (1). E notável 
uma coincidência existente nestas armas, a qual me faz scismar. Dois doutos 
Italianos declaram, que o nome da família do almirante micer Manuel era 
Pessagno e não Passano (2). Notarei contudo não se parecerem nada as 
armas dos Pessagno de Génova com as dos nossos Pessanhas, ao passo que 



(1) Livro do Amieiro mor, fl. j5; Livro da Torre do Tombo, fl. 16. 

(2) L. T. Belgrano, Documenti e genealogia dei Pessagno Genovesi ammiragli dei Por- 
togallo, pág. 58. Próspero Peragallo, Cristóforo Colombo in Portogallo, pág. 227. 



22 



Brasões 



as dos Passano da mesma cidade, os do Albergo Giustiniani, têem muitos 
pontos de semelhança com as dos Portugueses. As dos Pessagno são: de 
oiro, três faxas ondadas e colubrinas de azul, acompanhadas em chefe de 
cinco flores de lis do mesmo, 2 e 3 (i). As dos referidos Passano são: de 
prata, banda de vermelho carregada de um delfim do campo posto no sen- 
tido da banda (2). Nas primeiras, só há de comum com as portuguesas o 
terem flores de lis, todavia em número e posição muito diferente; nas segundas, 
os esmaltes são os mesmos, a peça principal em ambas é uma banda e 
diferem unicamente em esta ser, numas, carregada de um delfim, nas outras, 
de três flores de lis. O uso das armas em Portugal é já antigo, pois que, 
por estarem no Livro do Amieiro mor se adquire a certeza de já em 1509 
os nossos Pessanhas as trazerem. Usavam-nas pois muito antes dos senhores 
de Passano mandarem pôr,- posteriormente a 16 10, na igreja de Santo Estêvão 
de Génova umas inscrições, nas quais se declara serem da geração dos Pas- 
' sanos os almirantes de Portugal, Manuel e Carlos Pessanha (3). Nada se 
pode porém decidir, me parece, sem se encontrar documento provativo da 
filiação de micer Manuel. 

III 

CONDES DE PORTALEGRE MARQUESES 
DE GOUVEIA 

Diogo da Silva de Meneses, terceiro filho de Rui Gomes da Silva, alcaide 
mor de Campo Maior e Ouguela, foi «homem por certo de nobre sangue, 
prudente, de boo siso, e são conselho, católico, verdadeiro, e bõo Cava- 
leiro» (4). 

Começou a servir em África acompanhando, em 1464, o infante D. Fer- 
nando no escalamento de Tânger e lá ficou cativo (5). Depois, quando o 
Infante comprou a D. Pedro de Meneses, 3.° conde e posteriormente i.° mar- 
quês de Vila Real, as ilhas Canárias, mandou lá Diogo da Silva a tomar 
posse e a sujeitar alguns rebeldes. Pouco depois reconheceu o Infante a 
Fernão de Peraça o direito à posse das ilhas e desistiu delas. Não obstante 
Diogo da Silva ainda por lá permaneceu e lá veio a casar com D. Maria de 
Aiala, filha de Diogo Garcia de Herrera e de D. Inês de Peraça, senhores 



(1) Conde Franchi Verney delia Valeta, Armerista delle Famiglie... di Savoja, pág. 142. 

(2) Ibidem, pág. i38. 

(3) Belgrano, op. cit., pág. 55. 

(4) Rui de Pina, Chronica de D. João II, cap. 14, pág. 52. 

(5) Rui de Pina, Chronica de D. Afonso V, pág. 509. 



Silvas 



das referidas ilhas e ela filha daquele Fernão de Peraça(i). Estes sucessos 
parece terem-se passado em 1446 (2). 

Regressou Diogo da Silva de Meneses ao reino e D. João II quando em 
1482, em obediência ao capitulado nas terçarias, teve de mandar seu primo 
D. Manuel andar em Castela, deu-lhe casa e por aio, visto êle ainda ser 
criança de treze anos, a Diogo da Silva (3). Nos fins de Agosto de 1484 foi 
D. Manuel investido nos ducados de Beja e Viseu e no mestrado da Ordem 
de Cristo e, d'então em diante, passou seu aio a ser conjuntamente vedor da 
sua fazenda (4). Neste mesmo cargo o manteve D. Manuel nos primeiros 
meses após a sua subida ao trono, existindo cartas livradas por Diogo da 
Silva em Janeiro e Fevereiro de 1496, servindo, ao que parece, por D. Lopo 
de Almeida, até este ser substituído por D. Diogo Lobo nomeado por carta 
de 23 de Março (5). 

Sentia D. Manuel intensa afeição por seu aio e bem o manifestou nas 
grandes mercês que lhe outorgou logo nos primeiros tempos do seu reinado. 
Assim, encontrando-se em Setúbal na primavera de 1496, fê-lo conde de Por- 
talegre, com as rendas, a jurisdição e o castelo; a doação porem não teve 
inteiro efeito pela oposição dos habitantes da vila, que não a queriam ver 
alheada da Coroa (6). , Teve el Rei de ceder, e por carta de 5 de Fevereiro 
de 1498 fez mercê a D. Diogo da Silva de Meneses, escrivão da sua puridade 
e senhor de Celorico, do título de conde de Portalegre de juro e herdade, 
com um milhão de reais de renda em cada ano, ficando porem a jurisdição 
da vila na Coroa. Juntamente com o título, e também de juro e herdade, 
deu-lhe as alcaidarias mores de Portalegre e do Assumar e fê-lo capitão das 
mesmas vilas (7). 

A carta refere-se aos serviços por Diogo da Silva prestados a D. Afonso V, 
ao infante D. Fernando e a D. João II, nas guerras de Castela e África, com 
muito perigo de sua pessoa, ficando cativo na cidade de Tânger, quando na 
entrada dela se perderam os fidalgos. E assim mesmo na conquistas das 
ilhas de Canária, onde foi enviado por capitão com grande frota e muita 



(1) João de Barros, Asta, dec. I, liv. cap. 12, fl. 16 v. 

(2) Sousa Viterbo, Uma expedição portuguesa às Canárias, no Archivo histórico por- 
tuguez, I, 344. 

(3) Rui de Pina, Chronica de D- João II, cap. 14, pág. 52. 

(4) Carta de 29 de Abril de 1493 de 5o 000 rs. de tença a Diogo da Silva de Meneses, 
do conselho, aio do Duque de Beja e vedor da sua fazenda. — Chancelaria de D. Manuel, 
liv. 32.°, H. 24, onde se encontra transcrita na de confirmação, de i3 de Março de 1498. 

(5) Archivo histórico portuguez, X, 1 13. 

(6) Damião de Goes, Chronica de D. Emanuel, part. I, cap. 14. 

(7) Chancelaria de D. Manuel, liv. 3i.°, fl. 9 v. 



24 



Brasões 



gente; onde tomou duas fortalezas que lá havia; e prosseguiu por alguns anos 
com muita honra na conquista delas para estes reinos, até lhe ser mandado 
que dela cessasse. E também lhe foi feita a mercê, considerando como desde 
o tempo da mocidade dei Rei, em que por sua grande linhagem e discrição 
lhe fôra dado como aio, o tem muito servido, com tanto amor, bom conselho 
e lealdade, quanto em algum muito fiel amigo e bom servidor se possa achar, 
isto não só nos reinos de Castela, onde el Rei andara por cumprir à paz e 
socêgo destes reinos de Portugal, como, depois que a eles tornou até agora, 
na governança da sua casa e terras e nas coisas que neste meio tempo vieram 
que à pessoa e estado de D. Manuel tocavam. Com idênticas expressões e 
por carta do dia seguinte, 6 de Fevereiro de 1498, fez-lhe el Rei doação de 
juro e herdade das mesmas vilas de Celorico, Gouveia, S. Romão e outras (1). 
Ainda, usando das mesmas expressões, fez-lhe doação, também de juro e her- 
dade, por carta de 3o de Março de 1498, da dízima nova do pescado de 
S. João da Foz e Matosinhos (2). 

Morreu o Conde de Portalegre a 3o de Fevereiro de i5o4, deixando por 
seu testamenteiro a el rei D. Manuel. Ordenou-lhe êste a sepultura na igreja 
do convento de Santo Eloi de Lisboa, e a capela mor lhe deram os Frades 
para jazigo. Anos depois mandou D. Maria da Cunha, condessa de Porta- 
legre, viúva do 3.° Conde, edificar no mesmo templo uma capela da invocação 
do Espírito Santo, para seu jazigo e de todos os senhores da casa de Porta- 
legre. Para a capela foi trasladado o i.° Conde de Portalegre e nela enter- 
rados quási todos os mais senhores da casa até D. João da Silva, 2. marquês 
de Gouveia e 7. conde de Portalegre, último da varonia de Silva (3), excep- 
tuando-se apenas, que eu saiba, o 5.° conde, D. Diogo da Silva e seu irmão 
D. João da Silva. 

Sobreviveu D. Maria de Aiala, condessa de Portalegre, alguns anos a seu 
marido e por cartas de 17 e 28 de Julho de i5o6 foi feita visinha de todas 
as ilhas dos Açores, com todos os privilégios, franquezas e liberdades con- 
cedidos aos moradores daquelas ilhas, e relevada da obrigação em que pusera 
sua terça e outros bens à segurança do contrato de casamento de seu filho (4). 
Foi a Condessa senhora de quatro duodécimos das ilhas de Forteventura e 
Lançarote do arquipélago das Canárias, das quais seu filho, o 2. Conde de 
Portalegre, recebia trezentos mil reais de renda cada ano (5). 



(1) Chancelaria de D. Manuel, liv. 3i.°, fl. 9. 

(2) Encontra- se a carta transcrita por Sousa Viterbo nos Trabalhos náuticos, I, 253. 

(3) P.e Francisco de Santa Maria, Ceo aberto na Terra, págs. 445 e 446. 

(4) Liv. das Ilhas, fl. 74; Chancelaria de D. Manuel, liv. 38.°, fl. 9 v. 

(5) João de Barros, Asia, dec. I, fl. 17. 



Silvas 



25 



Dois filhos e duas filhas apontarei d'entre a progénie dos i. os Condes de 
Portalegre. Os filhos foram D. João da Silva de Meneses e D. Miguel da 
da Silva, as filhas, D. Joana da Silva, condessa de Linhares, e D. Inês de 
Aiala, condessa de Monsanto por ter sido a segunda mulher de D. Pedro 
de Castro, 3.° conde de Monsanto. 

D. Joana da Silva casou em i5o2 com D. António de Noronha, irmão do 
2.° Marquês de Vila Real, e levou em dote o oficio de escrivão da puridade, 
do qual parece ter sido passada carta a D. António, em Sintra, a 22 de Se- 
tembro de i5o2(i), no mesmo dia em que seu cunhado D. Miguel da Silva 
foi nomeado escrivão da puridade do Príncipe (2). Serviu D. António de 
escrivão da puridade até 16 de Novembro de 1 525, data da carta de nomeação 
definitiva de D. Miguel para aquele ofício (3). D. António de Noronha (4) 
havia pouco antes, como prémio de consolação pela perda do ofício, sido 
agraciado, por carta de 20 de Outubro, com o título de conde de Linhares (5). 
Morreu o Conde a 10 de Março de 1 55 1 e a Condessa em Outubro de i554(6). 

D. Miguel da Silva, o 2. c filho do Conde de Portalegre, doutorou-se na 
Universidade de Paris, seguindo de lá para Itália, d'onde regressou à pátria, 
e aqui foi nomeado escrivão da puridade do Príncipe quando êle apenas con- 
tava três meses de idade. Em 1 5 14 enviou-o D. Manuel a Roma, na quali- 
dade de seu embaixador junto do papa Leão X e do concílio de Latrão, e, 
terminado êste, continuou a representar el Rei de Portugal como seu embai- 
xador, não só junto do mesmo Papa, mas também dos seus sucessores 
Adriano VI e Clemente VII. Este, pouco depois de em i523 subir ao sólio 
pontifício, quis revestir o Embaixador de Portugal da púrpura cardinalícia; 
soubé-o porém D. João III e mandou retirar imediatamente a D. Miguel para 



(1) No Cerpo cronológico, part. III, mac. 2, doe. 26, existem as minutas das cartas dos 
ofícios do Conde de Portalegre passadas em Sintra a 23 de Setembro de i5o2. Declara-se 
que, em virtude do capitulado para o casamento de D. António com a filha do Conde de 
Portalegre, êste lhe dera o ofício de escrivão da puridade, o qual el Rei havia prometido a 
D. Miguel, filho do Conde, e por se terem movido depois algumas dúvidas e debates sôbre o 
ofício pelo direito nele adquirido por D. Miguel, se lhe deram seiscentos mil rs. em satisfação 
dos seus direitos. É tudo da letra de António Carneiro. As informações do académico 
Trigoso de Aragão Morato na sua Memoria sôbre os Escrivães da puridade, nas Memorias 
da Academia, tom. XII, part. pág. 193, concordam, pois declaram exercitar D. António 
o emprego já no ano de i5o2. 

(2) Cit. Memorias, de Trigoso, pág. 214, Apendix, 2. . 

(3) Ibidem. 

(4) É D. António designado em quáse todos os diplomas pelo nome próprio, sem ape- 
lido: D. António, sobrinho, no reinado de D. Manuel; primo, no de D. João III. 

(5) Gaveta II, mac. 4, n.* 28. 

(6) Brasões de Cintra, II, 444. 

vol. u 4 



26 



Brasões 



o reino, substituindo-o na embaixada por D. Martinho de Portugal. Cons- 
trangido partiu D. Miguel para Portugal nos princípios de Agosto de 1 525 e, 
chegando ao reino, foi nomeado escrivão da puridade pela carta acima citada 
de 16 de Novembro daquele ano. Foi por então eleito bispo de Viseu; mas 
só veio a ser sagrado em i528 ou 1529. 

Em Roma deixara muitas simpatias no Sacro Colégio e o resultado foi 
criá-lo Paulo III cardial no consistório secreto de 12 de Dezembro de i53g, 
conservando a promoção in pectore. Abrira-se entretanto o concílio ecumé- 
nico a 1 de Maio de 1 538, mas o Bispo de Viseu não compareceu. Estra- 
nhou-lhe o Papa a ausência, e ordenou-lhe que comparecesse. Comunicadas 
as ordens pontifícias a D. João III, este opôs-se tenazmente a que D. Miguel 
lhes desse cumprimento, não se pejando, o Rei ortodoxo, de aconselhar 
D. Miguel a mentir ao Papa, desculpando-se de não partir com a falta de 
saúde. Não quis o Bispo, nem faltar à verdade ao Pontífice, nem desacatar 
por mais tempo as suas ordens, e partiu furtivamente de Viseu a 22 de Julho 
de 1540. Exasperou-se D. João III; tentou conseguir que D. Miguel da Silva 
regressasse ao reino; promessas, ameaças, manejos diplomáticos na Cúria, 
tudo pôs em prática, sem nada conseguir. Chegou finalmente o dia 2 de 
Dezembro de 1541 e Paulo III, não só publicou a promoção que fizera a car- 
dial do Bispo de Viseu, como anunciou a sua elevação por uma bula expedida 
a D. João III. Então o ódio, o rancor, a tendência para a perseguição deste 
antipático personagem não conheceram limites. Por carta de 23 de Janeiro 
de 1542 desnaturalizou D. Miguel da Silva e privou-o de todas as honras, 
privilégios, benefícios, etc. Isto no reino; em Roma tratou de lançar mão 
de todos os meios a fim de conseguir o castigo do prelado, rebelde na sua 
opinião. Servia-se, não só dos seus agentes, mas até suplicava de seu cunhado 
Carlos V a intervenção dos seus embaixadores. Este desespero do fanático 
fundador da Inquisição seria risível, se em Roma tivesse havido no Pontífice 
e no Sacro Colégio mais energia e não tivessem deixado a penúria apossar-se 
do Cardial da Silva, que veio a morrer octogenário na igreja de Santa Maria 
Transtibrina, seu titulo cardinalício, a 5 de Junho de 1 556 (1). 

Deste notável Português escreveu André de Rèsende a seguinte apreciação 
em extremo laudatória: Michael Sifrius musae utriusque alumniis et totius 
antiquitatis calentissimus, qui Italiam totam eraditionis suae rumore com- 
plepit (2). 



(1) Dr. Fortunato de Almeida, Historia da igreja em Portugal, tom. III, part. 11, págs. 908 

a 93 1. 

(2) Oratio pro rostris pronunciata, in Olisiponensi academia, caléd. Octobrib. M.D.XXXIIII, 

reprodução do Arquivo histórico português, IX, 273. 



Silvas 



27 



D. João da Silva ou D. João da Silva de Meneses, filho primogénito do 
i.° Conde de Portalegre, parece ter sido nomeado mordomo mor do príncipe 
D. João por carta de 23 de Setembro de i5o2, no mesmo dia em que seu 
irmão D. Miguel da Silva foi provido no ofício de escrivão da puridade do 
mesmo bambino (1). Em Fevereiro de i5o4 morreu o Conde D. Diogo e na 
casa e título sucedeu seu filho D. João, que já se encontra intitulado conde 
de Portalegre a 11 de Julho de i5o5, tendo-lhe contudo, só a 23 de Dezembro 
do ano seguinte, sido passada a carta de confirmação (2). 

Foi D. João da Silva um dos poetas do Cancioneiro, onde se encontram 
umas trovas suas dirigidas em 1496 à gangorra de Lopo de Sousa, aio do 
Duque de Bragança e posteriormente 2. senhor do Prado, e uns versos ende- 
reçados, depois de i5o8, a D. Beatriz de Vilhena, a Perigosa: 

Este rremedio tomado 
se fosse posto em balança, 
sobre muy fraca esperança 
segura grande cuidado. 
Mas he bem aventurado, 
quem com vida trabalhosa 
escolhe a mays periguosa. (fl. 14?, col. 4). 

Estão de nível, em sensaboria, com a maior parte das composições compi- 
ladas por Garcia de Rèsende. 

Morto D. Manuel apressou-se D. João III em nomear o Conde de Porta- 
legre seu mordomo mor, fazendo livrar a carta a 1 de Janeiro de i522 (3). 
Não lhe retirou nunca D. João III a sua confiança, mas, não obstante, parece 
ter o Conde tido alguns desgostos por causa do procedimento de seu irmão 
o Cardial da Silva, a quem precedeu no túmulo, pois morreu a 3i de Maio 
de i55i (4). 

Havia o Conde de Portalegre casado, em Julho ou Agosto de i5o5, com 
D. Maria de Meneses, irmã do i.° Conde de Tentúgal. Deles o filho primo- 
génito, D. Alvaro da Silva, foi o 3.° conde de Portalegre por morte de seu 
pai, apesar de só ter carta de confirmação em 9 de Setembro de 1 553, mor- 



(1) Minutas das cartas dos ofícios do Conde de Portalegre, no Corpo cronológico, 
part. III, mac. 2, doe. 26 já citado. 

(2) Chancelaria de D. João III, liv. 3g.° de Doações, fl. 1. 

(3) Ibidem, liv. 5i.° de Doações, fl. 24 v. 

(4) D«clara-se esta data na carta de confirmação de uma tença de 10.000 rs. a seu filho 
D. Alvaro da Silva, 3.° conde. — Chancelaria de Felipe I, liv. 14. de Doações, fl. 76 v., trans- 
crita com outras. 



28 



Brasões 



domo mor de D. João III e D. Sebastião (i), senhor de toda a mais casa e 
finalmente conde parente por despacho de 20 de Outubro de 1672, com 
duzentos e setenta mil reais de assentamento (2). Esta mercê foi-lhe feita 
por ser neto materno de D. Alvaro de Portugal, irmão do 3.° Duque de Bra- 
gança. 

Decorreu a vida do Conde no paço, no serviço do seu cargo. Morreu-lhe 
o único filho D. João da Silva, deixando-lhe apenas uma neta, D. Felipa da 
Silva, já viúva e sem descendência; então o Conde impetrou de D. Sebastião 
o alvará de 8- de Julho de 1577, pelo qual, depois de autorizado o segundo 
casamento da neta com D. João de Silva, embaixador de Castela, foi-lhe a 
ela feita mercê, por morte do avô, de todos os bens da Coroa por êle pos- 
suídos (3); mercê, posteriormente, por outro alvará de 20 de Julho de 1579, 
ampliada à sucessão no título (4). Passados poucos meses morreu o Conde 
de Portalegre, em Almeirim, antes de 1 1 de Novembro, data da carta de 
mordomo mor concedida ao seu sucessor (5). 

Fôra o 3.° Conde de Portalegre por duas vezes casado: da primeira com 
D. Felipa de Vilhena, filha dos i. os Condes de Tentúgal, e dela teve, além de 
filhas freiras, a D. João da Silva, falecido sendo herdeiro da casa de Porta- 
legre; da segunda, sem descendência, com D. Maria da Cunha, filha de Nuno 
da Cunha, governador da índia. Foi esta senhora quem fundou, como já 
disse, a capela jazigo dos Condes de Portalegre na igreja dos Lóios de 
Lisboa, e sobre a sua campa se gravou êste epitáfio: Aqui ja\ D. Maria da 
Cunha, Condeça que foi de Portalegre. Faleceo no atino de i58o e ja\em 
os mais senhores da dita Casa, e ella mandou fa\er esta campa (6). 

D. João da Silva, herdeiro do Conde de Portalegre seu pai, casou por 
duas vezes: i.° com D. Luisa de Albuquerque, filha de António de Brito, 
capitão da Mina, e de D. Isabel de Albuquerque; 2. com D. Margarida da 



(1) Só deste monarca lhe encontro a carta de nomeação, datada de 10 de Março de 
i56o (liv. 7.° de Doações de D. Sebastião, fl. 93), constando porem deste mesmo diploma e 
de muitos outros, que também havia sido mordomo mor de D. João III. 

(2) Por carta de 5 de Julho de 1564 foi-lhe mandado pagar o referido assentamento, 
«outro tanto como há cada um dos condes a quem chamo parentes», de 20 de Outubro de 
1572 em diante, dia em que lhe foi feita a mercê. — Chancelaria de D. Sebastião, liv. 35.° de 
Doações, fl. 10 v. 

(3) Chancelaria de D. Sebastião, liv. 46. de Doações, fl. 358. 

(4) Chancelaria de Felipe I, liv. 14. de Doações, fl. 80 v. 

(5) D. João Mascarenhas, do conselho de Estado, mercê do ofício de mordomo mor 
ora vago por falecimento de D. Alvaro da Silva, conde de Portalegre. Almeirim, 1 1 de No- 
vembro de 1579. — Chancelaria de D Sebastião e D. Henrique, liv. 44. de Doações, fl. 299 v. 

(6) P.e Francisco de Santa Maria, Ceo aberto na terra, pág. 446. 



Silvas 



29 



Silva (1), filha de D. Garcia de Almeidas neta ilegítima do 2. Conde de 
Abrantes. Só deste matrimónio houve geração numa filha única, a já men- 
cionada D. Felipa da Silva. 

Casou esta senhora em primeiras núpcias com D. Pedro Denis de Lan- 
castre, sobrinho dei Rei, filho do i.° Duque de Aveiro e senhor da capitania 
de Porto Seguro, falecido a 23 de Setembro de 1575. Casou em segundas 
núpcias, no primeiro semestre de 1577, com D. João de Silva, embaixador em 
Portugal de Felipe II que muito se empenhou pela realização deste enlace. 

Em virtude dos dois alvarás acima citados, de 8 de Julho de 1577 e 20 
de Julho de 1 ^79, dispensando a Lei Mental e permitindo a sucessão na casa 
de seu avô a D. Felipa da Silva, chamaram-se logo, após o falecimento de 
D. Álvaro da Silva, ela e seu marido, condes de Portalegre, apesar de só por 
cartas, do mês de Março de 1584 haver sido a casa confirmada à Condessa (2) 
e de 19 de Outubro do mesmo ano o título a D. João (3). 

D. João de Silva, neto paterno do i.° Marquês de Montemayor e materno 
de Martim da Silveira, alcaide mor de Terena, acompanhou D. Sebastião a 
África em 1578 e lá ficou ferido num braço e prisioneiro na batalha de Alcácer- 
quibir, sendo logo restituído à liberdade por generosidade mauritana. Voltou 
à pátria, serviu Felipe II na sua pretensão ao trono português, e, realizada 
ela, veio para Portugal onde foi 4. conde de Portalegre, mordomo mor da 
casa real (4), do conselho de Estado, um dos cinco governadores do reino, 
de 3i de Agosto de i5g3 a 18 de Abril de 1600 (5), regressando então a 
Madrid onde morreu, segundo afirmam, em 1601 (6). 

«Espelho dos Cortezãos daquella idade & hum dos melhores discípulos 
da grande escolla de Filipe II», chama D. Francisco Manuel de Melo (7) ao 
Conde de Portalegre, a quem atribui a paternidade do livro DelVvnione dei 
Regno di Portogallo Aila Corona di Castiglia. Istoria dei Signor Ieronimo 
Conestaggio GentWhuomo Genouese. Milão, 1616(8). Funda-se para a sua 



(1) Por despacho de 10 de Novembro de 1 58 1 foi posta verba à margem de uma carta 
de padrão de D. Margarida da Silva, por ela ter dado a tença em dote a sua filha D. Felipa 
da Silva, condessa de Portalegre. — Chancelaria de D. João III, liv. 16. de Doações, fl. 147 v. 

(2) Chancelaria de Felipe /, liv. i3.° de Doações, fls. 8 v., 9 v., 10 v. e 11 v.; e liv. 14.*, 
fl. 76 v. 

(3) Ibidem, liv. 14. , fl. 20 v. 

(4) Carta de i5 de Abril de 1 58 1 . — Chancelaria de Felipe I, liv. 4. de Doações, fl. 32 1. 

(5) J. P. Ribeiro, Dissertações, vol. III, part. 11, págs. 210 e 211. 

(6) Salazar y Castro, Casa de Silva, I, 526. 

(7) Apologos dialogaes, pág. 341. 

(8) Tenho à vista esta edição, há porem outra anterior, impressa em Génova em 1589, 
e ainda a tradução espanhola, de Barcelona, 1610. 



3o 



Brasões 



afirmativa em o próprio Jerónimo Franqui Conestággio lhe contar em Itália, 
que aquela obra só dêle tinha o nome, «mas o espirito, & arte do Conde 
Dom Joaõ» eram. Neste livro a apreciação dos Portugueses é-lhes muito 
desfavorável. Ainda se atribui ao Conde de Portalegre a obra Instrução 
que fe\ a seu filho D. Diogo da Sylva quando o mandou para assistir na 
Corte, obra a que se referem, tanto Salazar y Castro, como Barbosa Ma- 
chado. 

Dos cinco filhos dos 4.°* Condes de Portalegre mencionarei D. Diogo da 
Silva e D. Manrique da Silva. 

Sucedeu D. Diogo da Silva a sua mãe, não só na casa(i), mas também 
no título, como prova a carta do seu assentamento de conde para o começar 
a vencer de 8 de Agosto de i5()o em diante, dia do falecimento da condessa 
D. Felipa da Silva sua mãe, posto que o Conde seu pai o vencesse também 
em quanto foi vivo (2). Para maior certeza de D. Diogo da Silva ter gozado 
do título depois da morte da mãe e em vida do pai, aparece a carta de 25 
de Setembro de 1597 na qual são nomeados D. João da Silva, conde de Por- 
talegre, e o conde D. Diogo da Silva, seu filho maior (3). Não obstante, só 
depois do falecimento do pai foi confirmado a D. Diogo da Silva o título, 
com a tença de um conto de réis, de juro e herdade, e as alcaidarias mores, 
por carta de 22 de Maio de 1602 (4); o ofício de mordomo mor já lhe tinha 
sido concedido por outra carta de 17 do precedente mês de Fevereiro (5). 
Serviu de governador do reino, com outros, desde 2 de Outubro de 1622 até 
27 de Maio de 1626, e sósinho desde então até Abril de 1627 (6). 

Tivera porém o Conde dissabores provenientes de seus projectados casa- 
mentos com filhas dos 6. 05 Condes de Cifuentes. A primeira noiva, D. Inês 



(1) Por carta de 20 de Janeiro de 1 593 foram confirmadas a D. Diogo da Silva, por 
falecimento de sua mãe, as vilas de Celorico, S. Romão, Gouveia, etc. — Chancelaria de 
Felipe I, liv. i3.° de Doações, fl. 121. 

(2) A carta é de 3 de Outubro de 1602. — Chancelaria de Felipe II, liv. 6." de Doações, 
fl. 35 7 v. 

(3) D. João da Silva, conde de Portalegre, mordomo mor, capitão geral e um dos gover- 
nadores deste reino de Portugal, e o conde D. Diogo da Silva, seu filho maior, vieram dizer 
que estavam ora contratados com D. Branca de Lacerda, condessa de Cifuentes nos reinos 
de Castela, para casar o conde D. Diogo com D. Inês da Silva, filha da dita Condessa e de 
D. Fernando da Silva, conde de Cifuentes, a que Deus perdoi, etc. Licença para segurar à 
noiva o dote com bens da Coroa. — Chancelaria de Felipe I, liv. 3.° de Privilégios, fl. 1 56. 

(4) Chancelaria de Felipe II, liv. 4. de Doações, fl. 369. — Numa apostila datada de 4 
de Setembro do mesmo ano, a seguir à carta transcrita, declara-se haver D. Diogo sucedido 
no condado a sua mãe. 

(5) Ibidem, liv. 7. , fl. 247. 

(6) J. P. Ribeiro, Dissertações, II, 198. 



Silvas 



3r 



da Silva, levou-lha a morte; a segunda roubou-lha o Cardial Duque de Lerma 
para a casar, por ela ser herdeira do condado, com seu sobrinho o Conde 
de Santa Gadea. Por estes desgostos renunciou o Conde de Portalegre em 
1614 a casa em seu irmão D. Manrique da Silva (1) e passou a fazer vida quáse 
ascética, procurando muito os conventos e praticando obras de caridade. 
Pois, apesar da sua boa índole, quando em Madrid foi seu corpo embalsa- 
mado, encontrou-se-lhe no enorme coração uma pedra do tamanho de uma 
noz. Veio a pedra para Portugal e guardava-se na casa dos Marqueses de 
Gouveia dentro de uma rede de prata doirada (2). 

Estava o Conde em Madrid, para onde fora chamado por carta de Fe- 
lipe III e d'onde el Rei lhe não autorizou o desejado regresso a Portugal, e 
lá veio a morrer a i5 de Dezembro de 1640, sendo o seu corpo trazido a 
sepultar à igreja do convento de S. José de Ribamar, ao jazigo por êle man- 
dado fazer da banda de dentro da porta e para onde mandou levar o corpo 
de seu irmão, o capelão mor D. João da Silva, «para que nem depois de 
mortos se separassem», como diz o letreiro (3). Mas preciso resumir, pois 
ainda tenho muito silvado para desbravar. 

Do 5.° Conde de Portalegre foi irmão e sucessor D. Manrique da Silva 
6.° conde de Portalegre por carta de,i5 de Março de 1614(4), mordomo 
mor por. carta da mesma data (5), i.° marquês de Gouveia, em sua vida, por 
carta de 20 de Junho de 1625 (6), sendo-lhe no mesmo dia desembargado 



(1) A renúncia do Conde de Portalegre no irmão foi feita por escritura de 3 de Março 
de 1614. Antes, a 8 de Fevereiro de i6o3, impetrara o conde D. Diogo um alvará dispen- 
sando uma vez a Lei Mental para o título e bens da Coroa; por aqui se vê haver já então 
resolvido não casar. Consta tudo dos diplomas transcritos na carta de conde de Porta- 
legre a D. Manrique da Silva. 

(2) Fr. Ântónio da Piedade, Chronica da Arrábida, I, § 283. 

(3) Ibidem, § 282. — Dizem os letreiros das suas campas: a primeira: Sepultura de 
D. Diogo da Sylva, Conde de Portalegre, que os Religiosos da Provinda da Arrábida lhe 
derão pela devoção que lhes tinha; na segunda : O Conde D. Diogo mandou sepultar na sua 
sepultura, para que nem depois de mortos se separassem, a seu irmão D. João da Sylva, Ca- 
pellão mor delRey e do Conselho Geral do Santo Officio, grande devoto e bemfeitor da Santa 
Província da Arrábida. Faleceo em do\e de Agosto de mil seiscentos trinta e quatro. 

(4) Transcrita, com outros diplomas, na carta de 26 de Janeiro de i65o de confirmação 
ao 2. Marquês de Gouveia. — Chancelaria de D. João IV, liv. 8.° de Doações, fl. 16. 

(5) Chancelaria de Felipe II, liv. 29. de Doações, fl. 297 v. 

(6) Havendo respeito aos serviços de D. Manrique da Silva, conde de Portalegre, mor- 
domo mor de minha casa, do meu conselho de Estado e meu gentil-homem da câmara, feitos 
na paz e na guerra, com particular satisfação minha, e a ser ferido de duas arcabuzadas, uma 
na perna direita, quando se intentou socorrer a vila da Encrusa, nos estados de Flandres, e 
outra no braço direito na peleja que o Conde de Elda teve com o navio do corsário Pédepau, 
que tomou no cabo de Santa Maria; e os serviços dos Condes de Portalegre seus anteces- 



* 



* 



32 



Brasões 



um alvará de mais três vidas no título (i). Em seguida à Restauração de 
1640 reconheceu logo o Marquês a el Rei D. João IV e serviu-o no conselho 
de Estado. Casou pela terceira vez, em 28 de Abril de 1625, com D. Maria 
de Lancastre, por quem seus descendentes vieram a suceder no ducado de 
Aveiro. Era filha dos 3. 0S duques, D. Alvaro e D. Juliana de Lancastre (2). 
Dêste casamento nasceram, entre outros, D. João da Silva, sucessor na casa, 
e D. Juliana de Lancastre, condessa de Santa Cruz, pelo casamento com o 
4. conde, D. Martinho Mascarenhas. O Marquês veio a morrer a 4 de De- 
zembro de 1648. 

D. João da Silva, 7. conde de Portalegre, por carta de 7 de Março 
de 1626(3), sucedeu na casa a seu pai e foi 2. marquês de Gouveia, em 
sua vida, por carta de 8 de Maio de 1647(4), mordomo mor, por carta de 26 
de Abril de 1649 (5), e finalmente marquês de juro e herdade por carta de 20 
de Maio de i655 (6). Serviu no conselho de Estado; foi presidente do Desem- 

sores, e do conde D. João da Silva seu pai, que Deus perdoi, e aos muitos serviços e cali- 
dades do dito conde D. Manrique da Silva, antiguidade e muita calificação de sua casa, e 
por folgar muito por todos estes respeitos, etc. Carta de marquês de Gouveia. — Chance- 
laria de Felipe III, liv. 3o ° de Doações, fl. 216. 

(1) Chancelaria de Felipe 111, liv. 11. de Doações, fl. 264. — Os termos são os mesmos 
da precedente carta. 

(2) Por parte de D. Alvaro de Lancastre, duque de Aveiro, meu sobrinho, foi apresen- 
tado o seguinte alvará: — Havendo respeito aos muitos e particulares serviços que D.Jorge 
duque de Aveiro, meu sobrinho, fez aos Reis que estão em glória, e a ir com el rei D. Se- 
bastião a África, e se achar com êle na batalha de Alcácer, e a morrer nela pelejando com 
muito esforço, e aos muitos gastos e despesas que fez nesta jornada, e aos seus muitos e 
grandes merecimentos e calidades e de seus antecessores, e ao muito divido que comigo tem, 
e por folgar de fazer honra e mercê a D. Juliana de Lancastre, minha sobrinha, filha única do 
Duque, e tendo por certo dela e de D.Alvaro de Lancastre, meu sobrinho, que sempre saberão 
conhecer a mercê que lhe fizer, etc. Faz-lhe mercê, casando ela com o dito D. Alvaro de 
Lancastre, do título de duque de Aveiro, para ela e para o dito D. Alvaro, de juro e herdade, 
e do título de marquês de Torres Novas, também de juro e herdade, para seu filho mais 
velho dêles, e para os filhos mais velhos de seus sucessores, tudo tirado por duas vezes fora 
da Lei Mental; e assim mais lhe faz mercê do título de duque de Torres Novas para seu 
filho mais velho, e assim do mesmo título para seu neto, etc. Madrid, 10 de Setembro de 
1 588. — Pedindo o Duque de Aveiro que, por quanto o filho mais velho que nasceu era 
D. Jorge de Lancastre, meu sobrinho, lhe mandasse passar carta, etc. Carta do título de 
duque de Torres Novas na forma declarada no alvará. Lisboa, 26 de Setembro de 1619. — 
Chancelaria de Felipe II, liv. 43. de Doações, fl. 234. 

(3) Chancelaria de Felipe III, liv. 3o.° de Doações, fl. 337. — Por alvará de lembrança 
da mesma data, registado no verso da fl. precedente, havia sido feita mercê ao Marquês de 
Gouveia do título de conde de Portalegre para andar nos primogénitos de sua casa. 

(4) Chancelaria de D. João IV, liv. 16. de Doações, fl. 522. 

(5) Ibidem, liv. i5.° de Doações, fl. 197 v. 

(6) Havendo respeito aos muitos e grandes merecimentos e serviços daqueles de que 



Silvas 



33 



bargo do Paço, um dos plenipotenciários que ajustaram a paz com a Espanha 
em 1668, embaixador extraordinário em Madrid de 1670 a 1673; e morreu 
a 16 de Março de 1686. 

Autor contemporâneo, nem sempre benévolo, referindo-se ao Marquês de 
Gouveia, diz ser «pessoa que enche todos os [lugares] que occupa, unindo-se 
em seus procedimentos a qualidade, e a modéstia em tal gráo, que se pode 
diser, que ou neste tempo não he Fidalgo de Portugal, ou he Fidalgo em 
Portugal de outro tempo» (1). Foi ele o Marquês de Gouveia ou Marquês 
Mordomo mor, a quem o P. e António Vieira dirigiu várias cartas, tanto de 
Roma, em 1670 a 1674, como da Baía, em 1682 a 1684, e anteriormente, 
datadas de várias terras do reino, nos anos de 1662 a i665. Da sua embai- 
xada escreveu Miguel da Silva Pereira, secretário dela, a Relação da jor- 
nada, que fe\ á Corte de Madrid o Excellentissimo Senhor Marque\ Mor- 
domo mor, Embaixador extraordinário de S. A. a El-Rey Catholico, e do 
successo dos negócios que na dita embaixada se tratarão, manuscrito men- 
cionado por Barbosa Machado na Bibliotheca lusitana. 

Casou a primeira vez com D. Maria Pereira Pimentel, falecida a 28 de 
Maio de 1648, filha de D. Manuel Pimentel e D. Joana Forjaz Pereira, 
6.°* condes da Feira. Casou a segunda vez, a 8 de Dezembro de 1649, com 
D. Luísa Maria de Meneses, dama da rainha D. Luísa e filha de D. Pedro de 
Noronha, senhor de Vila Verde, e de sua mulher D. Joana de Noronha (2). 
Por ocasião do segundo casamento é que lhe foi dado o título de juro e her- 
dade. Apesar de duas vezes casado não deixou o Marquês geração, pelo que 
a casa passou a seu sobrinho D. João Mascarenhas. 

Era êste fidalgo filho de D. Martinho Mascarenhas, 4. conde de Santa 
Cruz, chefe da família Mascarenhas, capitão da guarda real, falecido em 1676, 
«não deixando menos dividas que seu pai» (3), e da condessa D. Juliana de 
Lancastre, filha do i.° e irmã do 2. Marquês de Gouveia. Houvera D. Mar- 
tinho o título de conde da vila de Santa Cruz da ilha das Flores por carta 
de 4 de Fevereiro de 1 658, em sucessão a sua mãe D. Beatriz Mascarenhas, 
filha única do 2. conde, D. Martinho Mascarenhas (4). Fora ela condessa 
de Santa Cruz pelo seu casamento com seu parente o 3.° conde D. João Mas- 



descende D. João da Silva, meu muito presado sobrinho e meu mordomo mor. .. e estar 
casado de licença minha com D. Luísa Maria de Meneses, dama da Rainha, etc. Carta de 
título de marquês de Gouveia de juro e herdade. — Ofícios e mercês de D. João IV,Ai\. 27. , 
fl. 110. 

(1 ) Monstruosidades do tempo e da fortuna, pág. 149. 

(2) Estas datas são do P.e Sousa na Historia genealógica, vol. X, pág. 143. 

(3) Monstruosidades, pág. 298. 

(4) Ofícios e mercês de D. Afonso VI, liv. 27. , fl. 94. 

vol. n 5 



34 



Brasões 



carenhas. O outro D. João Mascarenhas, neto dêste, foi 5.° conde de Santa 
Cruz em sucessão a seu pai, por carta de 11 de Julho de 1676(1); herdou 
a casa de seu tio o 2. Marquês de Gouveia e a propriedade do ofício de 
mordomo mor da qual teve carta em 24 de Setembro de 1686(2). Morreu 
a 12 de Agosto de 1691, havendo casado em Castela com D. Teresa de 
Moscoso Osório, filha dos 5. 0S Marqueses de Almazan e posteriormente mar- 
quesa de Santa Cruz e aia do príncipe D. José. Tiveram, entre outros filhos, 
a D. Martinho Mascarenhas, adiante, e a D. Gaspar de Moscoso e Silva. 

D. Gaspar foi o famoso Fr. Gaspar da Encarnação, ministro assistente 
ao despacho do gabinete de D. João V, de quem mais propriamente se pode 
considerar haver sido o primeiro ministro. Havia nascido a 17 de Maio de 
i685, e sido porcionista do colégio de S. Pedro de Coimbra, onde entrara a 
3«de Dezembro de 1701 ; doutorara-se em cânones pela Universide de Coimbra 
e fôra arcediago de Neiva na sé de Braga, deão na sé de Lisboa, reitor da 
Universidade de Coimbra, em 26 de Outubro de 17 10, com dispensa de 
idade por ainda não ter trinta anos, reformador da mesma Universidade, em 
12 de Outubro de 171 3, deputado do Santo Ofício, sumilher da cortina de 
D. João V e do seu conselho, de quem recusou mercês muito grandes por 
tomar o hábito de S. Francisco na reforma do Varatojo, e o vestiu em 21 de 
Junho de 17 15, professando um ano exacto depois, e então tomou o nome 
de Fr. Gaspar da Encarnação. Foi mestre de noviços no seu convento de 
Varatojo, em 24 de Agosto de 1723, guardião da casa, visitador e reformador 
da congregação dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, por bula de 24 
de Abril de 1723. Fez a reforma desta Ordem muito a contento de D. João V, 
que sempre teve por êle grande estima e como prova lhe entregou, em 1728, 
seus filhos naturais D. António e D. Gaspar e, em 1730, D. José, os três 
meninos de Palhavã. Finalmente nomeou-o ministro assistente ao despacho 
do gabinete em sucessão ao Cardial da Mota, falecido a 4 de Outubro de 
1747 (3). Exerceu a maior influência sôbre el Rei, e a ela deveu seu sobrinho 
o Marquês de Gouveia ser-lhe sentenciada a casa de Aveiro. Morreu Fr. Gas- 
par a 25 de Novembro de 1752. 

D. Martinho Mascarenhas, 6.° conde de Santa Cruz, por carta de 22 de 
Novembro de 1691 (4), e mordomo mor da casa real, por outra de 27 do 
mesmo mês (5), tudo em sucessão a seu pai, serviu constantemente no paço 



(1) Ofícios e mercês de D. Afonso VI, liv. 46. , fl. 562 v. 

(2) Ofícios e mercês de D. Pedro II, liv. 33.°, fl. 42. 

(3) Luz Soriano, Historia do reinado de el-rei D. José, I, 1 65. 

(4) Ofícios e mercês de D. Pedro II, liv. 3j.°, fl. 119. 

(5) Ibidem, liv. 19. , fl. 304. 



Silvas 



35 



e D. João V fez-lhe mercê, por carta de 8 de Novembro de 171 1, do trata- 
mento de conde parente, em sua vida(i), e por outra de 17 de Janeiro de 
1714, também em sua vida, do título de marquês de Gouveia (2). Morreu o 
3.° Marquês de Gouveia a 9 de Março de 1723, tendo casado a 2 de Junho 
de 1698 com D. Inácia Rosa de Távora, dama do paço, filha dos 2. 0S Marqueses 
de Távora, a qual, ficando viúva, entrou para o mosteiro da Conceição da 
Luz, onde professou em 1725. Deste casamento nasceu, em 1699, D. João 
Mascarenhas, 7. conde de Santa Cruz, em sua vida, por carta de 20 de Ja- 
neiro de 1714(3), 4. Marquês de Gouveia com honras de parente, por carta 
de 12 de Dezembro de 1722, também em vida (4), e mordomo mor da casa 
real de propriedade, por carta de 22 de Março de 1723 (5). Casou em 1718 
e desapareceu de Lisboa na noite de 1 1 de Novembro de 1724, levando con- 
sigo D. Maria da Penha de França de Mendoça, dama do paço, mulher do 
mestre sala D. Lourenço de Almada. Ela abandonava marido e filha para 
fugir com o Marquês, mas foi prêsa em Túi à ordem do Bispo e recolhida a 
um mosteiro, internando-se D. João Mascarenhas por Espanha dentro, d'onde 
depois partiu para Inglaterra (6). Dêle não tenho mais notícias e já estava 
morto em 1739, quando a seu irmão foi dado o título de conde de Santa 
Cruz. Outro filho dos 3. 0S Marqueses de Gouveia foi D. José Mascarenhas 
que continuou a casa. E ainda tiveram mais a D. Francisca das Chagas 
Mascarenhas, condessa do Lavradio, que em 1726 casou com D. António de 
Almeida, i.° conde do Lavradio e 4. de Avintes, futuro i.° Marquês do 
Lavradio criado já depois da morte de sua mulher ocorrida em 1733. 

D. José Mascarenhas sucedeu na casa a seu irmão, foi 8.° Conde de Santa 
Cruz, com honras de conde parente, e u.° mordomo mor da casa real na 
sua família, tudo em sua vida somente, por três cartas de i3 de Agosto de 
1739(7), e finalmente 5.° marquês de Gouveia, também em sua vida, por 
carta de 8 de Julho de 1741 (8). Veio outrosim a suceder na casa de Aveiro, 
excluídas as comendas, por sentença de 1749, confirmada na Relação em 26 
de Maio de 1722, tomando posse por decreto de 17 de Agosto do mesmo 



(1) Ofícios e mercês de D. João V, liv. 3j.°, fl. 154. 

(2) Ibidem, liv. 38.°, fl. 338. 

(3) Ibidem, liv. 40», fl. 48. 

(4) Ibidem, liv. 60.°, fl. 352 v. 

(5) Ibidem, fl. 353 v. 

(6) Description de la ville de Lisbonne, Paris, 1730, pág. 75; Camilo Castelo Branco, 
Noites de insomnia, n.° 4, pág. 43. 

(7) Ofícios e mercês de D. João V, livs. 98. , fls. 40 e 3g v. ; e 94. , fl. 379. 

(8) Ibidem, liv. 102. , fl. 134 v. 



36 Brasões 

ano(i). D'então por diante passou a chamar-se D. José Mascarenhas de 
Lancastre, e D. José I fez-lhe mercê, na terça feira 3o de Setembro de 
1755, do título de duque de Aveiro (2), do qual se lhe veio a passar carta, 
em sua vida, em Mafra, a 4 de Outubro seguinte (3). Foi o 8.° e último 
Duque de Aveiro, o justiçado na praça de Belém no fatal dia i3 de Janeiro 
de 1759. Para os supersticiosos notarei haver D. José Mascarenhas sido 
criado duque numa terça feira, e sido executado num dia treze. 

Deixou um filho, D. Martinho Mascarenhas de Lancastre, 9. conde de 
Santa Cruz e 6.° marquês de Gouveia, em sua vida, por carta de 10 de 
Agosto de 1756(4). Em seguida ao atentado de seu pai foi exautorado de 
todas as honras, e aos dezanove anos encarcerado no forte da Junqueira, 
onde esteve até 1777, quando, por morte dei rei D. José, saíram os presos. 
Encontrou então os morgados da sua casa na do Lavradio e todos os bens 
livres confiscados e vendidos; achou-se pois sem rendimentos nenhuns. Ne- 
gando-se-lhe a residência na corte, foi para Almeirim para a quinta de seu 
tio o Marquês de Alorna, a quem serviu de feitor, fazendo óptima adminis- 
tração. Seu primo, o Marquês de Alorna D. Pedro, quando organizou a 
Legião Portuguesa, conseguiu que se desse a D. Martinho Mascarenhas o 
pôsto de alferes e que o príncipe D. João o recebesse. Apresentado o ex- 
-Marquês na corte, foi-lhe concedida pelo Príncipe Regente uma pensão de 
cem mil réis. Morreu com sessenta e três anos, aí por i8o3 ou 1804, numa 
humilde casa na rua da Lapa, em Buenos Ayres, onde residia (5). 

As armas dos Condes de Portalegre e Marqueses de Gouveia, da varonia 
dos Silvas, foram as desta casa sem mistura. As dos Marqueses, com a 
varonia de Mascarenhas, foram: partido: o I de vermelho, três faxas de oiro 
(Mascarenhas); o II de prata, lião de púrpura, armado e linguado de azul 
(Silva). Coroa de marquês. Timbre: lião de vermelho, armado e linguado 
de oiro. As últimas, depois de herdada a casa de Aveiro, foram: partido: 
o 1 das armas do reino diferençadas por um filete de negro sobposto em 
barra (Lancastre); o II cortado de Mascarenhas sôbre Silva. Coroa de 
duque. Timbre: pelicano de oiro, tirando sangue do peito para alimentar 
os três filhos, também de oiro, tudo pôsto sôbre um ninho de vermelho. 



( 1 ) P e D. António Caetano de Sousa, Memorias históricas e genealógicas dos grandes 
de Portugal, ed. de 1755. pág. 26. 

(2) Gaveta de Lisboa de 9 de Outubro. 

(3) Chancelaria de D José, liv. 84. , fl. 175. 

(4) Ibidem, liv. 67. , fl. 120. 

(5) Luz Soriano, Historia do reinado de el-rei D. José, I, 397. 



Silvas 



37 



iy 

CONDES DE CIFUENTES 

Do segundo Gomes Pais da Silva foi filho, nascido do seu segundo con- 
sórcio, João Gomes da Silva. Casou este, também como seu pai, por duas 
vezes e da mesma maneira teve um filho varão de cada uma de suas mulheres: 
Aires Gomes da Silva e João Gomes da Silva. Ao primeiro destino este 
capítulo; ao segundo pertencerá o capítulo seguinte. 

A primeira notícia documental que encontro relativa a Aires Gomes da 
Silva, o Moço, como o designam os genealogistas, note-se, os genealogistas 
e não os documentos (1), é numa carta de 29 de Setembro de 1396 ( 1 3 5 8) já 
citada. Por ela mandou D. Pedro I entregar, em quanto fôsse sua mercê, a 
Aires Gomes da Silva, seu vassalo, aio do infante D. Fernando, a quintã da 
Silva no almoxarifado de Valença; doação temporária tornada perpétua por 
outra carta de ib de Julho do ano seguinte, na qual Aires Gomes aparece 
com os mesmos qualificativos, especificando-se o seu muito serviço a el Rei 
e ao infante D. Fernando (2). 

Entrando êie a reinar a 18 de Janeiro de i3t>7, manifestou logo por várias 
doações e mercês quanto era afeiçoado ao seu antigo aio. Desta forma man- 
dou-lhe entregar, por cartas de 8 e 10 de Abril e 7 de Setembro daquele 
ano, os castelos Je Valença, Guimarães e Cerveira (3); e fez-lhe doação, por 



(1) Entre os documentos aparece uma carta régia, dada no arraial de sobre Chaves a 
1 de Março de 1424 ( 1 386), pela qual D. João I fez doação a Aires Gomes, o Moço, seu vas- 
salo, dos lugares ún Felgosinho e da Sadarça, com as jurisdições, tudo de juro e herdade 
(Chancelaria de D. João I, liv. fl. 173). Decorridos poucos anos, por carta de 20 de Abril 
de 1428 (i3qo), foi confirmado a Egas Coelho o lugar de Felgosinho (Ibidem, liv. 2. , fl.43 v.) ; 
estava portanto já fora da posse de Aires Gomes, o Moço. Este não podemos identificar 
com o Aires Gome Ja Silva, o Moço, dos genealogistas, porque ele morreu, como veremos, 
em Junho de 1 385 ; não temos motivos para o julgar pertencente à família Silva, antes 
devemos supôr ser ele o mesmo Aires Gomes, o Moço, nomeado pelo cronista entre os escu- 
deiros da guarnição do castelo de Guimarães em 1 385, quando D. João I o reduziu. Entregue 
o castelo, seria Aires Gomes, o Moço, um dos bons escudeiros que ficaram com D. João I, 
«aos quaes elRey perdoou do caso menor ate ho mayor» (Crónica de D. João I, part. II, 
caps. 10 e i3). Chamar-se hia o Moço para se distinguir doutro Aires Gomes, o Velho, um 
dos capitães que em 1384 vieram com o Arcebispo de Santiago assolar a comarca de Entre 
Doiro e Minho (Ibidem, part. I, cap. 117). 

(2) Chancelaria de D. Pedro I, liv. fls. 4 v. e 33 v. — Estes dois diplomas confron- 
tados com o outro de 3 de Julho de 1 35y, relativo a Airas Gomes da Silva, o Grande, servem, 
muito bem para distinguir os dois primos homónimos. 

(3) Chancelaria de D. Fernando, liv. fis. 7, 6 v. e 16 v. 



38 



Brasões 



jur de herdade, por duas cartas, ambas de 8 de Abril, dos lugares'de Unhão, 
Vilar de Torno, Manhuncelos, Atães, Vila Caís, Brunhais e Regilde, na co- 
marca de Entre Doiro e Minho, com a jurisdição cível somente, na primeira 
carta, e com as duas jurisdições, na segunda (i). Ambos os diplomas se 
referem aos muitos serviços de Aires Gomes da Silva, seu vassalo, que foi 
seu aio, e à criação que lhe ajudou a fazer. A estas doações seguiu-se outra, 
também por jur de herdade, do lugar de Cepães, em Entre Doiro e Minho, 
doação feita por carta de i5 de Agosto do mesmo ano, na qual se refere ao 
muito serviço que lhe fez, assim na sua criação, como em outras muitas 
coisas ( 2). 

No ano seguinte consta estar já casado com Urraca Mendes, sua segunda 
mulher, de uma carta pela qual el rei D. Fernando fez doação, de juro e her- 
dade, a Aires Gomes, a sua mulher Urraca Mendes e a todos seus herdeiros 
e sucessores da quinta de Palma, em termo de Monforte (3). Em 1 37 1 era 
alféres mor, como se declara na notável carta de 22 de Dezembro, de doação 
por juro de herdade da terra de Meinedo do julgado de Lousada (4). Mais 
nenhuma doação lhe fez D. Fernando de juro e herdade, pôsto que muitas 
outras se registassem na sua Chancelaria (5), encontrando-se nela com o 



(1) Chancelaria de D. Fernando, liv. fls. 4 e 14. — Na segunda carta declara-se que 
haverá Aires Gomes as jurisdições daquelas terras, as quais haviam sido de D. Afonso San- 
ches, como ele as houve, e bem assim o conde D. Martinho e D. João Afonso de Albuquerque 
e D. Martinho seu filho, neto do dito D. Afonso Sanches. 

(3) Ibidem, fl. i5 v. — O lugar de Cepães também fôra de D. Martinho de Albuquerque. 

(3) Consirando os muitos e altos serviços e obras de grandes merecimentos, que me 
sempre fez e faz mui leal e verdadeiramente Airas Gomes da Silva, meu vassalo, doação a 
ele e a Urraca Mendes sua mulher da quinta de Palma, etc. — Chancelaria de D. Fernando, 
liv. fl. 3i v. 

(•4) Consirando os muitos e altos serviços e grandes merecimentos, que nos sempre fez 
e faz, mui leal e verdadeiramente. Airas Gomes da Silva, nosso vassalo e alféres mor, que 
nós dêle recebemos, assi em nos ajudar a criar de pequeno, sendo nosso aio, como em 
guerras grandes que houvemos, e aguardamentos que sempre dêle houvemos e recebemos 
em se não partir de nós, em todos tempos que foram, sem nossa licença e mandado, assi 
durando a guerra, como sem ela, etc. — Chancelaria de D. Fernando, liv. fl. 87 v. 

(5) Querendo fazer graça e mercê a Airas Gomes da Silva, meu vassalo, por muito ser- 
viço, doação de umas casas em Monforte juntamente com a quinta de Palma, Coimbra, 6 de 
Novembro de 1407 036c)). Nova carta de doação das mesmas casas, Santarém, 12 de Junho 
de 1408 (1370). Em pagamento dos seus maravedis, doação, em quanto fosse sua mercê, 
de certos direitos, rendas e foros da Atouguia, de uma vinha, do Baleai e dos paços da Serra, 
com suas pertenças, Santarém, 12 de Julho de 1408 (1370). Entrega das rendas e direitos 
da vila de Leiria, a fora dos direitos dos Judeus, para servir com certas lanças, Santarém, 
12 de Abril de 1411 (i373). Entrega dos direitos da terra de Loureiro, do almoxarifado de 
Guimarães, em pagamento de sua tença, para servir com certas lanças, Lisboa, 16 de Julho 
de 141 1 (i373). — Chancelaria de D. Fernando, liv. fls. 47, 63, 67 e 1 19. 



Silvas 



39 



posto de alferes mor ainda em mais três cartas, pelo menos. Numa, de 8 de 
Fevereiro de 1417 (1379), de doação, por juro de herdade, da terra de Aguiar 
de Pena a Gonçalo Gomes da Silva, por muitos e estremados serviços que 
recebemos de Airas Gomes da Silva, nosso vassalo e alferes mor, seu padre; 
noutra, de i de Julho de 1418 (i38o), de confirmação, a requerimento de 
Airas Gomes da Silva, nosso vassalo e alferes mor, dos privilégios dos mora- 
dores da terra de Ferreira de Aves, a qual êle adquirira por escambo do 
conde D. Álvaro Pires de Castro, a quem fôra doada, quando foi confiscada 
a Diogo Lopes Pacheco; a terceira, de 18 de Novembro de 1420 (i382), 
pela qual mandou dar a Airas Gomes da Silva, seu vassalo e alféres mor, 
o traslado autêntico de certa carta dei Rei de Castela (1). 

Em várias passagens da Crónica de D. Fernando de Fernão Lopes é 
mencionado Aires Gomes da Silva: em 1372, acalmando o furor dei Rei contra 
seu irmão o infante D. Denis, quando êste se recusou a beijar a mão de 
Leonor Teles; no ano seguinte, acompanhando el Rei, quando foi falar no 
Tejo com Henrique II de Castela; em 1377, intervindo, junto dei Rei para 
dele alcançar o perdão do infante D. João. Ainda se refere o cronista ao 
facto de Aires Gomes haver sido enviado em 1376 a Castela, com seu cunhado 
D. Pedro Tenório, bispo de Coimbra, sendo então do conselho e alféres mor, 
pessoa «a que el Rei queria gram bem»' e fôra seu aio. 

Quando se deram os alvoroços no reino por morte 'de D. Fernando, dei- 
xou-se ficar Aires Gomes da Silva no castelo de Guimarães, do qual era 
alcaide, mantendo-o pela Rainha de Castela. Terminadas as Cortes de 
Coimbra e aclamado D. João I, seguiu êle para o Porto e d'aí foi acometer 
Guimarães, cujo castelo tomou por preitesia. Estava lá, como já disse, por 
alcaide e fronteiro Aires Gomes da Silva, com oitenta escudeiros bons e bem 
fidalgos; era êle porém «ja dioso e adorado, posto nos anos. da madura 
velhice, e era ho mais homrado de seu linhagé" e fora.ayo delRey dom Fer- 
nando, avya fermoso e be pareçemte corpo, e tragia grão casa de fidalgo, e 
sua molher era Castelaã, chamada donna Horraca Tenório, irmã de dom 
Pedro Tenoryo, arçebispo de Toledo» (2). Pediu socorro a D. João I de 
Castela e, como não lho podesse mandar, entregou o castelo a D. João I de 
Portugal. Foi isto no comêço do mês de Junho de i385, e o Alcaide, por 
ser «velho e não bé são, levarão-no fora é colos de homés, e poucos dias 
despois desto morreu a qui no Reyno, e deu elRey seus bés e de sua molher 
a Mê Roiz de Vasconçelos e a Lopo Diaz dAzevedo e a João Gomez da 



(1) Chancelaria de D. Fernando, liv. 2. , fls. 38 e 65, e liv. 3.°, fl. 26. 

(2) Fernão Lopes, Crónica de D. João 7, part- II, cap. 10. 



40 



Brasões 



Silva, e a vila deu ao Condestabre; e dona Hurraca foyse para Castela» (i). 
Concorda com o cronista português o cronista castelhano, dizendo: E Arias 
Gome\, pasados los quarenta dias dei empla\amiento, ávido el mandamiento 
dei Rey de Castilla, entrego el Castillo de Guimaranes; ca la inlla era ya 
tomada, que non se pndo defender: é á poços dias que ovo entregado el Cas- 
tillo morió(i). 

Havia Aires Gomes da Silva casado por duas vezes: da primeira com 
D. Mor Peres Varela, filha de Pero Migueis Palha, «hum burguês de San- 
tiago», conforme as indicações do Nobiliário do Conde D. Pedro; da se- 
gunda com D. Urraca Mendes, com quem já estava casado em Setembro de 
i368, segundo declara um documento acima citado. D. Urraca era irmã de 
D. Pedro Tenório, arcebispo de Toledo (3), para onde fôra transferido do bis- 
pado de Coimbra, por ele ocupado nos anos de 137 1 a 1378. 

Do seu primeiro casamento teve Aires Gomes pelo menos um filho, Gon- 
çalo Gomes da Silva, a quem, intitulando-o seu vassalo, fez D. Fernando 
doação, «por muitos e estremados serviços que recebemos de Airas Gomez 
da Silva, nosso vassalo e alféres mor, seu padre, e dêle entendemos de re- 
ceber», da terra de Aguiar de Pena, por jur de herdade. Foi a carta dada 
nos paços reais de Vila Nova da Rainha, a 8 de Fevereiro de 141 7 (1379) (4). 
Pouco mais tempo teve de vida Gonçalo Gomes, segundo creio e os docu- 
mentos meus conhecidos corroboram. Efectivamente, por carta de 18 de 
Novembro de 1420 (i38a), deu D. Fernando ordem ao Almoxarife de Chaves 
para não pôr embargos e deixar haver e levar os direitos da terra de Aguiar 
de Pena a Aires Gomes da Silva, a quem ela havia sido dada em préstamo (5). 
Já então não devia Gonçalo Gomes ser vivo, e não o era com certeza, quando, 
por carta de 24 de Agosto de 1423 (i385), D. João I fez doação da referida 
terra de Aguiar de Pena, de juro e herdade, a Lopo Dias de Azevedo (6). 



(1) Fernão Lopes, Chronica de D. João I, part. IL cap. i3. 

(2) Don Pedro Lopez de Ayala, Crónica dei Rey Don Juan el primero de Castilla, ed. 
de Sancha, pág. 216. — Esta edição foi feita con las... correcciones y notas anadidas por 
Don Eugénio de Llaguno Amirola . . de la Real Academia de la Historia. Em nota pois 
à pág. cit., lê-se : En un privilegio dei mismo Rey Don Juan dado en Medina dei Campo 
á 30. dias de Diciembre afio de i388. se encarece la fidelidad y lealtad grande de Arias 
Gome\ de Silva, y de Dona Urraca Tenório su muger, que por su serviçio,y el de la Reyna 
Dona Beatrij perdieron «quanto en el mundo avian en el su Reyno de Portugal: Fué 
Dona Urraca Tenório aya de la Reyna Dona Beatrij, como Arias Gomej lo avia sido dei 
Rey Don Fernando su padre. 

(3) Fernão Lopes, Crónica de D. João I, part. II, cap. 10. 

(4) Chancelaria de D. Fernando, liv. 2. , fl. 38. 

(5) Ibidem, liv. 3.°, fl. 26. 

(6) Chancelaria de D. João I, liv. f.», fl. 88 v. 



Silvas 



4i 



Este diploma contêm dados interessantes. Nele declara el Rei: demos de 
jur e herdade a Lopo Dias de Azevedo, nosso vassalo, a terra de Aguiar e, 
a terra de Boiro, no almoxarifado de Guimarães, e depois, quando fomos a 
Antre Doiro e Minho e cobramos Guimarães, demos a dita terra de Aguiar 
à Aires Gomes da Silva e a de Boiro a Afonso Gomes (àliás Fernão Gomes, 
como se depreende dos restantes dizeres do diploma); e por quanto o dito 
Aires Gomes é morto e seu filho Afonso Gomes se não veio a nosso serviço, 
etc. Esta parte do diploma é relativa à terra de Aguiar de Pena; segue 
depois a parte respectiva à terra de Boiro: e outrosi o dito Fernão Gomes 
esteve sempre e está em nosso desserviço, etc. Em conclusão, faz das terras 
mercê a Lopo Dias, porquanto foi comnosco em esta batalha (a de Aljubar- 
rota) e conclui nos termos costumados. Do teor dêste documento parece 
depreender-se que D. João I, em seguida à tomada de Guimarães, ainda se 
compusera com Aires Gomes, pois lhe doara a terra de Aguiar de Pena; mas 
tal suposição é destruida pelos termos precisos das doações das terras de 
Aires Gomes a seu sobrinho João Gomes da Silva. Transcrevê-los-hei, 
aproveitando-os também para mostrar que ao tempo da morte de Aires 
Gomes só existia um filho seu e esse era Afonso Gomes. Vejamos pois. 

Na carta de 5 de Setembro de 1423 (1 385) de doação a João Gomes da 
Silva de todolos bens de Aires Gomes e de sua mulher D. Branca (aliás, 
D. Urraca), diz-se: por quanto o dito Aires Gomes, atá o tempo de sua 
morte, esteve em nosso desserviço e -ora depois a dita D. Branca (aliás, 
D. Urraca) e o dito Afonso Gomes seu filho se foram pera nossos inimigos (1). 
Na carta de 25 de Junho de 1432 (i3g4) de confirmação a João Gomes da 
Silva dos privilégios concedidos por el rei D. Fernando a Aires Gomes da 
Silva, «irmão de seu padre», declara-se fazer-lha: por quanto hi não ficava 
outro filho maior lídimo que de direito deva e haja de haver, nem de gouvir 
dos ditos privilégios (2). Finalmente, na carta de 27 de Fevereiro de 1450 
(1412), de doação da terra de Meinedo a João Gomes da Silva, alféres mor, 
por ela ter pertencido a Aires Gomes da Silva e a D. Urraca sua mulher, e 
estar compreendida na doação dos bens deles a João Gomes feita: por quanto 
o dito Airas Gomes estivera sempre em nosso desserviço atá o tempo que 
se morreu, e depois a dita D. Urraca, sua mulher, e seu filho Afonso Gomes 
se foram pera nossos imigos (3). 

Fique pois entendido: Aires Gomes da Silva teve de sua primeira mulher 
um filho chamado Gonçalo Gomes da Silva, o qual faleceu antes do pai; e 



(t) Chancelaria de D. João 1, liv. fl. 90 v. 

(2) Ibidem, liv. 2. , fl. 97. 

(3) Ibidem, liv. 3.°, fl. *i36. 

YOL. II 



6 



\ 



42 



Brasões 



teve de sua segunda mulher outro filho, de nome Afonso Gomes da Silva, o 
qual com sua mãe passou para Castela. Os documentos provam estas asser- 
ções; tudo mais é fantasia. 

Falando de Afonso Gomes, aponta Salazar y Castro para uma carta de 
D. Fernando, de 16 de Fevereiro de 141 7 (1379), registada no seu liv. 2. a 
fl. 38, pela qual certa mercê foi feita a Alonso Gomes da Silva, filho de 
Aires Gomes da Silva, etc. (1). A referida carta é a de doação da terra de 
Aguiar de Pena a Gonçalo Gomes da Silva, o outro filho de Aires Gomes, 
e o diploma já lá ficou citado acima. Assim como neste ponto o genealo- 
gista espanhol errou, não sei se acertou na filiação da segunda mulher de 
Aires Gomes da Silva. Ela chamou-se Urraca Mendes, patronímico igno- 
rado de Salazar, mas provado por um documento, e não acho muito fácil de 
admitir que, naqueles tempos, ela fôsse filha de um Afonso; isso porém é 
secundário, porque na verdade parece ser D. Urraca da família de Tenório. 
Pelo menos, seu filho, depois de assentar a sua residência em Castela, passou 
a chamar-se Alonso Tenório. Foi adiantado de Cazorla, senhor de Barciente, 
e teve de sua mulher D. Guiomar de Mèneses, alem doutros filhos, a D. João 
de Silva. 

D. João de Silva conde de Cifuentes em 1455(2) morreu em 1464, tendo 
casado por duas vezes. O primogénito de seus filhos foi o 2. Conde de 
Cifuentes e nos seus descendentes se continuou a casa, a qual em 1602 entrou 
por casamento na dos Manriques Padillas e Acunas, Condes de Santa Gadea 
e Buendia, grandes de Espanha. 

Do segundo casamento de D. João de Silva nasceu primeiro filho D. João 
de Ribera, senhor de Montemayor, terra herdada de sua mãe. Dêle foi filho 
primogénito D. João de Silva y Ribera, i.° marquês de Montemayor em 1 538, 
no próprio ano de sua morte (3). De sua primeira mulher teve vários filhos; 
o mais velho foi outro D. João de Silva y Ribera, 2. marquês de Monte- 
mayor, em cujos descendentes se continuou a casa; um dos filhos segundos 
foi D. Manrique de Silva, mestre sala da imperatriz D. Isabel e de seu filho 
D. Felipe em quanto príncipe. Casou D. Manrique com uma senhora por- 
tuguesa, D. Beatriz da Silveira, dama da Imperatriz e filha de Martim da 
Silveira, alcaide mor de Terena, e de sua mulher D. Caterina da Azambuja. 
Dêles nasceu D. João de Silva, embaixador de Felipe II em Portugal, onde, 
tendo enviuvado sem filhos D. Felipa da Silva, herdeira da casa de Porta- 



(1) Historia de la Casa de Silva, I, 1 85. 

(2) Salazar y Castro, Casa de Silva, I, 242 ; Haro no Nobiliário de Espafia, I, 534, declara 
haver o título sido concedido no ano anterior. 

(3) Git. Casa de Silva, l, 471-472. 



Silvas 



43 



lcgre, com ela casou por ordem de D. Sebastião e a pedido dei Rei de Es- 
panha. Pelo seu casamento veio D. João a ser o 4. conde de Portalegre, 
como acima ficou dito. 

Os Condes de Cifuentes trouxeram por armas: de prata, lião de púr- 
pura, armado e linguado de azul, e coroado de oiro (Silva). Os Marqueses 
de Montemayor traziam o escudo partido das precedentes, e de oiro, carre- 
gado de três faxas de verde (Ribera). 

Como fica advertido, confundiu desastradamente Salazar y Castro os dois 
Aires Gomes da Silva, o Velho, e o que foi aio de D. Fernando e seu alíéres 
mor; por isso não há que fiar numa linha por êle deduzida no cap. 2. do 
liv. 6.° da sua Historia de la casa de Silva. Aí apresenta-nos um Aires 
Gomes da Silva, o Moço, ao qual faz alcaide mor de Chaves e senhor dos 
lugares de Felgosinho e da Sadarça, os quais, como já lá acima ficou expli- 
cado, foram doados a um Aires Gomes, o Moço, que não era Silva. Fá-lo 
casado por duas vezes e como primeira mulher nomeia-lhe D. Mor Peres 
Varela, a primeira mulher do Aires Gomes da Silva, aio de D. Fernando e 
seu alferes mor; e, fundando-se em conjecturas absolutamente arredadas dos 
documentos e da tradição, dá ao outro por filho a Rui Gomes da Silva, 
alcaide mor de Campo Maior e Ouguela. Como segunda mulher atribui ao 
seu Aires Gomes D. Leonor da Fonseca, senhora portuguesa, irmã do car- 
dial D. Pedro da Fonseca. Refiro-me a estas notícias, nada fundamentadas, 
do genealogista espanhol, porque na verdade existiram uns ramos obscuros 
de Silvas em Toro, Toledo e Cidade Rodrigo, e não quero deixar de os men- 
cionar, sem garantir contudo por forma nenhuma, que houvessem sido dos 
verdadeiros Silvas por varonia. 

D'entre aqueles houve um, também chamado Aires Gomes da Silva, o qual 
foi regedor de Toledo e dele foi filho segundo Rodrigo de Fonseca, apelido 
tomado em memória de sua avó, afirma Salazar y Castro. Casou este Ro- 
drigo em França com Luísa de Clermont, senhora de Surgères no Delfi- 
nado, e fundaram a casa dos Fonsèque, senhores e barões de Surgères, os 
quais traziam por armas o escudo esquartelado: o I e IV de oiro, cinco 
estrelas de vermelho (Fonseca); o II e III de vermelho, lião de oiro coroado 
do mesmo (Silva, com os esmaltes alterados) (1). Helena de Fonsèque, 
senhora da baronia de Surgères, casou com Isaque de la Rochefoucauld, barão 
de Montendre, e foram os progenitores dos Marqueses de Surgères, Duques 
de Doudeauville, dos quais saiu o ramo dos Duques de Bisaccia. 



( 1 ) Père Anselme, Histoire généalogique et chronologique de la Maison Royale de France, 
4«.édition, corrigée, annotée et completée par M. Potier de Coucy, IV, págs. 141 e 412. 



44 



Brasões 



V 

SENHORES DE VAGOS 
CONDES DE AVEIRAS E MARQUESES DE VAGOS 

No princípio do cap. IV já ficou nomeado Gonçalo Gomes da Silva na 
sua qualidade de filho do segundo casamento de João Gomes da Silva, o 
Velho, designação a êle dada pelos genealogistas a fim de o distinguirem de 
seu neto do mesmo nome. 

No reinado de D. Pedro I, no qual já se encontram notícias do aio do 
Infante Aires Gomes da Silva, meio irmão de Gonçalo Gomes, nada consta 
da existência deste, e só em tempos de D. Fernando êle nos aparece men- 
cionado em vários documentos. Por estes sabemos haver Gonçalo Gomes 
sido cavaleiro, vassalo dei Rei, alcaide mor do Sabugal e de Montemor o 
Velho, senhor das terras de Nespereira e das Motas, em termo de Viseu, e 
possuidor doutras rendas reais (i). Morto D. Fernando, quando o Mestre 
de Avis, seguindo do cêrco de Torres Vedras, passou em fins de Fevereiro, 
ou princípios de Março, por Montemor o Velho, veio o Alcaide mor recebê-lo 
e pôr-se às suas ordens. Reconheceu-lhe logo D. João a fidelidade, fazendo- 
-lhe mercê, em 18 de Março de 1 384, dos lugares de Tentúgal e Buarcos de 
jur de herdade (2) e, pouco tempo passado, «vendo e consirando em como 



(1) Na Chancelaria de D. Fernando encontram-se os seguintes registos relativos a Gon- 
çalo Gomes da Silva: doação da terra de Nespereira de Mondim de apar de Viseu, em 
pagamento de seus maravedis, em 7 de Maio de 1406 (1 368) ; mercê do castelo do Sabugal, 
em Lisboa, a 29 de Setembro do mesmo ano; doação por jur de herdade de todos os bens 
móveis e de raiz de Rui Barba, em Coimbra, a i5 de Setembro de 1407 (1369); doação por 
jur de herdade da terra de Nespereira e das Motas em termo de Viseu, no Olho Marinho, a 
3o de Agosto de 1408 (1370); doação de certos direitos em pagamento de sua contia, em 
Tentúgal, a 8 de Outubro de 1410 (1372); entrega das rendas dos almoxarifados de Mon- 
temor o Velho e de Buarcos, em pagamento de sua contia para servir com certas lanças, 
em Lisboa, a 25 de Maio de 141 1 ( 1 3y3) ; quitamento para sempre do 4. das herdades por 
êle compradas no reguengo de Tentúgal e do 8.° do vinho, na Guarda, a 24 de Agosto de 
141 5 (1367); doação do jantar de Covelo, almoxarifado de Viseu, em Estremoz, a i5 de 
Agosto de 1420 ( 1 382) ; confirmação da precedente mercê por lha não quererem cumprir, 
em Rio Maior, a 8 de Dezembro do mesmo ano. — Liv. As. 26 v., 32, 44 v., 68, 1 13 e i32 v; 
liv. 2.°, fl. i3 v. ; e liv. 3.°, fls. 17 e 32 v. 

(2) Chancelaria de D. João 7, liv. fl. 3. — A doação de Buarcos não foi mantida, como 
consta de uma carta de 24 de Agosto do mesmo ano. Declara ela que D. Fernando, olhando 
aos muitos serviços de Alvaro Gonçalves de Azevedo e de seu pai Gonçalo Vasques de Aze- 
vedo, doara àquele de jur de herdade o lugar de Buarcos, com seus termos e direitos, tanto 




Silvas 



45 



Gonçalo Gomes da Silva nos faz serviço em esta guerra por defensão dos 
reinos», fez-lhe nova mercê do lugar de Cantanhede, com seu termo e juris- 
dição, por carta dada em Lisboa a 3i de Agosto do mesmo ano (1). Assistiu 
Gonçalo Gomes às Cortes de Coimbra de i385, nas quais foi aclamado 
D. João I e dele recebeu, por cartas lá passadas a 17 e 18 de Abril, doação 
para sempre de todolos bens móveis e de raiz possuídos, na cidade e seu 
termo, por Lopo Afonso, escrivão que fora da Rainha; e, em quanto fosse 
mercê dei Rei, de todas as rendas e direitos do lugar de Montemor o Velho 
e seu termo, do castelo do qual Gonçalo Gomes era alcaide (2). 

Encerradas as Cortes mandou D. João I uma embaixada a Roma, ao papa 
Urbano VIII, a solicitar a dispensa dos seus votos a fim de poder contrair 
matrimónio, e por embaixadores foram o Bispo de Évora e Gonçalo Gomes 
da Silva. Pouco tempo porém permaneceu o fidalgo fora do reino, pois que 
veio morrer a Évora a 10 de Dezembro do ano seguinte, segundo se lê no 
seu epitáfio no mosteiro de S. Marcos da freguesia de S. Silvestre do Campo 
próximo de Coimbra, por mim copiado no dia 7 de Outubro de 1902 e reza 
assim: 

GOMES 

AQVI IAS O BOM CAVALEIRO GONÇALO DA SILVA 
LEAL SERVIDOR E VASALLO DO MVI NOBRE REI DÕ 
IOHÃO O I o O QVAL POR HONRA E PROL DESTES REI 
NOS SERVINDO EM MANDADO DE SEV SNÕR 
FOI A ROMA EM MESAIEM E TORNANDO DALO 
DADA SVA REPOSTA ACABOV SEVS DIAS EM 
ÉVORA X DIAS DE DEZEMBRO ERA 1424 
ANNOS CVIVS OSSOS MANDOV AQVI 
TRESLADAR O REGEDOR L c ° DA SILVA 
SEV SEXTO NE TO NO ANO DE 1 5 7 2. 

Na parede por cima da caixa, onde os ossos estão encerrados, vê-se um es- 
cudo com um liao esculpido. 

Aquele mosteiro de S. Marcos da Ordem de S. Jerónimo, no qual jazem 



de terra, como do mar. dos pescados. E depois, quando o Mestre de Avis tomou conta do 
regimento do reino, alguns que bem nom queriam a Álvaro Gonçalves, «nos disseram que 
ele andava em nosso desserviço, tendo voz dei Rei de Castela, sendo o contrário da ver- 
dade». Por isto fizera doação de Buarcos de jur e herdade a Gonçalo Gomes da Silva; 
vendo porem que êle Álvaro Gonçalves andava em seu serviço e tinha sua voz, e isso 
mesmo Gonçalo Vasques, seu padre, confirmou-lhe a doação feita por D. Fernando, e mais 
lhe fez mercê dos direitos reais da foz do dito lugar, isto em quanto for sua mercê. — Chance- 
laria de D. João ], liv. fl. 25. 

(1) Ibidem, liv. i.<>, fl. 33. 

(2) Ibidem, fls. 129 v. e i3o. 



46 Brasões 

à 

em sumptuosos mausoléus muitos dos senhores de Vagos, foi fundado, como 
adiante direi, por D. Beatriz de Meneses, viúva de Aires Gomes da Silva, 
regedor das justiças da Casa do Cível de Lisboa. 

Gonçalo Gomes da Silva foi casado com Leonor Gonçalves, filha de Gon- 
çalo Martins Coutinho, do couto de Leomil, e dela teve, entre outros, os se- 
guintes filhos: João Gomes da Silva, i.° senhor de Vagos, que seguirá; Diogo 
Gomes da Silva, que entrará no cap. VIII; e Fernão da Silva, que foi estri- 
beiro mor de D. Duarte e D. Afonso V (1) e progenitor de vários Silvas, 
nenhum dos quais fundou casa, mas foram soldados valentes em terra e mar, 
no reino e nas conquistas. 

Nos nobiliários encontra-se erradíssima a lista dos Silvas senhores de 
Vagos; e por que muitos foram homens notáveis apresentarei, sem porme- 
nores minuciosos, mas firmada em documentos, a série cronológica dêles. 

I. — JOÃO GOMES DA SILVA, filho primogénito de Gonçalo Gomes 
da Silva, teve, em 23 de Abril de 1422 (1384), carta de doação temporária, 
em quanto fosse mercê, do lugar de Vagos (2). Passados anos, por outra 
carta de 26 de Fevereiro de 1460 (141 2), confirmou-lhe D. João I a mercê 
tornando-a perpétua, de jur de herdade (3). Anteriormente, por carta de 5 
de Setembro de 1423 (i385), havia-lhe sido feita doação para sempre de 
todos os bens móveis e de raiz possuídos em Guimarães, seu termo e outras 
partes do reino por Aires Gomes da Silva e sua mulher D. Urraca (4). En- 
contram-se designados aqueles bens na carta de 25 de Junho de 1432 (1394) 
pela qual D. João I confirmou a João Gomes da Silva, seu vassalo, todos os 
privilégios concedidos por D. Fernando a seu tio paterno Aires Gomes da 
Silva, por quanto deste não ficara no reino filho maior que de direito houvesse 



(1) «Era em aquelles dias (do ano de 1426) cativo em Alcacere hum Escudeiro Fidalgo 
da Casa do Infante Eduarte, que se chamava Fernam da Silva, que depois foi Estribeiro, 
assy daquelle Rey, como deste Rey Dom Affonso». — Azurara, Crónica do Conde D. Pedro, 
li v. 11, cap. xx, pág. 553. 

(2) Chancelaria de D. João I, liv. i.°, fl. 7 v. 

(3) Ibidem, liv. 3.°, fl. \3j v. — Anteriormente, por carta dada em Guimarães a 14 de 
Maio de 1423 (1 385), havia sido feita mercê a João Gomes da Silva da dízima da correição 
de Vagos (Ibidem, liv. fl. 104 v.). Nestes diplomas há referências ao anterior donatário 
de Vagos, Soeiro Anes de Parada, que, sendo adiantado de Galiza, tomara voz em i36g, 
como declara Fernão Lopes, por el rei D. Fernando contra D. Henrique II de Castela. O 
senhorio fôra-lhe doado por carta livrada em Leiria, a G de Dezembro de 1410 (1372), para 
o haver pela guisa por que o tivera micer Gregório (Chancelaria de D. Fernando, liv. 

fl. n5 v.). 

(4) Chancelaria de D. João 1, liv. fl. 90 v. — Neste diploma, por engano do copista, 

aparece o nome de Urraca mudado em Branca. 



Silvas 



47 



de haver os ditos privilégios (i). Neste diploma vem transcrita a carta de 
D. Fernando e por ela sabemos serem as terras as de Unhão, Vilar de Torno, 
Manhuncelos, Atães, Vila Caís, Brunhais e Regilde. Outras mercês lhe 
foram ainda feitas por D. João I (2). 

A êle serviu João Gomes da Silva no ofício de copeiro mor e no posto 
de alferes mor. Do primeiro cargo nenhum vestígio documental encontro e 
apenas sei ter-lhe sido concedido em i385, ainda em Coimbra, logo em se- 
guida às Cortes (3); no segundo aparece já investido numa carta de 22 de 
Março de 1399, sabendo-se, por outra de 27 de Fevereiro de 141 2, ambas já 
citadas, que ainda então o exercia; com êle porém já não aparece em diploma 
de 11 de Setembro de 141 5. 



(1) Chancelaria de D. João I, liv. 2. , fi. 97. 

(2) Nota dos registos de mercês feitas a João Gomes da Silva, além das já citadas: 
Doação para sempre, para êle e sucessores, da renda da comenda de Valhelhas, da Ordem 
de Alcântara, e dos direitos reais da colheita, etc. Lisboa, 23 de Setembro de 1422 (1384). 
— Confirmação de todolos privilégios, coutos, honras e liberdades que as suas terras sempre 
houveram. Porto, 18 de Fevereiro de 1425 ( 1 387). — Querendo fazer graça e mercê a João 
Gomes da Silva, nosso vassalo, por muito serviço, etc. carta para no seu lugar de Unhão, 
em terra de Sousa, se poder fazer d'ali em diante, de três em três semanas, uma feira fran- 
queada que dure um dia, com tanto que se faça em tal dia, que se não faça outra alguma 
feira na comarca de aredor a que esta possa fazer prejuízo, etc. Évora, 26 de Fevereiro de 
1429 ( 1 39 1 ). — Doação, em quanto sua mercê fôsse, das terças das igrejas de Santiago do 
Castelo, Santa Maria de Caminha e S. Cibrão de Vila Nova da Cerveira. Tentúgal, 26 de 
Agosto de 1430 (1392). — Doação do chão do castelo de Valença. Lisboa, 8 de Abril de 
143 1 (i393). — Confirmação da carta de 24 de Agosto de 1394 de mercê a Gonçalo Gomes 
da Silva, seu pai, de lhe quitar para sempre o quarto das herdades e o oitavo do vinho das 
terras por êle compmdas no reguengo de Tentúgal, etc. 16 de Junho de 1432 (1394). — A 
João Gomes da Silva, nosso alferes mor, doação para sempre, para êle, herdeiros e suces- 
sores, da almoínha dei Rei, em Montemor o Velho, apar do chafariz de Aribelas. Évora, 
22 de Março de 1437 (1399). — Alféres mor e do conselho, confirmação da doação de todos 
os bens de Aires Gomes da Silva e de D. Urraca sua mulher, salvo daqueles de que já havia 
feito mercê a Mem Rodrigues de'Vasconcelos e a Lopo Dias de Azevedo, e dos privilégios 
ao mesmo Aires Gomes concedidos para as terras de Unhão, etc. Lisboa, 9 de Fevereiro de 
1450 (1412). — Alféres mor e do conselho, doação da terra de Meinedo, julgado de Lousada, 
almoxarifado de Guimarães, com as jurisdições, por haver também pertencido a Aires Gomes 
da Silva e D. Urraca sua mulher. Lisboa, 27 de Fevereiro de 1450 (1412). — Do conselho, 
carta de privilégios para trinta lavradores da sua quintã de S. Silvestre termo de Coimbra. 
Tavira, 11 de Setembro de 14^3 (i4i5). — Outra análoga para quinze homens lavradores na 
sua quintã de Lanhelas, em Riba de Minho, Almeirim, 14 de Março de 143 1. — Ainda outra 
de isenção de aposentadoria para as suas casas de Tentúgal, 14 de Dezembro de 1433. — 
Chancelaria de D. João I, liv. fl. 53 v.; liv. 2. , fls. 3i, 54 v. e 69 v. ; liv. 2. de Além 
Doiro, fl. 143; liv. 4. de Afonso V, fl. 33; liv. 1° de D. João I, fl. 182 v.; liv. 3.°, fls. 1 36 v., 
i3G e 148 v.; liv. 4. , fl. i3o v. ; e liv. 4. de Afonso V, fl. 33. 

(3) Fernão Lopes, Crónica de D. João I, part. II, cap. 1. 



4 8 



Brasões 



João Gomes da Silva foi o fundador da quinta de S. Silvestre a qual deu 
origem à freguesia onde depois se edificou o mosteiro hierònimita de S. Mar- 
cos. Atesta-o a carta dada por D. João I em Tavira, a 1 1 de Setembro de 
141 5, na volta de Ceuta, de privilégios a trinta lavradores por João Gomes 
levados para a sua quinta de S. Silvestre a fim de a povoar. No lugar de 
S. Marcos, a 5 de Janeiro de 1441, segundo se diz, fez João Gomes da Silva 
o seu testamento, e nêle instituiu uma capela à qual vinculou bens impor- 
tantes. Determinou a forma de sucessão para os administradores e a obri- 
gação dos encargos pios serem cumpridos na ermida de S. Marcos, terra 
sua, ermida mais abaixo designada já por igreja, na qual ordenou sua sepul- 
tura (1). 

Ignoro se realmente a sua última determinação seria cumprida; mas, se 
o foi, como parecem indicar as fontes que vou citar, não encontrei da sua 
sepultura nenhum vestígio, quando em 7 de Outubro de 1902 visitei o con- 
vento. Aparecem duas datas diversas para a sua morte, em cada um dos 
dois epitáfios de que se conservam cópias a seguir transcritas: Aqui ja\ o 
mui hõrado, & nobre caualleiro Ioão Gome\ da Silua, rico home, Alferes mòr 
delRei D. Iodo I. & seu Copeiro mòr, & do seu conselho. Foi com elle na 
batalha real, & na tomada de Cepta, i edificou este mosteiro da Ordem de 
S. Hieronjmo, à honra de São Marcos. Faleceo a 26 de Março E 144S. an. 
Assim se encontra transcrito por Jorge Cardoso (2), advertindo ser aquele E 
a abreviatura da palavra era, não se podendo porem esta entender pela de 
César, pois corresponderia ao ano de Cristo de 1407 ao qual, como já vimos 
pelos documentos citados, muito sobreviveu João Gomes da Silva. 

O outro epitáfio transcreve-o o sr. Joaquim de Vasconcelos da Chronica 
de S. Hieronymo de Fr. Manuel Baptista de Castro, ms. da Torre do Tombo, 
e diz assim: Aqui ja^ o muito honrado e nobre João Gomes da Silva Rico 
Homem, Alferes mor delRey D. João o I r0 de Portugal e do seu Conselho, 
o qual foi com elle na batalha Real, que houve com el Rei de Casiella, na 
tomada d$ Ceuta, o qual edificou este logar á honra de S. Marcos, o qual 
falleceo em 25 de Março de ccccxim annos. OBLIE. OBLIE. OBLIE. (3). 

Casara João Gomes da Silva com D. Margarida Coelho, filha de Egas 
Coelho, mestre sala de D. João I, e deste matrimónio nasceu, único filho 



(1) Joaquim de Vasconcelos, O Convento de S. Marcos, doe. I, na Revista de Guima- 
rães, vol. XIV, pág. 93. 

(2) Agiologio lusitano, II, 532. 

(3) O Convento de S. Marcos, cit., pág. 91. — Advirto que aspei o x para lhe dar o valor 
de 40, porque em 1414, é evidente, não poderia ter tido lugar a morte de João Gomes 
da Silva. 



Silvas 



49 



varão, Aires Gomes da Silva. Teve porem João Gomes da Silva mais alguns 
filhos bastardos, dos quais provieram uns curtos ramos de Silvas já todos 
extintos na varonia, e um daqueles filhos foi Diogo da Silva, 3.° senhor de 
Vagos, adiante mencionado. 

II. — AIRES GOMES DA SILVA, em quem seu pai renunciou o 
senhorio das terras de Unhão, Brunhais, Torre de Vilar, Cepães, Vila Caís, 
Regilde, Atães, Manhuncelos e Vagos, renúncia confirmada por carta régia 
de 17 de Dezembro de 1434(1), havia sido armado cavaleiro pelo infante 
D. Pedro, em Ceuta, logo após a conquista da cidade. Nomeado regedor 
da justiça da Casa do Cível de Lisboa, por carta de 7 de Julho de 144 1, assi- 
nada pelo Infante Regente, seguiu o seu partido e com ele se encontrou, em 
20 de Maio de 1449, na desastrosa batalha da Alfarrobeira. Por este facto 
perdeu o oficio e foi-lhe confiscada toda a casa; mas, não só veio a ser per- 
doado (2), como ainda tornou a reaver, como veremos, parte da sua fazenda. 

Casou a primeira vez com D. Leonor de Miranda, filha do famoso D. Mar- 
tini Afonso da Charneca, bispo de Coimbra, arcebispo de Braga, do con- 
selho de D. João I e seu embaixador a França. Deste consórcio nasceu única 
D. Leonor da Silva. 

Casou esta senhora, nas proximidades de 9 de Maio de 1443, data da 
carta régia de aprovação do seu contrato antenupcial (3), com D. João de 
Meneses, filho primogénito de D. Fernando de Meneses, 2. senhor de Can- 
tanhede, irmão da segunda mulher de Aires Gomes da Silva. A D. Leonor 
foi doada pela rainha D. Isabel, por carta de 27 de Julho de 1452, a quinta 
de S. Silvestre, não se entendendo nela a ermida de S. Marcos com suas per- 
tenças (4), doação confirmada, por carta de 6 de Outubro seguinte, por 
D. Afonso V a D. João de Meneses, incluindo nela o padroado da igreja de 
S. Silvestre (5). Morreu D. Leonor da Silva, sendo já viúva, a 5 de Junho 
de 1464, e na sua sepultura em S. Marcos, onde já a não encontrei, gravou-se 
o seguinte epitáfio: Aqui ja\ a mui nobre e virtuosa Snra D. Lianor da 
Sylva, filha de Aires Gomes da S/lva, molher que foi de Dom João de Me- 
neses, Snr de Cantanhede, a qual se finou na idade de 40 annos, e na sua 



(1) Chancelaria de D. Duarte, liv. fl. 68. 

(2) Por três cartas de perdão, dadas em Almeirim, a 22 de Abril de 145 1, foram rele- 
vados de culpa por serem na batalha da Alfarrobeira, Aires Gomes da Silva e seus dois 
filhos João da Silva e Fernão Teles. — Chancelaria de D. Afonso V, liv. n.°, fl. 20. 

(3) Ibidem, liv. 12.°, fl. 1 38. 

(4) Ibidem, fl. n 5. 

(5) Ibidem. 

vol. 11 7 



5o 



Brasões 



Quinta de S. Silvestre, aos 5 dias do ??ies de Junho, era do nacimento de 
Nosso Snr Jesu Christo de 1464(1). 

Advirta-se que é erro do epitáfio, erro repetido por vários autores, inti- 
tular-se D. João de Meneses senhor de Cantanhede, porque êle não sobre- 
viveu a seu pai, a quem sucedeu directamente na casa, pelos anos de 1476, 
seu neto D. Pedro, 3.° senhor e i.° conde de Cantanhede. 

Além dêste filho teve D. Leonor da Silva outro, famoso poeta, muito 
nomeado no Cancioneiro de Rèsende. Chamou-se D. João de Meneses e 
teve a alcunha do Pica-sinos, por em garoto passar a vida a fazer badalar 
os sinos da igreja de S. Silvestre. 

Aires Gomes da Silva, sendo apenas ainda cavaleiro da casa do infante 
D. Pedro e encontrando-se já viúvo, foi-lhe por êle tratado o casamento com 
D. Beatriz de Meneses, filha de D. Martinho de Meneses, i.° senhor de Can- 
tanhede, e de sua mulher D. Teresa Vasques Coutinho. Lavrou-se a escri- 
tura de dote e arras em Lisboa, a 8 de Outubro de 1429, já depois de casados; 
dotou-se a noiva com sete mil coroas velhas de oiro, do cunho dei Rei de 
França, com a condição de por sua morte passarem a seus herdeiros; e Aires 
Gomes pronieteu-lhe de arras duas mil das mesmas coroas para o caso de 
a preceder no túmulo. Confirmando esta escritura, mandou o infante D. Pe- 
dro, duque de Coimbra, expedir uma carta em Tentúgal, a i5 de Setembro 
de 143 1, a favor dos referidos Aires Gomes da Silva, cavaleiro do seu con- 
selho e regedor da casa da Infanta sua mulher, e D. Beatriz de Meneses. 
Confirmou tudo el rei D. Duarte em Santarém, a i5 de Novembro de 1433, 
apesar do contrato ter sido pôsto em escritura depois de consumado o matri- 
mónio (2). 

Para este casamento concorreram também D. João I e a condessa de 
Neiva D. Maria. 

Esta senhora tinha da Coroa as terras de Azurara e Fão, e pediu a el Rei 
que delas fizesse mercê a sua criada D. Beatriz de Meneses, neta dela Con- 
dessa. Anuiu D. João I, e a carta foi dada a D. Beatriz em Lisboa, a 17 
de Outubro de 1429(3). 

El Rei, em carta dada em Almeirim, a 12 de Fevereiro de 1430, declara 
ter feito o casamento de D. Beatriz de Meneses, sua criada, com Aires Gomes, 
prometendo-lhe quatro mil coroas de oiro, pelas quais lhe manda pagar de 
tença anual quarenta e dois mil oitocentos e cinquenta e sete reais brancos 
no almoxarifado de Ponte de Lima. D. Duarte, em Santarém, a 26 de No- 



(1) D. António Caetano de Sousa, Memorias sepulchraes, fl. 117 v. 

(2) Chancelaria de D. Afonso V, liv. n.°, fl. 26 v. 

(3) Ibidem, fl. 32 v. 



Silvas 



5i 



vembro de 1433, confirmou aquela tença a Aires Gomes da Silva, do seu 
conselho e cavaleiro da casa do infante D. Pedro; e D. Afonso V, em Évora, 
a 28 de Abril de 1450, vistas «as muitas e grandes razões que para ello 
temos», confirmou tudo a D. Beatriz, por a ela ter pertencido o referido casa- 
mento (1). 

São notáveis aquelas palavras de D. Afonso V dirigidas à mulher de um 
dos fidalgos, que ao lado do infante D. Pedro haviam entrado na batalha da 
Alfarrobeira, mas explicam-se pela afeição da rainha D. Isabel, de quem 
D. Beatriz era aia, e pela consideração que D. Afonso V votou a esta senhora, 
a quem nomeou aia de seus filhos quando estes perderam sua mãe. 

Em Sintra, a 20 de Setembro de 1460, «pelas muitas grandes razões que 
temos para lho outorgar», confirmou el Rei a D. Beatriz a doação das terras 
de Azurara e Fão (2); e a 12 do mês seguinte confirmou-lhe o contrato do seu 
casamento, determinando que as estipuladas arras de duas mil coroas lhe 
fossem pagas pelas rendas das terras de seu marido, sem embargo delas 
estarem dadas a algumas outras pessoas (3). E não ficou ainda por aqui, 
pois que por carta de 25 de Julho de 1453 se sabe haver D. Afonso V res- 
tituído a D. Beatriz e a Aires Gomes seu marido a terra de Vagos e outras, 
as quais depois de confiscadas haviam sido doadas a Diogo da Silva (4); e 
por outra carta de i3 de Fevereiro de 1459 consta mais haver doado a Fernão 
Teles, filho de D. Beatriz e Aires Gomes, as terras de Unhão, Cepães e 
Meinedo, também confiscadas a seu pai e doadas a Gonçalo Pereira (5). 

Já então era Aires Gomes da Silva falecido e havia ido a sepultar a 
S. Marcos, onde ainda hoje se lhe encontra o túmulo no corpo da igreja, da 
parte da epístola, com o seguinte epitáfio por mim copiado, como todos os 
mais, no dia 7 de Outubro de 1902: 

AQVMAZO MVINOBREE VIRTVOSOBARÃ-AIRES-GOMEZ-DA-S1LVA- 

GOVERNA- 
DOR • QVE FOI • DE • LIXBOA • FALECÈO • EM IDADE • DE • 55 • ANOS • AOS • 2 5 • 

DE MAIO -DE i 4 5 4 . 



(1) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 1 fl. 40. 

(2) Ibidem, fl. 32 v. 

(3) Ibidem, fl. 26 v. 

{4) Nós requeremos ora Diogo da Silva, fidalgo de nossa casa, que nos fizesse serviço 
da terra de Vagos e da terra de Vila Caís, honra de Manhuncelos, honra de Regilde e quinta 
de Faaes, que foram de Aires Gomes da Silva, seu irmão, para dela fazermos mercê a 
D. Brites de Meneses, aia que foi da Rainha minha mulher, e ao dito Aires Gomes seu ma- 
rido, o qual (Diogo da Silva), com vontade que tem de nos em tudo servir, renunciou em 
nossas mãos todas as ditas terras, etc. — Ibidem, liv. 10 °, fl. 19 v. 

(5) Ibidem, liv. 36», fls. 58 e 65. 



52 



Brasões 



Por baixo, entre três escarcelas, linjabeiras, como são designadas no es- 
pólio do seu contemporâneo o dr. Martim do Sem, está gravada a divisa: 

LARDANT DESIR 

A data da morte posta no epitáfio deverá estar certa, porque Aires Gomes 
a 16 de Agosto daquele ano de 1454 era certamente já morto. Nesta data 
foi passada em Sintra uma carta a D. Beatriz de Meneses, «aia que foi da 
Rainha minha molher», pelos serviços a ela feitos e bem assim a D. João I 
e a D. Afonso V, de doação a seu filho João da Silva da terra de Azurara, 
a qual D. Beatriz tinha em sua vida, e de um conto de libras a ela dado de 
mercê por falecimento de seu marido (1). 

Mais doze anos de vida teve ainda D. Beatriz de Meneses e foi neste 
espaço de tempo que ela concluiu a fundação do mosteiro de S. Marcos. 

Em Outubro de 1450 doara D. Afonso V àquela senhora a administração 
da capela instituída em S. Marcos por João Gomes da Silva, e logo em Julho 
do ano seguinte entregou D. Beatriz todos os bens à Ordem de S. Jerónimo, 
com a condição dela em S. Marcos edificar um mosteiro. Foi porem só em 
fins de 1453, que se tornou definitivo o estabelecimento da Ordem em 
S. Marcos, começando d'então por diante as obras de apropriação das antigas 
casas dos fidalgos para uso da comunidade, la a fundação, por os meios 
serem poucos, seguindo lentamente, até que D. Beatriz se encontrou livre 
do serviço do paço. 

Pouco depois dela enviuvar morria, a i5 de Dezembro de 1455, a rainha 
D. Isabel e D. Afonso V nomeava a D. Beatriz de Meneses aia de seus filhos, 
de cuja educação e criação ela tratou até 1462, segundo parece. Neste ano 
retirou-se D. Beatriz da corte, tendo já largado o serviço em Setembro e 
estando em Novembro substituída no cargo por D. Beatriz de Vilhena. 

Foi então que D. Beatriz de Meneses, conforme o seu epitáfio, ase reco- 
lheu a S. Marcos, onde a mor parte delle fez». Foi portanto também então 
que às obras do convento se deu maior impulso, vindo a sua primitiva fábrica 
a estar já concluída em 1 de Julho de 1463 (2). 

A propósito dêste mosteiro de S. Marcos escreveu-me o ilustrado secretário 
da junta de paróquia de S. Silvestre, António Avelino, em 20 de Março de 
i885, uma interessante carta, na qual, entre outras coisas, me revela a exis- 
tência no cartório daquela igreja de um livro intitulado Memórias com notí- 



(1) Chancelaria de D. Manuel, liv. 32.°, fl. 28. 

(2) San Marcos apar de Coimbra, artigos meus publicados no Jornal do Commercio 
em Agosto e Setembro de 1903. Para esta parte do texto veja-se o n.° de 26 de Agosto. 



Silvas 



53 



cias àcêrca da referida freguesia. O mais antigo documento, no tal livro 
mencionado, é o testamento datado de 1441 de João Gomes da Silva, docu- 
mento por onde consta andar o padroado da igreja anexo ao praso ou quinta 
de S. Silvestre, tudo pertencente ao testador. Por morte deste passou o 
praso a seu filho Aires Gomes da Silva, 2. senhor de Vagos, companheiro 
do infante D. Pedro na batalha da Alfarrobeira. Foi-lhe confiscada toda a 
casa e portanto também a quinta de S. Silvestre, a qual, sendo depois ven- 
dida em praça, foi arrematada pela rainha D. Isabel e por ela doada a 
D. Beatriz de Meneses, viúva de Aires Gomes. Esta senhora por sua vez 
fez doação da quinta a sua enteada D. Leonor da Silva, mulher de seu so- 
brinho D. João de Meneses, herdeiro da casa de Cantanhede, e nos seus 
sucessores permaneceu a posse do padroado de S. Silvestre até 1721, ano 
em que, em virtude da execução movida contra os 3. 0S Marqueses de Marialva, 
foram, a quinta e o padroado anexo, vendidos a Manuel Castanheda de 
Moura e Horta (1), em cujos descendentes se conservou aquele até i833. 
Incidentemente também se diz na referida carta haver o convento de S. Marcos 
sido fundação da mencionada D. Beatriz de Meneses, mas não sei se isto 
constaria do tal livro das Memórias, ou se seria simplesmente opinião de 
quem escreveu a carta. 

Morreu D. Beatriz de Meneses em 1466, antes de 10 de Julho (2), e foi 
sepultada na igreja de S. Marcos, na capela mor da parte do evangelho, com 
o epitáfio seguinte gravado entre dois escudos de armas, ambos partidos de 
um lião (Silva) e de campo liso (Meneses): 

AQVI JAZ • DONA BRITIZ • DE MENESES ■ MO 
LHER • DAIRES • GOMEZ • DA SILVA • GOVERNADOR 
QVE FOI • DE LIXBOA • AYA • DA ESCLARECIDA • 
RAINHA • DONA ISABEL . MOLHER . DELREI - DOM 
AFOMSO • O QVITO • E DEPOIS ■ O FOY ■ TANBEM • 
DE SEVS ■ FILHOS • ATE ■ QVE . SE • RECOLHEO • 
A ESTE MOESTEIRO • DE SÃ M4KC0S • ONDE • AMOR 
PARTE • DELE • FEZ • E ASI • DAS RENDAS . DOTOV • 

De Aires Gomes da Silva e D. Beatriz de Meneses foram filhos: João 
da Silva, 4. senhor de Vagos, de quem tratarei lá adiante; Fernão Teles de 



(1) Este sujeito foi cavaleiro da Ordem de Cristo, sargento mor da comarca de Coimbra 
e um dos homens mais ricos da província da Beira, «e se tratou na côrte com coche, liteira, 
pagens e criados». 

(2) Consta da carta daquela data de doação a seu filho Fernão Teles de um conto de 
libras da moradia de sua mãe. — Chancelaria de D. João III, liv. 5i.° de Doações, íi. 54. 



54 



Brasões 



Meneses, 3.° senhor de Unhão, que será mencionado no cap. VI; D. Isabel 
de Meneses, condessa de Olivença; e D. Margarida de Meneses, notável aba- 
dessa de Santa Clara de Coimbra onde foi sepultada no meio da igreja, gra- 
vando-se-lhe na campa o seguinte epitáfio: Aqui ja\ a mujto virtuosa & 
magnifica senhora Dona Margarida de Meneses, filha de Aires Gome\ da 
Sylva, & de Dona Brites de Meneses, a qual foy elegida Abbadessa desta 
casa em idade de dezoito annos, & assi a governou no espiritual & temporal, 
que bem se pode di\er ser hum exemplo de nossa idade: forão os annos de 
sua muy religiosa vida oitenta & hum, faleceo a tres dias de Novembro da 
Era de mil & quinhentos & vinte annos (i). 

III. — DIOGO DA SILVA era irmão bastardo de Aires Gomes da Silva 
e, quando a este foi confiscada a casa «pelas maldades e traições que, sendo 
do nosso conselho, cometeu contra nossa pessoa e real estado, sendo com o 
intante D. Pedro na batalha da Alfarrobeira, que comnosco houve, e pelo 
dito feito assi ser notório e o dito Aires Gomes ser em êle, todos seus bens 
e terras, que de nós tinha, nos pertencem e podemos todo de direito dar», 
fez D. Afonso V doação de juro e herdade a Diogo da Silva, cavaleiro de 
sua casa, da terra de Vagos no almoxarifado de Aveiro, terra de Rolhe, 
que era reguengueira, no almoxarifado de Guimarães, terra de Vila Caís, 
honra de Regilde, etc. Foi a carta passada em Sintra, a 22 de Setembro de 
lâfbo (2). 

Menos de três anos conservou Diogo da Silva o senhorio de Vagos, por- 
que dele e das mais terras, que haviam sido de seu irmão, renunciou e fez 
entrega a D. Afonso V para tudo doar a D. Beatriz de Meneses, aia que 
fôra da Rainha, e a Aires Gomes seu marido, recebendo Diogo da Silva 
em satisfação uma tença de doze mil reais brancos, a começar do i.° de 
Janeiro de 1424 em diante, em quanto lhe não fossem pagas mil e duzentas 
coroas de oiro. Foi dada a carta de padrão, em Évora, a 25 de Julho de 
1453 (3). 

Diogo da Silva veio a ser, por carta dada em Lisboa a 28 de Julho de 
1456, tesoureiro mor de D. Afonso V, assim como o era Martim Çapata que 
se ora finou (4). Volvidos dez anos foi, por carta de 14 de Agosto, nomeado 
tesoureiro mor João Pestana, como até então o fôra Diogo da Silva, «que o 



(1) Fr. Luís dos Anjos, Jardim de Portugal em que se dá noticia de algúas Saneias, & 
outras molheres iitustres em virtude, pág. 336. 

(2) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 34. , fl. 180 v. 

(3) Ibidem, liv. io.°, fl. 19 v. 

(4) Ibidem, liv. i3.°, fl. 99. 



Silvas 



55 



dito oficio tinha e à nos prouve que o mais não tivesse, por o sentirmos assi 
por nosso serviço» (i). 

Casou Diogo da Silva com Guiomar Borges, irmã de Duarte Borges, 
camareiro dei rei D. Duarte, e dela teve, alem de D. Caterina da Silva, 
mulher de Fernão de Albuquerque, 4. senhor de Vila Verde, e de D. Isabel 
da Silva, mulher de Gil Vaz da Cunha, senhor da quinta do Calhariz, a Pero 
da Silva, o Relé. Foi alcaide mor de Ourem por carta de 3 de Abril de 
1486(2), alcaidaria que lhe foi tirada para ser doada ao Conde de Vila 
Real, por carta de 22 de Outubro de 1487(3), recebendo Pero da Silva, 
em satisfação e por carta de 25 de Junho seguinte, a alcaidaria mor do 
castelo e vila de Porto de Mós (4). Faleceu sem deixar descendência legí- 
tima. 

IV. — JOÃO DA SILVA, juntamente com seu pai Aires Gomes, esteve, 
sendo muito moço, na batalha da Alfarrobeira da parte do infante D. Pedro, 
mas veio a alcançar perdão do delito por carta de 22 de Abril de 1401 (5). 

Três anos depois sucedeu no senhorio de Vagos a seu pai, como declara 
uma carta de 6 de Julho de 1340, pela qual consta não lhe haver sido con- 
firmado o senhorio (6) ; não tinha porem, segundo parece, alcançado ainda a 
maioridade, ou continuou sua mãe, que é o mais provável, a usufruir o se- 
nhorio (7). Também foi alcaide mor de Montemor o Velho. 

Nos princípios de Abril de 1456 casou João da Silva com D. Branca 
Coutinha, donzela da casa da rainha D. Isabel e filha de Fernão Coutinho, 
senhor de Basto e Montelongo. Em casamento prometera-lhe D. Afonso V 
quatro mil coroas de oiro do cunho dei Rei de França, arbitrando-lhe por 
elas quarenta mil reais brancos de tença, a começar no i.° de Abril, «porque 
ao dito tempo tomaram sua casa» (8). 

Em 1468 serviu João da Silva em Ceuta, d'onde passou com o socorro a 
Arzila cercada por el Rei de Fez, e estava num cubelo junto do capitão 



(1) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 38. 9 , fl. 54. 

(2) Chancelaria de D. João II, liv. fl. 96. 

(3) Ibidem, liv. 21. , fl. 37 v. 

(4) Ibidem, liv. 8.°, fl. 86 v. 

(5) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 1 fl. 20. 

(6) Chancelaria de D. João III, liv. 40." de Doações, fl. 212 v. 

(7) Por carta de 20 de Maio de 1455 foram concedidos a D. Beatriz de Meneses, aia 
que fôra da Rainha, certos privilégios relativos às justiças do seu lugar de Vagos. — Chance' 
laria de D. Afonso V, liv. 1 5.°, fl. 63. 

(8) Carta de padrão de 29 de Maio de 1456. — Chancelaria de D. Afonso V, liv. i3.% 
fl. 63 v. 



56 



Brasões 



D. Duarte de Meneses, quando êste foi ferido no dia u de Novembro (i). 
No ano seguinte, por carta dada em Évora a 21 de Março, foi nomeado 
camareiro mor do príncipe D. João, considerando, como nela se declara, os 
serviços de D. Beatriz de Meneses, aia dos filhos dei Rei (2). Posterior- 
mente, em 1463, acompanhou a Aragão el rei D. Pedro e lá foi por êle no- 
meado, depois da prisão do Visconde de Rocaberti, capitão general no 
Ampurdan (3). 

Decorrendo a guerra da invasão de Castela, estando João da Silva, por 
honra de seu Rei e defensão da pátria, na fronteira do Guadiana por capitão 
topou em Ouguela com D. Martim Galindo, eleito mestre de Alcântara, indo 
ambos de noite nas dianteiras de suas gentes. Reconheceram-se e encontra- 
ram-se de maneira que o Galindo logo no campo ficou morto e João da Silva 
apenas vinte e um dias sobreviveu aos seus ferimentos. Esta é a narrativa 
do epitáfio, mas, segundo o cronista contemporâneo, Martim Galindo era 
apenas «cavaleiro castelhano e na Estremadura de Castela bem aparentado» (4). 
O combate teve lugar em Agosto de 1475. Consta do seguinte alvará do 
príncipe D. João: «João da Silva, amigo, a nós prazerá, se for vontade de 
Nosso Senhor vos levar pera si desta ferida que por nosso serviço houvestes 
em a vila de Ouguela, fazermos mercê a Aires da Silva, vosso filho. maior, 
do castelo de Montemor o Velho, e comenda de Messejana, e ofício de nosso 
camareiro mor e assim de todas e quaisquer outras coisas que dei Rei, meu 
senhor, e nossas tiverdes. . . Estremoz, 22 de Agosto de 1475» (5). 

A 8 do mês seguinte já João da Silva era morto e seu filho Aires da Silva 
tinha-lhe sucedido no ofício de camareiro mor do Príncipe (6). D. Branca 
Coutinho sobreviveu muitos anos a seu marido, pois que ainda vivia a 10 de 
Junho de 1497, quando lhe foi dada nova carta de padrão com salva de uma 
tença de sete mil reais (7). 

Foi o corpo de João da Silva trazido a S. Marcos onde jaz na capela mor 



(1) Azurara, Chronica do Conde D. Duarte, pág. 109. 

(2) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 36.°, fl. 1 12 v. 

(3) Çurita, Anales de Aragon, IV, fl. 144. 

(4) Rui de Pina, Chronica de D. Afonso V, cap. i83, pág. 549. 

(5) Chancelaria de D. João III, liv. 16. de Doações fl. 44, com a data certa, e com ela 
errada, 1476 por 1475, na Chancelaria de D. Manuel, liv. 32.°, fl. 28. 

(6) Carta de 20 moios de trigo e 10 de cevada de tença dada pelo príncipe D. João, em 
Estremoz, a 8 de Setembro de 1475, a favor de Aires da Silva, fidalgo de sua casa è seu 
camareiro mor, pelos muitos serviços de seu pai João da Silva, seu camareiro mor que fôra. 
— Ibidem, liv. 3o.°, fl. 104 v. 

(7) Ibidem, fl. 110. 



Silvas 



57 



do lado do evangelho, na sepultura do meio, com esta inscrição em letra 
gótica do tempo: 

Per • esta • letra • saberes • que • fidalguia • saber • anymo • esforçado • fizera • 

este cujos • Osos • 

esta- tam • pequena - pedra • cobre - dino • de perpetua ■ memoria - filho - foy- do • 

muy • nobre • e prudente 
ayres • gomez • da silua gouernador • de lixboa e da muito uertuosa e dyscreta 

dona 

britis • de meneses ■ joam da silua foy seo nome caualeiro muy estimado • linha 
jem • dos pricepes • Romaos • seus merecimentos O fezerã em muytas aces 
as • batalhas • capitam • foy jerall • dellRey dom pedro • nas gueras dará 
gam • e despojs camareiro - mor - e do conselho delRey • dom joam o segumdo e dele 

mujto amado - e prezado 
estamdo na fromtaria do diana por capitam por omra de seu Rey e defemsam da 

pátria a uida ■ ofei eceo 
a fortuna daqueles gramdes dous capitães de Roma marco bruto e arumce abraçou 

a elle e a 

dom martim galimdo emleito mestre dalcamtara em ouguela jmdo ambos 

de noite nas diamteiras de su 
as jemtes Reconhecerãse hú ao outro e se emcomtrarã de maneira que ho em 
leito mestre logo no quampo ficou morto e elle xxi dias uiueo e desta tam uam 
uida partio caso foy a primcepes e a capitães tam poucas uezes acõtecido uos 
que dele decemdes lembraiuos e prezaiuos de pay de taes dotes pollos acrecem 
tar e comseruar trabalhando por sua alma a deos Roguae. 

No fecho do arco, por cima do túmulo, vê-se um escudo com um Hão es- 
culpido e sobre o escudo um elmo posto de frente, sem timbre. 

Do seu casamento teve João da Silva os seguintes filhos: Aires da Silva, 
5.° senhor de Vagos, que seguirá; Gonçalo da Silva, senhor de Abiul, por 
carta de 6 de Setembro de i5oi (1), também sepultado em S. Marcos (2) e 
nos seus filhos acabou a varonia deste ramo de Silvas, mas por fêmea pro- 
vieram dele os Monizes da Silvá, extintos na de Alcácerquibir; D. Fernando 
Coutinho, de quem me vou já ocupar; D. Beatriz da Silva, mulher de Manuel 



(1) Liv. 5.° de Místicos, fl. 45 v. — A vila de Abiul havia sido, por alvará de i5 de De- 
zembro de 1496, confirmada a D. Leonor de Noronha, condessa de Penamacor, a quem seu 
marido a dera em garantia das arras prometidas na escritura ante-nupcial. Posteriormente 
teve a Condessa autorização régia para traspassar as rendas e a jurisdição da vila em Gon- 
çalo da Silva. 

(2) Do seu túmulo não se encontram hoje vestígios; parece porem ter sido este o seu 
epitáfio: Aqui jaz Gonçalo da Silva filho do Capitão João da Silva, cuja honra não dimi- 
nuio. Falleceo em Lisboa na era de 1S21. Jaj com elle a muito virtuosa 5n' a D. Joanna 
sua mulher, a qual falleceo em vespora do Natal de 1542 na sua Villa de Abiul. — Joaquim 
de Vasconcelos, O Convento de S. Marcos cit., pág. 89. 

vol. 11 8 



58 



Brasões 



de Melo, alcaide mor de Olivença; D. Isabel da Silva, mulher de Cristóvão 
de Melo, alcaide mor de Évora, e depois de D. Henrique Henriques, 2. se- 
nhor das Alcáçovas; D. Maria da Silva, segunda mulher de Diogo Lopes de 
Sousa, mordomo mor e 1." senhor de Miranda, também sepultada em 
S. Marcos (1). 

D. Fernando Coutinho esteve em Roma nos anos de 1492 e 1493, tendo 
ido na embaixada de felicitação ao novo papa Alexandre VI (2). Informa 
Garcia de Resende: «E ao Bispo do Algarve que ora (1 533) hé, deu [D. João II] 
o bispado de Lamego e o oficio de regedor da Casa da Sopricaçã, estando 
em Roma» (3). Portanto, a ser exacta a informação do cronista, foi no inter- 
valo acima indicado que tiveram lugar as nomeações. A de bispo de Lamego 
realizou-se em 1492, e daquela diocese foi D. Fernando transferido em i5o2 
para a de Silves (4). Já então exercia, havia alguns anos, o oficio de regedor. 
Em i5o4 sucederam com o Bispo uns casos bastante escandalosos, relatados 
num documento (5), os quais o obrigaram a renunciar a regedoria e a reti- 
rar-se à sua diocese, onde morreu a 16 de Maio de 1 538, sendo sepultado 
na capela mor da sua Sé, no chão, da parte do evangelho, e sôbre a lápida 
gravaram este epitáfio copiado por mim em 21 de Outubro de 1897: 

A q u i j a f dom f e r n 

ã d o C o v t i n h o f° de 
joam da Silva e de dona 
branca Coutinho b p o 
que foi neste b s p do 
dos alguarves falleceu 
a xbj de maio faleceo em 
ferragudo era M xxxviij. 

Por cima vê-se um escudo esquartelado : no I, um lião; no II, cinco es- 



(1) Consta ter tido no seu túmulo, do qual não se encontram vestígios, o seguinte epi- 
táfio : Aqui ja^ D. Maria da Silva, mulher que foi de Diogo Lopes de Sousa, mordomo mor 
que foi delRey D. Affonso, fali ec ida em 6 de Junho era de i5oi annos. — Joaquim de Vas- 
concelos, Q Convento de S. Marcos cit., pág. 91. 

(2) João Mendes da Fonseca, Memorias dos prelados de Lamego, pág. 86; João Baptista 
da Silva Lopes, Memorias do bispado do Algarve, pág. 294. 

(3) Vida de D. João II, cap. 174, fl. 107 v. 

(4) Nas cits. Memorias do bispado do Algarve, no princípio do cap. 2 5, marca-se o ano 
de i5o2 para a entrada de D. Fernando Coutinho na sé de Silves, tendo porem, no fim do 
capítulo precedente e na continuação deste, marcado o ano de i5oi. Para confirmação da 
primeira data aparece numa carta de quitação de 19 de Abril de i5o2 nomeado o «Bispo de 
Lamego, Regedor». — Cartas de quitação de D. Manuel, no Archivo histórico portuguez, 
III, pág. 480, n." 41 1. 

(5) Corpo cronológico, part. II, mac. 8, doe. 144, cit. pelo general Brito Rebelo no Occi- 
dente, n.° de 21 de Novembro de 1881, pág. 262. 



í 



Silvas 



59 



trelas de seis pontas em cruz; no III, nove cunhas com uma bordadura car- 
regada de cinco escudetes sobrecarregados de cinco besantes cada um; no 
IV, seis móveis parecidos com arruelas. Estas armas não sei a que apelido 
se referem, as outras são as dos Silvas, Coutinhos e Cunhas. 

Teve o Bispo, entre outras filhas bastardas, a D. Isabel da Silva, para 
quem instituiu o morgado de Santo António de Monchique e para quem com- 
prou a Henrique Moniz a alcaidaria mor de Silves. Veio ela a casar, como 
adiante veremos, com seu parente Rui Pereira da Silva. 

Na capela mor da Sé de Silves, no chão, ao meio, tendo à sua esquerda 
a campa de D. Fernando Coutinho e à sua direita outra sem letreiro, com 
um escudo carregado de três bandas e sobrepujado de um lião passante por 
timbre, está a sepultura onde permanceu o cadáver de D. João II, desde o 
seu falecimento em Alvor, até à trasladação para a Batalha. Na lápida, 
sobre a sepultura vazia, lê-se este epitáfio por mim copiado no mesmo dia: 

AQVI FOY SEPVLTADO O COR 
PO DO MVITO ALTO E MVITO EX 
CELENTE PRÍNCIPE E MVITO PODER 

OSO ELREY DOM JOHÃ O SEG° 
REY DE PORTVGAL E DOS ALGAR 
VES DAQVEM E DALÉM MAR EM 
AFRICA SENHOR DE GVINE O QVAL 
SE FINOV É ALVOR AOS XXV DIAS 
DOVTVBRO DE M IIIIc LRV FORA 
DE AQVI TRASLADADOS OS SE 
VS OSSOS PERA O MOSTEIRO 
DA BATALHA NO ANNO DE 
MIL QUATROCENTOS E 
NOVENTA E DOUS ANN' 

Voltemos aos senhores de Vagos. 

V. — AIRES DA SILVA sucedeu a seu pai no senhorio de Vagos, na 
alcaidaria mor de Montemor o Velho e no ofício de camareiro mor no qual 
serviu a D. João II, ainda em príncipe, desde 8 de Setembro de 1475, como 
consta de um documento acima citado, até 25 de Outubro de 1495, dia da 
morte dei Rei, que nele depositou inteira confiança, encarregando-o de mis- 
sões difíceis e importantes. Uma delas foi em 1489 a de capitão da armada 
de socorro à Graciosa (1); nenhuma porem consistiu na embaixada a Ingla- 



(1) Expedições e armadas nos anos de 1488 e i48g, págs. 24, 37, etc. 



6o 



Brasões 



terra, mencionada por Salazar y Castro, durando a qual, segundo êle afirma, 
havia sido o embaixador nomeado cavaleiro da Jarreteira. E verdade que 
o genealogista espanhol, para confirmar o seu dito, funda-se apenas num 
boneco, representando Aires da Silva com o colar daquela Ordem ao pescoço, 
posto num dos arcos armados para a entrada de Felipe II em Lisboa, em 
1619(1). 

Casou Aires da Silva pelos anos de 1480 (não conheço documento que 
precise a data) com D. Guiomar de Castro, filha de D. Garcia de Castro, 
senhor do paúl do Boquilobo, e irmã de D. Alvaro de Castro, vedor da fa- 
zenda e governador da Casa do Cível de Lisboa, nomeado para este cargo 
em 1496, nove anos antes de Aires da Silva tomar posse da regedoria das 
justiças. Estiveram portanto os dois cunhados regendo as justiças das Casas 
da Suplicação e do Cível durante os anos de i5o5 a i528 no qual D. Alvaro 
morreu. 

O ofício de camareiro mor perdeu Aires da Silva com a elevação ao trono 
de D. Manuel, pois este conservou nos seus postos quase todos os antigos 
criados da sua casa ducal, e entre eles o seu camareiro mor D. João Manuel. 
Parece até ter Aires da Silva, nos primeiros anos do novo reinado, vivido 
um tanto afastado da corte e só encontro notícia dele ter acompanhado D. Ma- 
nuel em 1497, quando foi celebrar o seu primeiro casamento. Não exercia 
com tudo ainda então o cargo de regedor das justiças, como equivocadamente 
diz Damião de Goes na Chronica daquele rei. 

Nesses tempos porem olhava já com interesse o futuro Regedor pelo con- 
vento de S. Marcos. Não sei se já lá traria obras; mas é certo haver gene- 
rosamente dotado por então a comunidade, que a rôgo de Aires da Silva 
alcançou licença de D. Manuel para comprar e possuir bens de raiz até valia 
de quatro centos mil reais. Foi a carta passada a 3i de Dezembro de i5oi 
e aquela quantia foi evidentemente doação do antigo camareiro mor (2). 

Em fins de i5o5, em virtude de renúncia de seu irmão o Bispo do Algarve, 
veio Aires da Silva a servir o cargo de regedor das justiças da Casa da Su- 
plicação. D'então por diante data a intervenção do Regedor nas obras ver- 
dadeiramente artísticas executadas em S. Marcos. Por êle foi mandada fazer 
a capela mor manuelina, nos anos de 1 522-23, segundo assevera o sr. Joa- 
quim de Vasconcelos; seguindo-se-lhe D. Antónia de Vilhena, viúva do embai- 



(1) Historia de la Casa de Silva, II, 267. 

(2) Por fazermos graça e mercê a Aires da Silva, do conselho, que no-lo requereu, 
licença aos Frades de S. Marcos para poderem comprar e haver, por qualquer honesto e 
justo título, bens de raiz que possam valer quatrocentos mil reais de compra. — Liv. u.° da 
Estremadura, ã. 64. 



Silvas 



6r 



xador Diogo da Silva, a qual, depois de i556, mandou construir a capela dos 
Reis Magos, «talvez a mais formosa capela de pura Renascença, que possuímos 
no reino», na abalizada opinião daquele ilustre crítico de Arte. Morreu Aires 
da Silva a 25 de Março de i53o, segundo a afirmação do seu epitáfio, e foi 
sepultado em S. Marcos na capela mor do lado do evangelho, em túmulo seme- 
lhante ao de seu pai, com igual brasão no fecho do arco, mas hoje sem le- 
treiro por terem arrancado a pedra em que ele fôra gravado. De memorias 
antigas consta porem terem existido nele estes dizeres: Aqui ja\ Ayres da 
Sylva filho de João da Sylva e D. Branca Coutinho o qual foi Camareiro 
Mor do muy esclarecido Rey D. João o 2. desde Príncipe ale que faleceo 
e de seu Conselho. Em êste tempo o sérvio sempre muy lealmente assi na 
va\ como na guerra, e por seu mandado foi por Capitão General da Armada 
que soccorreu a Graciosa e depois em vida do mui alto Rey D. Manoel foi 
Regedor das justiças deste Reyno e Casa da Supplicação. Faleceo em dia 
de N. Snr. a de Março era de i53o. E assi ja\ aqui com elle a mui magni- 
fica D. Guiomar de Castro hua só sua molher(i). 

E provável estar certa a data da morte no epitáfio, 25 de Março de i53o; 
pelo menos os documentos meus conhecidos não a contradizem. A 19 do 
próprio mês indicado para a morte foi confirmada a Aires da Silva, do con- 
selho, a doação de Azurara (2); e a 5 de Setembro seguinte já era certamente 
falecido, como declara a carta de confirmação de uma tença de trigo e cevada 
passada a seu filho João da Silva, do conselho e regedor da Casa da Supli- 
cação (3). Foi êste o mais velho dos filhos nascidos do matrimónio de Aires 
da Silva. 

VI. — JOÃO DA SILVA. Sucedeu no senhorio de Vagos do qual teve 
confirmação por carta dada em Lisboa a 6 de Julho de 1540, pôsto que, 
declara ela, não houvesse sido confirmado pelos antecedentes reis (4). Serviu 
no cerco segundo de Arzila, na tomada de Azamor, e na batalha de Sexta 
Feira de Endoenças, também chamada dos Alcaides, em 14 de Abril de 1 5 14, 
junto de Arzila, ocasiões em que praticou notáveis feitos, mostrando por êles 
ser o chefe da nobre, antiga e esforçada geração dos Silvas. Assim se 
expressa o seu epitáfio no qual se acrescenta haver servido durante quarenta 
anos, muito a contento de Deus, de três reis e do povo, o ofício de regedor 



(1) D. António Caetano de Sousa, Memorias Sepulchraes^ú. 117 v.; Joaquim de Vas 
concelos, O Convento de S. Marcos cit., pág. 87. 

(2) Chancelaria de D. João III, liv. 16. de Doações, fl. 44. 

(3) Ibidem, liv. 9. , fl. 27. 

(4) Ibidem, liv. 40. , fl. 212 v. 



Brasões 



das justiças deste reino. Começou a exercer o cargo, nos impedimentos do 
pai, por alvará de 4 de Fevereiro de i5i8, alcançando carta de nomeação 
definitiva, em virtude da renuncia paterna, a 17 de Fevereiro de i522. Foi 
i.° alcaide mor de Lagos, em sua vida, por carta de 14 de Fevereiro de 1 532, 
alcaidaria por êle nomeada em seu filho Diogo, como adiante veremos, por 
instrumento de 3 de Dezembro de 1544. Morreu a 11 de Agosto de 1 557 ( 1), 
tendo sobrevivido a seu filho Diogo da Silva falecido no ano antecedente. 

Foi João da Silva sepultado em S. Marcos, na capela mor, da parte da 
epístola, em frente de seu pai. Puseram-lhe no túmulo êste epitáfio: 

SE DE-FEE-VIRTVDE ESFORCO-E^PRVDENCIA NA PAZE NA GVERAQVISERE OS 
VIVOS 1MITACÃ • TEM • AQVI • HV • CLARO • ESPELHO • EM • IOÃ • DA SILVA ■ FILHO • 

DE AIRES 

DA SILVA-EDE DONA GVIOMARDECASTRO-SVA MOLHER QVE NO CERCO SEGV 
DO • DARZILA • NATOM ADA DAZ AMOR' E-NA BATALHA DE SESTA FEIRA DENDOE 
CAS FEZ- NOTÁVEIS -COVS AS -E NELAS MOSTROV-SERO CHEFRE DA NOBRE 
ANTIGVA- E • ESFORÇADA • GERACÃ • DOS SILVAS FOI ■ REGEDOR DAS • IVSTIC AS 
DESTES • REINOS QVARETA- ANNOS MVITO-A SIRVICO-DE DS E CÕTENTAMETO 
DE TRES REIS E DO POVO FALECEO EM LISBOA-CÕMVICERTOS-SINAES-DE SVA 
SALVACÃ • DE IDADE • DE • 7 5 • ANOS AOS- u -DIAS ■ D AG VOSTODE • 1 55 7 • E ASSII AZ 
CÕ ELE-DONA IOANA-DE CASTRO-SVA VNIC A • MOLHER FILHA- DO SEGVNDO 
CONDE DA FEIRA - HVA DAS MAIS-HONRADAS E VALEROSAS SRAS-DE SEV TENPO. 

No alto, no fecho do arco, vê-se um escudo com o Hão dos Silvas e elmo 
posto de três quartos: 

Do casamento de João da Silva com D. Ana de Castro nasceram, entre 
outros : 

i.° — Diogo da Silva foi embaixador ao Concílio Tridentino, tendo rece- 
bido a carta credencial em 29 de Setembro de 1 55 1 (2). Chegou a Trento 
a 5 de Março seguinte; a 19 apresentou a sua credencial; e assistiu a uma 
única sessão, à de 28 de Abril de i552, depois de ter alcançado a precedência 
sobre o embaixador dei Rei de Hungria (3). Acêrca dêste assunto escrevera 
Diogo da Silva uma carta a D. João III, datada de Trento, a 3i de Março (4J. 
Voltando para Portugal foi-lhe feita mercê, por alvará de 8 de Janeiro de 



(1) Vem expressa esta data na carta de 27 de Fevereiro de 1 558 de padrão de 100.000 rs. 
de tença a Fernão da Silva, neto do Regedor. — Chancelaria de D. Sebastião, liv. 2. de 
Doações, fl. 141. 

(2) Pereira de Figueiredo, Portugueses nos Concílios Geraes, pág. y3 ; Santarém, Quadro 
elementar, XII, 328; Corpo diplomático portugueç, VII, 60. 

(3) Pereira de Figueiredo, Portugueses cit., pág. 74. 

(4) Corpo diplomático, VII, 127. 



■ 



Silvas 



63 



1 555, em atenção a seus serviços em Trento, onde fôra por embaixador ao 
Concílio, da alcaidaria mor de Lagos, com cem mil reais de tença anexos, 
tudo de juro e herdade, para nela haver de suceder por falecimento de seu pai, a 
quem fôra dada em vida por carta de 14 de Fevereiro de 1 532 (1). Não 
chegou porem a suceder, nem na alcaidaria, nem na casa, por morrer em 
vida de seu pai, a 26 de Setembro de 1 556, em Lagos, onde estava tratando 
das fortificações da futura cidade. Foi levado a sepultar à capela dos Reis 
Magos na igreja do convento de S. Marcos, da banda do evangelho, e lá lhe 
gravaram este epitáfio: 

AQVI • IAZ • DIOGO • D A S I L V A • FILHO • MAIS • VELHO • DOREGEDOR- 
IOÃO • DASILVA • E • DEDONA • IOANA • DE • CASTRO • SVA • MOLHER • DO • 
CÕSELHO • DELREI ■ DÕIOAM • OTERCEIRO • E • Q • POR • SEV • MÃDADO • FOI ■ 
POR • EMBAIXADOR • AO • CÕCILIO • TRIDENTINO ■ O • QVAL • TEDO • OOFFI 
CIO • DE SEVPAIFALECEO-E-SVA - VIDA NA ■ CIDADE • DELAGOS ■ QVESTAVA- 
FORTIFICAMDO ■ PORj MÃDADO ■ DO • DITO • REI • EM • IDADE • DE. • 49 • 
ANOS • A • 26 • DE SETEBRO • DE • i556 • E • ASI • IAZ ■ CÕELE • DONA • ANTÓNIA- 
DE • VILHENA • SVA • VNICA • MOLHER • FILHA • DE • DÕ DIOGO ■ LOBO • BARÃO 
D ALVITO • E • DE ■ DONA • LIANOR • DE VILHENA ■ A QVAL • PERA • AMBOS MÃ 
DO V • FAZER • ESTA • SEPVLTVR A • E • FALECEO • 

Era Diogo da Silva já casado em 1 536 com D. Antónia de Vilhena, filha 
de D. Diogo Lobo, 2. barão de Alvito, e da baronesa D. Leonor de Vilhena. 
Naquele ano, por diploma de 21 de Janeiro, foi dada carta de padrão a 
Diogo da Silva de cinquenta mil reais de tença para ele comprada por sua 
sogra (2). D. Antónia de Vilhena cedeu, para serem anexados à alcaidaria 
mor de Lagos, cem mil reais da tença de juro, que para ela, sendo ainda 
solteira, havia sua mãe comprado em 1529 (3). Depois de viúva mandou pro- 
ceder à edificação, para seu jazigo e de seu marido, da belíssima capela dos 
Reis Magos à qual já lá acima aludi. 

De Diogo da Silva e D. Antónia nasceram muitos filhos dos quais o pri- 
mogénito foi Lourenço da Silva, regedor da Casa da Suplicação por alvará 
de 16 de Novembro de i56o. Morreu na batalha de Alcácerquibir e para 



(1) Chancelaria de D. Sebastião e D. Henrique, liv. 46. de Doações, fl. 116. 

(2) Chancelaria de D João III, liv. 21. de Doações, fl. 36. — Por verba de 14 de Março 
de i556 foi mandada trancar a tença, em virtude de Diogo da Silva não ter direito de a 
mais receber por lhe terem sido pagos os íooooors. do preço, por que sua sogra a houvera. 

(3) D. Leonor de Vilhena comprou 120 000 rs. de juro para sua filha D. Antónia de Vi- 
lhena, a quem foi passada carta de padrão em 8 de Junho de 1529. Depois, por alvará já 
citado de 8 de Janeiro de 1 555, daqueles 120.000 rs. foram tirados ioo.oco e anexados à alcai- 
daria mor de Lagos. — Chancelaria de D. João III, liv. 48. de Doações, fl. 29. 



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os seus restos foi erigido um monumento sepulcral em frente do de seu pai; 
mas não sei se para êle chegaria a vir o seu cadáver, sendo certo que nenhuma 
inscrição lâ se lê. Aos lados da pedra para ela destinada vêem-se dois es- 
cudos de armas: o da direita com o lião dos Silvas; o da esquerda com seis 
arruelas dos Castros por D. Inês de Castro, mulher do Regedor, e filha de 
D. João de Meneses, senhor de Tarouca. De Lourenço da Silva foram filhos, 
alem doutros: Diogo da Silva, 8.° senhor de Vagos, adiante; e Pero da 
Silva, o Duro, i.° conde de S. Lourenço por carta de 26 de Junho de 1640, 
governador e capitão general do Brasil, que de sua mulher e prima D. Luísa 
da Silva, senhora do morgado de Monchique, teve a D. Madalena da Silva, 
sua herdeira, 2. a condessa de S. Lourenço, mulher de Martim Afonso de Melo, 
5.° alcaide mor de Elvas e 2° conde de S. Lourenço. 

2. — Rui Pereira da Silva, alcaide mor de Silves, guarda mor do prín- 
cipe D. João filho de D. João III, casou com sua tia D. Isabel da Silva, 
i. a senhora do morgado de Santo António de Monchique, instituído por 
D. Fernando Coutinho, bispo de Silves, seu pai, que para ela também com- 
prara a Henrique Moniz a alcaidaria mor de Silves. Do seu casamento teve 
Rui Pereira sucessão, na qual se continuou o morgado e alcaidaria e se extin- 
guiu na varonia, em 1725, na pessoa de Rui da Silva de Távora, passando 
a casa aos Pereiras Coutinhos de Brito e Elvas. 

3.° — Jorge da Silva, 7. senhor de Vagos, que segue. 

4. — D. Ana de Meneses, donzela da rainha D. Caterina, condessa da 
Feira pelo seu casamento com o 4. conde D. Diogo Pereira. 

5.° — D. Guiomar de Castro, baronesa de Alvito, mulher do 3.° barão 
D. Rodrigo Lobo. 

VIL- — JORGE DA SILVA. Era o filho mais velho varão existente ao 
tempo da morte de seu pai João da Silva, pelo que lhe sucedeu no senhorio 
de Vagos. Acordou com seu sobrinho Lourenço da Silva, filho maior de seu 
irmão primogénito Diogo da Silva, traspassar-lhe o direito que tinha na refe- 
rida vila mediante certa indemnização, mas não teve lugar a cedência por 
ser necessário o consentimento da mulher de Jorge, D. Luísa de Barros, que 
o não quis dar. Faleceu Jorge da Silva, juntamente com seu sobrinho Lou- 
renço, na batalha de Alcácerquibir, a 4 de Agosto de 1 678, e foi sepultado 
na igreja de S. Domingos de Lisboa, na capela de Jesus, à parte esquerda, 
com êste epitáfio: Sepultura de Jorge da Silva e de D. Luisa sua molher (1). 
D. Luísa era filha de Jorge de Barros, feitor em Flandres, onde foi substi- 



(1) P.e Sousa, Memorias sepulchraes, fl. 147 v. 



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tuido em 1 537, fundador do morgado de Val de Flores em Santa Iria da 
Azóia, «hum mercador muito honrrado e muyto rico», a sua fazenda foi «húa 
das mayores que neste Reyno se ajuntou, que passava de trezentos mil cru- 
zados» (i). Por morte de Jorge da Silva voltou o senhorio de Vagos à linha 
primogénita. 

VIII. — DIOGO DA SILVA. Foi filho de Lourenço da Silva, 4. regedor 
da justiça da Casa da Suplicação na sua família, neto de Diogo da Silva e 
bisneto de João da Silva, 6.° senhor de Vagos. Durante a menoridade de 
D. Sebastião alcançara Lourenço da Silva um alvará de lembrança, passado 
em Lisboa a 23 de Dezembro de 1 558, para êle, ou seu filho, aquele dos 
dois que sobrevivesse a Jorge da Silva, poder suceder-lhe, não deixando êle 
filhos, no senhorio de Vagos. Mortos Lourenço e Jorge na batalha de Alcácer- 
quibir, e resgatado do cativeiro, onde nela ficara, Diogo da Silva, foi a este 
confirmado o senhorio de juro e herdade por carta dada em Lisboa a 18 de 
Fevereiro de 1587(2). Foi nomeado regedor da Casa da Suplicação por 
carta de 10 de Setembro de 1590, e morreu a 16 de Março de 1597, como 
declara a carta de confirmação de certa tença a seu filho e sucessor (3). 

Casara Diogo da Silva por duas vezes. A primeira vez fora com D. Beatriz 
de Mendoça, filha de D. Fernando de Meneses, alcaide mor de Castelo Branco, 
e dela tivera a Lourenço da Silva, 9. senhor de Vagos, adiante mencionado. 
Casara a segunda vez com D. Margarida de Meneses, 2. a senhora de Aveiras, 
filha que veio a ser herdeira, por falecimento de seus quatro irmãos na batalha 
de Alcácerquibir, de D. João Telo de Meneses, i.° senhor de Aveiras e do 
morgado dos Meneses de Santarém, um dos cinco governadores do reino à 
morte do Cardial Rei. Morreu D. João Telo a 11 de Agosto de i58o, como 
declara um mandado de i3 de Dezembro de 1 583 para ser paga certa quantia 
a sua filha herdeira D. Margarida (4). Dêste casamento nasceram: João da 
Silva Telo de Meneses, que veio a ser 10. senhor de Vagos, e D. Isabel de 
Mendoça, mulher de Fernão Martins Freire, 6.° senhor de Bobadela. 

IX. — LOURENÇO DA SILVA, filho primogénito de Diogo da Silva, 
teve cartas de confirmação do senhorio de Vagos e da alcaidaria mor de Lagos 



(1) Livro das gerações deste Reino, ms., II, fl. 149.— Foi composto pelos anos de 1626; 
veja-se no Archivo histórico portuguez, VI, 294. 

(2) Chancelaria de Felipe I, liv. 12. de Doações, fl. 274. 

(3) Chancelaria de Felipe II, liv. i.° de Doações, fl. 145 v. 

(4) Liv. 3.° de Ementas, fl. 214 v. „ 

VOL. M 9 



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em 8 de Agosto de 1597(1), e 4 de Setembro de 1628(2). Cegou de repente, 
sendo muito novo, indo de Vagos para Aveiro; ele, e o criado que o acom- 
panhava, acrescenta-se. Esta coincidência faz-me supor ter sido efeito de 
algum raio, que a ambos assombrasse; ,jpara ser gota serena havia de dar 
logo nos dois? Não é crível; bem como não sei se o será toda a história, 
como a contam. Por ter cegado não serviu o ofício de regedor da Casa da 
Suplicação. Ainda vivia em 1641, tendo sido nos princípios desse ano preso, 
juntamente com sua mulher, por suspeitos de conivência na fuga para Cas- 
tela de seu filho primogénito Luís da Silva (3). Tinha Lourenço da Silva já 
morrido a 8 de Maio de 1645, data da carta de confirmação de certa tença a 
sua viúva D. Maria de Vilhena (4). Vagou então para a Coroa o senhorio de 
Vagos, o qual em i65o foi doado ao meio irmão do falecido. 

D. Maria de Vilhena era filha de Henrique de Sousa, i.° conde de Mi- 
randa, e Luís da Silva, seu filho, dizem ter sido feito conde de Vagos por 
Felipe IV; morreu no socorro de Lérida, em 1646. 

X.— JOÃO DA SILVA TELO DE MENESES foi 3.° senhor e i.° conde 
de Aveiras, por carta dada em Madrid em 24 de Fevereiro de 1640 (5), 
e vice rei da índia por carta patente do dia seguinte (6). Estava na índia 
quando lá chegou a notícia da aclamação de D. João IV, a quem fez logo 
reconhecer como rei daquele estado; voltando para Portugal, tornou lá como 
vice rei em i65o, sendo-lhe nesta ocasião, àlêm doutras mercês, concedidas 
as seguintes por alvarás de 9 de Fevereiro: o título de conde de Aveiras de 
juro e herdade, na forma da Lei Mental, para seu filho (7); a promessa do 
título de marquês de um dos seus lugares para se lhe passar carta no re- 
gresso da índia (8) e ainda a promessa de regedor da Casa da Suplicação, 
também para ser provido na volta (9). Por esta mesma ocasião, por alvará 
de 18 do dito mês, foi-lhe feita doação do senhorio da vila de Vagos, com 
as mesmas rendas e jurisdição e em tudo da maneira como seu irmão Lou- 



( 1 ) Chancelaria de Felipe I, liv. 3o.° de Doações, fls. 227 v. e 23o. 

(2) Liv. i3.° de Confirmações gerais, fl. i3 v. 

(3) Conde da Ericeira, Portugal restaurado, I, 124. 

(4) Chancelaria de D. João IV, liv. 3.° de Doações, fl. 176 v. 

(5) Pelos seus serviços nas coisas de que foi encarregado e pelos merecimentos de seus 
passados, cuja memória me é muito presente, e em consideração dos serviços que ora me vai 
fazer à índia no cargo de vice rei, para que o tenho nomeado, etc, carta de conde de Aveiras, 
em sua vida. Madrid, etc. — Chancelaria de Felipe 111, liv. 37 de Doações, fl. 33 v. 

(6) Ibidem, fl. 32. 

(7) Chancelaria de D. João IV, liv. i5.° de Doações, fl. 265. 

(8) Ibidem. 

(9) Ibidem. 



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renço da Silva o possuirá; alvará. confirmado por carta de 3 de Março se- 
guinte, sendo-lhe tudo concedido de juro e herdade na forma da Lei Mental 
de 1587 (1). Era regedor da Casa da Suplicação já em fins de 1649; embarcou 
para a índia em Abril de i65o e morreu na viagem no ano seguinte. 

Havia casado com sua parenta D. Maria de Castro, filha de Rui Teles 
de Meneses, 7. senhor de Unhão, e de sua mulher D. Mariana da Silveira, 
tendo-se realizado o casamento em 1610, depois de 11 de Fevereiro (2). Dele 
proveio apenas um filho que tivesse sucessão; foi Luís da Silva Telo de Me- 
neses. 

XI — LUÍS DA SILVA TELO DE MENESES, filho do i.° Conde de 
Aveiras, sucedeu a seu pai no senhorio de Vagos, do qual lhe foi dada carta 
de confirmação, de juro e herdade, em 14 de Setembro de 1659 (3), sendo 
ele já então 2. conde de Aveiras desde 16 de Abril de i65o, ainda em vida 
do pai, por carta daquela data que confirmou um dos acima citados alvarás 
de 9 de Fevereiro (4). Exerceu o cargo de regedor da Casa da Suplicação 
nos anos de i663 a 1669, sendo-lhe então tirado o ofício (5) e dado o de 
presidente da Mesa da Consciência e Ordens por carta de 11 de Setembro (6). 
Morreu a 20 de Novembro de 1672 (7) e foi sepultado na igreja do convento 
de S. Marcos, na capela mor da parte da epístola, pondo-se-lhe no túmulo 
este epitáfio: 

AQVI IAZEM OS OSSOS DE LVIS _DA SILVA TELLO REGEDOR 
DAS IVSTISSAS CONDE DE AVEIRAS SNOR. DE VAGOS ALCAIDE MOR 
DA CIDADE DE LAGOS GENTILHOME DA CAMARA DE SVA MAG» 
EL REI D. PEDRO O 2 E OS DE SVA MOLHER D. JOANNA DE PORTV 
GAL OS QVAIS SE TRESLADARÃO DO PAVIMENTO DESTA 
CAPELLA MOR EM Q. FORÃO SEPOLTADOS PERA ESTE LV 
GAR A Q. SEV FILHO O CONDE DE AVEIRAS JOÃO DA SIL 
VA OS COLLOCOV NO ANNO DE 1692. 

No fecho do arco vê-se um lião esculpido num escudo sobrepujado de uma 
coroa. 



(1) Chancelaria de D. João IV, liv. 5." de Doações, fl. 358. 

(2) Luís Teixeira de Sampaio, Os Chavões, pág. 34 da separata da Revista de Historia. 

(3) Chancelaria de D. Afonso VI, liv. 5." de Doações, fl. 204. 

(4) Chancelaria de D. João IV, liv. 19. de Doações, fl. 34a v. 

(5) Monstruosidades do tempo e da fortuna, pág. 101. 

(6) Chancelaria de D. Afonso VI, liv. 29. de Doações, fl. 35. 

(7) A este propósito escreveu o autor das cit. Monstruosidades, pág. 206: «Em a 
mesma semana morreo o Conde de Aveiras de sua doença, com os Sacramentos, Fidalgo 
muito bemquisto de todos, e geralmente foi sentida sua morte». 



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Casou o Conde de Aveiras por duas vezes; do seu segundo casamento 
porem não teve descendência. Realizara-se o primeiro, em i de Março de 
1647, com D. Joana de Portugal, senhora do morgado de Val de Palma, na 
freguesia de Machede do termo de Évora. Este morgado fôra instituído por 
Jerónimo Côrte Real, filho segundo de Vasco Anes Corte Real, 2. capitão 
de Angra, para seu sobrinho João Vaz Côrte Real, filho segundo do 3.° ca- 
pitão Manuel Côrte Real. Morreu aquele sem descendência; passou o mor- 
gado a seu irmão Jerónimo Côrte Real, o poeta do Cêrco de Diu; dêste, a 
sua irmã D. Maria Côrte Real a quem foram confirmados, por alvará de i5 
de Maio de i5o,o, os privilégios de coutada da quinta de Val de Palma (1). 
Era D. Maria ao tempo casada, em terceiras núpcias, com João Gomes da 
Silva, do conselho de Estado e vedor da fazenda, de quem, bem como de 
seus precedentes maridos, não teve filhos. Passou então o morgado a sua 
irmã D. Margarida de Mendoça, segunda mulher de D. Manuel de Portugal, 
poeta louvado por Sá de Miranda e Camões (2). Seguiu-se-lhe sua única 
filha D. Joana de Mendoça Côrte Real, mulher de seu primo com irmão 
D. Nuno Alvares de Portugal, governador do reino com outros nos anos de 
1621 a 1623. Tiveram vários filhos todos falecidos muito novos, com excepção 
de D. Maria de Portugal, condessa de Monsanto, primeira mulher do 6.° conde 
D. Alvaro Pires de Castro. Estes foram os pais da condessa de Aveiras. 
Em virtude da administração do morgado de Val de Palma acrescentaram 
os Condes de Aveiras a seu nome o apelido Côrte Real, e possuíram aquela 
quinta, que só foi vendida depois da abolição dos vínculos pelo último Mar- 
quês de Vagos (3). 

XII.— JOÃO DA SILVA TELO DE MENESES, filho primogénito do 
precedente, sucedeu-lhe no título de conde de Aveiras, por carta de 24 de 
Dezembro de 1672 (4), e no senhorio de Vagos, de que só se lhe passou carta 
de confirmação em 16 de Novembro de 1729(5), tudo de juro e herdade. 
Foi o 8.° e último regedor das justiças na sua família, nomeado por carta de 
25 de Novembro de 1707, por três anos, e ocupou por várias vezes o cargo 
de presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Para êle foi nomeado pela 
primeira vez, por carta de 4 de Março de 1702, por três anos (6); recondu- 



(1) A. F. Barata, Subsídios para a biographia do poeta Jeronymo Corte Real, pág. 22-23. 

(2) Imprimiram-se as suas poesias com o título de Obras de Don Manoel de Portugal, 
Lisboa, por Pedro Craesbeeck, i6o5 (Diccionario bibliographico, VI, 88). 

(3) Barata, Subsídios cit., pág. 12. 

(4) Chancelaria de D. Afonso VI, liv. 41. de Doações, fl. 237. 

(5) Registo das Mercês de D. João V, liv. 20. , fl. 534 v - 

(6) Chancelaria de D. Pedro II, liv. 44. de Doações, fl. 286. 



Silvas 



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zido por mais três anos por outra carta de 26 de Março de 1705 (1); e final- 
mente, depois de exercer o cargo de regedor das justiças, em 17 de Março 
de 171 1 (2). Em 1726 vendeu o seu^palácio de Belém a D. João V, e morreu 
a 27 de Abril de 1740, com noventa e quatro anos (3). 

XIII. — LUÍS DA SILVA TELO foi 4. conde de Aveiras de juro e her- 
dade, por carta de 19 de Junho de 1700, ainda em vida de seu pai (4), a quem 
sucedeu no senhorio de Vagos em 1740, não se tendo chegado contudo a 
encartar nele, provavelmente por morrer logo a 22 de Março do ano se- 
guinte (5). Era então do conselho, gentil-homem da câmara do infante D. Fran- 
cisco, senhor de Vagos e de Aveiras, alcaide mor da cidade de Lagos, comen- 
dador na Ordem de Cristo, mestre de campo no exército com o governo das 
armas da província do Minho. Havia casado a 25 de Junho de 1700 com 
D. Maria Inácia de Távora, filha dos i. os Condes de Alvor, a qual falecera a 
9 de Julho de 1738(6), deixando apenas uma filha viva. 

XIV. — D. INÊS JOAQUINA DA SILVA TELO DE MENESES foi 
5.* condessa de Aveiras, em vida de seu pai e avô, a quem fora feita mercê 
do título para a pessoa que casasse com sua neta, e em virtude da carta de 
26 de Junho de 1720, pela qual foi concedido o título a seu marido D. Duarte 
António da Câmara (7), com quem havia casado a i3 do mesmo mês. A êste 
Conde de Aveiras foi confirmado, por cabeça de sua mulher, o senhorio de 
Vagos, de juro e herdade, por alvará de 14 de Dezembro de 1741 (8), não se 
tendo chegado a passar a carta por motivo do falecimento da Condessa. 
Morreu ela a 20 de Agosto de 1742(9), extinguindo-se em pouco mais de 
dois anos três gerações de senhores de Vagos. D. Duarte era filho segundo 
dos 2.°' Condes da Ribeira Grande e veio a ser, pelo seu segundo casamento, 
7. conde da Atalaia, em 1746, e 2. marquês de Tancos, por carta de 19 
de Setembro de 1761. Faleceu a 29 de Junho de 1779(10), deixando um 
único filho do seu primeiro matrimónio. 



(1) Chancelaria de D. Pedro 11, liv. 46. de Doações, fl. 1 33 v. 

(2) Ofícios e mercês de D. João V, liv. 33.°, fl. 3i2. 

(3) Gaveta de Lisboa de 5 de Maio. 

(4) Chancelaria de D. Pedro 11, liv. 26.' de Doações, fl. 149. 

(5) Gaveta de 6 de Abril de 1 74 1 . 

(6) Gaveta de 17. 

(7) Registo das Mercês de D. João V, liv. 2. , fl. 257. 

(8) Ibidem, liv. 20», fl. 535. 

(9) Gaveta de Lisboa de 28. 

(10) Gaveta de Lisboa de 2 de Julho. 



JO 



Brasões 



XV. — FRANCISCO DA SILVA TÉLO DE MENESES, filho único 
da 5. a Condessa de Aveiras, nasceu em 1723, foi 6.° conde de Aveiras, em 
sua vida, por carta de 22 de Setembro de 1742(1), e i5.° senhor de Vagos, 
em sucessão a sua mãe, por carta de confirmação de 22 de Setembro do ano 
seguinte (2). Já era tenente general quando, por decreto de 20 de Novembro 
de 1783, entrou para conselheiro do Conselho de Guerra (3); serviu de mor- 
domo mor da princesa D. Maria Benedita, por despacho de 5 de Abril de 
1790 (4), e no ano seguinte foi promovido ao posto de tenente general efectivo 
por decreto de i3 de Maio (5). O Príncipe Regente concedeu-lhe, por des- 
pacho de 14 de Novembro de 1802(6), o título de marquês de Vagos, em 
duas vidas, sendo-lhe passada carta a 2 de Dezembro (7). Teve as grS- 
cruzes de Avis, em Maio de 1793(8) e de Cristo, no mesmo mês de 1804(9). 
Faleceu, sendo governador das armas da corte e província da Estremadura, 
a 5 de Janeiro de 1808(10), com oitenta e cinco anos de idade. 

Havia casado a 22 de Outubro de 1743 com D. Bárbara da Gama, filha 
dos 4.°" Marqueses de Nisa (1 1), falecida com vinte e dois anos de idade, na 
noite de 26 para 27 de Fevereiro de 1753 (12), deixando entre outros, a Nuno 
da Silva Telo e a D. Maria da Silva, condessa de Povolide, mulher do 
3.° conde (i3) José da Cunha Grã Ataíde e Melo, falecido repentinamente na 
noite de 16 para 17 de Janeiro de 1792 (14) e ela a 3 de Março de 1806. 

XVI. — NUNO DA SILVA TELO foi 7. conde de Aveiras de juro e 



(1) Registo das Mercês de D. João V, liv. 20. , fl. 535 v. 

(2) Ibidem, liv. 34.°, fl. g5 v. 

(3) Gaveta de Lisboa de 8 de Dezembro. 

(4) Gavetas de 7 e i3 de Abril. 

(5) Gaveta de 10 de Junho de 1791. 

(6) Gaveta de 3o de Novembro. 

(7) Atendendo aos serviços do conde de Aveiras, Francisco da Silva Telo de Meneses, 
nos postos militares até ao de general de artelharia e conselheiro de Guerra, como no paço, 
no emprego de mordomo mor da princesa D. Maria Francisca Benedita, e também aten- 
dendo ao zelo, fidelidade e préstimo com que me tem servido seu filho o conde de Aveiras, 
Nuno da Silva Telo, no exercício de meu gentil-homem da câmara, etc. Carta de marquês 
de Vagos, em duas vidas. — Chancelaria de D. João VI, liv. fl. 217. 

(8) Gaveta de 7 de Maio. 

(9) Gaveta de 2 de Junho. 

(10) Gaveta de 12 de Janeiro. 

(11) Gaveta de 29 de Outubro. 

(12) Gaveta de 8 de Março. 

(13) Despacho de 17 de Dezembro de 1792. — Gaveta de 21. 

(14) Gaveta de 21. 



Silvas 



herdade, por carta de i5 de Janeiro de 1772(1), 2. marquês de Vagos, por 
despacho de i5 de Agosto (2) e carta de 26 de Novembro de i8o5 (3). Ambos 
estes títulos teve em vida de seu pai, a quem sucedeu no senhorio de Vagos, 
sem contudo lhe haver sido passada carta de confirmação. Foi gentil-homem 
da câmara de D. Maria I, seu estribeiro mor no Brasil, mordomo mor da 
princesa viúva D. Maria Benedita, grã-cruz das ordens de Cristo e Torre 
Espada, conselheiro do Supremo Conselho Militar e de Justiça, governador 
das armas da corte e do Rio de Janeiro, marechal do exército, etc; morreu 
no Rio de Janeiro a 12 de Novembro de i8i3(4). 

Casara em 1772 com D. Leonor da Câmara, filha dos 5. 0S Condes da Ri- 
beira Grande (5), a qual já era falecida em 1798, deixando três filhas, que 
eu saiba: D. Joana da Silva Telo, adiante; D. Bárbara da Silva Telo, con- 
dessa dos Arcos, mulher do 9. conde D. Manuel de Noronha e Brito; e 
D. Leonor Maria da Silva Telo, marquesa de Tancos, mulher do 4. mar- 
quês D. Duarte Manuel de Noronha. 

XVII. — D. JOANA DA SILVA TELO foi 3. a marquesa de Vagos, por 
despacho de 17 de Dezembro de 181 3 (6) e carta dada no Rio de Janeiro a 
i3 de Abril de 1818(7), e l 7«* senhora da mesma vila que lhe foi confirmada 
por carta de 6 de Dezembro de 1825, em sucessão a seu pai, declarando-se 
haver sido seu avô o último donatário encartado (8). Morreu a 24 de Abril 
de 1828(9), tendo casado a 10 de Setembro de 1 81 5, conforme dizem as 
Resenhas, com D. José de Noronha, irmão de seu cunhado o 9. Conde dos 
Arcos. Foi D. José o 3.° marquês de Vagos, par do reino em 1826, e faleceu 
a 24 de Janeiro de 1834. 

XVIII. — D. MARIA JOSÉ DA SILVA TELO DE MENESES 
CORTE REAL, filha dos precedentes, sucedeu a sua mãe no título de mar- 



(1) Registo das Mercês de D. José, liv. a5. , fl. 110. 

(2) Gaveta de 5 de Outubro. 

(3) Chancelaria de D. João VI, liv. 2. , fl. 368. 

(4) João Carlos Feo, Resenha das famílias titulares, pág. 249. 

(5) Na carta de i5 de Janeiro de 1772 do título de conde de Aveiras a Nuno da Silva 
Telo declara-se estar êle então justo a casar. 

(6) Gajeta de Lisboa de 12 de Março de 1814. 

(7) Consta da carta do assentamento, dada a i5 de Dezembro de 1818 e registada a 
fl. 48 v. do liv. 27. da Chancelaria de D. João VI. 

(8) Ibidem, fl. 279. 

(9) Consta de uma apostila passada à Marquesa sua filha e registada a fl. 100 v. do 
liv. 12. da Chancelaria de D. Pedro IV, aliás D. Miguel. 



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quesa de Vagos e no senhorio da mesma vila, o qual era de juro e herdade. 
Por provisão de 24 de Setembro de 1829 foi o Marquês seu pai autorizado 
a administrar o dito senhorio durante a sua menoridade, constando pelo 
mesmo documento ser ela já então a 4.* marquesa de Vagos (1). Não lhe 
foi porém reconhecido o título pelo Governo Constitucional, o qual contudo 
posteriormente lho concedeu, de juro e herdade, por carta de 16 de Dezembro 
de i836 (2). Morreu a 14 de Março de 1864, tendo casado a 26 de Novembro 
de i836 com D. Francisco António de Noronha, que foi 4. marquês de Vagos 
e morreu a 29 de Outubro de i883 (3). 

Nesta senhora terminou a posse do senhorio de Vagos, o qual esteve na 
mesma família durante quatro séculos e meio, com uma pequena interrupção 
entre o 9. e o io.° senhor. 

Muitos destes Silvas foram regedores das justiças da C?sa da Suplicação 
e, se algum interêsse pode ter para a História a lista dos senhores de Vagos, 
muitíssimo maior o tem, sem dúvida nenhuma, o catálogo cronológico dos 
Regedores, por isso lá adiante, em apêndice a êste artigo, deixarei para êle 
uns apontamentos (4). 

Era o marquês de Vagos D. Francisco Srmão de D. José António de No- 
ronha Abranches de Castelo Branco, 9. conde de Valadares, falecido sem 
sucessão em 1873, ambos filhos de D. Pedro António de Noronha, 8.° conde 
de Valadares, e da condessa D. Maria Helena da Cunha, irmã de António da 
Cunha Grã Ataíde e Melo, conde de Sintra e senhor da casa de Povolide, a 
qual, depois de ter estado algum tempo na posse de um seu irmão, passou 
a seu sobrinho o 9. Conde de Valadares. Morreu êste sem filhos e pas- 
saram ambas as casas, tanto a de Valadares, como a de Povolide, ou pelo 
menos a sua representação, ao último Marquês de Vagos. 

Chamou-se êle D. José Telo da Silva de Meneses Corte Real, foi 9. conde 
de Aveiras (5), de juro e herdade, por decreto de 28 de Fevereiro de i863, 
5.° marquês de Vagos, também de juro e herdade, por outro decreto de 28 
de Dezembro do mesmo ano. E já falecido. 



(1) Chancelaria de D. Pedro IV, aliás D. Miguel, liv. i3.°, fl. 175. 

(2) Chancelaria de D. Maria II, liv. 7. , fl. 61. 

(3) Estas datas são das Resenhas. 

(4) Veja-se a Nota I. 

(5) O 7.» conde de Aveiras havia sido Nuno da Silva Telo, acima mencionado; o 8.» 
foi seu filho primogénito por despacho de 6 de Maio de 1793 (Gaveta de 17); posterior- 
mente só torno a encontrar menção deste título no documento apontado no texto. 



Silvas 



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Na casa de Valadares houve o título de marquês de Torres Novas con- 
cedido ao 7. conde, D. Alvaro António de Noronha Abranches Castelo 
Branco, por despacho de i3 e carta de 22 de Maio de 1807 (1). Este titulo 
não se repetiu. 

Acrescentaram os Silvas de Vagos ao escudo das suas armas dois ramos 
de silvas de verde, acompanhando em orla o lião heráldico. 

As armas dos Condes de Valadares eram: esquartelado o I e IV das 
armas do reino com um filete de negro sobreposto em barra; o II e III de 
vermelho, castelo de oiro, o campo mantelado de prata com dois lices bata- 
lhantes de púrpura, armados de vermelho, bordadura de escaques de oiro e 
veiros de dezoito peças (Noronha). Sobre o todo: cortado de um traço, 
partido de dois, o que faz seis quartéis: o I, III e V de oiro, dois lobos pas- 
santes, sotopostos de púrpura, armados e linguados de vermelho (Vilalobos); 
o II, IV, e VI de oiro, quatro palas de vermelho (Lima); sôbre o todo, de 
oiro liso (Meneses). Timbre : liao nascente de púrpura, armado e linguado 
de vermelho. São as armas dos Marqueses de Vila Real de quem os Vala- 
dares eram os representantes por linha não legítima; mas, apesar disso, por 
sua extinção reivindicaram a casa da Coroa, que, para com êles se compor, 
lhes deu o título de conde e umas rendas em Leiria. 



VI 

SENHORES E CONDES DE UNHÃO 
CONDES DA VIDIGUEIRA E MARQUESES DE NISA 



Vamos continuando, amigo leitor, nesta enfadonha derrota; saímos da 
casa de Vagos, entremos na de Unhão. 

Aires Gomes da Silva, 2. senhor de Vagos e Unhão, teve dois filhos, 
como disse na pág. 53-54: João da Silva, 4. senhor de Vagos, e Fernão Teles 
de Meneses, 3.° senhor de Unhão. Como também já ficou dito, foi a casa 
confiscada a Aires Gomes por ser parcial do infante D. Pedro e ter estado 
na batalha da Alfarrobeira, sendo-lhe depois restituída, em 1453, a ele e a 
sua mulher D. Beatriz de Meneses, para ser dividida pelos dois filhos. Na 
divisão ficou o primeiro com Vagos e outras terras, e o segundo com Unhão, 
Cepães, Gestaçô, Meinedo e Ribeira de Soaz. Fernão Teles já em 1459 tinha 



(1) Gaveta de Lisboa de 19 de Maio; Mercês do Príncipe Regente, liv. 8.°, fl. 385. — Na 
carta invoca-se o bom e contínuo serviço do Conde de Valadares, do conselho e gentil- 
-homem da câmara real, o seu sangue e os merecimentos e qualidades de sua pessoa e 
daqueles de que descende. 

vol n 10 



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sucedido nas terras por morte de Martim Afonso de Berredo, a quem elas 
haviam sido doadas por D. Afonso V, quando a casa de Aires Gomes da 
Silva fôra confiscada. Consta de uma carta de i3 de Fevereiro daquele ano 
pela qual foi dada uma tença de catorze mil reaes, em satisfação das referidas 
terras, a João Rodrigues Pereira, irmão do falecido Berredo (i). 

Anteriormente recebera já Fernão Teles mercê da rainha D. Isabel, 
mulher de D. Afonso V. Era esta senhora muito afeiçoada a sua aia D. Beatriz 
de Meneses, a seu marido e a seus filhos, e por várias vezes e formas, segundo 
já tive ocasião de mostrar, lhes patenteou a sua afeição. Em 1446, apesar 
de ainda não consumado o matrimónio, já D. Isabel, alguém por ela, é claro, 
atenta a sua menoridade, tinha tomado posse do seu apanágio, no qual se 
compreendia o senhorio da vila de Sintra, com a alcaidaria mor do seu cas- 
telo, e dela veio a Rainha a fazer mercê a Fernão Teles, em data por mim 
ignorada, mas certamente pouco anterior a Dezembro de 1455. Teve então 
lugar a morte de D. Isabel e Fernão Teles apenas contava, conforme o côm- 
puto do seu epitáfio, vinte e três anos. Passados tempos, estando a vila na 
posse da Coroa, renunciou Fernão Teles a alcaidaria mor para ser dada a 
seu irmão João da Silva, a quem se mandou entregar por carta de 6 de Abril 
de 1461 (2), na qual se não declara o parentesco, indubitável para mim con- 
tudo, por não haver então outro João da Silva nos casos de ser alcaide mor 
de castelo. O João da Silva, 2. senhor da Chamusca, ainda em 1475, se- 
gundo adiante veremos, era simples fidalgo da casa do Duque de Viseu e 
não da casa dei Rei, como era o seu homónimo quando lhe deram a alcai- 
daria de Sintra. 

Fernão Teles foi mordomo mor e governador da casa da princesa D. Leonor, 
mulher do futuro D. João II, e a êle, bem como a seu pai, serviu dedicada- 
mente, assim em África, como em Castela, por terra e por mar, em paz e 
em guerra. Tinha a sua casa em Santarém, em Fora de Vila, e lá foi o 
assento dos senhores de Unhão. Partiu uma manhã de casa e, chegando a 
Lisboa com boa maré, embarcou para Setúbal. D'aqui passou a Alcácer do 
Sal, onde, na noite do i.° de Abril de 1477, acudindo a uma briga na rua, 
lhe deram na cabeça com uma pedra e o mataram (3). Tinha apenas quarenta 
e cinco anos e foi sepultado no convento de S. Marcos em magnífica sepul- 



C 1) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 36.°, fls. 58 e 65. 

(2) Confiando nós da bondade e lealdade de João da Silva, fidalgo de nossa casa, e 
querendo-lhe fazer graça e mercê pelos muitos serviços que dêle temos recebido, &c. damo-lo 
por alcaide mor do nosso castelo de Sintra, assi e pela guisa que o era Fernão Teles, 
fidalgo de nossa casa, que o ora em nossas mãos renunciou para o a êle darmos, &c. San- 
tarém, &c. — Ibidem, liv. fl. 24. 

(3) Diogo Gomes de Figueiredo, Nobiliário genealógico, II, 3 16. 



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tura, de primoroso lavor, mandada erigir por sua mulher, com este epitáfio 
em letra gótica do tempo: 

acqui repousa o corpo do muy homrado e muy nobre fidalgo e caualeiro fernam 

teles de meneses filho de ayres gomez da silua e de dona briatiz 
de meneses moordomo moor e gouernador da muy escrarecida Snra dona lyanor es- 

tonces princesa e agora Rainha de portugal o 
qual asy em africa como em castelã per terra e per maar taaes seruicos e feytos 

na paz e na guerra fez que ouue a morte enueia de seu 
crecimento pois no milhor da uida o leuou uiueu xxxxb annos e meo e faleceo na 

era de mil e cccc e lxx e bii permero dia da 
bril. Dona maria de uilhana filha de martim afóm de melo e de dona margarida 

de uilhana aya da mesma Snra Rainha tam nobre per uer 
tude como per real linhagem húua soo sua molher o mandou fazer em uida e aqui 

se mandou sepultar pera jazerem os ossos tão iuntos como 
foram as uontades uiueo 

i Ninguém teve a piedosa lembrança de mandar gravar a data da morte 
da nobre senhora ! 

Por baixo das sete linhas do epitáfio vêem-se esculpidos três escudos: o 
da esquerda, em lisonja, é esquartelado de liÕes e de mãos com azas e es- 
padas (Vilhenas), são as armas de D. Maria; o do centro é partido, sendo o 
I esquarteiado de liÕes e de mãos com azas e espadas (Vilhenas), e o II tam- 
bém esquartelado de liões e de campo liso (Silvas e Meneses), são as armas 
dos dois cônjuges reunidas; o da direita é esquartelado de liÕes e de campo 
liso (Silvas e Meneses), são as armas de Fernão Teles. Por cima do fecho 
do arco, na parede, tornam-se a ver as armas de Fernão Teles: escudo es- 
quartelado de liões e de campo liso; elmo de perfil; timbre, anjo posto de 
frente, segurando com as mãos uma aspa sobre o corpo. 

D. Maria de Vilhena era filha de Martim Afonso de Melo, guarda mor 
de D. Afonso V, e de sua mulher D. Margarida de Vilhena. Quis D. Maria 
por dois modos perpetuar a querida memória do finado marido, levantando- 
-lhe o soberbo mausoléu de S. Marcos, instituindo um morgado com a obri- 
gação da «alcunha Teles». Este morgado designado pelo dos Teles de 
Santarém foi instituído por instrumento feito naquela vila, a 29 de Abril de 
1483, perante Rui Teles, filho da instituidora, e D. Guiomar de Noronha, 
sua mulher. Ao morgado vinculou a terça e determinou a ordem da sucessão, 
com a designação dos sufrágios, etc. Posteriormente, a 10 de Janeiro de 
1492, em Lisboa, nas poisadas de D. Maria de Vilhena, fez ela certas altera- 
ções às condições da instituição, a qual teve aprovação régia a favor de Rui 
Teles, por carta dada em Sintra a 14 de Julho de i5o4(i). E para notar 



(1) Liv. 2. da Estremadura, fl. 290. 



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haver D. Maria mandado celebrar os sufrágios obrigados pela instituição na 
igreja da terra, onde nos dias para eles aprazados estiver o administrador 
do vínculo, sem nenhuma referência a S. Marcos. A explicação porém do 
caso está em ela se haver antecipado, fazendo, em 1478, no ano imediato 
ao da sua viuvez, doação ao convento de certos bens em Condeixa (1). 

Do casamento de Fernão Teles e D. Maria de Vilhena nasceram, além 
doutros: Rui Teles de Meneses, sucessor na casa; Aires Teles que antes 
de ser frade franciscano foi grande lutador e D. João II folgava de o ver 
lutar (2); D. Joana de Vilhena, de quem disseram: 

Nam senguana, 
senhor, quem quiser dizer, 
que a senhora dona Joana 
de Vilhana 

tem no melhor parecer, 

que se vyo, nem ha de ver (3). 

Veio esta bela rapariga a casar em 1478 com D. João de Meneses, futuro 
i.° conde de Tarouca. Outra irmã tiveram os precedentes; foi ela D. Felipa 
de Vilhena, também mencionada no Cancioneiro com louvor, a qual veio a 
casar com Nuno Martins da Silveira, senhor de Goes. 

Rui Teles de Meneses, 4. senhor de Unhão, mordomo mor da rainha 
D. Maria, mordomo mor e governador da casa da infanta D. Isabel, impe- 
ratriz da Alemanha, e finalmente mordomo mor da rainha D. Leonor, última 
mulher de D. Manuel, morreu a i3 de Outubro de i528, e foi enterrado na 
capela de S. Bartolomeu, na igreja do convento de S. Domingos de Santarém, 
sepultura dalguns senhores de Unhão. Na campa lia-se o seguinte epitáfio: 
Aquija\ Ruy Telles de Meneses, Mordomo mor que foy da Rainha D. Maria, 
mulher delRey D. Manoel, e depois Governador e Mordomo mor da Infante 
D. Isabel sua filha Rainha de Castella e Imperatriz de Alemanha: e assim 
foy Mordomo mor da Rainha D. Leonor, terceira mulher do dito Rey: o 
qual foy filho de Fernão Telles de Meneses e de D. Maria de Vilhena. Fal- 
leceo terça feira tre\e de Outubro ano de i528 (4). 

Sobre o túmulo, ou na capela, estava uma pedra de armas, a qual hoje 
se guarda no Museu daquela cidade, e eram elas as de Rui Teles e de sua 
mulher, por esta forma: partido: o I esquartelado de um lião e de campo 



(1) Carta de 21 de Agosto de 1478 autorizando os Frades e Convento de S. Marcos a 
tomarem posse dos tais bens. — Liv. 7. da Estremadura, fl. 148 v. 

(2) Garcia de Rèsende, Vida de D. João II, cap. 208, fl 118 v. 

(3) Trovas de João Fogaça a dom Gonçalo Coutinho. — Cancioneiro geral, fl. 88 v. 

(4) P. e Inácio da Piedade e Vasconcelos, Historia de Santarém, II, 76. 



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liso; o II também esquartelado: no i.° as quinas do reino; no 2. e 3.° um 
castelo e o campo mantelado com dois liões batalhantes; no 4. uma aza ter- 
minada por uma mão que empunha uma espada levantada. O I é o escudo 
dos Teles de Meneses, formado das armas dos Silvas esquarteladas com as 
dos Meneses, e por aqui se vê não estar sempre o lião no segundo quartel, 
como geralmente se diz. O II tem três quartéis de Noronhas, e no lugar do 
quarto um dos de Vilhenas. 

Casara Rui Teles de Meneses com D. Guiomar de Noronha, filha de 
D. Pedro de Noronha e de sua mulher D. Caterina de Távora; celebrara-se 
o consórcio antes de 4 de Julho de 1487, data da carta de segurança das suas 
arras pelos bens da Coroa possuídos por seu marido (1); e D. Guiomar 
ainda vivia a 28 de Fevereiro de 1519(2). D. Pedro de Noronha era, ao 
tempo do casamento da filha, mordomo mor de D. João II e comendador 
mor da Ordem de Santiago. 

D. João II teve três mordomos mores da sua casa: um, só em quanto 
príncipe; outro, ainda em príncipe e já depois de rei; e o terceiro que lhe 
sobreviveu e continuou no cargo durante o reinado de D. Manuel. 

O primeiro foi Diogo Soares de Albergaria, marido de D. Beatriz de Vi- 
lhena, madrinha de baptismo do príncipe D. João. Nomeara D. Afonso V a 
Diogo Soares governador de seus filhos e, tendo em 1462 D. Beatriz de Me- 
neses, sua aia, retirado da corte, sucedeu-lhe naquele cargo D. Beatriz de Vi- 
lhena, e seu marido, o mencionado Diogo Soares de Albergaria, foi nomeado 
mordomo mor do Príncipe por carta de i5 de Dezembro do referido ano (3). 
Foi Diogo Soares homem notável de seu tempo escolhido por D. Afonso V, 
tpor sua fidalguia, bondades e grande saber», para os cargos que lhe confiou 
junto de seus filhos. Morreu em 1472, depois de 21 de Abril (4) e antes de 
18 de Agosto (5), e foi a sepultar à casa do capítulo do convento de S. Marcos 
no jazigo, para êle e para sua mulher, destinado pelos Frades. A capela é 
no cláustro e está em completo estado de ruína, de lastimosa e vergonhosa 
ruína. Por cima do sítio onde fôra o altar ainda hoje lá se lê o número 1564, 



(1) Chancelaria de D. João II, liv. 20. , fl. 1 36. 

(a) Carta de padrão de 10.000 rs. de tença a D. Guiomar, mulher de Rui Teles de Me- 
neses, que para ela os comprara. — Liv. 4.° de Místicos, li. 121. 

(3) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 9. , fl. i5i v. 

(4) Data da carta de nomeação de Diogo Martins para escrivão da cevadaria do Prín- 
cipe, carta ainda livrada por Diogo Soares. — Chancelaria de D. Afonso V, liv. 29. , fl. 4. 

(5) Data da carta de nomeação de D. João Galvão, bispo de Coimbra e conde de Santa 
Comba, para a vèdoria mor das obras da comarca da Beira, vaga por morte de Diogo Soares 
de Albergaria, «que se ora finou». — Ibidem, fl. 206. 



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indicando a data da última restauração. Encostada a uma parede lá encontrei, 
no dia 7 de Outubro de 1902, um fragmento da loisa sobreposta à sepultura 
do mordomo mor e da aia do príncipe D. João. Ainda pude ver na campa 
as seguintes letras do mutilado epitáfio, abaixo transcrito, completando-o com 
uma cópia já impressa e tirada de boas fontes (1): 

ESTA CAPELLA derã pera 
SEPVLTVRA A D° SOare; dal 
BERGVARIA AIO E mordomo 
MOR DELREI DÕ lOão o 2.« sedo 
PRICIPE E A SVA Uvlher dona 
BEATRIZ DE VILHEmz per hvm 
MVI RICO. E SVmptvoso most. 
Q DESTA ORDé começará qve 
SE NÃO kcabov o qval em se' 
TEST Amentos deixará erdei 
ro de todas svas redas de q~ 
esta casa tem parte. Fa 
lecera na era de í4j3. 

A data da morte está errada para Diogo Soares, já falecido em 1472, 
como vimos; mas pode estar certa para sua viúva D. Beatriz de Vilhena. 
Em todos os casos só depois de 20 de Julho de 1476 foram os corpos tra- 
zidos da sua primitiva sepultura, no convento de Santa Maria da Piedade de 
Santar, para o de S. Marcos (2). 

O segundo mordomo mor do príncipe D. João, foi D. Pedro de Noronha, 
que já se encontra exercendo o ofício em 20 de Outubro de 1475 (3). Era 
ele filho doutro D. Pedro dé Noronha, arcebispo de Lisboa, havendo sido 
legitimado por carta de i3 de Agosto de 1444(4), e estava casado desde 
1460 com D. Caterina de Távora, filha única de Martim de Távora (5), mei- 



(1) Joaquim de Vasconcelos, no cit. artigo O Convento de S. Marcos. 

(2) Data de uma carta interessante para a história daqueles conventos por mim trans- 
crita no já citado artigo, San Marcos, apar de Coimbra, e registada na Chancelaria de 
D. Afonso V, liv. 7. , fl. 9. 

(3) Data de uma carta de 20.000 rs. brancos de tença para começar a receber de Janeiro 
de 1476 em diante. — Chancelaria de D. Afonso V, liv. 6.°, fl. g5 v. 

(4) Ibidem, liv. 25.°, fl. 9. 

(5) Em carta passada em Oeiras, a i3 de Março de 1460, declara D. Afonso V ter feito 
o casamento de D. Pedro de Noronha e ter-lhe dado para êle 4.500 coroas, pelas quais lhe 
ficará pagando de tença, do dia em que tomar sua casa em diante, 45.000 rs. Encontra-se 
transcrita com outros documentos a fl. 1 33 v. do liv. 3.» da Chancelaria de D. João II. Neste 
documento transcreve-se a aprovação, feita em Lisboa a 19 de Junho de 1478, do contrato, 
na qual se chama à mulher de D. Pedro D. Teresa de Távora; mas foi erro de cópia, porque 



Silvas 



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rinho mor por carta de 21 de Abril de 1445 (1). Mereceu D. Pedro a con- 
fiança de seu amo, que depois de subir ao trono o conservou durante toda a 
sua vida na mordomia mor, o nomeou comendador mor da Ordem de San- 
tiago (2) e, intitulando-o seu muito amado sobrinho, lhe doou, por carta de 
4 de Setembro de 1487, em sua vida, o senhorio da vila de Vilar Maior, com 
o termo, serviço real, jurisdição, etc. (3). Ainda vivia D. Pedro de Noronha 
em Setembro de 1491 (4); mas já era falecido a 14 de Fevereiro do ano se- 
guinte (5). 

O terceiro mordomo mor foi D. João de Meneses. Havia ele sido no- 
meado, por carta de 9 de Junho de 1489, governador da casa do príncipe 
D. Afonso, servindo também junto dele os ofícios de mordomo mor, vedor 
da fazenda e escrivão da puridade, e largando a capitania de Tânger (6). 
Morreu o Príncipe a 12 de Julho de 1491 e pouco depois finou-se D. Pedro 
de Noronha, mordomo mor dei Rei, que proveu a D. João de Meneses na- 
quele cargo (7); nele o manteve D. Manuel, mandando-lhe passar carta a 8 
de Abril de 1497(8), e só no último ano do seu reinado, por carta de 3i 
de Maio de 1 52 1 , o nomeou alféres mor (9), largando então o outro cargo. 
Era D. João de Meneses casado desde 1478, como acima ficou dito, 
com D. Joana de Vilhena, filha de Fernão Teles de Meneses, 3.° senhor de 
Unhão, e parece ter esta senhora morrido depois de 16 de Fevereiro de 
1498(10), e antes de 24 de Abril de 1499, data da carta de conde de Tarouca 



o seu verdadeiro nome consta de uma carta de 3o de Abril de 1463 de 22.5oo rs. brancos de 
tença a «D. Caterina de Távora, filha de Martim de Távora e mulher de D. Pedro de No- 
ronha». — Chancelaria de D. Afonso V, liv. 9. , fl. 54 v. 

(1) Ibidem, liv. 5.°, fl. 70. 

(2) Assim o declara uma carta de 4 de Julho de 1487, no liv. 4.» de Místicos, fl. 53 v. 

(3) Chancelaria de D. João 11, liv. fl. 35 v. 

(4) Carta de 9 de Setembro pela qual a princesa D. Isabel nomeia procurador da sua 
vila de Torres Vedras a um criado de D. Pedro de Noronha, mordomo mor dei Rei. — Corpo 
cronológico, part. I, mac. doe. 5o. 

(?) Carta de doação do Cadaval a D. Martinho de Noronha, filho de «D. Pedro de No- 
ronha, meu sobrinho, que Deus haja, e nosso mordomo mor que foi». — Liv. io.° da Estre- 
madura, fl. 1 3 1 v. 

(6) Liv. 2. de Místicos, fl. 118 v. 

(7) Garcia de Rèsende, Vida de D. João II, cap. 141, fl. 90. 

(8) Chancelaria de D. Manuel, liv. 3o.», fl. 75. 

(9) Chancelaria de D. João III, liv. 5i.° de Doações, fl. 4 v. 

(10) Nesta data foi passada carta de 20.000 rs. de tença a D. Maria de Vilhena, filha de 
D. Joana de Vilhena, que nela os traspassara. — Transcrita na carta de confirmação de 7 de 
Agosto de 1527 dada a D. Maria, já então condessa de Abrantes. — Chancelaria de D. João III, 
liv. 3o.° de Doações, fl. 134. 



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a seu marido (i). Depois de viúvo foi o Conde de Tarouca provido de pro- 
priedade, por carta de 18 de Janeiro de i5oi, na capitania de Tânger, vaga 
pela exoneração dada ao almirante Lopo Vaz de Azevedo (2). Era já o 
Conde, havia muitos anos, viúvo, quando, em i5o8, foi proposto para prior 
do Crato e veio a ter bula de nomeação em i5 de Junho daquele ano, a qual 
contudo só chegou a Portugal a 1 1 de Dezembro (3). O Conde Prior Mor- 
domo mor, como geralmente D. João era designado, ainda tomou parte no 
auto do levantamento de D. João III, a 19 de Dezembro de 1 52 1 (4); no ano 
seguinte porem morreu antes de 12 de Julho (5). 
Continuemos agora com os senhores de Unhão. 

Do casamento de Rui Teles de Meneses com D. Guiomar de Noronha 
nasceram, entre outros, os seguintes filhos: Manuel Teles de Meneses, 
5.° senhor de Unhão, que seguirá; Brás Teles de Meneses, i.° alcaide mor 
de Moura, no cap. VII; André Teles de Meneses, de quem já me vou ocupar; 
D. Beatriz de Vilhena, primeira mulher de D. Francisco, futuro i.° conde do 
Vimioso; D. Maria de Noronha, mulher de Francisco da Silva, 3.° senhor da 
Chamusca; D. Teresa de Noronha, mulher primeira de D. Luís Portocarrero, 
2. conde de Palma, em Castela. 

André Teles de Meneses, acima nomeado, foi alcaide mor da Covilhã, 
que em 1548 lhe deu o infante D. Luís, a quem serviu de mordomo mor 



(1) D. Joana aparece sem o título de condessa no epitáfio de seu neto o 4. Conde da 
Feira. — P. e Francisco de Santa Maria, Ceo aberto na terra, pág. 536. 

(2) Chancelaria de D. Manuel, liv. 3j. °, fl. 2. 

(3) José Anastácio de Figueiredo, Nova historia da Ordem de Malta, III, 112. 

(4) Nas Palavras dos senhores de Portugal ao beijar da mão de D. João III, põe Gil 
Vicente estas na bôca do Conde de Tarouca: 

Diria o Conde Priol, 
depois de lha mão beyjar: 
Deos vos queira prosperar, . 
este he bom ré, mi, fa sol, 
porem forte de cantar. 
Querovos aconselhar 
que façaes grande tesouro 
antes de fama que douro, 
e tende o muyto cobiçar 
por agouro. (fl. 256, col. 2.J 

(5) Por desembargo de 27 de Agosto de 1 526 foi mandado pagar aos herdeiros do Conde 
Prior 155.124 rs. que lhe eram devidos de suas tenças e assentamento que o ano de 522 
venceu, até que faleceu &c. — Liv. t.° das Ementas, fl. 66. — Por carta de 12 de Julho de 
1522 pediu D. João III ao Papa para prover um dos infantes no priorado do Crato, vago pela 
morte do Conde de Tarouca. (Corpo diplomático portuguej, II, 83). 



Silvas 



8t 



desde Novembro de i522(i). Esteve em Castela por embaixador de D. Se- 
bastião nos anos de 1 559 a i56i, afirmando-se haver lá falecido. A data da 
sua morte consta do epitáfio da sua sepultura em S. Domingos de Santarém, 
o qual dizia: Aqui ja^ André Teles de Meneses, filho de Ruj Teles de Me- 
neses e de D. Guiomar de Noronha, Mordomo mor que foy do Infante 
D. Luis, filho delRey Dom Manoel. Falleceo a 18 de Abril de i5Ô2 annos{i). 
Havia casado com D. Branca Coutinho, filha de Rui Dias de Sousa, o Cide, 
capitão general de Alcácer Seguer. Em seus descendentes se continuou a 
casa até sua bisneta D. Mariana de Meneses, 5.* senhora da alcaidaria mor 
da Covilhã, mulher de seu primo Jorge Furtado de Mendoça, 4. senhor de 
Barbacena. Foram pais de Afonso Furtado do Rio de Mendoça, i.° visconde 
de Barbacena, por carta de 19 de Dezembro de 167 1 (3). 

Esta casa de Barbacena, a dos Crastos do Rio, dá-nos uma prova do que 
sempre valeu o dinheiro, mesmo quando a fidalguia parecia antepôr-se a 
tudo. Diogo de Crasto do Rio, o fundador da casa, era um mercador riquís- 
simo, que por vezes serviu o Estado com seus cabedais e bizarramente, mos- 
trando o facto, melhor que todas as justificações, não proceder ele de raça 
judaica. A rainha D. Caterina, na menoridade de D. Sebastião, em remu- 
neração dos serviços de Diogo de Crasto, fê-lo fidalgo da casa real e de solar 
conhecido, dando-lhe como tal a sua quinta do Rio junto à foz do de Sacavém, 
na margem direita, onde hoje se vê o forte do Monte Sintra, a fábrica de 
moagem, e vários prédios e hortas. Deu-lhe também para apelido o mesmo 
nome da quinta, o do Rio, e finalmente, por carta de i5 de Julho de 1 56 1 , 



(1) Fr. Luís de Sousa, Annaes de D. João III, pág. 55. 

(2) P.e Inácio da Piedade e Vasconcelos, Historia de Santarém, II, 76. 

(3) Tendo respeito aos serviços que Afonso Furtado do Rio de Mendonça, do conselho 
de Guerra, tem feito por espaço de vinte e quatro anos nas [guerras] que houve contra Cas- 
tela, nos postos de mestre de campo e governador da praça de Campo Maior, no de general 
da artelharia do exército da província do Alentejo, que exercitou em quatro campanhas, 
procedendo nelas e na batalha que se deu ao inimigo, estando sôbre a praça de Elvas, em 
que foi derrotado, com muito particular valor e satisfação, e passando a ocupar o posto de 
general de cavalaria, procurar o aumento e conservação dela, derrotando por vezes algumas 
companhias do inimigo, tomando-lhes muitos cavalos e indo pessoalmente armar as tropas 
de Badajoz, de uma delas desbaratar as duas que estavam de guarda, e da outra tomar-lhe 
cem cavalos, ficando prisioneiros cinco capitães e um morto, e se achar em o mesmo pôsto 
na campanha de 661 , e proceder em todos os efeitos dela com o zelo com que servia na 
ocasião que se entendia que o exército inimigo intentava vir sôbre a praça de Estremoz. .. 
por todos estes serviços e também pelos que seu filho mais velho Jorge Furtado me tem 
feito, &c. Carta do título de visconde da vila de Barbacena em sua vida. — Chancelaria de 
D. Afonso V, liv. 41. de Doações, fl. i33 v. 

vol. 11 1 1 



82 



Brasões 



concedeu-lhe estas armas: de prata, duas faxas ondadas de água entre nove 
arruelas de púrpura; timbre: cavalo marinho nascente de sua cor saindo de 
uma onda de água(i). A carta de nobreza havia sido concedida, em 9 do 
mesmo mês, aos dois irmãos Diogo e Luís de Crasto do Rio (2). 

Diogo de Crasto do Rio adquiriu ou fundou uma capela na nave da banda 
da epístola da igreja do convento de S. Francisco de Lisboa, para sua sepul- 
tura e de seus descendentes. Nela via-se este letreiro: Esta Capella de 
N. S. da Conceição lie de Diogo de Castro do Rio e de D. Brites Va\ sua 
mulher, e dos successores do seu Morgado, e as obrigações, administração 
delia estão declaradas em seu Testamento. Falleceu a 3o de Julho de i535 
e sua mulher a 4 de Outubro de i58o. Mudou-se o Padram por permissão 
do Administrador e clausulas declaradas na Escriptura feita em Agosto de 
JJ20 (3). Nesta mudança de padrão erraram, pelo menos no ano, a data da 
morte de Diogo de Crasto, ainda muito vivo e são em i56i, e afidalgaram a 
êle e à mulher: a ela dando-lhe o dom; a ele, mudando-lhe o Crasto em 
Castro. Acima da inscrição via-se um escudo oval com duas faxas ondadas, 
acompanhadas de nove arruelas, sem elmo nem timbre. 

Casara Diogo de Crasto do Rio com Beatriz Vaz, filha de Jácome Tristão, 
e teve três filhos e três filhas. O primogénito casou nobremente com uma 
filha de Jorge Furtado de Mendoça, comendador das Entradas, e os seus des- 
cendentes esqueceram logo o apelido do Rio, e passaram a chamar-se Fur- 
tados de Mendoça. As três filhas fizeram casamentos brilhantes: uma com 
D. Jorge de Meneses, filho de D. João de Meneses, 6.° senhor de Cantanhede, 
e neto materno do i.° Conde de Linhares; outra com D. Francisco de Moura, 
estribeiro mor do senhor D. Duarte e irmão do Marquês de Castelo Rodrigo ; 
e a terceira com Aires Teles de Meneses, 3.° alcaide mor da Covilhã. E 
para prova dos casamentos haverem sido feitos pelos dotes, sabe-se que uma 
daquelas senhoras por pouco não foi duquesa. O 3.° Marquês de Vila Real 
pretendeu-a para seu segundo filho D. Manuel de Noronha, mas havia Diogo 
de Crasto de lhe dar a ela mais cinquenta mil cruzados de dote do que dera 
às irmãs. O ricasso porém não quis alargar tanto os cordões à bolsa e por 
isso deixou de ver a filha marquesa e logo duquesa, pois que D. Manuel, por 
morte de seu irmão mais velho, veio a ser 5.° marquês e i.° duque de Vila 
Real, passando a chamar-se, em obediência às cláusulas da instituição do 
vínculo da casa, D. Manuel de Meneses. 



(1) Chancelaria de D. Sebastião, liv. 2. de Privilégios, fl. 304 v.; Armaria portuguesa, 
pág. 433, nota. 

(2) Ibidem, fl. 124; Armaria cit., pág. 434, nota. 

(3) P.e Luís Montês Matoso, Memorias Sepulchraes, fl. 41. 



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83 



Luís de Crasto do Rio, irmão de Diogo, também foi muito rico e fundou 
o mosteiro de Arrábidos da Mealhada, entre a Póvoa de Santo Adrião e 
Loires (i). Outro Luís de Castro do Rio, neto de Diogo, e 3.° senhor de 
Barbacena, deu origem ao convento da Boa Hora, em Lisboa, no fim da rua 
Nova do Almada, cedendo em 1 633 uns terrenos junto ao seu palácio aos Do- 
minicanos Irlandeses, para lá se estabelecerem. Daqueles passou o assento 
aos Oratorianos e destes aos Agostinhos Descalços, possuidores do convento 
quando se extinguiram as ordens religiosas; hoje é o pardieiro onde estão 
instalados os tribunais de primeira instância. 

Do i.° Visconde de Barbacena foi bisneto Luís António Furtado de Castro 
do Rio de Mendoça e Faro, 6.° visconde e io.° senhor de Barbacena, a quem 
foi dado o título de conde de Barbacena por carta de 23 de Setembro de 
1816(2). Sucedera em 1801, por falecimento do 5.° conde do Vimieiro, 
D. João de Faro e Sousa, no morgado daquela casa, por ser o varão parente 
em grau mais próximo do instituidor, o arcebispo D. Fradique de Portugal. 
Morreu o Conde em i83o e sucedeu-lhe na casa seu filho Francisco Furtado 
de Castro do Rio de Mendoça e Faro, 7. visconde, por despacho de 6 de 
Maio de 1793 (3), e 2. conde de Barbacena, por carta de 3o de Janeiro de 
1818 (4). Valente militar e dedicado partidário do infante D. Miguel, faleceu 
sem descendência em 1854, passando os morgados da casa do Vimieiro para 
um filho segundo da casa de Lumiares, e os da de Barbacena para uns pa- 
rentes afastados da Ilha. 

Tornarei atraz, ao filho primogénito de Rui Teles de Meneses, 4. senhor 
de Unhão. Foi êle Manuel Teles de Meneses e, por carta' de 4 de Fevereiro 
de i536, foram-lhe confirmadas de juro e herdade, em sucessão a seu pai, 
as terras de Unhão, Meinedo, Cepães e Ribeira de Soaz (5). Faleceu no 
ano de 1573 (6), tendo adquirido para seu jazigo a capela mor da igreja do 
mosteiro de S. Domingos das Donas de Santarém (7), onde foi sepultado, 
tendo-se-lhe gravado na campa o seguinte epitáfio, segundo memórias dignas 



(1) Fr. António da Piedade, Chronica da Arrábida, I, §§ 648 a 65o. 

(2) Chancelaria de D. João VI, liv. 38.°, fl. 7 1 v. 

(3) Gajeta de 1 1 de Maio. 

(4) Chancelaria de D. João VI, liv. 42. , fl. 1 15. 

(5) Chancelaria de D. João III, liv. 6.° de Doações, fl. 112. 

(6) Consta de duas verbas, de 10 de Fevereiro e 3i de Março de 1574, postas à margem 
de cartas de padrão, mandando pagar os respectivos juros, do passado Janeiro em diante, a 
Fernão Teles de Meneses por falecimento de seu pai Manuel Teles. — Chancelaria de 
D. João III, liv. 6.° de Doações, As. 56 e 55. 

(7) P.e Inácio da Piedade e Vasconcelos, Historia de Santarém edificada, I, 223. 



84 Brasões 

de fé pois concordam com os dados dos documentos: Aqui ja\ Manuel 
Teles e D. Margarida de Vilhena sua molher cuja esta capela é e de todos 
seus herdeiros e sucessores. Faleceo o i° de Janeiro de i5j3. 

D. Margarida de Vilhena era filha de D. Fernando de Castro, o Magro, 
3.° capitão de Évora, e de D. Maria de Vilhena, filha de Rui de Sousa, se- 
nhor de Sagres. Do seu casamento com Manuel Teles nasceu primogénito 
Fernão Teles de Meneses, 6.° senhor de Unhão, que, juntamente com sua 
mulher D. Maria de Castro, comprou em 1 554 a D. Francisco Rolim, por 
cinco mil e setecentos cruzados, uma terra de quarenta moios de renda no 
termo da Azambuja (1). Sobreviveu Fernão Teles a seu filho primogénito 
Manuel Teles de Meneses falecido em 1 578, na batalha de Alcácerquibir, 
deixando viúva D. Violante de Noronha e única filha D. Maria Teles. Foi 
esta senhora excluída da administração do morgado dos Teles de Santarém, 
em virtude de uma das cláusulas da instituição, sendo êle julgado, em 1607, 
por definitiva sentença, a seu tio Rui Teles de Meneses, descendente varão 
mais próximo existente à morte do último administrador (2). Havia-se D. Vio- 
lante recolhido com sua filha ao mosteiro da Esperança de Lisboa, d'onde 
saíram em 1618 para o do Calvário, por elas então fundado defronte da 
quinta real de Alcântara, e onde ambas viveram o resto de seus dias, havendo 
D. Maria Teles sido a primeira noviça do seu convento, tomando ao professar 
o nome de soror Maria Madalena. No mosteiro, completamente arrazado 
pelo terremoto de 1735, foram sepultadas mãe e filha, gravando-se-lhe nos 
túmulos os seguintes epitáfios transcritos pelo cronista da Ordem (3): 

Aqui ja\ D. Violante de Noronha, mulher de Manoel Telles de Meneses, 
Dama que foy do Paço da Rainha D. Catharina, Fundadora & Padroeira 
deste Mosleyro, o qual dotou & fe\ com a sua fazenda a 14 de Agosto na 
era de 1618. & faleceo a ij de Dezembro na era de 1634. 

Aqui ja\ a Madre Maria Magdalena, Padroeyra & Fundadora deste 
Mosleyro, o qual fe\ & dotou com sua fazenda na era de 1618. & faleceo 
a 3i de Janeyro de 1648. Foy filha de Manoel Telles de Meneses & 
de D. Violante de Noronha. 

Em 1 586 faleceu Fernão Teles de Meneses (4) e em princípios do ano se- 

(1) Consta da carta de padrão de certo juro vendido por Fernão Teles e sua mulher a 
Jorge de Brito, fidalgo da casa dei Rei. — Chancelaria de D. João III, liv. 54. de Doações, 
fl. 271 v. 

(2) Luís Teixeira de Sampaio, Os Chavões cit., pág. 18. 

(3) Fr. Fernando da Soledade, Historia seráfica, tom. V, caps. 34 a 36. 

(4) Carta de padrão de 3o de Julho de 1 58j de 28.000 rs. de graça por tença para Rui 
Teles de Meneses começar a receber, em sucessão a seu pai Fernão Teles de Meneses, do 
i.° de Janeiro do dito ano em diante. — Chancelaria de Felipe I, liv. i3.° de Doações, fl. 167 v. 



Silvas 



85 



guinte começaram a ser confirmados a seu filho segundo Rui Teles de Me- 
neses, por falta do primeiro, os bens da Coroa e Ordens, outrora possuídos 
por seu pai(i). 

Rui Teles de Meneses, 7. senhor de Unhão, tem passado até agora des- 
percebido sempre do historiador. Viveu em Santarém ou nas suas proximi- 
dades, retraído, não intervindo ostensivamente em negócios públicos, num 
período de abatimento nacional. Sabia-se isto dêle; agora porém, graças a 
uma espécie de autobiografia, descoberta e hábilmente aproveitada, passou a 
ser personagem interessante pelos dados por si próprio ministrados para 
conhecimento do viver de uma família fidalga nos fins do século xvi, prin- 
cípios do seguinte (2). Comprou em 1590 a quinta dos Chavões, no limite 
do Cartaxo, e nela viveu com sua família a maior parte do tempo. Era já 
então casado com D. Mariana da Silveira, filha herdeira de Vasco da Silveira, 
comendador de Arguim, falecido no cativeiro após a batalha de Alcácerquibir. 
Morreram os dois cônjuges com um pequeno intervalo um do outro: Rui 
Teles, a i3 de Maio de 161Õ; D. Mariana, nos princípios do ano. Da sua 
numerosa prole destacarei os dois* filhos mais velhos, Fernão e António. 

António Teles de Meneses, o segundo, serviu na índia e no Brasil. Foi 
capitão de Diu, general das armadas do reino e alto bordo, posto em que por 
várias vezes derrotou os Holandeses, e governador da índia durando um in- 
terregno de vice-reis. Voltando para Portugal em 1641, reconheceu imedia- 
tamente o novo govêrno e D. João IV nomeou-o logo general da armada e a 
seguir do conselho de Estado. Em 1647 confiou-lhe el Rei o pôsto de general 
da armada de socorro à cidade da Baía, agraciando-o então com o título de 
conde de Vila Pouca de Aguiar, em sua vida (3). Partiu sem demora para 
o Brasil e não recuperou só aquela cidade, como expulsou de todo o estado 
os Holandeses, contra os quais mandou uma expedição a Angola, da qual 
resultou a restauração da província. Tornando novamente ao reino, foi 



(1) Em 16 de Fevereiro de 1 58j já possuía a comenda de Ourique (liv. 2. da Ordem de 
Santiago, fl. 170 v.); em 24 de Fevereiro de 1 588 foi-lhe confirmado o senhorio de Unhão e 
mais terras (liv. i3.° de Doações de Felipe 1, fl. 167 v.). 

(2) Veja-se a interessante monografia já cit. Os Chavões do sr. Luís Teixeira de Sam- 
paio, à qual irei recorrendo. 

(3) Tendo respeito aos merecimentos e serviços de António Teles de Meneses, do meu 
conselho de Estado, e aos que ora me vai fazer no cargo de general da armada com que 
mando socorrer a cidade do Salvador, Baía de Todos os Santos, e por confiar de quem ele é, 
de seu valor, prática e experiência que tem das cousas da guerra, que nesta ocasião me ser- 
virá muito a minha satisfação e como deve, e boa vontade que lhe tenho, por todas estas 
razões e por lhe fazer honra e mercê me praz e hei por bem de lha fazer do título de conde 
de Vila Pouca de Aguiar, em sua vida... Lisboa, 5 de Agosto de 1647. — Chancelaria de 
D. João IV, liv. 18. de Doações, fl. 268 v. 



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Brasões 



nomeado vice-rei da Índia, dando-se-lhe nessa ocasião, para se verificarem 
no regresso, por alvarás de 22 de Dezembro de 1 656 e 2 de Março de 1657, 
o título de conde para o filho legitimado e o de marquês para si próprio (1). 
Estas mercês porém nunca se realizaram: uma, pelo Vice-rei morrer no ca- 
minho; outra, por o filho, Aires Teles de Meneses, se achar culpado na 
morte de um seu criado pelo que esteve por muito tempo prêso no Limoeiro e 
foi degradado para a índia, para onde partiu, levando sua mulher, em 12 de 
Março de 1672 na nau S.Pedro (2). A representação da casa de Vila Pouca 
passou à filha do degradado, D. Ana Helena de Castro e Silveira, mulher de 
seu parente Manuel Teles de Meneses, 5.° senhor do morgado da Casa dos 
Bicos, mencionado lá adiante, no cap. VIL 

Fernão Teles de Meneses ou Fernão Teles da Silveira, dambas as ma- 
neiras nomeado em documentos, filho primogénito de Rui Teles de Meneses, 
foi 8.° senhor de Unhão, Meinedo e Cepães, de juro e herdade, em sucessão 
a seu pai (3). Em i63o ajustou-se o seu casamento e começaram então a 
chover-lhe em cima as graças e mercês. A noiva era D. Francisca de Távora, 
dama da rainha D. Isabel de Bourbon e filha da sua dona de honor D. Mar- 
garida de Távora, já então viúva de D. Martim Afonso de Castro, vice-rei 
da índia e filho segundo do 4. Conde de Monsanto. Ajustado o enlace, 
expediu-se um alvará, em Madrid, a 5 de Junho de i63o, em virtude do qual, 
havendo respeito aos serviços e merecimentos de D. Margarida de Távora 
e aos de D. Francisca de Távora e estar tratado casamento entre ela e Fernão 
Teles de Meneses, lhe fez Felipe III mercê de lhe tirar a casa uma vez fora 
da Lei Mental, da jurisdição e data dos ofícios das suas terras de juro e her- 



(1) Tendo respeito aos serviços que me fez o Conde de Vila Pouca de Aguiar, do meu 
conselho de Estado e general da armada real, no decurso de quarenta e dois anos, no estado 
da índia, no do Brasil e neste reino, e satisfação com que sempre procedeu, a sua qualidade 
e merecimentos e aos daqueles de quem descende, e particularmente ao grande serviço que 
agora me faz em se embarcar para o estado da índia, a ocupar nele o pôsto de viso rei, es- 
perando de sua prudência, experiência, valor e zêlo do meu serviço, que reparará e adian- 
tará as cousas daquele estado em tal forma que se melhorem muito com seu governo, me 
praz e hei por bem fazer-lhe mercê, de mais doutras que pelos mesmos respeitos lhe tenho 
feito, de que, vindo daquele estado e servindo-me nêle com satisfação, do título de marquês 
de que por êste alvará se lhe passará carta ao dito tempo. . . Lisboa, 2 de Março de 1657. 
— Ofícios e mercês de D. Afonso VI, liv. 27. , fl. 36. 

(2) Diogo Gomes de Figueiredo, Nobiliário, II, 325. As Monstruosidades do tempo e da 
fortuna, pág. 194, referem-se a esta armada, mas só mencionam um degradado, o Conde de 
Mesquitela. 

(3) Carta de confirmação de 16 de Janeiro de 1617. — Chancelaria de Felipe II, liv. 39.» 

de Doações, fl. 210 v. 



Silvas 



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dade, e de mais duas vidas nos bens da Coroa e Ordens (1). Logo a seguir, 
por carta também expedida de Madrid a 7 e igualmente em atenção aos ser- 
viços das duas senhoras, foi Fernão Teles agraciado com o título de conde de 
Unhão de juro, uma vez fora da Lei Mental (2). A situação de Fernão Teles, 
recebendo todas estas mercês por estar ajustado o seu casamento, chega a 
afigurar-se-nos hoje deprimente; não era porém então assim considerada. 

Mandou êle reedificar a capela mor da igreja do mosteiro das Donas de 
Santarém e lá foi sepultado da parte da epístola com êste letreiro no túmulo: 
Sepultura de Fernão Telles da Silveira primeiro Conde de Unhão, que 
mandou reedificar esta Capella de seus Avós, e de sua mulher Dona Fran- 
cisca de Castro, filha de Dom Martini A ffonso de Castro e de Dona Mar- 
garida de Távora (3). Morreu em 1 65 1 , com sessenta e cinco anos, e, 
quando se celebraram as suas exéquias em Santarém, foi lá pregar o P. e An- 
tónio Vieira, seu afilhado de baptismo (4). Sua viúva, D. Francisca de Távora, 
também chamada D. Francisca de Castro em alguns documentos, veio a ser 
camareira mor da rainha D. Maria Francisca Isabel de Sabóia (5). Dos 
i. os Condes de Unhão, por seu filho primogénito (6), foi terceiro neto João 
Xavier Teles de Castro e Silveira. 

Sucedeu João Xavier na casa em 1709, sendo porém já 5.° conde de 



(1) Chancelaria de Felipe III, liv. 25.° de Doações, fl. 86. 

(2) Ibidem, fl. 87. — A casa de Unhão teve a grandeza dez anos antes da de Vagos; 
nesta porem premiaram-se os serviços de um homem, na outra teve-se apenas em conta o 
casamento de uma dama do paço. 

(3) P.e Inácio da Piedade e Vasconcelos, Historia de Santarém edificada, I, 224. 

(4) Realizara-se o baptizado a i5 de Fevereiro de 1608. — J. Lúcio de Azevedo, Historia 
de Antônio Vieira, I, 369. 

(5) Além da Condessa de Unhão houve, que me lembre, mais duas camareiras mores 
na família: D. Maria de Lancastre e D. Eugênia Teles da Gama. Ambas foram marquesas 
de Unhão; a primeira serviu a rainha D. Maria Ana de Áustria, a segunda a rainha D. Maria 
Pia de Sabóia. D. Maria era viúva do 3.° Conde de Unhão ; a senhora D. Eugênia é sua 
sexta neta. 

(6) Este filho primogénito chamou-se D. Rodrigo Teles de Castro, foi 2. conde de 
Unhão por carta de 25 de Setembro de i652 (liv. 8.° de Doações de D. João IV, fl. 326) e 
faleceu em Janeiro de 1671. aViveo este Fidalgo sempre em a Villa de Santarém, retirado 
da Corte donde em sua vida entrou tão poucas veses, e tão de caminho, que poucos corte- 
sãos poderíão diser que o conhecérão de vista : affeição a Castella quisérão muitos que fosse 
a causa do retiro da Corte, assim por criação da mãe como por obrigação do titulo, que a 
seu pae deo el rei D. Filipe o 3.°, mas erão juisos, ou da malícia, ou do odio, e podião ser 
também da inveja, por ser um dos mais bem herdados, e ricos Titulares de Portugal, e hoje 
a Condessa sua mulher he mordoma maior da rainha, e Camareira» (Monstruosidades do 
tempo, pág. 1 56). Nesta afirmação final confunde-se a viúva do i.° Conde de Unhão com 
sua mãe e não sei se não haverá mais alguma confusão em todo o período. 



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Unhão por carta de 22 de Agosto de 1726(1). Foi coronel do regimento de 
Cascais, deputado da Junta dos Três Estados, gentil homem da câmara real, 
general de batalha com o governo das armas da Beira em 175 1-52, embai- 
xador em Madrid em 1753-57, e governador e capitão general do Alentejo 
em 1762. Morreu em 1768, deixando os seus negócios embrulhadíssimos, 
pois era dotado de «uma total inabilidade para o governo e administração de 
sua casa» (2). Havia -casado a 27 de Agosto de 1741 (3), com D. Maria José 
da Gama, 4.* marquesa de Nisa, viúva do marquês Nuno da Silva Teles, 
filho segundo dos 3. 0S Marqueses de Alegrete. Por este casamento veio a 
entrar a casa de Nisa na de Unhão, e não só a de Nisa, mas também as de 
Cascais e Castanheira. Vejamos. 

O condado de Monsanto fora criado por D. Afonso V, por carta de 21 de 
Maio de 1460, a favor de D. Alvaro de Castro, senhor de Cascais e cama- 
reiro mor (4). Na concessão compreendia-se o senhorio da vila, com a alcai- 
daria mor do castelo, a jurisdição cível e crime, e os padroados, tudo porém 
só em vida. Poucos anos decorridos, por segunda carta expedida a 20 de 
Maio de 1464, foi o senhorio dado ao Conde de juro e herdade (5) e, por 
uma terceira carta, de 8 de Dezembro de 1469, foi permitido a seu filho 
suceder-lhe logo no condado por seu falecimento, sem necessidade doutro 
diploma (6). Morreu o i.° Conde na tomada de Arzila, a 24 de Agosto de 
147 1, e tomou logo o título seu filho D. João de Castro, a quem o condado 
foi posteriormente confirmado por carta de 22 de Dezembro de 1481 (7). 
Tinha o 2. Conde já morrido, sem deixar descendência, em Abril de 1496, 
mês em que, por cartas de 18 e 19, foram confirmados os senhorios de Cas- 
cais e Monsanto a sua irmã D. Joana de Castro (8). Casara esta senhora 
com D. João de Noronha, irmão do i.° Marquês de Vila Real, e a seu filho 
primogénito, D. Pedro de Castro, foram confirmadas as referidas vilas por 
carta de 18 de Abril de 1519(9). V e i° D. Pedro a ser o 3.° conde de Mon- 
santo por carta de 19 de Agosto de i528(io); menos de seis meses todavia 



(1) Ofícios e mercês de D. João V, liv. i3.°, fl. 332. 

(2) Decreto de 18 de Abril de 1768 em L. Teixeira de Sampaio, Os Chavões, 72. 

(3) Gaveta de 27 de Setembro de 1742. 

(4) Liv. 3.° de Místicos, fl. 23o. 

(5) Chancelaria de D. João 11, liv. 6.°, fl. 2. 

(6) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 16. , fl. 1 18. 

(7) Chancelaria de D. João II, liv. 6.°, fl. 2 v. 

(8) Liv. 8.° de Místicos, fls. 294 e 290 v. 

(9) Liv. 3.° da Beira, fl. 140 v. 

(10) Chancelaria de D. João III, liv. 14. de Doações, fl. i85. 



Silvas 



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gozou do condado, pois morreu a 5 de Fevereiro de 1529, segundo declara o 
seu epitáfio. Neste ano, a 22 de Abril, foi confirmado o senhorio de Mon- 
santo a seu filho D. Luís de Castro (1), pai de D. António de Castro em quem 
Felipe I renovou o título de conde de Monsanto a 26 de Julho de i58i, man- 
dando expedir a carta a 23 de Setembro do ano seguinte (2). Esta mercê foi 
feita em termos idênticos, como veremos, à do título de conde da Vidigueira 
ao primogénito do i.° Marquês de Nisa em 1646. Morreu o 4. Conde de 
Monsanto a 29 de Setembro de 1597 (3), sucedendo-lhe no título seu rilho 
D. Luís de Castro, 5.° conde de Monsanto por carta de 22 de Maio de 1 398 (4). 
Por sua morte^ sucedida a 27 de Janeiro de 1Ó12, herdou a casa e título seu 
filho D. Alvaro Pires de Castro, a quem foi passada carta do assentamento 
de conde a 16 de Junho seguinte (5). Foi o i.° marquês de Cascais por 
carta de 19 de Novembro de 1643(6), e embaixador extraordinário enviado 
no ano seguinte por D. João IV a Luís XIV de França, tendo .feito a sua 
entrada em Paris com excepcional brilho a 19 de Abril (7). Casara pela se- 

(1) Chancelaria de D. João 111, liv. 16. de Doações, fl. 177 v. 

(2) Havendo eu respeito aos muitos serviços que D. António de Castro, do meu conselho, 
senhor da casa de Monsanto, me tem feitos na matéria de minha sobcessao na coroa destes 
reinos, e a calidade deles e modo em que por meu serviço neles procedeu, e havendo outrossi 
respeito aos muitos serviços que tem ao senhor rei D. Sebastião e a ir com êle na jornada 
de Africa, onde foi cativo na batalha de Alcácer, e vendo como por tais serviços e por seus 
merecimentos e pelos muitos serviços e merecimentos daqueles de que êle descende, e por 
seu sangue e muito antiga linhagem é rezão que de mim receba honra e mercê, considerando 
também ser a sua casa das principais destes reinos, pera êle e os que dêle descenderem 
poderem sempre servir a mim e os reis meus sobcessores tám honradamente como dêles o 
espero, e pela boa vontade que por tudo lhe tenho, etc. Carta do título de conde da sua 
vila de Monsanto de juro e herdade pera sempre, segundo forma da Lei Mental. E quero 
e me praz que por falecimento do dito D. António o seu filho maior varão lídimo, que o 
suceder, se chame logo por esta carta conde de Monsanto e assi, d'aí em diante, todos seus 
herdeiros e sobcessores, que sua casa herdarem e nela sobcederem, segundo forma da dita 
Lei, sem para isso ser necessário outra carta, provisão nem licença minha, nem dos reis 
meus sobcessores, etc. E mando aos vèdores de minha fazenda, que ora são e ao diante 
forem, que ao dito D. António e seus sobcessores, a que o dito título de conde vier, segundo 
forma desta carta, façam fazer padrão em forma do assentamento que dereitamente lhe per- 
tencer, pera o haverem segundo ordenação, etc. — Chancelaria de Felipe /, liv. 6.°, fl. 207. 

(3) Consta esta data da carta do assentamento ao filho, a seguir citada. 

(4) Chancelaria de Felipe II, liv. H.° de Doações, fl. 92 v. — A carta do assentamento é 
de 19 de Agosto. — Ibidem, liv. 7. , fl. 41. 

(5) Ibidem, liv. 25.°, fl. 173. 

(6) Chancelaria de D. João 1 V, liv. 17.° de Doações, fl. 45 v. 

(7) Visconde de Santarém, Quadro elementar, tom. IV, part. 1.", pág. 75. — A faustuosa 
embaixada foi descrita por Fr. Manuel Homem em dois opúsculos intitulados Descripção da 
jornada e embaixada extraordinária que /ef a França D. Alvaro Pires de Castro. . . Paris 
1644, Relação segunda das grandezas do Marque^ de Cascaes. . . Nantes, 1645. 

VOL. II 12 



9 o 



Brasões 



gunda vez, em 1637, com D. Bárbara Estefânia de Lara, filha de D. António 
de Ataíde, 5.° conde da Castanheira e i,° de Castro Daire, e veio a morrer 
a 11 de Julho de 1674(1), deixando um único filho varão. 

Foi êle D. Luís Alvares de Castro e Sousa, 7. conde de Monsanto de 
juro e herdade (2), 2. marquês de Cascais, em sua vida (3), fronteiro mor, cou- 
teiro mor, coudel mor e alcaide mor de Lisboa, do conselho de Estado e 
Guerra, embaixador extraordinário a França em 169S. Não sucedeu só na 
casa de Cascais, mas também nas da Castanheira e do paul de Boquilobo. 
Casara com uma filha dos i. os Marqueses de Marialva e morreu a 27 de 
Julho de 1720, deixando, entre outros, estes filhos: D. Manuel, 3.° marquês, 
adiante; D. Álvaro de Noronha e Castro, bispo de Portalegre em 171 1, fale- 
cido em 1737; D. Fernando de Noronha, 9. conde de Monsanto, carta de 24 
de Janeiro de 1714(4), com a alcaidaria mor de Guimarães, vaga por morte 
do último Conde da Castanheira (5), faleceu a i3 de Dezembro de 1722, 
estando desposado com sua sobrinha D. Maria José da Gama, herdeira dos 
Nisas; D. Bárbara Isabel de Lara, marquesa de Nisa, a quem me tornarei a 
referir; D. Ana Maria Coutinho, condessa da Ponte, dama do paço, primeira 
mulher, falecida em 1743, de António José de Melo e Torres, 3.° conde da 
Ponte; D. Felipa de Noronha, dama da rainha D. Maria Ana de Áustria e 
depois recolhida no mosteiro de Santa Clara de Lisboa, onde morreu em 
1738(6). 

D. Manuel de Noronha Castro e Sousa, filho primogénito do 2. Marquês 
de Cascais, nasceu em 1666; foi 8.° conde de Monsanto de juro e herdade, 
por carta de 1 5 de Setembro de 1674(7), 3.° marquês de Cascais em sua 
vida, por carta de 23 de Janeiro de 1714(8), do conselho de Guerra, gentil 
homem da real câmara; e morreu em 1742, deixando viúva a marquesa 
D. Luísa de Noronha, e dois filhos vivos: D. Luís José de Castro Noronha 



(1) P. e Sousa, Historia genealógica, II, 542. 

(2) Carta de i3 de Setembro de 1647 mencionada na de 20 de Junho de i65o do assen- 
tamento, com o nome de D. Luís Peres de Castro. — Chancelaria de D. João IV, liv. 22.» 

de Doações, fl. 7. 

(3) Carta de 19 de Julho de 1674. — Chancelaria de D. Afonso VI, liv. 37. de Doações, 

fl. 275. 

(4) Ofícios e mercês de D. João V, liv. 41. °, fl. 61 v. 

(5) Carta de 26 de Abril de 1714. — Ibidem, liv. 42. , fl. 54. 

(6) P. e Sousa, Memorias dos Grandes, pág. 104. — De roda desta senhora tem-se inven- 
tado uma história de amores com D. João V, com promessa de casamento, basta porem a 
afirmação do Teatino, de D. Felipa haver sido dama da Rainha, afirmação incontestável- 
mente verdadeira, para se terem na conta de romance os tais amores. 

(7) ChanceUria de D. Afonso VI, liv. 42 de Doações, fl. 1 15. 

(8) Ofícios e mercês de D. João V, liv. 38.% fl. 353 v. 



Silvas 



9i 



Ataíde e Sousa, 10. conde de Monsanto de juro e herdade, por carta de 6 
de Junho de 1727(1), 4. marquês de Cascais, em sua vida, com tratamento 
de sobrinho, em 1738, por ocasião do seu casamento com D. Joana Perpétua 
de Bragança (2) então agraciada com as honras de duquesa; e D. Maria José 
da Graça de Noronha, marquesa de Louriçal. 

O último Marquês de Cascais morreu sem filhos na noite de i3 para 14 
de Março de 1745 e sucedeu-lhe na casa sua irmã a Marquesa de Louriçal. 
Havia ela casado em 1740 com D. Francisco de Meneses, 2. marquês de 
Louriçal, e veio a morrer juntamente com sua única filha, ambas vítimas do 
terremoto de 1755. Então os morgados da casa procuraram a linha dos des- 
cendentes da marquesa de Nisa D. Bárbara Isabel de Lara, filha dos 2. 05 Mar- 
queses de Cascais, e mulher do 3.° Marquês de Nisa, 7. conde da Vidigueira 
de juro e herdade. 

Como fiz para o condado de Monsanto, darei aqui uma fugitiva notícia 
do condado da Vidigueira. 

Foi êle criado por carta de 29 de Dezembro de 1 5 ig para D. Vasco da 
Gama, almirante das índias e do conselho dei Rei (3). Havia sido Vasco da 
Gama, sendo ainda simples fidalgo da casa dei Rei, criado almirante da índia, 
com as preeminências do almirante do reino, galardoado com trezentos mil 
reais de renda e agraciado com o titulo de dom, tudo por carta de 20 de 
Janeiro de 1600(4); posteriormente, por escritura de 7 de Novembro de 1 5 1 9, 
comprou ao Duque de Bragança a vila da Vidigueira, a qual lhe foi confir- 
mada de juro e herdade por carta de 17 do seguinte mês de Dezembro (5j, 
tudo em satisfação do descobrimento do caminho marítimo para a índia. 
Morreu Vasco da Gama em Cochim, sendo vice rei da índia, na noite de 24 
para 25 de Dezembro de 1624(6), deixando viúva a D. Caterina de Ataíde, 
com quem casara depois de Setembro de 1499, na v °lt a da índia (7), e antes 
de 5 de Outubro de idoi (8). A Condessa, que era filha de Alvaro de Ataíde, 

(1) Ofícios e mercês de D. João V, liv. 41. °, fl. 61 v. 

(2) Carta de 22 de Setembro de 1738. — Ibidem, liv. i3i.°, fl. 140. 

(3) Luciano Cordeiro, De como e quando foi feito Conde Vasco da Gama, pág. 36, doe. vi. 

(4) O Almirantado da índia, data da sua criação, no Archivo histórico portuguez, 
vol. I, págs. 25 e segs. 

(5) Luciano Cordeiro, obra cit., pág. 40, doe. ix. 

(6) Teixeira de Aragão, Vasco da Gama e a Vidigueira, pág. 141. 

(7) Quando partiu era solteiro. — Damião de Goes, Chronica de D. Emanuel, part. I, 
cap. 23. 

(8) Nesta data aprovou el Rei o traspasse por Nuno Fernandes de Ataíde feito de uma 
tença de 5o.ooo rs. a favor de sua irmã D. Caterina, já então casada. — Brito Rebelo, Nave- 
gadores e exploradores portugueses, doe. Ixxi. 



9 2 



Brasões 



senhor de Penacova e alcaide mor de Alvor, ainda vivia a 4 de Outubro de 
i33o(i); era porem já falecida a 3 de Fevereiro de i532 (2). 

Dos i. os Condes da Vidigueira foi bisneto D. Francisco da Gama, 4. conde 
da Vidigueira (3), a quem Felipe I fez mercê, por carta de 3i de Março de 
1 583, havendo respeito à informação do Duque de Ossuna e de D. Cristóvão 
de Moura de como procedera em seu serviço na matéria da sucessão da 
coroa, de lhe tirar a casa por três vezes fora da Lei Mental (4). Ocupou 
por duas vezes o cargo de vice rei da índia (1597 a Iu oo, 1622 a 1627) e 
veio morrer ao reino, em Julho de i632, sucedendo-lhe na casa seu filho 
D. Vasco Luís da Gama, 5.° conde da Vidigueira e i.° marquês de Nisa, 
em sua vida, por carta de 18 de Setembro de 1646(5). Foi homem notável 
do seu tempo, não só pelos seus serviços políticos, mas também pelo seu 
amor ás letras e ás artes, e a sua biografia foi esmeradamente escrita por 
José Ramos Coelho (6). Pelos mesmos tempos da sua tornada a França como 
embaixador, fez-lhe D. João IV mercê, por carta de 24 de Setembro de 
1646, do título de conde da Vidigueira de juro e herdade para seu filho 
D. Francisco Baltasar Luís António da Gama, e por falecimento de D. Fran- 
cisco, o seu filho maior varão lídimo, que lhe suceder, se chame logo por 
esta carta conde da Vidigueira, e assi d'aí por diante todos seus herdeiros e 

(1) Carta de padrão desta data de confirmação de um juro de 3oo.ooo rs. pela Condessa 
comprado para si e seus filhos menores. — Chancelaria de D. João III, liv. 41. de Doações, 

fl. 97. 

(2) Data da carta de certa mercê a Paulo Nunes Estaco, a qual lhe fôra feita por res- 
peito da Condessa da Vidigueira, que Deus perdoi. — Ibidem, liv. i6. c , fl. 04. 

(3) Havendo respeito aos muitos e mui grandes serviços que D. Vasco da Gama, pri- 
meiro conde da Vidigueira e primeiro almirante da índia, fez ao sr. rei D. Manuel meu avô, 
no descobrimento daquelas partes da índia, do qual se seguiu mui grande serviço de Nosso 
Sr. por nelas se dilatar tanto o conhecimento da fé católica, e grande acrescentamento à 
coroa destes reinos, e havendo também respeito aos merecimentos e serviços do conde 
D. Francisco da Gama, seu filho, e do conde D. Vasco da Gama, seu neto, que morreu na 
batalha de Alcácere de Africa com o sr. rei D. Sebastião meu sobrinho, e havendo outrossi 
respeito aos serviços que D. Francisco da Gama, filho mais velho e herdeiro da casa do dito 
conde D. Vasco e bisneto do dito primeiro Conde Almirante, me tem feito e espero que ao 
diante me faça, e por folgar muito &c. Carta do título de conde da Vidigueira. Lisboa, 
3o de Agosto de i58i. — Chancelaria de Felipe I, liv. 4 de Doações, fl. 56. 

(4) Chancelaria de Felipe I, liv. 4. , fl. 335 v. 

(5) Havendo respeito aos merecimentos e serviços de D. Vasco Luís da Gama, conde 
da Vidigueira, almirante da índia, do conselho de Estado, e aos que aqueles de que descende 
fizeram a esta coroa e particularmente aos que ele me fez na embaixada de França, em que 
assistiu passante de quatro anos, e aos que ora me vai fazer ao mesmo reino, onde o mando 
por embaixador extraordinário, e a como por todas estas razões, etc. Carta do título de 
marquês da vila de Nisa em sua vida. — Chancelaria de D João IV, liv. 3.° de Doações, fl. 25 1. 

(6) O primeiro Marque^ de Ni^a, no Archivo histórico portuguez, vol. I. 



Silvas 



93 



sucessores, etc, nos mesmos termos da carta de conde de Monsanto acima 
citada (1). Havia D. Vasco casado, a 29 de Dezembro de i632, com D. Inês 
de Noronha, rilha de Simão Gonçalves da Câmara, 3.° conde da Calheta, 
capitão donatário da ilha da Madeira, e da condessa D. Maria de Meneses 
e Vasconcelos, e veio a morrer a 28 de Outubro de 1676, sucedendo-lhe na 
casa seu filho primogénito D. Francisco. 

Foi ele o (5.° conde da Vidigueira, o primeiro de juro e herdade pela acima 
apontada carta de 24 de Setembro de 1646, e 2. marquês de Nisa, por carta 
de 12 de Novembro de 1676, em verificação de uma das duas vidas conce- 
didas no título a seu pai, por alvará de 24 de Janeiro de 1 663 (2). Serviu 
de governador e capitão general do Algarve, deputado da Junta dos Três 
Estados, conselheiro de Estado e Guerra, e morreu a 10 de Agosto de 1707, 
tendo tido de sua segunda mulher, entre outros filhos, a D. Vasco Baltasar 
José Luís da Gama. Foi êle o 7. conde da Vidigueira de juro e herdade, 
por carta de 29 de Novembro de 1676 (3), 3.° marquês de Nisa em sua vida, 
por carta de 6 de Setembro de 1707 (4), almirante do mar da índia, coronel 
de cavalaria, mordomo mor da princesa D. Mariana Vitória. Casou, como 
acima ficou dito, com D. Bárbara Isabel de Lara, filha dos 2. 0S Marqueses 
de Cascais e por ela vieram seus descendentes a suceder nos morgados 
daquela casa. 

Morreu o Marquês, com setenta e quatro anos, a 4 de Outubro de 1735, 
deixando única filha a D. Maria José da Gama, já então pela primeira vez 
casada, desde 12 de Junho de 1729, com Nuno da Silva Teles, que foi 4. mar- 
quês de Nisa, por carta de 6 de Fevereiro de 1739 (5), e faleceu a 17 de No- 
vembro do mesmo ano. Tornou a Marquesa a casar, em 27 de Agosto de 
1 74 1 , como já ficou dito, com João Xavier Teles de Castro e Silveira, 5.° conde 
de Unhão, e veio a morrer a 14 de Dezembro de 1750, deixando descendência 
dambos seus casamentos. D'entre ela mencionarei dois filhos: D.Vasco José, 
havido do primeiro matrimónio; e D. Rodrigo Xavier, nascido do segundo. 

D.Vasco José da Gama nasceu a 3o de Setembro de 1733 ; foi 9. conde 



(1) Chancelaria de D. João IV, liv. 17 o de Doações, fl. 285. 

(2) Chancelaria de D. Afonso VI, liv. 46. de Doações, fl. 36g. 

(3) Ibidem, liv. 3i.°, fl. 271 v. 

(4) Ofícios e mercês de D. João V, liv. 28. , fl. 249 v. 

(5) Tendo consideração ao que me representou Nuno da Silva Teles de se achar casado 
com D. Maria José da Gama, filha única e herdeira que ficou do marquês de Nisa D. Vasco 
Luís da Gama, mordomo mor que foi da Princesa minha nora, e aos serviços e merecimentos 
do dito Nuno da Silva Teles. . . e pelas grandes qualidades que concorrem na pessoa da dita 
D. Maria José da Gama, desejando conservar nela o esplendor de sua casa. . . carta do título 
de marquês de Nisa em sua vida, etc. — Ofícios e mercês de D. João V, liv. 95. , fl. 43 v. 



94 



Brasões 



da Vidigueira de juro e herdade, por carta de 28 de Novembro de 1749(1), 
5.° marquês de Nisa em vida, por carta de i3 de Setembro de 1753(2); 
sucedeu a sua tia a Marquesa de Louriçal nos morgados das casas de Cas- 
cais, Castanheira e Castro Daire; casou a 18 de Agosto de 1754 com D. Maria 
Manuel, filha de D. João Manuel de Noronha, i.° marquês de Tancos; e 
morreu a 1 de Maio de 1757, sem deixar descendência. A Marquesa só veio 
a falecer a 20 de Janeiro de 1795. 

D. Rodrigo Xavier nasceu a 10 de Setembro de 1744 e, em 1758, com o 
nome de D. Rodrigo Xavier da Gama Teles de Castro Lancastre e Silveira, 
foi provido no ofício de almirante dos estados da índia (3) e criado conde da 
Vidigueira de juro e herdade (4), vindo a ser o io.°. Posteriormente, com o 
nome de D. Rodrigo Xavier Teles de Castro da Gama Ataíde Noronha Sil- 
veira e Sousa, foi criado 6.° marquês de Nisa em sua vida, por carta de 16 
de Junho de 1777(5). Veio a suceder em toda a casa de seu pai, mas não 

(1) Ofícios e mercês de D. João V, liv. 33.°, fl. 479. — Nesta carta declara-se ter ficado 
extinta na Marquesa de Nisa, mãe do Conde da Vidigueira, a primeira das três vezes porque 
a casa fôra tirada da Lei Mental pela carta de 3i de Março de 1 583. 

(2) Chancelaria de D. José, liv. 45. , fl. 172 v. 

(3) Tendo respeito a me representar D. Rodrigo Xavier da Gama Teles Alencastre e 
Silveira, filho do conde de Unhão João Xavier Teles e de sua mulher a marquesa de Nisa 
D. Maria José da Gama, já falecida, e irmão do marquês de Nisa D. Vasco José da Gama, 
que morreu sem descendentes e por esta causa suceder na casa de Nisa, compreendendo-se 
nela também o ofício de almirante dos estados da índia, com todas as regalias e jurisdições 
que tem o do reino, etc. Hei por bem e por graça por portaria de 29 do presente, fazer-lhe 
mercê que possa exercitar o ofício de almirante da índia, não obstante se não achar encar- 
tado no dito ofício, o que será obrigado a fazer dentro de dois anos, etc. Lisboa, 3o de 
Março de 1758. — Chancelaria de D. José, liv. 85.°, fl. 214 v. 

Por parte de D. Rodrigo Xavier. . ., filho legítimo e primogénito do conde de Unhão 
João Xavier Teles e da marquesa de Nisa já falecida, D. Maria Joseph da Gama, do segundo 
matrimónio, e irmão do marquês de Nisa falecido, D. Vasco José da Gama, foram apresen- 
tadas várias cartas . . . Carta do título de conde da Vidigueira de juro e herdade para sempre, 
na forma da Lei Mental, em cumprimento da segunda vida das três concedidas fora da sobre- 
dita Lei, etc. Belém, 18 de Julho de 1758. — Chancelaria dc D. José, liv. i5.°, fl. 335. 

(5) Tendo consideração aos serviços que me tem feito o conde da Vidigueira D. Ro- 
drigo Xavier.. . até 6 de Maio próximo passado, em o pôsto de capitão de cavalos do regi- 
mento do Príncipe de Meklembour, e aos de seu pai o conde de Unhão João Xavier Teles 
por espaço quáse de quarenta e sete anos, em praça de soldado, nos postos de capitão de 
infantaria, tenente coronel, ajudante das ordens do govêrno do reino do Algarve, coronel 
sargento mor de batalha encarregado do govêrno das armas da província da Beira e mestre 
de campo general, conselheiro de guerra, governador da praça de Elvas, deputado da Junta 
dos Três Estados, gentil homem da câmara dei Rei meu senhor e pai, embaixador extraor- 
dinário e plenipotenciário na côrte de Madrid, e aos de seu avô o conde de Unhão D. Ro- 
drigo Xavier Teles por espaço de trinta e três anos em governador e capitão general do 
reino do Algarve, deputado da Junta dos Três Estados, vedor da minha real fazenda, gentil 



Silvas 



95 



no título de conde de Unhão do qual não encontro vestígios nos documentos, 
e na de seu meio irmão, à qual acresceu ainda a enorme propriedade do paúl 
do Boquilobo no campo da Golegã vencida por demanda. Morreu a 6 de 
Agosto de 1784, tendo casado a i5 de Fevereiro de 1775 com D. Maria Ana 
Josefa Xavier de Lima, filha dos i. os Marqueses de Ponte de Lima, falecida 
a i5 de Abril de 1818, tendo tido uma única filha. 

Chamou-se ela D. Eugênia Maria Josefa Xavier Teles de Castro da Gama 
Ataíde Noronha da Silveira e Sousa, nasceu a 8 de Janeiro de 1776 e, a re- 
querimento de sua mãe, foi-lhe feita mercê, por decreto de 24 e portaria de 
29 de Agosto de 1785, dos bens da Coroa e Ordens possuídos por seu pai, 
incluindo o,s títulos de condessa da Vidigueira, do qual poderá usar ainda 
antes de tirar carta, condessa de Unhão, com as jurisdições, e marquesa de 
Nisa, ainda do emprego de almirante do mar da índia (1). Casou a 21 de 
Novembro de 1790 com seu tio materno D. Domingos Xavier de Lima, a 
quem, por carta de 24 do mesmo mês, em verificação da mercê concedida 
pelos citados decreto e portaria, foram outorgados os títulos de marquês de 
Nisa, conde da Vidigueira e de Unhão (2). Nascera D. Domingos a 3o de 
Dezembro de 1763 filho segundo dos i. os Marqueses de Ponte de Lima, e 
não se contentou de ser almirante honorário; assentou praça na marinha de 
guerra e foi um dos nossos mais distintos oficiais. Chegou a ocupar os postos 
de chefe de esquadra, major general da armada e comandante inspector da 
brigada real de marinha. Em 1798, sob as ordens superiores do almirante 
Nelson, comandou uma das divisões da esquadra dos aliados, exercendo o 
comando também sôbre navios ingleses. Foi gentil homem da câmara de 
D. Maria I por ela enviado em 1801, na qualidade de embaixador extraor- 
dinário, à côrte da Rússia, d'onde no regresso faleceu no ano seguinte em 
Konigsbergue, a 3o de Junho (3). 

A Marquesa sobreviveu muitos anos a seu marido e até a seu filho pri- 
mogénito, o 8.° Marquês de Nisa, e só veio a falecer em i835, sucedendo-lhe 
na casa seu neto D. Domingos Francisco Xavier Teles da Gama Castro 
Ataíde Noronha Silveira e Sousa, 9. e último Marquês de Nisa (4). Morreu 
o Marquês, depois de ter dissipado a sua enorme casa, a 12 de Agosto de 



homem cia câmara do senhor rei D. João V meu avô e dei rei meu senhor e pai D. José I, 
conselheiro de guerra e mestre de campo general, ao que tendo consideração e esperando 
dele dito Conde da Vidigueira. . . Carta do título de marquês de Nisa, com uma vida mais 
no mesmo título, etc. — Chancelaria de D. Alaria 1, liv. i3. u , fl. 356 v. 

(1) Mercês de D. Maria 1, liv. 7. , fl. ig5 v. 

(2) Ibidem, liv. 25.°, fl. 348. 

(3) Gazeia de Lisboa de 27 de Agosto. 

(4) Não encontrei o registo desta mercê. 



9 6 



Brasões 



1873, deixando, alem doutros, três filhos: o 14. Conde da Vidigueira, pai 
do i5.°; o Conde de Cascais e a senhora Marquesa de Unhão. 

Estes três últimos títulos foram concedidos neste ano de 1898, dispensados 
do pagamento de direitos de mercê por deliberação dos corpos legislativos, 
em comemoração do quarto centenário do descobrimento do caminho marí- 
timo para a índia (1). El Rei, o Governo, e as Cortes lembraram-se dos re- 
presentantes do grande Vasco da Gama; a Comissão organizadora dos fes- 
tejos, aos quais deu a nota característica o baile na Sociedade de Geografia (2), 
essa nem sequer teve um convite, uma atenção para o Conde da Vidigueira. 
Em Madrid, quando se festejou a grande empresa de Colombo, andou o seu 
representante, o Duque de Verágua, sempre na primeira plana. Em Lisboa, 
o Conde da Vidigueira, se lá esteve, andou a pé pelas ruas. Misérias desta 
terra de pequenas gentes. 

As primeiras armas dos senhores de Unhão foram as dos Teles de Me- 



(1) A Lei de 22 de Junho de 1898 diz o seguinte: 

Artigo i.° É dispensado D. José Telles da Gama do pagamento dos emolumentos, di- 
reitos de mercê e sèllo, pelo titulo de conde da Vidigueira, com que foi agraciado. 

Art. 2. São concedidos a D. José Telles da Gama e a seus irmãos D. Lujz, D. Cons- 
tança e D. Eugênia, e com sobrevivência de uns para outros, os direitos que o actual conde 
da Vidigueira, seu pae, herdou de seus avós sobre as propriedades denominadas Mouchão 
do Inglez e Lezíria da Palmeira, que lhe pertencem em ultima vida, com reversão para a 
fazenda nacional. 

Art. 3.° Os direitos, a que se refere o artigo antecedente e que por elle são concedidos, 
em caso algum poderão ser alienados nem tão pouco penhorados, consignados ou por qual- 
quer forma obrigados, sendo nullos todos os contractos celebrados em contravenção d este 
preceito. 

Art. 4. São igualmente dispensados do pagamento dos emolumentos, direitos de mercê 
e sêllo pelos títulos de marqueza de Unhão e conde de Cascaes com que fôram respectiva- 
mente agraciados, D. Eugenia Telles da Gama e D. Manuel Telles da Gama. 

(2) No meu comentário irónico nada há de ofensivo para a Sociedade de Geografia, à 
qual eu então ainda não pertencia e por muitos anos não pertenci. Só tive a satisfação de 
ser eleito sócio em Janeiro de 1910, por proposta do presidente d'então, o muito ilustre pro- 
fessor Consiglieri Pedroso. Faleceu êle ainda nesse ano, em Sintra, a 3 de Setembro, bem 
novo, apenas com quarenta e oito anos, deixando, tanto do cidadão, como do professor, 
memória honrada e respeitada. Passados pouco mais de dois anos, desfeita uma ilusão, tive 
a inesperada honra de ser eleito presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa, na sessão 
de 24 de Fevereiro de 191J, e sucessivamente reeleito até este ano de 1921. Penhora-me 
sobremaneira a não justificada escolha, mas mais ainda me penhora o trato e convivência 
com os meus colegas da direcção nos quais tenho encontrado sempre, a par de perfeita cor- 
tesia, imerecida benevolência. Quando na primeira edição dêste livro fiz aquela referência 
ao baile do centenário da índia, não podia supòr que ela me proporcionasse o ambicionável 
pretexto de publicamente confessar a minha gratidão à Sociedade de Geografia de Lisboa. 



Silvas 



97 



neses já por vezes descritas. Depois, já condes, trouxeram o escudo esquar- 
telado: no I e IV o lião dos Silvas; no II o campo liso dos Meneses; no III 
as três faxas dos Silveiras. Timbre, o lião. Assim se encontram num cunhal 
perto do portão da quinta dos Chavões e no túmulo do i .° Conde de Unhão 
nas Donas de Santarém (i). Passados tempos, extinta a casa de Aveiro e 
apresentando-se a reivindicá-la o 4. Conde de Unhão, adoptaram, ele e seus 
sucessores, outro escudo. Era êste esquartelado : o I das armas do reino 
diferençadas por um filete de negro em barra o qual sempre esquecia (Lan- 
castre); o II esquartelado de oiro liso e de prata, lião de púrpura, armado e 
linguado de vermelho (Teles de Meneses); o III de prata, três faxas de ver- 
melho (Silveira); o IV de prata, seis arruelas de azul (Castro). Assim se 
encontram, p. ex., no frontispício da Allegaçaõ de direito pela justiça do. . . 
Senhor D. Rodrigo Xavier Telles de Lancastre, Castro, e Silveira, Conde 
de Unhão... escripta por Manoel Madeyra de Sousa, Lisboa, 1748(2). O 
alegado direito de D. Rodrigo à casa de Aveiro provinha de sua mãe D. Maria 
de Lancastre, condessa de Unhão e marquesa depois de viúva de Fernão 
Teles de Meneses e Castro, 3.° conde de Unhão, falecido em 1687. D. Maria 
era filha de D. Martinho Mascarenhas, 4. conde de Santa Cruz, e da con- 
dessa D. Juliana de Lancastre, filha de D. Manrique da Silva, i.° marquês 
de Gouveia, e da marquesa D. Maria de Lancastre, filha dos 3. 0S duques de 
Aveiro, D. Álvaro e D. Juliana (3). 

Não houveram os Condes de Unhão a casa de Aveiro (4), mas herdaram 
a de Nisa e então sobrepuseram ao último escudo adoptado o escudete das 
armas dos Gamas daquela casa. E êle enxequetado de oiro e vermelho de 
três peças em faxa e cinco em pala, cada peça de vermelho carregada de 



(1) L. Teixeira de Sampaio, Os Chavões, pág. 39. 

(2) No I vol. das Impressões Deslandesianas, de págs. 12 a 22, publicou Xavier da Cunha 
um interessante catálogo de diversas alegações de direito impressas, motivadas na sucessão 
da casa de Aveiro. 

(3) D. Rodrigo Xavier Teles de Lancastre Castro e Silveira, 4. conde de Unhão (carta 
de 24 de Setembro de 1687), governador e capitão general do Algarve de 1720 a 1740, do 
conselho de Guerra, vedor da fazenda do reino, gentil homem da real câmara, deputado da 
Junta dos Três Estados, começou, apesar de ter a casa sobrecarregada de dívidas e hipo- 
tecas, a edificação do palácio de Xabregas, onde hoje está o Asilo de Maria Pia, e veio a 
morrer, com setenta e cinco anos, a 7 de Março de 1739, viúvo de D. Vitória de Távora, 
falecida em Fevereiro de 1757, filha dos 2. 0S condes de S. Vicente. 

(4) O testamento do 4. Conde de Unhão revela-nos a existência de um contrato curioso 
celebrado entre êle e D. José Mascarenhas, 5 marquês de Gouveia, opositor na demanda 
sôbre a posse da casa de Aveiro. Obrigaram-se reciprocamente os dois contendores a pagar, 
aquêle que vencesse o pleito, ao outro, doze mil cruzados cada ano. — Teixeira de Sampaio, 
Os Chavões, pág. 57, not. 1 1. 

vol. 11 i3 



9 8 



Brasões 



duas faxas de prata; e um escudete de prata posto no ponto de honra e car- 
regado de cinco escudetes de azul, postos em cruz e sobrecarregados cada 
um de cinco besantes de oiro(i). Timbre: naire nascente, de encarnação, 
vestido de branco ao modo da índia, com uma trunfa e um bolante que lhe 
cai pelas costas, os braços nus, segurando na mão dextra um escudete das 
armas e na sinistra um ramo de canela de verde, florido de oiro (2). 

Representa hoje estas casas D. José Teles da Gama, i5.° conde da Vidi- 
gueira, em quem se conserva a varonia dos Silvas, por isso que seu terceiro 
avô D. Domingos Xavier de Lima, 7. marquês de Nisa pelo seu casamento 
com a herdeira desta casa, era neto paterno de Tomás da Silva Teles, 2. vis- 
conde de Vila Nova da Cerveira, filho segundo do 2. Marquês de Alegrete, 
a quem me vou já referir no capítulo seguinte. 

VII 

CONDES DE VILAR MAIOR, 
MARQUESES DE ALEGRETE E DE PENALVA 

Segundo se referiu no precedente capítulo, de Rui Teles de Meneses, 
4. senhor de Unhão, foi filho segundo Brás Teles de Meneses, camareiro 
mor do infante D. Luís por carta de 12 de Março de i522, em substituição 
de seu pai (3). Ao Infante acompanhou em 1 535 na expedição a Tunes (4) 
e por aqui se vê estar errada a data da sua morte no epitáfio de sua sepul- 
tura, segundo o acho transcrito. Foi sepultado na capela de S. Bartolomeu 
da igreja do convento de S. Domingos de Santarém junto de seu pai e seu 
irmão André, com êste epitáfio: Aqui ja\em Bras Telles de Meueses, filho 
de Ruy Telles de Meneses e de Dona Guiomar de Noronha, Camareiro 
mor e Guarda mor que foy do Infante D. Lui\. falleceo a outo de De\embro 
de i52Õ annos, e D. Catharina de Brito sua mulher que falleceo a 17 de Junho 
de i54g (5). D. Caterina de Brito foi filha herdeira de Rui Mendes de Brito, 
das portas da Cruz, «cidadão riquo e homrado desta cidade» de Lisboa, 

(1) Armaria portuguesa, pág. 21 5. 

(2) Cit. Armaria. — Não há dúvida deste ser o timbre adoptado na casa de Nisa, apesar 
de no Livro da Torre do Tombo, fl. 18 v., se lhes dar por timbre a gama passante de oiro, 
carregada de três palas de vermelho, dos mais Gamas. 

(3) Chancelaria de D. João III, liv. 5i.° de Doações, fl. 77 v. — Rui Teles havia também 
sido guarda mor do infante D. Luís, cargo para que fôra nomeado por carta de 10 de Maio 
de 1507; êste emprêgo porem conservou e nele foi confirmado por carta de 19 de Abril de 
1222 (Ibidem, fl. 137). 

(4) Fr. Luís de Sousa, Annaes de D. João III, págs. 390, 391 e 396. 

(5) P. e Inácio da Piedade e Vasconcelos, Historia de Santarém edificada, II, 76. 



< 



Silvas 99 

onde era vereador da Camara em 28 de Outubro de 1495 por ocasião de ser 
feita menagem a el rei D. Manuel pela sua elevação ao trono (1). Do casa- 
mento de Brás Teles nasceram, entre outros, os três filhos seguintes: 

i.° — Rui Teles de Meneses, 2. alcaide mor de Moura e camareiro mor 
do infante D. Luís em sucessão a seu pai (2), foi avô de D. Caterina da 
Silva, que veio a suceder nesta casa e na capela dos Mirandas na igreja de 
S. Cristóvão de Lisboa, havendo sido a segunda mulher de Martim Afonso 
de Beja, senhor de Anciães e Vilarinho. Deles foi neta D. Caterina Josefa 
de Meneses casada com Pedro Vieira da Silva, neto do que havia sido secre- 
tário de Estado e bispo de Leiria depois de viúvo. Foram estes cônjuges 
avós de Pedro Vieira da Silva Brás Teles de Meneses Preto Feo de Melo 
Coelho de Miranda Lobo, senhor das casas de seus avós, i.° barão de Anciães, 
em 19 de Fevereiro de 1818, vogal e secretário de guerra no Supremo Con- 
selho Militar e de Justiça no Rio de Janeiro e tenente general. Faleceu o 
Barão em 1822, deixando muita geração hoje completamente extinta, creio. 

2. — João Gomes da Silva, alcaide mor de Seia, de quem adiante me 
ocuparei. 

3.° — Luís da Silva, comendador de Campanhã na Ordem de Cristo, 
morreu em Agosto de 1578 logo após a batalha de Alcácerquibir (3). Havia 
casado pelos anos de 1667 com D. Isabel de Miranda, filha de Francisco Pe- 
reira de Miranda e de D. Guiomar Pereira, os quais, por escritura feita no 
Porto a 9 de Dezembro daquele ano, lhe prometeram um juro de oitenta 
mil rs., do qual se lhe passou carta de padrão, em 20 Março de 1 568, sendo 
ela jáentão casada (4). Deste casamento nasceram, alem doutros, Brás Teles 
de Meneses e D. Guiomar de Noronha, mulher de Nuno de Mendoça, 
i.° conde de Val de Reis, por carta de 16 de Agosto de 1628(5). Brás Teles 
sucedeu na casa e na comenda, e do seu epitáfio na igreja do antigo convento 



(1) Freire de Oliveira, Elementos para a historia do município de Lisboa, \, 36q. 

(2) Afirmações dos nobiliários. 

(3) Jerónimo de Mendoça, Jornada de Africa, pág. 67. 

(4) Chancelaria de Felipe 7, liv. 26. de Doações, fl. 36o v. — Advirto que os nomes dos 
pais de Brás Teles de Meneses, como se encontram no seu epitáfio no texto a seguir trans- 
crito, divergem dos constantes nos documentos citados. 

(5) Havendo respeito aos serviços que Nuno de Mendonça, do meu conselho de Estado 
e presidente da Mesa da Consciência e Ordens, me tem feito no dito cargo, e no de capitão 
geral e governador de Tânger e nos estados de Flandes, aonde serviu de gentil homem da 
câmara do Sr. Archeduque Alberto, que Deus perdoi, e de conselheiro de Guerra daqueles 
estados, achando-se neles no exército na ilha de Bommel.. . e no encontro das Dunas, em 
que se achou o mesmo Archeduque, e no sítio de Ostende, dos quais serviços eu tenho par- 
ticular satisfação, &c. Carta de conde de Val de Reis em sua vida. — Chancelaria de Fe- 
lipe 111, liv. 22. de Doações, fl. i3o. 



100 



Brasões 



de N. Sr. a dos Remédios, em Lisboa, da Ordem dos Carmelitas Descalços, 
os Marianos, constam os seus principais dados biográficos. Diz o epitáfio, 
tal como o encontro transcrito (i): 

SIPVLTVRA DO INVENSIVEL E SEMPRE VITORIOSO IENERAL 
BRAS TELLES DE MENESSES ESCRA 
VO DE IESVS MARIA IOSE PRIMEIRO CONDE E SENHOR 

DO ESTADO DA LAMAROSA FILHO DE LVIS DA 
SILVA TELES DE MENESSES DA CASA REAL DE SILVIO 

E GIGON E DE DONA ISABEL PEREIRA DA 
CASA DA FEIRA QVINTO NETO DELREI DOM FERNAODO 
DE PVRTVGAL E DELREI DOM EM 
RIQVE DE CASTELA QVE COMESOV A SER IENERAL 
DESDE IDADE DE VINTE ANNOS DA IEMTE 
DE GVERA NA SIDADE DE PORTO E FOI POR IENERAL 
A IMDIA E FOI IENERAL DA SIDADE DE SÃO 
IORGE CHAMADA MAZAGÃO E IENERAL DA SIDADE DE SEVTA 
CONSIGVINDO EM TODAS AS 
PARTES ADMIRÁVEIS IMPRESAS E GLORIOSAS VITORIAS 

COMTRA OS INIMIGVOS DE NOSA SAN 
TA FEE EM DEFENSÃO DA PATRIA DE CVIOS VALEROSOS 
E INAVDITOS FEITOS FOI GOSAR OS PRÉMIOS AO SEO. 
EM 16 DE AGOSTO ANNO DO SNÕR i63 7 

O título de conde da Lamarosa, se não é fantasia, já estaria efectivamente 
concedido, ou pelo menos resolvida a concessão, mas não chegou a reali- 
zar-se talvez por ter sobrevindo a morte. 

Brás Teles de Meneses, com sua mulher D. Caterina Maria de Faro Hen- 
riques e seu filho primogénito D. Fernão Teles de Faro, instituiu, por escri- 
tura de 3 de Dezembro de 1627, feita em Lisboa, um morgado de seus bens. 
Por cabeça dêle deixou as suas casas, «em que ora vivemos», e jardins, à 
Pampulha, defronte da igreja de N. Sr. a dos Remédios dos Carmelitas Des- 
calços; vincula-lhe ainda outros prédios, sendo dêstes o principal as terras 
da Lamarosa, no termo de Santarém. Anexou também ao morgado, «como 
pessa de muita estima as armas com que eu, o dito Brás Telles de Meneses, 
instituidor, servi na guerra para que sejão lembrança e estímulo a nossos 
filhos e descendentes de me imitarem empregando-se no serviço de seu Deus 
e de seu Rei e pera este efeito queremos que estejão as ditas armas sempre 
perpetuadas em parte decente». E ainda mais lhe anexa, por peça nobre, 



(1) Guilherme J. C. Henriques, O Convénio de Nossa Senhora dos Remédios dos Car- 
melitas Descalços, no Archivo histórico portuguez, VIII, 25o. — Fr. Belchior de Sant'Ana, 
na Chronica de Carmelitas Descalços, I, 497, transcreve o epitáfio com algumas diferenças, 
sendo a principal a omissão da referência ao condado da Lamarosa. 



Silvas 



101 



uma tapeçaria de raz de oito panos, da história de S. João. Estabelece as 
condições para a sucessão e, entre elas, uma pela qual, se algum dos suces- 
sores do morgado vier a cometer crime de lesa majestade, divina ou humana, 
ou outro qualquer crime por que haja de perder seus bens, o dá por inábil, 
incapaz e excluído; tira-lhe a sucessão um dia antes de cometer o crime, 
como se então morrera, e chama para ela a pessoa seguinte em grau. Foi 
cláusula previdente, como veremos. Alcançou a instituição confirmação régia 
em carta de 20 de Janeiro de 1628(1). 

Herdara Brás Teles em legítima paterna a tal terra da Lamarosa, her- 
dade muito grande, composta de muitas charnecas, matos e terras por romper, 
segundo se declara na instituição do morgado, e para ela alcançou, por alvará 
de 12 de Junho de i632, licença para ser erigida em vila (2). Era ele já 
então do conselho dei Rei que no ano seguinte, por alvará de 22 de Julho e 
carta de 10 de Novembro, lhe fez mercê, em sua vida, das jurisdições da 
nova vila (3). Casara Brás Teles pela terceira vez com D. Caterina Maria 
de Faro Henriques, filha que veio a ser herdeira de D. Fernando de Faro 
Henriques, senhor de Barbacena, e de D. Joana de Gusmão, filha de Álvaro 
de Carvalho, senhor do morgado de Carvalho, no qual, por nomeação da 
Câmara de Coimbra, veio a suceder o filho primogénito de Brás Teles. 

Chamou-se ele D. Fernão Teles de Faro, foi 2. senhor da Lamarosa, de 
juro e herdade, por alvará de 12 de Setembro de 1647, bem notável pelas 
referências aos serviços de seu pai (4), ]6.° do morgado de Carvalho e da 
casa de seu avô materno. Serviu a D. João IV na campanha do Alentejo 
no posto de capitão de cavalos e governador de Campo Maior; depois, pro- 
movido a mestre de campo, passou em 1647 ao Brasil na armada de socorro 
da Baía capitaneada pelo Conde de Vila Pouca. Voltando a Portugal pas- 
sados tempos, mandou-o a rainha D. Luísa em i658 por embaixador aos 
Estados de Holanda para tratar a paz, e fez-lhe então mercê do pôsto de 



(1) Chancelaria de Felipe III, liv. 21. de Doações, fl. 63 v. 

(2) Ibidem, liv. 29. , fl. 76 v. 

(3) Ibidem, fl. 182 v. 

(4) Tendo consideração aos muitos e calificados serviços de Brás Teles de Meneses, 
que Deus perdoi, continuados por espaço de mais de quarenta anos, servindo a princípio 
comenda em Tángere, em as armadas da costa de capitão de galeões e de capitão mor de 
naus da índia, pelejando no mar com os piratas e na terra com os Mouros, sendo ultima- 
mente governador de Mazagão e de Ceita, em cuja frontaria se sinalou na guerra, e tendo 
outrosi respeito aos serviços de dois filhos seus, um deles morto na conquista de Ceilão, e 
ao mais que por parte de D. Caterina Maria de Faro Henriques c Gusmão, viúva do mesmo 
Brás Teles, se me representou, hei por bem de fazer mercê a D. Fernando Teles, seu filho, 
da jurisdição da vila da Lamarosa de juro na forma da Lei Mental &c. — Chancelaria de 
D. João IV, liv. 20." de Doações, fl. 29 v. 



102 



Brasões 



governador e capitão geral do Brasil para exercer no regresso (i). Partiu 
nos princípios do ano de i6bg e, logo ao chegar, traindo o seu governo, pôs-se 
em comunicação com o Embaixador de Castela para cuja casa, tirando uma 
noite a máscara, se passou. Da sua traição recebeu o prémio no título, apenas 
honorífico, de conde da Arada em Portugal, e o castigo na sentença dè morte 
e confiscação de bens executada em Lisboa, no mês de Agosto do mesmo ano* 
sendo degolado em estátua no Rossio. Dêle conta autor contemporâneo: 
«Fernão Telles. . . andou na Corte de Madrid tão abominado como femen- 
tido; quem o via, primeiro via a traição que a pessoa, e assim nem do Rei, 
nem dos vassallos, alcançou os favores que esperava, supposto que sempre os 
despresos que merecia. Ao fim de tantos annos de pretençao, lhe dérão o 
lugar de Mestre de Campo para Flandes, mais por se desembaraçarem do 
aborrecido, que por se aproveitarem do culpado. Sahio-lhe o despacho em 
Abril [de 1670], com elle chegou a Flandes, donde seu destino o levava para 
acabar a vida, nos Paises donde cometteo a aleivosia. Correo-se a terra de 
sustentar vivo a quem como por vingança sepultou morto, só porque podesse 
redusir a cinsa depois de morto a quem por abominável não tragou vivo (2)». 
Dos bens de D. Fernão Teles apenas escapou o morgado instituído por seu 
pai, em virtude da previdente cláusula acima indicada. Este vínculo passou 
a seu filho Brás Teles de Meneses e Faro; e o morgado de Carvalho foi, em 
conformidade com a sua instituição, provido pela Câmara de Coimbra, mas 
não o podia ter sido na pessoa que encontro indicada (3). O neto de 



(1) Havendo respeito aos merecimentos e serviços de D. Fernando Teles de Faro e par- 
ticularmente ao que ora me vai fazer na embaixada, em que o envio aos Estados Gerais das 
Províncias Unidas; ao conhecimento que tem do estado do Brasil, em que militou, e a impor- 
tância de que será nêle a assistência de sua pessoa, para execução dos acordos da paz com 
Olanda, se Deus permitir que a faça, como espero, hei por bem nomeá-lo por governador 
e capitão geral daquele estado, para ir servir depois que vagar por Francisco Barreto, que 
ora ocupa, &c. Alvará de 22 de Março de i658. — Chancelaria de D. Afonso VI, liv. 27.» 
de Doações, fl. 1 13. 

(2) Monstruosidades do tempo e da fortuna, pág. i3g. 

(3) João Correia Aires de Campos, nos índices e summarios dos livros e documentos 
?nais antigos e importantes da Camara Municipal de Coimbra, traz na pag. 19, sob a data 
de 27 de Agosto de 1659, a notícia dos «Autos da eleição do administrador do morgado de 
Carvalho», por estar vaga a administração pela condenação e confiscação de bens do admi- 
nistrador D. Fernando Teles. Acrescenta que a 2 de Outubro nomeara a vereação adminis- 
trador ao conde marichal D. Fernando Mascarenhas. Ora dá-se o caso que este Conde 
Marichal, D. Fernando Mascarenhas, i.° conde de Serem, já estava finado em Janeiro de 
i65o, como consta da portaria do ofício de marichal e da carta do assentamento de conde 
de Serem a seu filho único D. Jorge Mascarenhas (Inventário dos livros das portarias do 
reino, I, 337; liv. 24. de Doações de D. João IV, fl. 40 v.), e portanto não podia ser provido 
nove anos depois em coisa nenhuma. Foi má leitura, ou confusão. 



Silvas 



io3 



D. Fernão Teles, Manuel Teles de Meneses e Faro, 5.° administrador do 
morgado da Casa dos Bicos, a quem terei ocasião de me referir mais larga- 
mente no artigo dos Albuquerques, casou com D. Ana Helena de Castro e 
Silveira, herdeira da casa do Conde de Vila Pouca, como já ficou dito, e 
deles foi filha e sucessora D. Isabel Caterina de Meneses e Faro, mulher de 
Pedro de Melo de Ataíde, i.° secretário do Conselho de Guerra na sua família, 
filho de Luís Correia da Paz, negociante muito rico. Deles é quarto nefo 
Francisco Maria Teles de Melo Malheiros de Brito Freire de Albuquerque, 
representante de todas as referidas casas e ainda das dos Antas, Malheiros, 
Britos das Portas da Cruz, paço da Cunha e outras, e uma das vítimas da 
abolição dos vínculos. 

4. — Fernão Teles de Meneses serviu na índia, sucedendo por morte do 
vice rei Conde da Atouguia no governo do es'tado, em Março de i58i, e apres- 
sando-se, logo ao ter notícia da aclamação de Felipe I, em o fazer jurar e 
reconhecer como legítimo soberano. Entregou o governo, em Setembro do 
mesmo ano, ao vice rei D. Francisco Mascarenhas e voltou para o reino, 
onde lhe deram o governo do Algarve, a capitania mor da armada do Con- 
sulado, um lugar no conselho de Estado e finalmente, por alvará de 12 de 
Julho de 1097, a regedoria das justiças da Casa da Suplicação. Muito dedi- 
cado ã Companhia de Jesus à qual, em quanto governou a índia, mandara 
dar dois mil pardaus cada ano(i), veio a fundar para ela, em Lisboa, numa 
sua quinta do Monte Olivete, á Cotovia, um noviciado para o qual se trans- 
feriu em i6o3 doutro edifício começado em 1597 em Campolide (2). Expulsos 
os Jesuítas, no seu noviciado se instalou o Colégio dos Nobres e posterior- 
mente a Escola Politécnica, Faculdade de Sciências se lhe chama hoje, onde 
se guarda, com pouco resguardo, o mausoléu do primitivo fundador, outrora 
colocado na capela mor. Do epitáfio no túmulo gravado consta ter Fernão 
Teles de Meneses falecido a 26 de Novembro de 160b; razão tinha pois João 
Pedro Ribeiro para afirmar errada a data de 14 de Fevereiro de 1606 de 
um Assento da Casa da Suplicação, tomado perante o regedor Fernão Teles 
de Meneses, e atribuí-lo ao ano de i6o5 (3). Havia êle casado com D. Maria de 
Noronha, filha de D. Francisco de Faro, 4. senhor do Vimieiro e sobrinho 



(1) J. H. da Cunha Rivara, Archivo portuguc^ oriental, fascículo 3.°, pág. 111. 

(2) P.e António Franco, Imagem da virtude em o Noviciado da Companhia de Jesus na 
Corte de Lisboa, cap. 11. 

(3) J. P. Ribeiro, índice chronologico remissivo da Legislação portuguesa, part. II, 
pág. 365. — Joaquim Inácio de Freitas, na Collecção chronologtca dos Assentos das Casas da 
Supplicação e do Civel, pág. 3, transcreve o referido Assento sem reparo para a data errada, 
apesar de citar o índice. 



104 



Brasões 



dei Rei. Sobreviveu esta senhora a seu marido e só veio a falecer, conforme 
o alegado epitáfio, a 7 de Março de IÕ23, não deixando sucessão. 

No dia i3 de Julho de 1921 tive ocasião de examinar o mausoléu de 
Fernão Teles de Meneses e de copiar o epitáfio. Do mausoléu existe uma 
reprodução incompleta, apenas porem por lhe faltar a cruz do remate (1); 
abster-me-hei por isso de descrever o sumptuoso, mas, na verdade, não muito 
elegante monumento, e apenas observarei que o mármore dos dois elefantes, 
sôbre que assentava o túmulo, e o do manto, que no tôpo o reveste, é negro. 
Por baixo da cruz e acima do manto vê-se o brasão de Fernão Teles: escudo 
esquartelado de liôes e de campo liso, e sobrepujado de uma coroa. No epi- 
táfio lê-se: 

Aqvi iaze Fernaó Telez de Meneses filho de Bras Telez de Meneses Cama- 

reyro Mor, e Goarda Mór, e Capi 
taó dos Ginetes, q foy do IffÁte D. Lvis, e de D. Caterina de Brito sva mo- 

lher: o qval foy do Cóselho do Estado d'El 
Rey nosso Sór. E governov os estados da Infia, e o Reyno do Algarve, e foy 

Regedor da Ivstiça da casa da 
Svpplicaçaó, e Presidente do conselho da Índia, e partes vltramarinas. E 

SVA MOLHER D. MARIA DE NORONHA 

filha de D. FrÃcisco de Faro Vedor da fazÊda dos Reys D. Sebastião, e D. 

Anriqve, e de D. Misia d'Albvqverqve sva 
primeira molher: Os qvais fvndaraó, e dotaraó esta casa da provação da 

C0MP. A DE lESV, E TOMARAÓ ESTA CaPEL- 
LA MÓR PERA SEV IAZIGO. FaLECEO FeRNAÓ TeLEZ DE MííS. A • XXVI • DE NoV.° DE 
• M - DC -V- E D. M. A DE Nr. a A • VII • DE MARÇO DE • M • DC • XX III. 

Na secretaria da Faculdade de Sciências encontrei o retrato de Fernão Teles, 
pintura a óleo contemporânea do retratado, e em relativo bom estado de con- 
servação. Apresenta-se de corpo inteiro, de tamanho natural, descarapuçado, 
com armadura de corpo vestida e com bastão de comando na mão direita (2). 
No canto alto direito do painel, à esquerda do espectador, vê-se um escudo 
partido das armas de Fernão Teles e das de sua mulher: o I esquartelado 
de lioes e de campo liso (Teles de Meneses); o II das armas do reino, pelos 
Faros. No campo inferior da mesma parte lê-se: FeRNAM TELLES/DE 
MENEZES/F VNDADOR DES/TA CAZA DA PRO/VAÇAM DA COMPa/DE IHS. 

João Gomes da Silva, o segundo filho acima nomeado de Brás Teles de 



(1) G. de Matos Sequeira, Depois do Terremoto, vol. I, pág. 256-a. 

(2) Também se encontra reproduzido no livro acima cit., pág. 378. 



Silvas io5 

Meneses, camareiro mor do infante D. Luís, foi alcaide mor de Seia(i), 
capitão mor da armada da índia do ano de 1567. Estava embaixador em 
França nos anos de 1 57 1 e 72, e em Roma nos de 1577 a 1579, tendo lá 
feito celebrar, segundo oiço, soberbas exéquias por alma de D. Sebastião. 
Voltando ao reino foi nomeado vedor da fazenda e do conselho de Estado; 
já era porem falecido em 18 de Outubro de i5o,3(2). Casara pela primeira 
vez com D. Guiomar Henriques, filha de D. Lopo de Almeida, comendador 
do Ulmeiro, e de sua mulher D. Antónia Henriques, e realizara-se o casa- 
mento pelos anos de 1 5G5 (3) ; mas já estava dissolvido por morte de D. Guiomar 
em 4 de Dezembro de 1582(4), tendo dela tido um único filho e nenhum do 
seu segundo consórcio. Chamou-se Luís da Silva aquele filho e sucedeu a 
seu pai na alcaidaria mor de Seia e comenda de Seda na Ordem de Avis, 
serviu, como adiante veremos, de governador da Relação e Casa do Pôrto e 
veio a morrer em. 1 636, tendo casado com D. Mariana de Lancastre, que 
depois de viúva foi aia do príncipe D. Teodósio e morreu em 1643. Dêste 
casamento nasceram, alem doutros: João Gomes da Silva e Fernão Teles de 
Meneses. João Gomes foi 3.° alcaide mor de Seia, governador das Justiças 
do Porto e finalmente, como veremos, regedor da Casa da Suplicação. Su- 
cedeu-lhe na casa sua filha D. Mariana da Silva, condessa das Sarzedas pelo 
seu casamento com o 2. conde, D. Luís da Silveira. 

Este Conde das Sarzedas, tendo mais de setenta anos, morreu desastra- 
damente em 20 de Abril de 1706, da queda que deu para dentro de um 
carneiro na igreja de Santa Justa. Havia ele fundado a quinta e palácio de 
Palhavã pouco depois do ano de i656, tendo sucedido na propriedade a seu 
pai. Não deixou contudo a obra acabada, tendo sido seu filho o 3.° conde, 
D. Rodrigo da Silveira e Silva, quem, alem doutros embelesamentos, mandou 
levantar o soberbo portal à frente da estrada, no alto do qual pôs as suas 
armas, um escudo partido de Silveira (três faxas) e de Silva (um Iião). A 
D. Rodrigo sucedeu sua filha D. Teresa Marcelina da Silveira, 4. a condessa 



(1) Não encontro registada a carta desta mercê, mas sim a da comenda de Seda na 
Ordem de Avis, concedida em q de Junho de i5y8, estando João Gomes da Silva «por meu 
embaixador em côrte de Roma». — Liv. 4. da Ordem de Avis, fl. 383. 

(2) Data de uma verba posta à margem de um padrão de 40.0000 rs., mandando-os 
pagar, por morte de João Gomes da Silva, a seu filho Luís da Silva. — Chancelaria de 
D. João III, liv. 65.° de Doações, fl. 35o. 

(3) Em i3 de Março de 1 565 pôs-se uma verba numa carta de padrão de 16.000 rs. de 
tença de D. Antónia Henriques e D. Lopo de Almeida a fim de ser paga, do i.° de Janeiro 
em diante, a sua filha D. Guiomar Henriques, em quem seu pais a haviam renunciado. — 
Ibidem, liv. 68.°, fl. 144 v. 

(4) Data doutra verba posta no cit. padrão mandando pagar os 1G.000 rs. a João Gomes 
da Silva por morte de sua mulher. — Ibidem. 

vol. 11 14 



1 



io6 



Brasões 



das Sarzedas. Esta pobre senhora perdeu o marido no Brasil e, mais triste 
ainda, viu morrerem-lhe todos seus três filhos ! Depois, só, sem parentes 
próximos, faleceu na sua quinta de Palhavã, a i3 de Setembro de 1747(1), 
passando os morgados da casa, e entre êles o palácio de Palhavã, para seu 
sobrinho, filho de primo com irmão, D. Francisco de Meneses, 2. marquês 
de Louriçal, a quem sucedeu o irmão D. Henrique de Meneses, 3.° marquês. 
Arrendou êste o palácio aos bastardos de D. João V, os bem conhecidos Meninos 
de Palhavã, os quais durante a sua longa residência ali, levantaram toda a 
propriedade ao seu maior esplendor. Finalmente, pela morte do 4. marquês 
de Louriçal, D. Luís Eusébio Maria de Meneses da Silveira, sucedida em 3 
de Junho de 1844, passou a quinta de Palhavã, com os mais morgados da 
casa, ao 4. Conde de Lumiares, avô do último. Este vendeu a quinta ao 
3.° conde da Azambuja, Augusto Pedro de Mendoça Rolim de Moura Bar- 
reto, que reconstruiu o palácio quási desde os alicerces e pôs as suas armas 
de Mendoça no portal, substituindo as antigas dos Sarzedas. Morreu o 
Conde da Azambuja em 19 14 e por seu falecimento vendeu-se o palácio para 
partilhas, no dia 6 de Janeiro de 1918. Arrematou-o em praça o conhecido 
industrial Francisco de Almeida Grandela, que logo por seu turno o revendeu 
ao governo espanhol para nele estabelecer a legação do seu país. 

Neste palácio de Palhavã passou-se em 1760 uma scena tragicómica bem 
curiosa. Um dos Meninos de Palhavã (menino de quarenta anos ao tempo) 
era o Senhor D. José, inquisidor geral desde 24 de Setembro de 1758. Nesta 
qualidade, não só negou a licença para a publicação de um livro aprovado 
pelo Conde de Oeiras, como também ordenou a apreensão dos exemplares, 
e até a prisão do autor, o próprio Intendente Geral da Polícia. Procurado 
D. José no seu paço de Palhavã pelo futuro Marquês de Pombal, foi por êle 
em nome dei Rei exprobrado em termos ásperos. O Menino amuou porém 
de tal forma, que se deitou ao Conde de Oeiras e, arrancando-lhe a cabeleira, 
deu-lhe com ela na cara e chegou em seguida a brandir um punhal. Ao ar- 
ruído acudiu de uma sala próxima outro Menino, o Senhor D. António, que 
teria igualmente passado a vias de facto contra o Ministro, se o próprio 
irmão o não contivera. O resultado desta façanha foi o Conselho de Estado 
condená-los a ambos à morte e el Rei, usando de clemência, a destêrro per- 
pétuo. Para maior opróbrio foi o próprio Conde de Oeiras quem lhes intimou 
a sentença, indo a Palhavã lèr-lha na noite de 20 de Julho de 1760. No dia 
seguinte partiram os dois irmãos para o Bussaco e no seu inóspito convento 
permaneceram até princípios de Maio de 1777, quando D. Maria I auto- 



(i) Gaveta de Lisboa de 21 de Setembro. 



Silvas 



rizou o seu regresso à corte. Continuaram sempre a viver retirados no 
palácio de Palhavã, e só por decreto de 4 de Fevereiro de 1801, posterior já 
à morte de D. António, sucedida em 14 de Agosto de 1800(1), é que foram 
declarados inocentes e limpos de toda a mancha de crime, ou mesmo de 
suspeita dele. D. José morreu logo depois, a 3i de Agosto de 1801 (2). 

Em toda esta contenda não entrou, por estar longe, o terceiro Menino, 
porque eles foram três: D. António nascido em 1 de Outubro de 17 14, que 
foi claveiro da Ordem de Cristo e o mais inútil dos irmãos; D. Gaspar, que 
nasceu a 8 de Outubro de 1716, foi sagrado arcebispo de Braga na capela de 
Palhavã, em 25 de Junho de 1768, e naquela cidade morreu a 18 de Janeiro 
de 1789(3), tendo-se mostrado muito submisso em seguida ao desterro de 
seus irmãos; e D. José, que nasceu em 8 de Setembro de 1720, e foi doutor 
em Teologia, claveiro da Ordem de Avis e inquisidor geral (4). 

Estes bastardos de D. João V, havidos em diferentes mães, foram reco- 
nhecidos por um decreto de 6 de Agosto de 1742, publicado só depois da 
morte dei Rei e confirmado por D. José em 20 de Abril de 1762. Por estes 
decretos concedeu-se aos Meninos de Palhavã, entre outras honrarias, o tra- 
tamento de Alteza, como já haviam tido os bastardos de D. Pedro II, tudo 
paródia de Luís XIV. Nós em paródias do estrangeiro temos sido sempre 
fortes. Nunca tiveram contudo os bastardos o título de infantes, como alguns 
autores equivocadamente lhes dão. 

Beckford visitou Palhavã em 3o de Maio de 1787, e deixou-nos uma inte- 



(1) «O Senhor D. Antonio, Tio de S. M., Claveiro d'Ordem de Christo, íàleceo em Pa- 
lhavã a 14 deste mez em idade de 85 annos 10 mezes e i3 dias. Em consequência deste 
infausto acontecimento S. A. R. o Príncipe Regente N. Senhor se encerrou por três dias, 
que principiarão no mesmo dia 14, e toma luto por dous mezes, hum rigoroso, e outro ali- 
viado, ordenando que a Corte tomasse o referido luto». — Gaveta de Lisboa de 19 de Agosto 
de 1800. 

(2) «O Senhor D. José, Tio de S. M., claveiro da Ordem de Avis, faleceo em Palhavã 
a 3i do mez passado em idade de 80 annos 1 1 mezes e 22 dias». — Supplemento à Gaveta de 
Lisboa de 4 de Setembro de 180 1. 

(3) «O Senhor D. Gaspar, Tio de S. M., Arcebispo e Senhor de Braga, Primaz das 
Hespanhas, faleceo naquela cidade a 18 do corrente, com edificantes mostras de religião, 
em idade de 72 annos, ? mezes e 14 dias». — Gaveta de Lisboa de 27 de Janeiro de 1789. 

(4) «No Domingo 24 de Setembro tomou o Sereníssimo Senhor D. José posse do emprego 
de Inquizidor Geral destes Reynos, e Senhorios da sua dependência; assistindo a este acto, 
que se fez em particular no Paço de Palhavan o Concelho Geral do Santo Officio. 

«No dia seguinte 25 foi ao mesmo paço em corpo, a Meza da Inquiziçam desta Cidade 
que aprezentou a sua Alteza o seu respeito fazendo protestos da sua obediência, e Sua 
Alteza a recebeu benignissimamente». — Gaveta de Lisboa de 19 de Outubro de 1758. 



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Brasões 



ressante notícia do que lá viu(i). Naquele dia seu amigo Horne (2) arras- 
tou-o até lá, levando-o na sua sege de boleia por detestáveis caminhos, infes- 
tados de pedintes, cães, moscas e mosquitos. Naquela baixa de Palhavã 
ia-se sentindo o Inglês sufocado sob os frondosos arvoredos, que impediam 
toda a viração. Achou o jardim em frente do palácio detestável, com as suas 
intrincadas ruas orladas de renques de murta tosqueada (êle chama-lhe mj-rtle, 
desconfio porem que fôsse buxo), da qual saíam, aqui e* alem, grandes pirâ- 
mides do mesmo arbusto. Gostou da horta, onde as ruas eram bordadas de 
latadas de belas roseiras cobertas de flores, que o encantaram e lhe trouxe- 
ram à lembrança agradáveis recordações de certa Ladf. 

Entretanto conversava Horne com uma espécie de anglo-luso intendente 
das cavalariças de suas altezas bastardas, o qual enfáticamente discursava 
sôbre a santidade, temperança e castidade de seus augustos amos, que vivem 
sequestrados do mundo e das suas pompas, aborrecendo toda a companhia 
profana, nunca lançando os olhos sôbre o sexo frágil. 

Depois entrou na casa. O andar nobre era formado por uma correnteza 
de bem proporcionados salões, de grande pé direito, e revestidos unicamente 
de damasco do mais intenso carmesim. No tôpo de cada salão um pesado 
dossel de veludo lavrado tomava a parede e era acompanhado, á direita e à 
esquerda, de longas filas de alterosas cadeiras de braços forradas do mesmo 
estofo. Nem espelhos, nem painéis, nem doirados, nem ornatos nenhuns, 
somente pesadas tapeçarias, sob as quais as próprias mesas vergavam. O 
régio carmesim dominava exclusivamente, lançando sem rival o seu opaco 
reflexo sôbre tudo. Num salão, junto da parede, entre duas mesas carre- 
gadas de panos de veludo lavrado, encontrou as poltronas d'onde suas altezas 
falavam aos santos ministros de Deus, que de tempos a tempos recebiam a 
honra de uma audiência, e para os quais era destinada uma fila de cadeiras 
lá disposta. 

Toda esta aprumada grandeza, e triste desconforto, fizeram lembrar ao 
viajante inglês a inanidade da elevada jerarquia sem a atrtoridade correspon- 
dente. «Podem soberanos buscar ocupação a seu talante, inclinar-se. ao bem, 
ou ao mal; príncipes porém sem poder nem influência própria, que, como os 
de Palhavã, têem apenas de manter a sua imaginária grandeza, tanto boce- 
jarão, que lhes fugirá a alma pela bôca (3), e se tornarão com o andar dos 
tempos tam aprumados como as pirâmides da infezada murta de seus jardins. 



(1) Italy; with sketches of Spain and Portugal, vol. II, carta 7.*, pág. 23. 

(2) Era um negociante inglês, e na lista dos negociantes estrangeiros do Almanach de 
1787 vem nomeado Horn & Sill, residindo às Necessidades. 

(3) «... must yawn their souls out». 



Silvas 



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Bem mais felizes seriam os filhos não reconhecidos pelo rei João e não foram 
poucos, pois que este piedoso monarca, 

Wide as his command 
Scattered his Maker's image through the land (1). 

«Eles talvez, em quanto seus irmãos bocejam sob empoeirados dosséis, 
toquem guitarra em descantes ao luar, saracoteando alegres fandangos, ou, 
joviais curas de aldeia, gozem de bem ressonadas sonecas após saborearem 
rústicos prazeres e pitéus». 

Mas eu decididamente preciso tomar juízo. 1 Que téem os Meninos de 
Palhavã de fazer com os Silvas? Deixem-me retroceder bem depressa lá 
acima a Fernão Teles de Meneses, o filho segundo de Luís da Silva, 2. alcaide 
mor de Seia, e limitar-me a reproduzir, sem grandes acrescentamentos (2), 
a matéria já impressa deste extenso tratado de especial silvicultura. 

Fernão Teles de Meneses, sendo do conselho de Guerra, foi nomeado 
governador da Rèlação do Pôrto. em 1645, d'onde veio servir de gentil homem 
da câmara do Príncipe D. Teodósio, passando em i65o a desempenhàr o 
cargo de regedor das justiças da Casa da Suplicação. Foi o i.° conde de 
Vilar Maior, por carta de 29 de Agosto de 1632 (3), em verificação da pro- 
messa feita por D. João IV a seu irmão António Teles da Silva, quando o 
mandou governar o Brasil, promessa não verificada por ele morrer no re- 
gresso em naufrágio próximo da barra de Aveiro. O Conde de Vilar 
Maior serviu de mordomo mor da rainha D. Luísa de Gusmão, nomeado por 
carta de 23 de Dezembro de i656(4), e já era falecido a 27 de Novembro de 
1662, data da carta do título ao filho. Havia casado, em i63o, dizem, com 
D. Mariana de Mendoça, filha de Simão da Cunha, trinchante de Felipe I. 

Do i.° Conde de Vilar Maior foi filho e sucessor Manuel Teles da Silva, 
2. conde, por carta de 27 de Novembro de 1662 (5), gentil homem da câmara, 
desde 1666, do infante D. Pedro, depois príncipe regente e rei, e muito seu 
valido, regedor da Casa da Suplicação em 16Õ9, vedor da fazenda da repar- 
tição de África, por carta de 4 de Outubro de 1672 (6). Um escritor contem- 



(1) «Pela terra espalhou a imagem do seu Criador com liberalidade consoante a seus 
desejos». 

(2) | Não fui capaz de manter o propósito ! 

(3) Não está registada, mas consta a data dela da carta do assentamento passad» ao 
Conde em 27 de Janeiro de i653. — Chancelaria de D. João IV, liv. 22. de Doações, fl. 228. 

(4) Chancelaria das Rainhas, liv. fl. 390. 

(5) Chancelaria de D. Afonso VI, liv. 25.° de Doações, fl. 97 v. 

(6) Ibidem, liv. 37. °, fl. 287. 



I IO 



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porâneo, dando notícia da sua nomeação para regedor, comenta : «o que lhe 
faltava de annos suprirão os serviços e auctorisárão as prendas, fasendo-se por 
ellas bem visto de todos» (i). Sendo já do conselho de Estado, foi enviado, 
em Dezembro de 1686, como embaixador extraordinário à côrte do Eleitor 
Palatino do Reno, a fim de concluir o tratado de casamento de D. Pedro II 
com a princesa Maria Sofia de Neuburgo e trazê-la para Portugal. No re- 
gresso deu-lhe el Rei o título de marquês de Alegrete, por carta de 19 de 
Agosto de 1687 (2). Andava provávelmente já então compondo o livro De 
rebus gestis Joannis II. Lusitanorum Régis, Optimi Principis nuncupati, 
por êle dedicado a 29 de Fevereiro de 1688, a D. Pedro II e no ano seguinte 
impresso, em Lisboa, na oficina de Miguel Manescal. Morreu o Marquês a 
12 de Setembro de 1709(3), tendo casado com D. Luísa Coutinho, filha de 
D. Nuno Mascarenhas, senhor de Palma, de quem, entre outros filhos, teve 
a Fernão Teles da Silva, que seguirá, e a João Gomes da Silva, conde de 
Tarouca, a quem mais adiante me referirei. 

Fernão Teles da Silva, 3.° conde de Vilar Maior (4), 2. marquês de Ale- 
grete (5), foi embaixador extraordinário a Alemanha em 1707 para conduzir 



(1) Monstruosidades do tempo e da fortuna, pág. 101. 

(2) Tendo consideração ao grande acerto e prudência com que se houve na embaixada 
extraordinária a que o mandei ao Sereníssimo Príncipe de Neuburgo, Conde Eeleitor Pala- 
tino do Reno, meu bem amado primo, a tratar o negócio do meu casamento, que ajustou e 
concluiu felizmente e muito a minha satisfação, vindo acompanhando a Rainha a este reino, 
etc. Carta do título de marquês da vila de Alegrete. — Chancelaria de D. Pedro II, liv. 18. 
de Doações, fl. 14 v. 

(3) P. e Sousa, Memorias dos Grandes, pág. 62. 

(4) Carta de 17 de Dezembro de 1677, em cumprimento de um alvará de 26 de Outubro 
do mesmo ano nestes termos: Havendo respeito aos merecimentos e serviços de Manuel 
Teles da Silva, conde de Vilar Maior, e ao amor e fidelidade com que me tem servido nos 
cargos de regedor da Casa da Suplicação e vedor da fazenda da repartição de Africa, que 
actualmente está exercitando com particular satisfação minha, e particularmente estar ser- 
vindo de gentil homem da minha câmara, e aos serviços que fez nas campanhas em que se 
achou, e lhe pertencer haver dos que suas irmans fizeram no paço à Rainha mãe. . . mercê, 
em satisfação de todos os serviços feitos até o presente, de uma vida mais no título de conde 
de Vilar Maior e que seu filho se possa cobrir tanto que casar.— Chancelaria de D. Afonso VI, 
liv. i5.° de Doações, fl. 74. 

(5) Carta de 20 de Novembro de 1708: Tendo respeito às muitas qualidades e mereci' 
mentos que concorrem na pessoa do conde Fernão Teles da Silva, gentil homem de minha 
câmara, e em especial ao cuidado, zêlo e acêrto com que se houve na embaixada extraor- 
dinária a que o mandei ao Sereníssimo Emperador, meu bom irmão e primo, a tratar o ne- 
gócio do meu casamento, que ajustou e concluiu felizmente e muito a minha satisfação, 
vindo acompanhando a Rainha... a estes reinos, e por desejar que o Conde experimente 
nesta ocasião os efeitos da boa vontade que lhe tenho, recebendo de mim toda a honra, 
acrescentamento e mercê. . . me praz e hei por bem fazer-lha do título de marquês da vila 



Silvas 



1 1 1 



a Portugal a arquiduquesa Maria Ana de Áustria, desposada de D. João V. 
Também foi gentil homem da câmara, dos conselhos de Estado e Guerra, 
vedor da fazenda e um dos censores da Academia Real da História. Morreu 
a 7 de Julho de 1734, com setenta e dois anos (1), tendo casado, por ocasião 
de lhe ser dado o título de conde, com D. Helena de Noronha, viúva do 
senhor da casa de Tarouca e filha dos 3. 0S Condes dos Arcos. Deste casa- 
mento nasceram, entre outros, os três seguintes filhos: Manuel Teles da 
Silva, 3.° Marquês de Alegrete, de quem tratarei lá mais adiante ; Tomás da 
Silva Teles, visconde de Vila Nova da Cerveira, de quem me vou já ocupar; 
e António Teles da Silva, 2. senhor de Ficalho pelo seu casamento com 
D. Teresa Josefa de Melo, filha herdeira de Francisco de Melo, i.° senhor 
de Ficalho, como já ficou dito. 

Tomás da Silva Teles, destinado para a vida eclesiástica, chegou a ser 
cónego da Sé de Évora; largou porem a carreira para seguir a das armas. 
Nos postos de coronel de infantaria, e general de batalha serviu na guerra 
da Aclamação; posteriormente, passando à Alemanha em 1713, alistou-se no 
exército imperial e entrou na tomada de Belgrado em 17 17. Voltando ao 
reino, casou em 28 de Outubro de 1720 com sua sobrinha D. Maria de Lima, 
filha única de D. Tomás de Lima e Vasconcelos, n.° visconde de Vila Nova 
da Cerveira, e no ano seguinte, por carta de 6 do mesmo mês, foi feito vis- 
conde (2), ainda em vida do sogro. Depois foi mestre de campo general, 
embaixador a Madrid e gentil homem da câmara dei rei D. José, vindo a 
perder a sua situação na corte por se achar implicado na conspiração do 
Duque de Aveiro. Por êste motivo foi prêso em 1760 para o castejo de 
S. João da Foz, onde morreu; reabilitou porém a sua memória o alvará de 
17 de Outubro de 1778, expedido quando seu filho era ministro. A Viscon- 
dessa havia falecido a 5 de Julho de 1730, deixando muitos filhos dos quais 
o herdeiro foi: 

D. Tomás Xavier de Lima Vasconcelos e Brito Nogueira Teles da Silva, 
que nasceu em 1727. Foi i3.° visconde de Vila Nova da Cerveira, por des- 
pacho de 3 de Setembro de 1750 (3), 8.° com grandeza, i.° marquês de Ponte 
de Lima de juro e herdade/por despacho de 17 de Dezembro de 1790(4) e 



de Alegrete em sua vida, compreendendo-se nela a primeira das duas, que no mesmo título 
foram concedidas ao Marquês seu pai por alvará de 3o de Agosto de 1698, e o faço marquês 
dela &c. — Ofícios e mercês de D. João V, liv. 3o.°, fi. 249. 

( 1 ) Gaveta de Lisboa de 1 5 de Julho. 

(2) Mercês de D. João V, liv. 56.°, fl. 265. 

(3) Gajeta de 8 de Setembro. 

(4) Gaveta de 24 de Dezembro. 



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Brasões 



carta de 14 de Abril de 1795(1), gentil homem da câmara e mordomo mor 
de D. Maria I (2), ministro e secretário de estado dos negócios do reino e da 
fazenda; presidente do Real Erário em 1788, em sucessão ao Marquês de An- 
jeja, tendo ambos sido uns tristes sucessores do Marquês de Pombal; do 
Conselho de Estado em 1 796. O Marquês de Ponte de Lima era muito peque- 
nino e muito fútil, e dêle há várias anedóctas picarescas; mas é preciso 
acabar com esta lenga-lenga. Morreu o Marquês a 23 de Dezembro de 1800, 
com setenta e três anos feitos (3), havendo casado em 1749 com D. Eugênia 
Maria Josefa de Bragança, filha dos 4. 0S Marqueses de Alegrete, a qual faleceu 
a 3o de Março de 1795 (4), tendo procriado muitos filhos e entre êles os se- 
guintes três: D. Tomás Xavier de Lima, adiante; D. Domingos Xavier de 
Lima, 7. marquês de Nisa, já lá acima nomeado no capítulo VI; e D. Lou- 
renço José Xavier de Lima, conde de Mafra, por carta de 1 de Janeiro de 
i836(5), par do reino por outra carta de 5 dêsse mês; havia sido gentil 
homem da câmara da rainha D. Maria II, ministro em Turim, Viena e 
Londres, e embaixador em Paris; morreu sem descendência a 11 de Janeiro 
de 1839. 

D. Tomás Xavier de Lima foi o 14. visconde de Vila Nova da Cerveira, 
mas não chegou a suceder na casa de seu pai por morrer em vida dêle, em 
1781. Havia casado com uma filha dos 3. 0S Condes de Óbidos e foi avô do 
3.° e último marquês de Ponte de Lima, D. José Maria Xavier de Lima Vas- 
concelos e Brito Nogueira Teles da Silva, falecido sem sucessão em 1877, e 
da marquesa de Castelo Melhor, D. Helena Luísa Xavier de Lima, mãe do 
5.° Marquês de Castelo Melhor, que sucedeu na casa de Ponte de Lima e 
como tal foi o representante, não só dela, mas também da dos Condes de 
Penela, ^representações que passaram a sua sobrinha a actual Marquesa. 

As primeiras armas dos Viscondes de Vila Nova da Cerveira foram: ter- 
çado em pala: o I de oiro, quatro palas de vermelho (Lima); o II cortado: 
o i.° de prata, liao de púrpura, armado e linguado de vermelho (Silva); o 
2. de prata, três faxas enxequetadas de vermelho e oiro de três tiras (Souto- 
maior); o III cortado de Soutomaior sobre Silva. Coroa de visconde. Tim- 



(1) Chancelaria de D. Maria I, liv. 47. °, fl. 276. — Na carta apenas se lhe chama visconde 
de Vila Nova da Cerveira, D. Tomás de Lima, sem a ladainha de nomes que lhe costumam 
pôr. 

(2) Carta dada no palácio de Salvaterra de Magos, a 3o de Janeiro de 1789. — OJicios e 
mercês de D. Maria I, liv. 33.°, fl. 222 v. 

(3) Gaveta de 27 e lá se poderá ver a numerosa lista dos cargos exercidos pelo Mar- 
quês. 

(4) Gaveta de 4 de Abril. 

(5) Esta data é da Resenha; não encontrei o registo da mercê. 



Silvas 



1 1 3 



bre: lião de púrpura, armado e linguado de vermelho. — Segundas armas: 
partido: o I de Lima; o II cortado: o i.° de vermelho, nove lisonjas de prata, 
apontadas, moventes do chefe, da ponta e dos flancos do cortado, cada lisonja 
carregada de um lião de púrpura (Brito); o 2. de oiro, banda enxequetada 
de verde e prata de cinco tiras, a do meio coberta por uma cótica de ver- 
melho (Nogueira). Coroa de visconde. Timbre: um dos lioes. — Terceiras 
armas: terçada em pala: o I de Limas; o II cortado de Britos sôbre Souto- 
maiores; o III cortado de Nogueiras sôbre Silvas. Coroa de conde pela 
grandeza. Timbre: lião de púrpura, armado e linguado de vermelho. — 
Quartas armas: terçado em pala: o I de Limas; o II cortado de Britos sôbre 
Soutomaiores; o III cortado de Nogueiras sôbre Vasconcelos. Sôbre o todo 
de Teles da Silva, esquartelado: o I e IV de prata, lião de púrpura, armado 
e linguado de azul (Silva); o II e III de oiro liso (Meneses). Coroa de mar- 
quês. Timbre: o lião dos Silvas. 

Manuel Teles da Silva, o filho primogénito dos 2. 0i Marqueses de Ale- 
grete acima nomeado, foi 3.° marq*uês de Alegrete (1), 4. conde de Vilar 
Maior (2), gentil homem da câmara de D. João V, secretário perpétuo da 



(1) Carta de 17 de Outubro de 1722: Tendo respeito aos serviços do marquês de Ale- 
grete Fernando Teles da Silva, gentil homem de minha câmara, vedor da minha fazenda, 
meu conselheiro de Estado, feitos por espaço de vinte e cinco anos, desde o de 1694 até o 
presente, nos lugares de deputado da Junta dos- Três Estados, no de vedor da fazenda e con- 
selheiro de Estado; no ano de 1704 acompanhou el Rei meu pai a campanha da Beira, ser- 
vindo no tempo que ela durou de ajudante real, passando pouco [depois] por embaixador 
extraordinário à côrte de Viena para tratar e ajustar o meu casamento; no de 1707 ser 
nomeado gentil homem da minha câmara; no de 1709 vedor da fazenda; no de 171 1 conse- 
lheiro de Estado, em cujos empregos tem servido com a pontualidade e desinteresse que é 
notório, em consideração do que, em satisfação de tudo, fui servido fazer-lhe mercê (alem 
doutras) de que a vida que havia no título de marquês de Alegrete se verificasse logo em 
seu filho o Conde de Vilar Maior, ficando extinta a dita vida; e ora me pediu o mesmo 
conde Manuel Teles da Silva lhe mandasse passar carta &c. Carta de marquês de Alegrete 
em sua vida. — Ofícios e mercês de D. João F, liv. Go.°, H. 242. 

(2) Carta de 17 de Agosto de 1698: Tendo consideração aos grandes merecimentos 
de Manuel Teles da Silva, marquês de Alegrete, do conselho do Estado, gentil homem de 
minha câmara e vedor da fazenda, e aos seus serviços continuados desde o primeiro des- 
pacho até o presente, por espaço de vinte e um anos, de gentil homem de minha câmara e 
vedor da fazenda, três na repartição de Africa e os mais na do reino, e juntamente na re- 
partição dos armazéns, de i3 de Dezembro de 689 até o presente; e dezanove anos de con- 
selheiro de Estado, havendo-se sempre nestas ocupações e nas mais do meu serviço, de que 
foi encarregado, sendo todas elas as mais graves e de mais suposição, com muito particular 
zêlo e acerto, e muito a minha satisfação, correspondendo em tudo muito conforme a quem 
Sle é, e a grande confiança que faço de sua pessoa ; e respeitando assim o referido, como 
o mais que se fez presente por parte do dito Marquês; e por confiar dêle e de seu neto, 

vol. 11 1 5 



Brasões 



Academia Real da História, e escritor distinto. Compôs, além de várias 
memórias avulso, dois livros: Poematum libei' primas, & Epigrammatum 
centúria prima, impresso em Lisboa em 1722 e na Haia no ano seguinte; 
e a Historia da Academia Real da Historia Portuguesa, da qual se imprimiu 
em separado o tom. I, em 1727. Morreu o Marquês a 8 de Janeiro de 1736 (1), 
havendo casado com D. Eugênia de Lorena, filha dos r. os Duques de Cadaval 
de quem teve, alem das Condessas de Tarouca e Óbidos e das Marquesa 
de Valença e de Angeja, a Fernão Teles- da Silva, 4. marquês de Alegrete, 
e a Nuno da Silva Teles, 4. marquês de Nisa pelo seu casamento. 

Havia Nuno sido destinado para a vida eclesiástica e já era tesoureiro 
mor da Sé de Lamego, quando abandonou a carreira para casar, em 1729, 
com D. Maria José da Gama, filha herdeira do 3.° Marquês de Nisa, e dei 
foi o primeiro marido, conforme já está dito. Dêste consórcio, dissolvido e 
1739 pela morte do Marquês, nasceram muitos filhos; todos porém morreram 
antes dos trinta anos, e com descendência só a condessa de Aveiras, D. Bár- 
bara José da Gama, mulher do que foi depois i.° Marquês de Vagos. Um 
dos irmãos da Condessa, D. Vasco José da Gama, chegou a suceder na casa 
e a ser o 5.° marquês de Nisa, como já lá acima também ficou dito. 

Fernão Teles da Silva, 4. marquês de Alegrete (2), 5.° conde de Vilar 
Maior (3), gentil homem da real câmara, antigo presidente do Senado da 
Câmara de Lisboa, faleceu, com cinquenta e cinco anos, a 2 de Setembro 
de 1759(4), havendo casado, a i3 de Junho de 1722, com sua prima com 
irmã e tia, D. Maria de Meneses, filha dos 4. 0S condes de Tarouca, João 
Gomes da Silva e D. Joana Rosa de Meneses. A Condessa de Vilar Maior 
morreu na noite de 4 para 5 de Novembro de 1727(5), deixando um único 
filho varão. Chamou-se êle Manuel Teles da Silva e nasceu a 3 de Feve- 
reiro de 1727. 

Casou Manuel Teles da Silva a primeira vez, a 12 de Agosto de 1744, 
com sua prima com irmã D. Francisca de Assis Mascarenhas, filha do pri- 



herdeiro de sua casa, Manuel Teles da Silva, filho primogénito do conde de Vilar Maior 
Fernão Teles da Silva, me saberá merecer e servir toda a honra e mercê que lhe fizer, &c. 
Carta de conde de Vilar Maior para o dito seu neto, Manuel Teles da Silva, que, com 
licença e permissão minha, se acha contratado para haver de casar com D. Eugênia de Lorena, 
filha do Duque de Cadaval, &c. — Chancelaria de D. Pedro 11, liv. 24. de Doações, fl. 3i3. 

(1) Gaveta de Lisboa de 16 de Fevereiro. 

(2) Em sua vida, por carta de 5 de Março de IJ36. — Ofícios e mercês de D. João V, 

liv. 92. , fl. 40 v. 

(3) Em sua vida, por carta de 6 de Julho de 1722. — Ibidem, liv. 6o.°, fl. 171 v. 

(4) Gaveta de Lisboa de 20 de Setembro. 

(5) Gaveta de i3 de Novembro. 



\ 



Silvas 



1 1 5 



meiro casamento de D. Manuel de Assis Mascarenhas, 3.° conde de Óbidos. 
Celebrou-se o consórcio na quinta da Bugalheira, termo de Torres Vedras, 
e na mesma ocasião também casou o Conde de Óbidos com D. Helena Josefa 
de Meneses, irmã de seu novo genro, e partiram os dois pares de noivos, 
uns para Óbidos, outros para a quinta das Lapas (i). D. Francisca morreu 
a 20 de Janeiro de 1746, sobrevivendo-lhe sua única filha, D. Helena Teles 
da Silva, que morreu solteira a 7 de Agosto de 1761 (2). Tornou Manuel 
Teles a casar, a i5 de Fevereiro de 1748, com sua prima D. Eugenia Mariana 
Josefa Joaquina de Meneses Caminha, filha herdeira de D. Estêvão José de 
Meneses, 5.° conde de Tarouca (3) e futuro i.° marquês de Penalva. Já então 
aparece na Gaveta Manuel Teles da Silva antecipadamente intitulado 6.° conde 
de Vilar Maior; mas a verdade é ter-lhe sido o título só dado por despacho 
de 3 de Setembro de 1760 (4). 

D. Estêvão José de Meneses, i.° marquês de Penalva, a quem lá adiante 
me tornarei a referir por ter a varonia de Silva, faleceu a 7 de Novembro 
de 1768 (5) e Fernão Teles da Silva, 4. marquês de Alegrete, veio a morrer 
a 2 de Setembro do ano seguinte (6); ficou por tanto, desde então, o Conde 
de Vilar Maior desfrutando as duas casas, a de seu pai e a de seu sogro; 
não sucedeu porém no título àquele, mas sim a êste. Conta-se que D. João V 
concedera licença para o casamento do herdeiro de Alegrete com a herdeira 
de Penalva, com a condição do noivo vir a usar do título da futura mulher, 
e não do seu, e do título de marquês de Alegrete só ser usado pelo filho pri- 
mogénito em quanto não sucedesse na casa. E possível haver-se o caso pas- 
sado assim, mas notarei que o casamento foi celebrado em 1748 e o marque- 
sado de Penalva só data de 1750. Não obstante alguma coisa naquele sentido 
se passaria, porque o Conde de Vilar Maior veio a ser criado marquês de 
Penalva, por carta de 21 de Março de 1769 (7), passando-se no mesmo dia e em 



(1) Gaveta de Lisboa de 25 de Agosto. 

(2) Gajetas de Lisboa, respectivamente, de 25 de Janeiro de 1746 e 18 de Agosto de 
1761. 

(3) Gaveta de 20 de Fevereiro. 

(4) Gaveta de 8. 

(5) Ga % et a de 16. 

(6) Gaveta de 20. 

(7) Tendo consideração ao que representou o conde de Vilar Maior, Manuel Teles da 
Silva, e em remuneração dos serviços de seu pai o marquês de Alegrete, Fernando Teles da 
Silva, e dos seus obrados até 21 de Março do presente ano.. . Carta do título de marquês 
de Penalva, de juro e herdade para sempre e em cumprimento da primeira das duas vidas 
fora da Lei Mental, que foram concedidas ao conde de Tarouca, D. Estêvão José de Meneses, 
seu sogro, por portaria de 17 de Fevereiro de 1750, etc. — Mercês de D. José I, liv. 22. , 
fl. 260. — Foi confirmada esta carta por outra de 1 1 de Julho de 1771 — Ibidem, liv. 24. °, fl. 86. 



1 1 6 Brasões 

seguida outra pela qual foi concedido o título de conde de Tarouca a seu 
filho primogénito Fernando Teles da Silva e Meneses (i). O Marquês de 
Penalva exerceu o cargo de capitão de uma das companhias da guarda real 
portuguesa durante a menoridade do Conde de Pombeiro, por despacho de 
Novembro de 1750(2); e, quando morreu, a 25 de Fevereiro de 1789, cinco 
meses depois da Marquesa (3), servia de gentil homem da câmara de D. Maria I, 
de presidente da Junta do Tabaco e de deputado da Junta dos Três Estados (4). 
O Marquês de Penalva também se dedicou às letras, imitando alguns dos 
seus maiores, e frequentou as academias, tendo sido académico da Academia 
Real da História, fundador e secretário da Academia dos Ocultos e sócio da 
Academia Real das Sciências de Lisboa (5). Publicou um folheto intitulado 
Elogio fúnebre do Padre D. José Barbosa Clérigo Regular. Chronisía da 
Sereníssima Casa de Bragança, Académico, e Censor da Academia Real 
da História Portuguesa. Recitado na mesma Academia em i3 de Agosto 
de iy5i. pelo IlL mu e Ex. mo Conde de Villar-Mayor Manoel Telles da Silva 
do Conselho de S. Magestade, e .académico do Numero da dita Academia. 
Lisboa: Na Officina de Ignacio Rodrigues. Anno MDCCLI. E maior o 
título, do que a obra, pois esta apenas consta de 21 págs. em tipo grande e 
entrelinhado, e na verdade pouco merecimento tem, apesar dós encomiásticos 
dizeres dos censores. Um dêles declara que a erudição do autor «he taõ 
sublime, que parece recebeo de Deos aquellas graças de que falia o Sabio»; 
outro afirma só isto: «o Padre D. Jozé Barbosa teve por Panegyrista das suas 
acçoens, e das suas virtudes, o Homero dos Oradores Lusitanos». ; Nem 
menos ! Para admirar é que, isto dito a um rapaz de vinte e quatro anos, o não 
estimulasse a continuar, mas êle teve o bom censo de ficar por ali. ; Tam 
bêm, depois de Homero na prosa, só se viesse a ser Quintiliano na poesia! 

Fernando Teles da Silva e Meneses, filho primogénito dos 2. 0S Marqueses 
de Penalva foi 6.° conde de Tarouca (6), pela já lá acima apontada carta de 



(1) Tendo consideração ao que me representou o conde de Vilar Maior, Manuel Teles 
da Silva, e a outros particulares motivos. . . hei por bem fazer mercê a seu filho primogé- 
nito, Fernão Teles da Silva e Meneses, do título de conde de Tarouca de juro e herdade 
para sempre, em cumprimento da primeira das duas vidas fora da Lei Mental, que foiam 
concedidas ao conde de Tarouca, D. Estêvão José de Meneses, seu avô, por portaria de 17 
de Fevereiro de 1750... Carta de conde de Tarouca passada em 21 de Março de 1769. — 
Mercês de D. José I, lrv. 22. , fl. 265. 

(2) Gaveta de 10 de Novembro. 

(3) Ela falecera a i3 de Outubro de 1788. — Gaveta de 24. 

(4) Gaveta de Lisboa de 28 de Fevereiro de 1789. 

(5) Inocêncio Francisco da Silva, Diccionario bibliographico, VI, 118. 

(6) Nas Resenhas vem contado como 7. conde ; é porem êrro, pois que seu pai nunca 
foi conde de Tarouca. 



Silvas 



117 



21 de Março de 1769, 3.° marquês de Penalva de juro e herdade, por carta 
de 24 de Dezembro de 1785(1), senhor donatário das vilas de Alegrete e 
Tarouca, dos concelhos de Penalva e outros, gentil homem da real câ- 
mara (2), censor régio da Mesa do Desembargo do Paço. Faleceu a 10 de 
Dezembro de 1818 (3), tendo nascido a 9 de Junho de 1754(4). Também foi 
escritor e as suas obras impressas encontram-se mencionadas no Diccionavio 
bibliographico (5); ressentem-se elas do estado de espírito do Marquês obce- 
cado de preconceitos nobiliárquicos. Casou por duas vezes: a primeira, a 2 de 
Fevereiro de 1767, com D. Maria Rosa de Almeida, filha dos 2. 03 Marqueses 
do Lavradio, falecida a i5 de Agosto de 1783; a 2.% a 4 de Outubro de 
1789, com sua cunhada D. Joana de Almeida, que faleceu a 20 de Fevereiro 
de 1811(6). Dos dois casamentos nasceram vários filhos; referir-me-hei 
porém apenas aos primogénitos de cada um deles: Luís, do primeiro; António, 
do segundo, e começarei por este. 

António Teles da Silva Caminha de Meneses nasceu em Torres Vedras 
a 22 de Setembro de 1790, passou ao Brasil em 1807 com a família real e 
foi nomeado camarista em 12 de Outubro de 181 7; regressou a Portugal em 
1821 com D. João VI; não quis porém jurar as bases da Constituição de 1822 
e tornou para o Brasil, em Maio do mesmo ano, a servir de camarista ao 
príncipe real D. Pedro. Proclamada a independência do Brasil, afastou-se 
do paço por ser contrário à separação daquele estado; era-lhe porém D. Pedro 
muito dedicado e, para o tirar da falsa posição assumida, enviou-o sem carácter 
oficial a Viena de Áustria, para onde partiu a 21 de Junho de 1823 (7). Em 
1825, reconhecida por D. João VI a independência do Brasil e a soberania 
de seu filho naquele estado, o novo Imperador, não só nomeou oficialmente 
seu ministro em Viena a António Teles da Silva, como o agraciou, por carta 
de 12 de Outubro do referido ano, com o título de visconde de Rèsende (110 
Brasil) e o elevou no ano seguinte a marquês (8). Ainda no Pôrto, por decreto 
de 4 de Abril de i833, concedeu-lhe o Duque de Bragança, em termos muito 
honrosos, a grã-cruz da Tôrre e Espada (9). Veio depois o Marquês de Rè- 

(1) Chancelaria de D. Maria I, liv. 25.°, fl. 178. 

(2) Por aviso de 21 de Setembro de i8o3. — Gaveta de 3o. 

(3) Gaveta de Lisboa de 19. 

(4) João Carlos Feo, Resenha das famílias titulares, pág. 154. Nos Almanachs de Lisboa 
vem a data do nascimento marcada a 7. 

(5) Vol. II, pág. 279; vol. IX, pág. 219. 

(6) Estas datas são da cit. Resenha. 

(7) Marquês de Rèsende, Elogio histórico do Senhor Rei D. Pedro IV, pág. 190. 

(8) Estas datas encontro em apontamentos meus, sem indicação da fonte, e por isso 
não me atrevo a garanti-las. 

(9) Chronica Constitucional do Porto de 12 de Abril de 1 833. 



1 1 8 



Brasões 



sende para Portugal e aqui, em Lisboa, servindo de mordomo mor da impe- 
ratriz viúva D. Amélia, faleceu a 8 de Abril de 1873. Escritor erudito, sócio 
correspondente da Academia Real das Sciências de Lisboa, compôs o Mar- 
quês várias obras mencionadas no Diccionario bibliographico brasileiro de 
Sacramento Blake. 

Luís Teles da Silva Caminha e Meneses, filho primogénito do primeiro 
casamento do 3.° Marquês de Penalva, nasceu a 27 de Abril de 1775, foi 7. 
conde de Tarouca, 5.° marquês de Alegrete, em vida de seu pai, por carta 
de 14 de Abril de 1795(1), e faleceu a 21 de Janeiro de 1828, sendo então 
par do reino, tenente general, conselheiro de Guerra, gentil homem da real 
câmara, grã-cruz da Tôrre e Espada (2). Casara a primeira vez, a 10 de 
Fevereiro de 1793, com D. Francisca de Noronha, irmã do 5.° e do 6.° Mar- 
quês de Angeja e dela tivera única a D. Francisca Xavier Teles da Silva, 
de quem logo me ocuparei; casou a segunda vez no Rio de Janeiro, a 1 de 
Outubro de 1808, com sua prima com irmã D. Margarida de Almeida, filha 
dos 3. 0S Marqueses do Lavradio, a qual lhe sobreviveu, tendo dêle tido três 
filhos adiante nomeados. 

D. Francisca Xavier Teles da Silva nasceu a 3 de Dezembro de 1793, 
serviu de dama no paço e casou a 16 de Julho de 1823 com o Marquês de 
Chaves. D. Francisca foi a célebre Marquesa de Chaves; célebre pela feal- 
dade, pela dedicação à causa de D. Miguel e pelo escandaloso processo inten- 
tado contra o segundo marido. O primeiro chamou-se Manuel da Silveira 
Pinto da Fonseca, nasceu a 3 de Janeiro de 1782, era o 2. conde de Ama- 
rante, por carta de 23 de Maio de 1822, marquês de Chaves em três vidas, 
por decreto de 3 de Julho e carta de 26 de Novembro de 1823, filho de Fran- 
cisco da Silveira Pinto da Fonseca, i.° conde de Amarante (carta de i3 de 
Maio de 181 1), tenente general do exército. Serviu o general Marquês de 
Chaves com entusiasmo a causa de D. Miguel e morreu a 7 de Março de i83o, 
pouco antes dela se perder. Sua viúva veio a herdar em 1 833, por morte 
de sua prima D. Maria do Carmo de Noronha, 7- a marquesa de Angeja, fale- 
cida a i5 de Julho, a casa de Angeja e passou a chamar-se D. Francisca Xa- 
vier Teles da Silva de Noronha Camões Albuquerque Moniz e Sousa. No 
ano seguinte tornou a Marquesa de Chaves a casar, com a preocupação de 
alcançar sucessor para a casa de Angeja, mas não podia ser mais infeliz na 
escolha do noivo. Era êle D. João Manuel de Vilhena e Saldanha, filho 
segundo dos Condes de Alpedrinha, senhores de Pancas. Realizara-se o 
casamento a 20 de Agosto, mas nunca se consumou e oito dias depois estavam 



( 1 ) Chancelaria de D. Maria I, liv. 3 1 fl. 246 v. 

(2) Gaveta de Lisboa de 24 de Janeiro de 1828. 



Silvas 



119 



separados de facto, posto que cohabitando ainda no domicílio conjugal, o qual 
D. João dentro em pouco abandonou. Proposta acção de separação teve final- 
mente a Marquesa sentença favorável, no Supremo Tribunal de Justiça, a i5 
de Novembro de i83o,(i). Ainda viveu mais alguns anos e veio a morrer 
apenas com cinquenta a 3i de Julho de 184b, passando por sua morte a casa 
de Angeja a D. Caetano Gaspar de Almeida Noronha Portugal Camões Al- 
buquerque Moniz de Sousa, 3.° conde de Peniche, bem conhecido agitador 
político, a quem foi dado o título de marquês de Angeja, em duas vidas, por 
decreto de 24 de Maio de 1870, em seguida à revolta de 19 do dito mês pro- 
vocada pelo Marechal Saldanha coadjuvado pelo Conde de Peniche e seus 
partidários, os chamados Penicheiros. No ministério então organizado por 
Saldanha ocupou o Marquês de Angeja a pasta das Obras Públicas durante 
dois meses. Era par do reino por sucessão e morreu a 1 de Julho de 1881, 
sucedendo-lhe no título seu filho primogénito, que foi o 9. e último Marquês 
de Angeja. 

Os três filhos do segundo casamento do 5.° Marquês de Alegrete foram: 
Fernando Teles da Silva Caminha e Meneses, 8.° conde de Tarouca, fale- 
cido em Fevereiro de 18 12, com menos de quinze meses; outro Fernando 
Teles da Silva Caminha e Meneses, adiante; e D. Ana Teles da Silva, mulher 
de António de Albuquerque do Amaral Cardoso, senhor da casa do Arco em 
Viseu, falecido com geração em 1859. 

O segundo Fernando Teles da Silva Caminha e Meneses nasceu a 26 de 
Novembro de i8i3, foi q.° conde de Tarouca, 4. marquês de Penalva por 
decreto de 25 de Julho de 1824 e carta de 7 de Julho de i83o(2), par do 
reino em 3o de Abril de 1826, com treze anos ! mas nunca tomou posse, nem 
reconheceu o govêrno constitucional. Casou, a i5 de Novembro de 1834, 
com D. Eugênia de Aguilar de Almeida Monroi da Gama e Meneses, 12. a se- 
nhora da casa da Cavalaria, que lhe sobreviveu alguns anos. O último Mar- 
quês de Penalva morreu na sua quinta das Lapas a 8 de Setembro de 1893, 
deixando por sucessora sua neta a senhora D. Eugênia Teles da Silva Ca- 
minha e Meneses, 10. a condessa de Tarouca, mulher de Sebastião Pereira 
da Silva de Sousa e Meneses, conde de Tarouca, em. 2G de Maio de 1886, 
antigo oficial mor honorário da casa real, par do reino e oficial do exército, 
filho segundo dos 2. 0S Condes de Bertiandos. Dos últimos Condes de Tarouca 
foi filho o 6.° Marquês de Alegrete, já falecido, deixando descendência. 

As armas dos Marqueses de Alegrete eram as dos Teles da Silva, já por 

( 1 ) Alberto Pimentel. Sangue aqui, pág. 299. 

(2) Clemente José dos Santos, Documentos para a historia das Cortes Geraes da nação 
portuguesa, I, 936. 



I20 



Brasões 



várias vezes descritas; as armas dos Marqueses de Penalva eram as dos Me- 
neses de Tarouca, já no precedente volume declaradas. As armas das duas 
casas depois de reunidas ficaram assim compostas: cortado de um, partido 
de dois traços, que faz seis quartéis: o I, III e V de oiro, dois lobos passantes 
sotopostos de púrpura, armados e linguados de vermelho (\ T ilalobos); o II, 
IV e VI de oiro, quatro palas de vermelho (Lima); sobre o todo esquarte- 
lado: o I e IV de oiro liso (Teles), o II e III de prata, Hão de púrpura, 
armado e linguado de vermelho (Silva); sobre o todo do todo, de oiro liso 
(Meneses). Coroa de Marquês. Timbre: um dos lobos. 

; Já não posso mais com isto ! e vou contar uma história. Quando falei 
no Marquês de Ponte de Lima já a pena me ia escorregando para a anécdota, 
mas resisti; agora cedo ao desejo de interromper por um bocado esta fasti- 
diosa parlanda. 

O leitor não põe na sua idea o impertinente e secantíssimo trabalho, que, 
apesar de bem imperfeito, me tem dado a arrotea dêste campo de emara- 
nhadas silvas; não calcula, não. Há bons vinte dias (em 1^99) que não 
faço outra coisa, e quanto mais silvas desbravo, mais silvas me picam; 
safa ! já não posso mais. 

Vou-me à minha história, que não é um conto, apesar de que, como Garrett, 

Eu por mim gosto de contos. 

Diga o mundo o que quiser; , 

mas não é conto, nem também é história; é uma anécdota autêntica. 

O último Marquês de Penalva, 1 quem o não conheceu ? tinha todo o 
aspecto de um velho fidalgo. Porte distinto, maneiras delicadas, instrução 
proverbial na casa de Alegrete, e até, para a figura ser completa, uns certos 
preconceitos, caturrices lhe chamarei sem nenhuma intenção desrespeitosa. 
A isto acrescia um merecido desvanecimento na própria prosápia, um per- 
feito desdém pela nobreza de fresca data, e muito apêgo às velhas tradições 
de fidalguia na lata expressão da palavra: no sangue, e nas obras. Apesar 
de miguelista, achava, como todas as pessoas sensatas, não só irrisório, mas 
mesmo deprimente para a monarquia e até para o país, este enchurro de 
títulos, condecorações e distinções de toda a espécie, que por aí vai alas- 
trando já há muito, prometendo submergir tudo no mais completo ridículo. 
Ora junte-se a este modo de pensar do Marquês, o seu génio disfrutador e 
a sua natural viveza de espírito, e poder-se-há formar uma idea da multidão 
de ditos picantes e engraçados, que as tam repetidas ocasiões lhe proporcio- 
naram. Contam-se êles aos centos. 

Uma vez em sua casa um estrangeiro, casado com uma senhora portu- 



Silvas 



12 1 



guesa, encontra sôbre o bufete o único volume das Memórias dos grandes; 
folheia-o e, admirado de não dar ali com a menção da família do sogro, a 
qual em casa lhe diziam ser das primeiras do reino, pregunta a razão ao 
Marquês, que em continente lhe responde: 

— E porque vem no segundo volume. 

Outra vez...; mas deixemo-nos de mais anécdotas, e vamos à minha 
história. 

Morava o Marquês de Penalva no largo de Santos, numa bela casa de 
aspecto seiscentista, que torneja para a rua de S. João da Mata, arrumando-se 
do outro lado aos Marianos; casa que é, segundo creio, da senhora Condessa 
de Murça. Morava lá então o Marquês, mas não foi aí que morreu; e muito 
longe de pensar na morte, apesar de ser bem religioso, estaria êle nessa 
bela manhã de um dia sereno, que convidava a passear. Tinha acabado de 
almoçar, um bocado de exercício sôbre a comida é higiénico, resolveu dar 
uma volta. 

Meteu-se no quarto de vestir, compôs a íoiletíe, lavou a bôca e as mãos, 
pensando em ser o aceio uma caridade para com o próximo; depois deitou 
um olhar pouco demorado ao espelho, e dirigiu-se para a sala. 

Despediu-se da senhora Marquesa e dos netos, pôs o chapéu na cabeça e 
desceu a escada, irresoluto na direcção a dar à passeata. Ainda bem longe 
de decidido, chegou à porta na ocasião em que, puchado por muitas mulas, 
começava um americano a subir vagarosamente a rampa de Santos. 

Saiu o Marquês para a rua. Foi logo muito cumprimentado pelos co- 
cheiros e moços do Pingalho, que no fronteiro pátio do Visconde de Asseca 
tinha carruagens de aluguer. Correspondeu civilmente à cortesia e, tomando à 
esquerda, dirigiu-se para o Aterro, pensando que ainda havia gente bem criada 
e que o dia realmente estava muito ameno. Avista o americano; veio-lhe 
logo à idea um passeio de carro. Era barato, e não fazia frio mesmo nenhum. 

,;Para onde irá êle?... Ah! lá parou... jOlha! vai para Belém... 
Apeiam-se umas senhoras; tenho lugar. 

— Pst, pst, espere lá sr. cocheiro. 

Entrou o Marquês e sentou-se, tendo muitas atenções com os vezinhos 
para não os incomodar. Com um dêles, cuja cara lhe não era totalmente 
estranha, armou conversação; e por ali fora foi passando por Alcântara, 
depois pela Junqueira, onde de soslaio olhou para a porta do forte, lá no 
fundo a um canto debaixo de árvores, recordando-se dela se ter aberto para 
dar um demorado cativeiro a alguns parentes seus. Desviou a vista para 
os arvoredos da quinta das Águias e já farto do companheiro, que não dava 
para muito, ao cabo de uma boa meia hora de caminho apeou-se, um bocado 
mais adiante, no princípio da praça de D. Fernando. 

VOL. u 16 



I 22 



Brasões 



Pôs-se a atravessar a praça, olhando para o mar, fitando o cais, que nova- 
mente lhe trouxe à lembrança lúgubres ideas e lhe fez volver a vista para o 
portão do pátio dos Bichos, pensando que por ali haviam saído os condenados 
para o cadafalso. Tratou porém de arredar de vez as recordações tristonhas 
e seguiu direito aos Jerónimos, reparando muito nas pessoas que passavam, 
nas que estavam, nas carruagens, nos americanos, nas casas, nos mostradores, 
em tudo. Dá então com os olhos numa formosa loja à direita; estranhou-a, 
pareceu-lhe haver novidade por ali e curioso entrou. 

Achou-se dentro de uma botica, perdão, de uma farmácia, assoalhada de 
mármores, forrada de armários de preciosas e bem envernizadas madeiras, 
fechados com portas do mais transparente vidro, atravez do qual se viam 
drogas de todas as qualidades e cores, simetricamente dispostas em grandes 
boiões de cristal. Levantou os olhos e reparou no tecto, abaulando ao peso 
dos mais complicados e lavrados estuques; alongou a vista e divisou outra 
sala, chamemos-lhe assim, igual a esta e a ela ligada por um majestoso 
arco... Sentiu-se compenetrado: o reluzente balcão pareceu-lhe um altar; 
os majestosos farmacopolas os sacerdotes de uma divindade qualquer, Mer- 
cúrio talvez; e pé ante pé, subtil, reverente, chega-se àquele dos fâmulos, 
que menos lhe impunha, e ao ouvido, quase imperceptivelmente, pregunta-lhe 
de quem era o templo. Entendida a resposta, diz então o Marquês, em voz 
alta e sorrindo: 

— j Ah ! . . . j Bem se vê que é a botica de um conde (i) ! 

E saiu o Marquês, e acabou-se a minha história, e tenho de voltar atrás 
a encadear o meu aranzel em João Gomes da Silva, filho segundo do i.° Mar- 
quês de Alegrete. 

João Gomes da Silva nasceu em 167 1 e já estava casado em princípios 
de 1688 com D. Joana Rosa de Meneses, filha herdeira de D. Estêvão de Me- 
neses, senhor da casa de Tarouca (2), filho segundo do 3.° conde de Tarouca, 
D. Duarte de Meneses, que depois da aclamação de D. João IV, renegando 

(1) Pedro Augusto Franco, bem conhecido farmacêutico de Belém, foi feito conde de 
Restelo em 17 de Fevereiro de 1887. Era êle cidadão prestante, negociante acreditado, não 
havia dúvida; mas os seus serviços ao país não pareciam tam extraordinários que merecessem 
aquela distinção, outrora bem luzente. A ironia inofensiva do Marquês de Penalva só neste 
ponto tocava. 

(2) Havendo sido julgada a D. Estêvão de Meneses a sucessão nos bens da Coroa outrora 
possuídos por seu pai, foram-lhe eles confirmados por carta de 3o de Julho de 1672; neles 
se compreendia a vila de Tarouca, com os concelhos de Penalva, Gulfar, Lalim e a honra 
de Lasarim, com as jurisdições e o padroado da igreja de Penalva, tudo de juro e herdade 
na forma da Lei Mental, na primeira das duas vidas que tinha fora dela. — Chancelaria de 
D. Afonso VI, liv. i6. e de Doações, f\. 236 v. 



Silvas 



123 



a sua pátria se passara para Castela com seus filhos e lá lhe deram o vão 
título de marquês de Penalva. Era D. Estêvão criança ainda, mas, logo 
que pôde, com espírito de verdadeiro Português, passou da Galiza para Por- 
tugal em 1664, no mais aceso da guerra, para cumplir con la devida obli- 
gacion de buscai' el servido de su legitimo Rey y Seiíor. São palavras 
suas no título de um folheto justificativo do seu procedimento mandado por 
ele imprimir em Lisboa no ano de i663 (1). A sua lialdade é reconhecida 
na carta de i5 de Fevereiro de i683 do título de conde de Tarouca a seu 
genro João Gomes da Silva (2). Já então estava D. Estêvão sepultado na 
capela mor da igreja da Trindade de Santarém, desde 20 de Novembro de 
1677. 

O título de conde de Tarouca havia sido concedido por D. Manuel ao seu 
mordomo mor D. João de Meneses, por carta de 24 de Abril de 1499(3). 
Morreu o i.° Conde de Tarouca em 1622 e o título não se repetiu em seu 
filho D. Duarte de Meneses, que da índia, onde fôra governador, voltou preso 
em 1624 em virtude das exacções e roubos lá por êle praticados. Seu neto 
porém, outro D. Duarte de Meneses, foi enviado á índia por vice rei em 
1684 e pelo seu procedimento apagou em parte a recordação dos desmandos 
de seu avô. Ao elegê-lo por vice rei, íez-lhe Felipe I muitas mercês e entre 
elas a de conde de Tarouca, a qual não aceitou por lhe não ser o título dado 
de juro e herdade (4). Partiu D. Duarte para a índia em 1 584 e lá morreu 
em 1 588, deixando por sucessor na casa a seu filho D. Luís de Meneses. 
Foi êste o 2. conde de Tarouca por carta de 4 de Novembro de 1692 (5), 



(1) Barbosa Machado, Biblioteca lusitana, I, 757. 

(2) Em consideração da fidelidade que D. Estêvão de Meneses mostrou em vir buscar 
a sua pátria, fazendo-se por esta aução verdadeiro neto de seus avós, e continuar em quanto 
viveu com as demonstrações de afecto e de bom vassalo, e havendo a tudo consideração, e 
em especial ao Marquês de Alegrete, do meu conselho de Estado, gentil homem da minha 
câmara e vedor da fazenda, me fazer presente casar seu filho João Gomes da Silva com 
D. Joana Rosa de Meneses, filha herdeira do dito D. Estêvão de Meneses, e por fazer mercê 
ao Marquês, havendo a tudo consideração, e ao dito João Gomes da Silva estar casado com 
a dita D. Joana, e confiar dele, etc. Carta do título de conde de Tarouca em sua vida. — 
Chancelaria de D. Pedro II, liv. 34. de Doações, fl. 23 v. Advertirei que na carta do assen- 
tamento, passada a 17 de Maio de 1689, se lhe manda pagar desde 20 de Fevereiro em diante, 
data da carta de mercê, e não de 28, como se lê no precedente registo. 

(3) Chancelaria de D. Manuel, liv. 41. °, fl. q3. 

(4) Diogo do Couto, Da Asia, déc. X, liv. 6.°, cap. i.°. 

(5) Havendo respeito aos muitos serviços e merecimentos de D. Duarte de Meneses,, que 
Deus perdoi, que foi meu viso rei no estado da índia, onde faleceu no dito cargo, tendo-me 
nele muito bem servido, sem nêle haver efeito a mercê que lhe tinha feito do título de conde, 
e a D. Luís de Meneses seu filho maior, herdeiro de sua casa, que nêle o sobcedeu, casar 
ora com minha licença com D. Joana Henriques, filha de Sebastião de Sá, por cujos muitos 



Brasões 



sendo já então casado com D. Joana Henriques, filha de Sebastião de Sá de 
Meneses, o Sapeca (i), valente soldado e capitão na índia, onde se distinguiu 
no cerco de Diu e, tornando ao reino, acompanhou D. Sebastião a África e 
lá morreu com êle na batalha. Era irmão do Conde de Matosinhos e foi pai 
do i.° Conde de Penaguião. E a propósito destes dois títulos abrirei aqui 
um curto parêntese. 

João Rodrigues de Sá, III do nome, poeta afamado do Cancioneiro 
geral, a quem também deram o nome de João Rodrigues de Sá de Meneses, 
morreu centenário em 1^79, antes de 2 de Setembro (2), tendo sobrevivido 
a seu filho primogénito pelo que lhe sucedeu na casa o mais velho dos filhos 
ao tempo da sua morte vivos, Francisco de Sá de Meneses. Era êle já então 
do conselho de Estado e camareiro mor do Cardial Rei (3), que lhe foi muito 
dedicado. Antes havia sido camareiro mor do príncipe D. João, falecido 
em 1554(4), c um dos governadores do reino durante a ausência de D. Se- 
bastião em Africa, em 1078. Nomeado pelo Cardial Rei um dos cinco gover- 
nadores do reino por sua morte, sucedida a 3i de Janeiro de i58o, manifes- 
tou-se resolutamente decidido, na questão da sucessão da coroa, a favor de 
Felipe II de Espanha (5), que logo, na sua entrada em Portugal, confirmou 
a Francisco de Sá o ofício de camareiro mor e lhe concedeu o título de conde de 
Matosinhos (6). Não está registada a carta da mercê; mas, de um alvará de 
21 de Abril de i58i, passado em Tomar depois das Cortes abertas, consta 



serviços e merecimentos ela tem uma promessa de ajuda e mercê para seu casamento do 
senhor rei D. Henrique, e a eu ter o contentamento que é razão deste casamento, tam con- 
veniente a ambas as partes, e tendo outrossim memória dos muitos merecimentos e serviços 
daqueles de quem descende por linha direita masculina o dito D. Luís de Meneses, etc. 
Carta do título de conde da sua vila de Tarouca, como o foi o Conde de Tarouca seu tre- 
savô, prior do Crato e mordomo mor dei rei D. Manuel . . . — Chancelaria de Felipe I, liv. 28. , 
fl. 98. 

(1) «a quem os soldados na índia chamavam o Çapeca (que he hua moeda a mais pe- 
quena que ha em Goa) por ser elle muito pequeno, mas grande no animo, e no conselho». 
— Diogo do Couto, Da Asia, dec. VI, liv. cap. 5.°. 

(2) Data de uma carta de padrão passada a seu filho Francisco de Sá de Meneses, do 
conselho de Estado e camareiro mor, de 3o.ooo rs. de tença vaga por falecimento de seu pai 
João Rodrigues de Sá, para começar a receber do i.° de Janeiro de i58o em diante. — Chan- 
celaria de D. Sebastião e D. Henrique, liv. 43. de Doações, fl. 237 v. 

(3) Nomeado por carta de 9 de Outubro de 1578. — Ibidem, fl. 109 v. 

(4) António Ferreira, Poemas lusitanos, fl. 47. «Elegia I. A Francisco de Sá de Meneses 
na morte do príncipe D. João, a quem seruio de ayo, & Camareiro mor». 

(5) Don Alfonso Danvila y Burguero, Don Cristobal de Moura, pág. 553. 

(6) António de Herrera, Cinco libros de la Historia de Portugal y conquista de las Islas 
de los Açores en los anos de 1882 y i583, fl. 1 3g t. ; Don Cristobal de Moura cit., pág. 67 3. 



Silvas 125 

t 

ser já então Francisco de Sá conde de Matosinhos (i). Pouco tempo gozou 
Francisco de Sá do condado, porque a 6 de Dezembro do ano seguinte 
morreu, como consta da carta do assentamento de conde de Penaguião, a seu 
sobrinho João Rodrigues de Sá (2). Deixou viúva a sua segunda mulher 
D. Caterina de Noronha, condessa de Matosinhos no século (3), e sóror Cate- 
rina de Jesus na clausura; mas nem dela, nem de sua primeira consorte, teve 
filhos. Foi Francisco de Sá de Meneses poeta lírico e sob este aspecto dele 
deram ultimamente notícia a senhora D. Carolina Michaèlis de Vasconcelos 
nas Poesias de Francisco de Sá de Miranda, págs. 749 e -jbo; e o dr. Teófilo 
Braga na Historia da litter atura portuguesa, vol. II, págs. 3Õ4 a 368. 

Na casa do Conde de Matosinhos sucedeu seu sobrinho João Rodrigues 
de Sá, filho do acima nomeado Sebastião de Sá de Meneses, o Sapeca. Foi 
João Rodrigues o i.° conde de Penaguião, em sua vida, por carta de 1 de 
Setembro de i588(4). Por aqui fecharei o parêntese acima aberto e tornarei 

(1) Chancelaria de D. Sebastião e D. Henrique, liv. i3.° de Privilégios, fl. i56. — Albano 
da Silveira Pinto na Resenha das famílias titulares, vol. I, pág. 4, atribui erradamente a 
criação do condado de Matosinhos ao Cardial Rei, alegando uma carta de 5 de Junho de 
1 5jo registada, afirma, na Chancelaria de D. Henrique, liv. 48. °, fl. 109, e nos Privilégios de 
D. Sebastião e D. Henrique, liv. i3.°, fl. 1 56. Sucede porem que no primeiro lugar citado 
se encontra registada a carta de 9 de Outubro de 1578 de nomeação de camareiro mor, já 
lá acima alegada, e no segundo está o alvará, aqui apontado, de 21 de Abril de i58i. Em 
parte nenhuma se encontra, nem se pode encontrar, porque nunca existiu, a tal carta de 5 
de Junho de 1579 de mercê do título de conde de Matosinhos. 

(2) D. João Rodrigues de Sá, conde de Penaguião, meu camareiro mor, tenha e haja 
do i.° de Janeiro de 1 591 em diante 102.864 rs - em cada ano do seu assentamento de conde, 
etc. E porque eu houve por bem fazer mercê ao dito Conde, que ele começasse a haver e 
lhe fósse pago o dito assentamento des o dia do falecimento do conde de Matosinhos 
D. Francisco de Sá, seu tio, em diante, que foi a 6 de Dezembro de Ó82, como vi por um 
assinado de Miguel de Moura, do meu conselho do Estado e meu escrivão da puridade, posto 
que a carta do seu título foi feita ao i.° de Setembro de 1 588, lhe mandou despachar por 
um alvará os 829.752 rs., que lhe montavam haver de G de Dezembro de ^82, até fim de De- 
zembro deste ano de 590, etc. Lisboa, 7 de Dezembro de i58o, aliás 1590. — Chancelaria de 
Felipe I, liv. 23.° de Doações, fl. 110 v. 

(3) 406.000 rs. a Miguel de Moura, do conselho de Estado e escrivão da puridade, que 
a D. Caterina de Noronha, condessa de Matosinhos, montavam haver de moto de seu casa- 
mento e corregimentos desposouros, os quais V. M. mandou pagar ao dito Miguel de Moura 
por ela ser freira professa no mosteiro de N. Sra. dos Mártires e da Conceição de Sacavém 
e êle ser seu testamenteiro. Lisboa, 28 de Agosto de 5gt. — Liv. 5.° de Ementas, fl. 74 v. 

(4) Antes do falecimento de D. Francisco de Sá, conde de Matosinhos, que Deus perdoi, 
que foi meu camareiro mor e do meu conselho do Estado, havendo respeito aos muitos 
e mui continuados serviços que tinha feitos a el rei D. João e ao sr. rei D Sebastião e D. Hen- 
rique, e aos que a mim tem feitos, e a seus merecimentos, e havendo outrossi respeito aos 
muitos serviços e merecimentos daqueles de que êle descendia, e ao muito contentamento 
que os ditos senhores reis e eu tivemos de sua pessoa, calidades, merecimentos e serviços,. 



I2Ô 



Brasões 



aos Silvas, pois já dei noticia da criação dos dois títulos, pretexto invocado 
para esta digressão, na qual tive na realidade principalmente em vista ministrar 
dados seguros para a biografia do poeta lírico Francisco de Sá de Meneses. 

João Gomes da Silva, 4. conde de Tarouca, poeta e escritor distinto, 
hábil diplomata, fidalgo enérgico e liberal, é um vulto simpático e prestante 
da nossa história. Serviu na guerra da sucessão de Espanha, de 1705 a 
1707, nos postos de sargento mor de batalha, general da artelharia e mestre 
de campo general. Terminada a guerra abriu-se-lhe a carreira diplomática, 
em que mais se ilustrou. Enviado a Londres em 1709, alcançou para Por- 
tugal poder-se fazer representar no próximo congresso, que para tratar da 
paz se ia reunir. No ano seguinte passou na mesma qualidade à corte da 
Haia, d'onde, como plenipotenciário de Portugal, foi assistir ao congresso 
de Utreque em 17 13. Não conseguiu porem, em virtude da oposição do 
governo francês, tomar parte em 1722 no congresso de Cambra}', cidade 
onde o Conde de Tarouca se apresentou e onde, não tendo encontrado aloja- 
mento, mandou à pressa levantar um sumptuoso palácio de madeira para sua 
habitação. Depois ardeu o palácio, incêndio talvez atiçado pela má vontade 
da França; mas o Conde, não se contentando só em versejar o conhecido 
soneto 

Voraz incêndio, horrível instrumento, 

fez ressurgir novo palácio das cinzas do primeiro. 

Voltou para a Haia; d'aí passou, na qualidade de ministro plenipoten- 
ciário, a Viena de Áustria em 1726, e lá recebeu a notícia de estar nomeado 
mordomo mor da rainha D. Maria Ana de Áustria e embaixador em Madrid; 
não chegou porem a ocupar nenhum dêstes cargos por lho atalhar a morte, 



e vendo como era razão que por todos estes respeitos e pela muito boa vontade, que eu por 
eles lhe tinha, houvesse na sua casa e nos que por seu falecimento a herdassem memória 
do galardão e satisfação de tais serviços e por folgar muito de por tudo lhe fazer mercê, 
houve por bem de por seu falecimento fazer mercê a João Rodrigues de Sá, seu sobrinho, 
filho mais velho de Sebastião de Sá seu irmão, herdeiro e sucessor da casa do dito Conde, 
por dele não ficarem filhos, do título de conde em sua vida, de que lhe mandei passar um 
alvará de lembrança, em Lisboa, a 10 de Fevereiro de 1 583, para do dito título se lhe fazer 
carta em forma, tanto que lhe eu nomeasse o lugar de que houvesse de ser conde, conforme 
a outro alvará de lembrança, que lhe também então mandei passar do dito lugar. E por 
quanto eu tenho ora feito mercê ao dito João Rodrigues de Sá, meu camareiro mor, do con- 
celho de Penaguião em satisfação de Matosinhos... pela boa vontade que tenho ao dito 
João Rodrigues de Sá, que logo por falecimento do Conde seu tio me começou a servir de 
camareiro mor, e por esperar dêle, etc. Carta do título de Conde de Penaguião. — Chan- 
celaria de Felipe /, liv. 16. de Doações, fl. 191. 



Silvas 



127 



que o levou em Viena a 29 de Novembro de 1738, sendo viúvo havia já 
quatro anos. Deixou, entre outros, os três filhos seguintes: 

i.° — D. Estêvão José de Meneses, 5.° conde de Tarouca, foi pelos ser- 
viços de seu pai, criado marquês de Penalva, com permissão dos filhos pri- 
mogénitos se poderem intitular condes de Tarouca em vida dos pais, tudo de 
juro e herdade, duas vezes fora da Lei Mental, por carta de 17 de Fevereiro 
de 1750(1). Nomeado presidente do Conselho Ultramarino em Agosto de 
1749, veio a morrer, exercendo ainda aquelas funções, a 7 de Novembro de 
1758(2). Havia casado em 1725 com sua prima D. Margarida de Lorena, 
filha dos 3. os Marqueses de Alegrete, e foi sua herdeira sua filha D. Eugênia 
Mariana Josefa Joaquina de Meneses Caminha, mulher de seu primo Manuel 
Teles da Silva, 6.° conde de Vilar Maior e 2. marquês de Penalva pelo seu 
casamento, como já lá acima ficou referido. 

2. — Manuel Teles da Silva passou a Alemanha, onde serviu, e lá alcançou 
a estima do imperador Carlos VI, que o criou duque de Tellez de Sylva, em 
12 de Janeiro de 1735; lhe deu o Tosão de Oiro c o nomeou do conselho 
de Estado e príncipe do Sacro Romano Império, em 29 de Março de 1749. 
Havia casado com a princesa Maria Bárbara Amália de Holstein, irmã da 
princesa Mariana Leopoldina, mulher de D. Manuel de Sousa Calhariz, e 
ambas filhas de Frederico Guilherme, herdeiro da Noruega, duque de Hols- 
tein-Beck, falecido em 1719 em resultado das feridas recebidas na batalha 
de Francavila, e da duquesa Maria Antonieta Josefina, condessa de Sanfré. 
Deixou na Áustria o duque Manuel Teles ilustre descendência, que na linha 
primogénita usa, ou usava, do apelido de Sylva-Tarouca e dos títulos de prín- 
cipe do S. R. I., duque de Tellez, marquês de Strevi e conde de Sanfré. 
Passou á Morávia uma segunda linha com a designação de Sylva-Tarouca- 
-Unwerth e o título de conde, que data de 1687 e entrou na casa por casa- 
mento. Ao duque Manuel Teles da Silva foi passada, em 19 de Julho de 
1765, carta de brasão com as armas de muitos apelidos; não é destas porém 
que seus descendentes usam. A linha primogénita traz o escudo das armas 
dos Meneses de Tarouca já por vezes descritas, substituindo o escudete de 
oiro liso sobreposto por outro com as armas dos Teles da Silva. Suportes: 
dois liões de oiro cada um segurando sua bandeira quadrada, a de dextra 
com as armas dos Teles da Silva, a de sinistra com as dos Vilalobos. Di- 
visa: EL REY Y LA PATRIA. Manto vermelho, forrado de arminhos, 
sobrepujado da coroa de príncipe do império. O ramo segundo traz o mesmo 
escudo, com o escudete sobreposto porém partido das armas de Teles da 



( 1) Mercês de D. João V, liv. 41.*, fl. 1. 

(2) Gabela de Lisboa de 16. 



128 



Brasões 



Silva e de Unwerth (cortado de vermelho sobre prata, com um esgalho de 
tronco de negro) (i). 

3.° — Fernão Teles da Silva, destinado à vida eclesiástica, chegou a 
cónego de Évora, largou porem a carreira para casar em 172b com D. Maria 
de Melo, senhora da casa dos Meios monteiros mores, ofício em que Fernão 
Teles foi provido por carta de 1 de Janeiro de 1728 (2). Era D. Maria viúva 
sem filhos.de seu tio D. Henrique de Noronha e filha única de Francisco de 
Melo, 5.° monteiro mor do reino na sua família. Da descendência de Fernão 
Teles já está feita menção (3). 

VIII 

SENHORES DA CHAMUSCA, DUQUES DE PASTRANA 

Lá muito acima, no cap. V, deixei nomeado Diogo Gomes da Silva, filho 
segundo de Gonçalo Gomes da Silva, alcaide mor de Montemor o Velho, e 
irmão de João Gomes da Silva, i.° senhor de Vagos e alféres mor. Serviu 
Diogo Gomes em 141 5 na expedição de Ceuta e lá, após a conquista da 
cidade, foi armado cavaleiro pelo infante D. Henrique a cuja casa pertencia, 
segundo parece. Foi senhor da terra de Mação e de Vila Nova de Fozcoa, 
com a jurisdição, as quais terras, por seu prazer, el Rei doou a*seu filho Rui 
Gomes da Silva, por carta de 12 de Janeiro de 1440(4). Parece ter também 
possuído o reguengo de Orgens junto de Viseu, e no convento de S. Fran- 
cisco do Monte havia sepultura destes Silvas, sobre a qual estava esculpido o 
lião das suas armas (5). Casou Diogo Gomes da Silva com Isabel Vasques 
de Sousa, filha de Vasco Martins de Sousa, chanceler mor e i.° senhor de 
Mortágua, e de sua mulher Inês Dias, e dêste casamento nasceram, além 
doutros, os seguintes filhos: 

i.° — Rui Gomes da Silva, i.° senhor da Chamusca e Ulme, adiante. 

2. — Gonçalo Gomes da Silva, i.° alcaide mor de Soure por mercê de 
D. João 11(6), casou com D. Maria de Goios, filha de D. Fr. Pedro de Goios, 

(1) Rietstap, Armoriai general. 

(2) Ofícios e mercês de D. João V, liv. 72. , fl. 1 1 1. 

(3) Vol. I, pág. 4 55. 

(4) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 20. , fl. 29 v. — Salazar y Castro, na Historia de la 
casa de Silva, vol. II, pág. 421, fundando-se em genealogias, aliás não confirmadas pela Cró- 
nica de D. João J, êle próprio o assevera, dá o pôsto de alféres mor a Diogo Gomes da Silva e 
até marca o ano de 1416 para o começar a servir. É pura fantasia, sem fundamento docu- 
mental nem histórico. 

(5) Fr. Martinho do Amor de Deus, Escola de Penitencia, pág. 227, § 253. 

(6) Salazar y Castro, Historia de la casa de Silva, II, 779. — Os livros existentes na 
Chancelaria da Ordem de Cristo, cà qual pertencia a vila de Soure, não alcançam os tempos 
do reinado de D. João II. 



Silvas 



129 



comendador da Vera Cruz na Ordem do Hospital, e dela teve, entre outros, 
a Manuel da Silva e Lisuarte da Silva. Este casou, antes de 1498, com D. Fe- 
lipa de Lordelo, filha de Lopo Dias, provedor das Capelas de D. Afonso IV, 
e parece ter morrido em 1649, segundo indica o seu epitáfio na igreja de 
Santiago de Soure, nestas palavras: Aqui ja\ Lisuarte da Silva e sua molher 
D. Filipa. i54g (i). Manuel da Silva foi 2. alcaide mor de Soure e aposen- 
tador mor de D. Manuel, por carta de u de Janeiro de i5o5(2), posto que 
já antes exercesse o ofício (3). Conservou-o durante todo o reinado daquele 
soberano, sendo substituído, logo no começo do reinado seguinte,' por D. Fe- 
lipe Lobo (4). O filho de Manuel da Silva ainda possuiu a alcaidaria mor 
de Soure; seu neto porém já não a chegou a ter e ela vagou para a Coroa, 
extinguindo-se esta linha e toda a sua descendência varonil, creio. Na refe- 
rida igreja de Santiago de Soure ainda se encontram, ou encontravam, outras 
sepulturas desta gente com os seguintes letreiros (5): 

Aqui ja\em Antonio da Silva e D. Leonor de Villalobos sua mulher, e 
Gonçalo Gomes da Silva seu filho e D. Francisca da Silva sua mulher, 
illuslres Fidalgos deste Reyno, e D. Antonio de Meneses seu genro, filho 
de D. Antonio de Meneses Sottomaior e D. Cecília de Mendoça Senhores 
que foram neste Re yno do Couto de Fermoselhe e em o de Castella do Es- 
tado das Villas de Alconchel e Painos e em ellas Senhores de baraço e cutello. 
Falleceu em i3 de Novembro em a Era de 1642. 

Aqui ja\ Antonio da Silva Fidalgo da Ca\a de S. Mag. e de sua mulher 
D. Leonor de Villalobos em a era de 1600. 

Aqui ja\ Afonso da Silva Fidalgo da Ca\a de sua Mag. em a Era de 1627. 

Gonçalo Gomes da Silva teve um filho bastardo chamado Jorge da Silva, 
do qual foi filha, também ilegítima, Inês Gomes da Silva, mulher de João 
Vaz de Camões e bisavó do grande poeta Luís de Camões. Assim o afirma 
o douto Severim de Faria nos Discursos vários políticos (6); não sei porém 
se esta afirmativa merecerá inteiro crédito. Vejamos. 

Tenho um nobiliário ms., original, creio, e composto nos fins do primeiro 
quartel do século xvn, quando já tinha aparecido a chamada Vida de Luis de 
Camões de Pero de Mariz, impressa em 161 3, da qual, segundo se diz, 



(1) A gente do Cancioneiro, vol. XI da Revista lusitana, pág. 337. 

(2) Chancelaria de D. Manuel, liv. 23.°, fl. 47. 

(3) Numa carta de Maio de H98 aparece Manuel da Silva intitulado fidalgo da casa 
dei Rei e seu aposentador mor. — Lousada, Sumários da Tôrre do Tombo, vol. I, fl. 427 mihi. 

(4) D. Felipe Lobo teve, em 9 de Janeiro de i522, carta de aposentador mor, como até 
aí o fôra Manuel da Silva. — Chancelaria de D. João III, liv. 5i.° de Doações, fl. 10 v. 

(5) P.« Luis Montês Matoso, Memorias sepulchraes, fls. i5g v. e 160. 

(6) Ed. de 1624, fl. 92. 

vol. 11 17 



1 3o 



Brasões 



tirou Severim aquela informação. Intitula-se o códice: Liuvo de linaguens 
da nobreza deste Reino de portugal tirado do L° do conde Dom pedro, que 
esta na torre do tombo, e de memorias antiguas e informacois de pessoas 
curiosas Pera a continuação do moderno. Começa no «tl° da gueracão dos 
Sousas» e consta de 278 folhas numeradas pela frente. Tem em vários sí- 
tios emendas e acrescentamentos da mesma letra, dando-lhe a aparência de 
original; noutras partes tem algumas notas de diferente mão. Não traz in- 
dicação nenhuma de autor e só no fim, no verso da última folha, se lê: 
«Deste liuro me fez m e (mercê) o sr Martim Cota Falcão Eu a (Évora) 3i de 
x bro de 652». A estas palavras segue-se uma rubrica composta de um M e 
um J. O nobiliário é bastante exacto sobretudo nas notícias dos tempos 
mais próximos, e nele lê-se, na fl. 1 55 v.: «Gonçalo Gomes da Silua... e 
ouue bastardos frei goncalo da silua frade da ordem de S. bento e jorgue da 
silua, que não casou mas ouue bastardas .3. filhas jnes da silua casada com 
hd criado de seu pai, por nome joão Rois. . .» Análoga informação colheu 
dos nobiliários portugueses Salazar y Castro ao compor esta passagem na 
sua Historia de la casa de Silva, impressa em i685. 

3.° — João Gomes da Silva, claveiro da Ordem de Cristo, teve filhos bas- 
tardos; mas, se teve netos, vieram por linha feminina. 

4. — Diogo da Silva foi avô de Gaspar da Silva, senhor da ilha de Ano 
Bom pelo seu casamento com D. Maria de Almeida, filha de Manuel de Al- 
meida, corregedor da corte, irmão de Luís de Almeida, senhor da dita ilha 
e «marido da famosa preta D. Simoa Godinho». Por linha feminina houve 
descendência na qual se continuou o senhorio da referida ilha até 1778, quando 
ela passou para o domínio espanhol. 

Da «famosa preta D. Simoa Godinho» encontro esta notícia: 

«Vendo os Religiosos [da Cartuxa] o embaraço, que havia para se 
augmentar o edifício [da Pampulha], trataraÕ de se mudar para huma quinta 
de Laveiras, termo de Lisboa, no anno de 1598, a qual quinta tinha sido de 
D. Simoa Godinho, mulher de cor preta, mas muy rica, nobre, e principal 
da Ilha de S. Thomé, com quem casara certo fidalgo Portuguez, e vindo 
para Lisboa, havia ficado viuva, e sem successaõ. Distribuindo os seus bens 
em obras pias, deixou a quinta de Laveiras para se fundar hum Convento 
de Frades pobres a arbítrio da Mesa da Misericórdia. Houve muitos empe- 
nhos, porque cada huma das Religiões mendicantes a pretendia, até que El- 
-Rey Filippe II. alcançou de Roma licença de transacção para os Padres da 
Cartuxa, e a confirmaçaÕ de hum censo de cem mil reis, que todos os annos 
pagava a Coroa a dita D. Simoa» (1). 



(1) João Bautista de Castro, Mappa de Portugal, II, 6S. 



» 



Silvas 



1 3 1 



Rui Gomes da Silva, o filho mais velho de Diogo Gomes da Silva, era 
cavaleiro da casa do infante D. Henrique quando pela carta de 12 de Janeiro 
de 1440, acima citada, o infante D. Pedro lhe fez doação das terras de Mação 
e Vila Nova de Fozcoa (Fascoa, lhe chama o diploma), com a jurisdição, das 
quais o pai era donatário e pediu para serem transferidas no filho. Ratificou 
D. Afonso V, ao tomar conta do governo do reino, a doação, por carta de 
10 de Janeiro de 1460(1). No ano antecedente, por carta de 6 de Julho, 
havia-lhe el Rei feito mercê de juro e herdade do lugar de Ulme, no termo 
de Santarém (2), e bem assim já então gozava, por carta de 23 de Março de 
1442, de uma tença de quinhentas mil libras no almoxarifado de Lamego (3). 
Em todos estes diplomas é intitulado cavaleiro da casa do infante D. Henrique, 
vindo a passar por sua morte para a casa dei Rei, Como consta de duas cartas 
de padrão de vinte e quatro mil reais de tença, uma de 3o de Dezembro de 
1465(4) e outra de 3o de Maio de 1482(5). Em 1475 possuía também, além 
das, terras de Mação e Vila Nova de Fozcoa, o reguengo de Nespereira de 
Riba de Vouga, segundo declara uma carta passada em Samora a 25 de 
Outubro daquele ano, adiante citada, e já era finado a 27 de Abril de 1487, 
quando estas terras foram confirmadas a seu filho João da Silva (6). 

No limite do lugar de Ulme, quando em 1449 êle foi doado a Rui Gomes 
da Silva, existia um sítio, pouco menos de êrmo, chamado a Chamusca. 
Havia pertencido a Afonso Vasques Correia, vassalo de D. João I, que, por 
carta de 22 de Abril de 1424 ( 1 386), lhe privilegiara e escusara os moradores 
da sua aldeia (7), e no ano seguinte, por outra carta de 23 de Outubro, a 
dera por termo e jurisdição à vila de Santarém (8). Pois foi êste sítio bem 
solitário, que Rui Gomes, levado pela amenidade e fertilidade dos campos 
circunjacentes escolheu para lá edificar a sua casa de moradia e lá habitou 
com tanta assistência, que já em trovas de Alvaro Barreto, anteriores a 1464, 
se alude à idade avançada de «Ruy Gomez da Chamusca» (9). Na sua igreja 

(1) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 34. , fl. 1 65. 

(2) Liv. i3.° da Estremadura, fl. 48 v., com a data certa, e com ela errada no liv. 6.°, 
fl. i3i. 

(3) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 27. , fl. 67. 

(4) Ibidem, liv. 8.°, fl. 148. 

(5) Chancelaria de D. João II, liv. 6.°, fl. 85 v. 

(6) Chancelaria de D. Manuel, liv. 19. , fl. 18. 

(7) Chancelaria de D. João I, liv. i.°, fl. 174 v. 

(8) Ibidem, liv. 2. , fl. 29 v. 

(9) Cancioneiro geral, fl. 36, col. 2. — As trovas são anteriores a 1464, porque nelas se 
nomeia Rui Dias Lobo, «o grande Lobo d'Alvito», casado com D. Margarida de Vilhena 
«húa dona Margarida», e êle morreu no escalamento de Tânger, a 20 de Janeiro do referido 
ano (Rui de Pina, Chronica de D. Afonso V, cap. 1 53, pág. 509). 



Brasões 



matriz de S. Brás parece já ter sido sepultado, com êste epitáfio gravado no 
túmulo: Aqui ja\ Rui Gomes da Silva do Conselho dos Reis, quem seus 
Avos forão{\). Parece não estar bem lido e em mais parte nenhuma, note-se, 
encontro alusão a Rui Gomes haver sido do conselho. 

O lugar da Chamusca, dependência do de Ulme, bem depressa, devido à 
sua situação privilegiada para o desenvolvimento da agricultura e à residência 
do senhor da terra, tomou tal incremento que já em 1527, ao fazer-se o censo 
da população da comarca da Estremadura, se lhe encontraram 1 56 vizinhos 
e em Ulme, i3g, pertencendo então ambas as aldeias ao termo de Santarém (2). 
Foram sempre desigualmente prosperando e, por alvará de 18 de Fevereiro 
de 1 56 1 , confirmado por carta de 3 de Junho do ano seguinte, foram os" lu- 
gares da Chamusca e Ulme tirados do termo de Santarém e feitos vilas sôbre 
si. Então foram elas doadas a Francisco da Silva, em sua vida, e por sua 
morte, de juro e herdade, com as^ jurisdições, a seu filho Rui Gomes da Silva, 
príncipe de Eboli (3). Foram à doação impostas certas condições, as quais 
lá mais adiante apontarei, limitando-me agora a continuar a indicar a desi- 
gualdade no progressivo desenvolvimento das duas vilas. 

Em 1712 tinha a Chamusca 65o moradores e Ulme 120(4); em a 
primeira, 662 moradores e a segunda 280 fogos (5); finalmente, para não 
alongar mais, no último censo da população, o de 1911, tinha a Chamusca 
1026 fogos e 3749 moradores, ao passo que Ulme apenas contava 1 56 e 470, 
respectivamente (6). 

Casou Rui Gomes da Silva por três vezes, e de sua primeira mulher, 
D. Branca de Almeida, filha de Diogo Fernandes de Almeida, alcaide mor 
de Abrantes, teve o sucessor, João da Silva, e D. Isabel de Sousa, camareira 
mor da Rainha Princesa. Da terceira mulher, D. Felipa de Andrade, sua 
criada e filha de Lopo Afonso, prioste e prebendeiro da Sé de Viseu, teve 
a Rui de Sousa de quem provêem os Condes de Santiago de Beduido, e para 
eles reservo o cap. IX. 

João da Silva foi 2. senhor da Chamusca e Ulme, e da mais casa de seu 
pai na qual sucedeu pelos anos de 1487, tendo-lhe neste, por duas cartas de 



(1) Francisco José de Andrade, Descripção da Chamusca, Lisboa, 1759, pág. 19. 

(2) Povoação da Estremadura, no Ahchivo histórico portuguez, vol. VI, pág. 262. 

(3) Chancelaria de D. Sebastião, liv. 12. de Doações, fl. 44 v. 

(4) P.e António Carvalho da Costa, Corografia portuguesa, III, 91. 

(5) Paulo Dias de Niza, aliás P. £ Luís Cardoso, Portugal sacro-profano, I, 164 e III, 333. 

(6) Censo da População de Portugal no 1.° de De^embre de igu, part. VI, pág. 280 
e 281. 



Silvas 



i33 



27 de Abril e 10 de Maio, a primeira feita por Fernão de Pina, sido confir- 
mados os reguengos de Nespereira de Riba de Vouga, Mação e Vila Nova 
de Fozcoa (1), e, com certas condições, os privilégios dos lavradores e mora- 
dores do seu lugar de Ulme (2). No primeiro diploma é intitulado fidalgo 
da casa do Duque de Beja, no segundo, senhor de Ulme. Anteriormente, 
por cartas passadas em Samora, a 2b e 28 de Outubro de 1475, em atenção 
aos seus serviços em Castela, Portugal e Africa, fizera-lhe D. Afonso V 
mercê de lhe conceder mais uma vida para o filho nos reguengos acima no- 
meados (3), e de lhe privilegiar os lavradores e moradores de Ulme (4); era 
neste tempo fidalgo da casa do Duque de Viseu, irmão de D. Manuel. Ele- 
vado este ao trono chamou João da Silva para o conselho e confirmou-lhe, 
por duas cartas de i5 de Julho de 1499, os reguengos e os privilégios men- 
cionados (5); posteriormente, por carta de i5 de Abril de i5i5, fez-lhe mercê 
de traspassar no seu filho mais velho, Francisco da Silva, os referidos re- 
guengos (6). 

Era João da Silva casado com D. Joana Henriques, quando nos seus 
paços da Chamusca, em i5 de Fevereiro de 1D20, fizeram testamento de mão 
comum, instituindo o morgado da Chamusca, para seu filho primogénito e 
mais sucessores, testamento aprovado a 24 do mesmo mês, pouco antes do 
falecimento de João da Silva, que foi a sepultar à igreja de S. Brás junto de 
seu pai (7). Pelos dizeres do documento vê-se ser então aquela actual vila 
apenas uma quinta ou casal. D. Joana Henriques, filha de D. Fernando das 
Alcáçovas e de sua mulher D. Branca de Melo, senhora de Barbacena, havia 
sido a terceira mulher de João da Silva e a única a dar-lhe descendência, da 
qual provieram, além do sucessor da casa, uns Silvas, comendadores de 
Alpalhão, com a varonia extinta, e outros, comendadores de Castelejo, 
extintos trágicamente na praça de Angra, em i3 de Agosto de 1 583, na pessoa 
do insensato Manuel da Silva, conde de Torres Vedras e governador da Ter- 
ceira por D. António, prior do Crato. 

Francisco da Silva, filho primogénito de João da Silva, foi 3.° senhor da 



(1) Chancelaria de D. Manuel, liv. 19. , fl. 18. 

(2) Chancelaria de D. João 11, liv. 26. , fl. 140 v., de difícil leitura, copiado porém no 
liv. 3.° da Estremadura, fl. 25 1. 

(3) Chancelaria de D. Manuel, liv. 19. , fl. 18. 

(4) Chancelaria de D. João 11, liv. 2G. , fl. 140 v., ou melhor no liv. 3.° da Estremadura, 
fl. 25 1. — Esta mesma carta aparece com a data de 6 de Outubro transcrita na Chancelaria 
de D. João III, liv. 7. de Doações, fl. 32. 

(5) Ibidem, liv. fl. 112, e liv. 7. , fl. 32. 

(6) Chancelaria de D. Manuel, liv. 24. , fl. 65. 

(7) Salazar y Castro, Historia de la casa de Silva, II, 438. 



i34 



Brasões 



Chamusca e Ulme e dos reguengos de Nespereira de Riba de Vouga, Mação 
e Vila Nova de Fozcoa(i). No seu tempo, em atenção ao Príncipe de Éboli 
seu filho, foram as aldeias da Chamusca e Ulme feitas vilas, pelo acima ci- 
tado alvará de 18 de Fevereiro de i56i, sendo então tiradas da jurisdição 
de Santarém. Pelo mesmo alvará foi confirmado o senhorio com a jurisdição 
a Francisco da Silva, em sua vida, e, depois da sua morte, ao Príncipe seu 
filho de juro e herdade, para êle e sucessores, com tal condição e declaração, 
que por falecimento dêle Príncipe venham as ditas vilas a um seu filho varão 
lídimo, que viva neste reino e.com os reis dêle, e este assentado em seu 
livros, e d'ai em diante haverão e sucederão as ditas vilas, com a dita juris- 
dição, de juro e herdade, segundo forma da Lei Mental, todos os descendentes 
do dito seu filho e com a mesma condição de viverem nestes reinos e com 
os reis dêles, e estarem assentados em seus livros. Foi confirmado o alvará 
por carta de 3 de Junho do ano seguinte (2). Faleceu Francisco da Silva, 
sendo do conselho, na Chamusca, em Dezembro de i566(3), viúvo de sua 
parenta D. Maria de Noronha, finada em i552, filha de Rui Teles de Meneses, 
4. senhor de Unhão. Era êle mordomo mor da infanta D. Isabel e nessa 
qualidade a acompanhou a Castela em i526, quando foi casar com Carlos V. 
Levou Rui Teles consigo um seu neto, filho desta filha; Rui Gomes dà Silva 
se chamava êle e, indo de cá como pagem da Imperatriz, lá ficou servindo 
no paço. 

Quem visse então aquele garotito de dez anos, não suporia que êle viesse 
a ser um dos maiores senhores de Espanha; pois veio a sê-lo, não se lhe 
podendo gabar a maneira, mas o facto deu-se. 

Casou Rui Gomes em i552 com a gentilíssima D. Ana de Mendoza e por 
ela houve, em 1 555, o título de conde de Mélito. D. Ana, era dentro em 
pouco amante de Felipe II, que ia fazendo o marido príncipe de Eboli em 
i55g, duque de Estremera em 1 568 e, finalmente, duque de Pastrana em 
1570(4). Note-se pprêm que a amisade de Felipe II pelo seu antigo pagem 
é facto indiscutível, e o seu valimento e influência junto do soberano, à parte 
mesmo dos amores dêste, era tam grande que na corte já lhe não chamavam 
Ruj Gomez, mas Rey Gómez (5). Morreu Rui Gomes em 1573 e depois 



(1) Por carta de 29 de Abril de i522 teve Francisco da Silva, fidalgo de nossa casa, con- 
firmação dos reguengos, e por outra de 6 de Fevereiro de 1 534 foram-lhe confirmados os 
privilégios dos lavradores de Ulme. — Chancelaria de D. João III, liv. i.° de Doações, fl. 112, 
e liv. 7. , fl. 32. 

(2) Chancelaria de D. Sebastião, liv. 12.° de Doações, fl. 44 v. 

(3) Salazar y Castro, Historia de la casa de Silva, II, 447. 

(4) Estas datas são da Historia de la casa de Silva de Salazar y Castro, 

(5) Gachard, Don Carlos et Philippe II, pág. 157. 



Silvas 



i35 



começou a vida mais aventurosa da Princesa de Éboli, cuja formosura era 
tal que resistia a ser cega de um ôlho e a trazer uma venda de seda para 
encobrir o defeito. 

Enviuva; mete-se num convento; volta para a corte; apaixona-se por An- 
tónio Pérez, secretário e confidente de Felipe II, que descobre a intriga e 
manda prender a Princesa na noite de 28 de Julho de Ô79, implicando-a na 
morte de Escovedo. Sempre encarcerada, mudando só por vezes de prisão, 
morreu D. Ana de Mendoza no castelo de Pastrana em 2 de Fevereiro de 
1592. , 

Rui Gomes da Silva, príncipe de Éboli, sucedera em i566, por morte de 
seu pai, nos senhorios das vilas da Chamusca e Ulme e mais reguengos e 
morgados da sua casa em Portugal, apesar de não ser o filho primogénito, mas 
em virtude do falecimento anterior deste. Do seu casamento foram filhos, 
entre outros: D. Rodrigo, D. Diogo e Rui Gómez. O primogénito, D. Ro- 
drigo de Silva y Mendoza diziam ser filho de Felipe II; foi 2. duque de Pas- 
trana e progenitor dos demais duques e de várias outras casas ilustres de 
Espanha, parecendo-me estar em todas já extinta a varonia dos Silvas; 
D. Diogo de Silva y Mendoza foi o i.° marquês de Alenquer e a ele me tor- 
narei já a referir; e Rui Gómez de Sylva y Mendoza, i.° marquês de la Eli- 
seda, teve muito curta descendência varonil. 

D. Diogo de Silva y Mendoza, ou simplesmente D. Diogo da Silva como 
aparece em diplomas portugueses, foi duque titular de Francavila desde 1 57Õ, 
conde de Salinas e Ribadeo em 1 591 e i.° marquês de Alenquer em Julho 
de 1616. A carta de marquês de Alenquer é de 3o de Novembro de 1616 e 
foi passada a favor de D. Diogo da Silva, conde de Salinas e Ribadeo, duque 
de Francavila, do conselho de Estado e vedor da fazenda. O título é de 
marquês perpétuo (à moda espanhola), de juro e herdade, devendo suceder 
nêle um filho segundo legitimo de D. Diogo; e se tal filho não houver, nesse 
caso, lhe sucederá o filho primogénito D. Rodrigo, e por morte dêste passará 
então ao filho segundo dêle, de maneira a andar sempre separado da casa 
dos Condes de Salinas (1). A publicação do título precedeu porém a carta de 
criação dêle. A i3 de Outubro de 1616 já se mandara pagar a D. Diogo o 
seu assentamento de marquês, sem declarar a sua importância (2); a 28 de 
Junho do ano seguinte porém nova carta se lhe passou do assentamento, e 
nesta declara-se dever ser êle de trezentos e vinte e dois mil oitocentos e 
cinquenta e oito réis, e manda-se-lhe pagar de 12 de Julho de 161 6 em diante, 



(1) Chancelaria de Felipe II, liv. 37. de Doações, fl. 199. 

(2) Ibidem, fl. 202. 



i36 



Brasões 



por ter então deixado de vencer o assentamento, que tinha, de conde (i). 
Teve portanto lugar a publicação e criação do título de marquês de Alenquer 
em 12 de Julho de 1616. Juntamente com o título foram dadas a D. Diogo 
as rendas e jurisdição da vila. Esta mercê fez levantar os povos e as justiças 
de Alenquer, por a vila haver sempre pertencido à casa das rainhas e nunca 
a posse foi muito pacífica para os Silvas. Em 1623 apresentou o Procurador da 
Coroa a Felipe III uma petição a fim do Duque de Francavila ser compelido 
a largar o título e a jurisdição de Alenquer, e as rendas do reguengo de Gui- 
marães, por não ser natural do reino (2). Expulsos os reis intrusos, foi, 
pela carta patente de 10 de Fevereiro de 1642, constituída de novo a antiga 
Casa das Rainhas e nela outra vez incorporada a vila de Alenquer (3). 

Havia sido o Marquês vedor da fazenda e do conselho de Estado em Por- 
tugal, nomeado pelos anos de i6o5, e depois foi vice rei dêste reino, desde 
Abril de 1617 até Julho de 1621, com interrupção no tempo da estada de Fe- 
lipe II era Portugal, de 9 de Maio a 23 de Outubro de 1619(4). Não foi o 
Marquês, ao que parece, muito limpo de mãos durante o seu govêrno e, por 
êsse motivo, experimentou alguns embaraços resolvidos não sei como; mas, 
voltando para Madrid, ainda lá exerceu o cargo de presidente do Conselho 
de Portugal. Naquela cidade faleceu em i63o, a i5 de Junho (5), deixando 
um filho único, havido de sua terceira mulher, D. Maria Sarmiento de Villan- 
drando, 7." condessa de Salinas e Ribadeo, o qual se chamou D. Rodrigo 
Sarmiento de Silva de Villandrando y de la Cerda e foi 2. marquês de 
Alenquer, 8.° conde de Salinas e Ribadeo e duque de Hijar pelo seu casa- 
mento. Por suspeitas de pretender, pela casa de Hijar, a sucessão da coroa 
de Aragão mandaram-no prender em Madrid após as revoltas de Portugal e 
da Catalunha, em 1640, e prêso morreu no castelo de Lião. Neste fidalgo 
findou realmente o título de marquês de Alenquer, ainda que seu filho se- 
gundo, Rui Gomes da Silva, se intitulou 3.° marquês. Morreu' êste solteiro 
e sem filhos a 23 de Setembro de 1 68 1 (6). 

Gallardo copiou para os seus apontamentos bibliográficos' umas poesias 



(1) Chancelaria de Felipe //, liv. 43. de Doações, fl. 21 v. 

(2) Em defesa dos direitos do Duque publicou-se então uma fôlha de papel, sem lugar 
nem ano de impressão, intitulada : Por el Marquês de Alenquer, Duque de Francavila, 
contra el Procurador de la Corona de Portugal, y pretensiones que en nombre de aquel 
Reino dice que presentó Luis Vieira. Dá notícia dêste folheto Don Bartolome José Gallardo 
no Ensayo de una biblioteca espanola, vol. I, col. 142. 

(3) Ordenações e Leys do Reino, ed. Vicentina, liv. V, pág. 1 32. 

(4) J. P. Ribeiro, Dissertações, vol. II, pág. 197, e vol, III, parte n, pág. 212. 

(5) Salazar y Castro, Historia de la casa de Silva, II, 692. 

(6) Ibidem, pág. 709. 



Silvas 



i3 7 



do Marquês de Alenquer, as quais os editores do Ensa ro de una biblioteca 
espaiiola, publicado em seu nome, transcreveram no vol. I, col. 141. Aí, 
por eles, que é o mais provável, se me afigura, ou pelo próprio Gallardo, 
são os versos atribuídos ao i.° Marquês, conde de Salinas; é possível porém 
que se tenham enganado e as poesias não sejam do i.° Marquês, mas sim 
deste último, o 3.°. Dele escreveu o seu contemporâneo D. Luís de Salazar 
y Castro: «Fue... uno de los mas sábios, Cortesanos, y discretos Caval- 
leros de nuestra edad, como saben bien quantos le conocieron» (1). Isto 
acomoda-se mais a um poeta, que as acções militares e políticas do avô. 

Quando, pelo alvará de 18 de Fevereiro de i56i, as aldeias da Cha- 
musca e Ulme foram elevadas a vilas e doadas de juro e herdade em mor- 
gado ao Príncipe de Eboli, por outra doação posterior (2) se lhe uniram os 
reguengos de Nespereira de Riba de Vouga, Mação e Vila Nova de Fozcoa, 
para tudo andar vinculado com os mais bens do morgado, impondo-se ao 
administrador a obrigação de viver em Portugal, com os seus reis e estar 
assentado nos seus livros. Por morte do Príncipe pretendeu seu filho se- 
gundo o Duque de Francavila suceder naquele morgado, alegando não poder 
êle andar unido ao principal da casa. Para êsse fim sustentou porfiadas 
demandas com seu irmão o Duque de Pastrana e os sucessores de sua casa, 
até que por fim, tendo-se domiciliado em Castelo de Vide para cumprir com 
a cláusula da residência em Portugal, tomou posse em 1626 das vilas e dos 
reguengos (3). Por sentença do Juízo da Coroa foi porém suspenso e privado 
da posse, por ser estrangeiro por nascimento e habitação, casa e estado, e 
como tal inábil para a sucessão por leis do reino e cláusula da concessão. 
Em seguida à Restauração foram as vilas e reguengos doados, por carta de 
9 de Fevereiro de 1643, à rainha D. Luísa como descendente do Príncipe de 
Eboli, com a condição de ficarem incorporadas na Casa das Rainhas (4). 



(1) Salazar y Castro, Historia de la casa de Silva, vol. II, impresso em i685, pág. 708- 
-709. 

(2) Alvará de 20 de Junho de 1 566, confirmado por carta de 1 1 de Abril do ano seguinte 
{Chancelaria de D Sebastião, liv. 17° de Doações, fl. 383 v.). Nela vem transcrito outro 
alvará, de 14 de Setembro de 1 5 5j, pelo qual fôra feita mercê, a requerimento de Francisco 
da Silva e para depois de sua morte, dos reguengos a seu neto Pero Moniz, filho de [sua 
filha D. Lourença de Vilhena e de] Bernardo Moniz, com aprazimento de Rui Gomes da 
Silva que, por instrumento lavrado em Valhadolid, a 27 do precedente mês de Maio, auto- 
rizara a doação. Posteriormente compôs-se com Bernardo Moniz e êste, em nome do filho, 
renunciou a mercê a fim de Rui Gomes a haver para si. 

(3) Salazar y Castro, Historia de la casa de Silva, vol. II, pág. 6g3. 

(4) Chancelaria de D. João IV, liv. 2. de Doações, fl. 85 v.; Ordenações e Leys do 
Reino, ed. Vicentina, liv. V, pág. 1 3g. 

vol. ii 18 



1 38 



Brasões 



Nesta doação parece não se ter compreendido o palácio de morada dos Silvas 
na Chamusca, nem um pomar de regalo, prédios possuídos em 1759 por par- 
ticulares (1), ou teriam sido posteriormente alienados. 

As armas dos Marqueses de Alenquer eram um escudo partido: o I de 
prata, lião de púrpura, armado e linguado de azul, coroado de oiro (Silva); 
o II de vermelho, treze besantes de oiro (Sarmiento). O 2° Marquês sobrepôs 
a êste escudo o da casa de Hijar: esquartelado: o I e IV de oiro, quatro 
palas de vermelho (Aragão); o II e III de vermelho, cadeia de oiro, posta 
em cruz, em aspa e em orla (Navarra). 

t 

IX 

APOSENTADORES MORES 
CONDES DE SANTIAGO DE BEDUÍDO 

Rui Gomes da Silva, i.° senhor da Chamusca, casou pela terceira vez, 
segundo no capítulo precedente ficou dito, com D. Felipa de Andrade e assim 
na realidade sucedeu; mas parece terem sido os Ruis Gomes da Silva pre- 
destinados para fracassos conjugais a que naqueles tempos, dado o modo de 
pensar d'então, se não ligava a importância posteriormente para todos assu- 
mida. Do Duque de Pastrana, filho de Rui Gomes da Silva, príncipe de 
Eboli, afirma-se ter saído loiro como Felipe II; do último filho de Rui Gomes 
da Silva, senhor da Chamusca, diz-se o seguinte: «Ruy de Souza da Silva... 
foy fidalgo muito recolhido, e não costumava passar, nem hir muitas vezes 
ao Paço, com que sahia poucas vezes das suas cazas, em que vivia junto a 
S. Cruz do Castello, e pela authoridade com que se portava, e outras razoens 
correo fama, e alguns affirmárão que elle era filho dei Rey D. João 2. con- 
cebido pouco antes que sua may cazasse» (2). 

Serviu Rui de Sousa em Africa, nas praças de Arzila e Safim, nos anos 
de i5oi, i5o3 e i5io(3), e acompanhou em i52i a infanta D. Beatriz a Sa- 
bóia, embarcando, juntamente com seu filho Lourenço de Sousa, na armada 
do comando de seu sogro o Conde de Vila Nova (4). Havia com efeito Rui 
de Sousa casado com D. Leonor de Noronha, filha do Conde, e veio a morrer 

(1) Francisco José de Andrade, Descripção da Chamusca, pág. 17-18. 

(2) Diogo Gomes de Figueiredo, Nobiliário genealógico, vol. II, pág. 3S4 mihi; o mesmo 

dizem vários outros. 

(3) Damião de Goes, Crónica do felicíssimo Rey Dom Emanuel, part. 1, caps. 5o, 70 e 
71 ; part. III, cap. 12. 

(4) Ibidem, part. IV, cap. 70. 



# 



Silvas \3g 

a 29 de Novembro de 1 55-, nas suas casas «a cabo» da igreja de Santa Cruz 
do Castelo de Lisboa, na qual foi sepultado, na capela de Nossa Senhora do 
Pópulo(i), onde posteriormente se gravou este epitáfio: Nesta Capella ja\ 
Rui de Sousa da Silva, irmão de Dona Isabel que esta casa instituto, & sua 
mulher D. Leonor de Loronha & seu filho Lourenço de Sousa, que foi Apo- 
qentador mor & superior das Aposentadorias deste Reino, & sua mulher 
D. Isabel Deça, & seus successores. i5j6 (2). Desta capela haviam o Prior 
e Beneficiados de Santa Cruz feito doação à sua bemfeitora D. Isabel de 
Sousa, que a largou a seu meio irmão Rui de Sousa. 

D. Isabel era filha, como acima ficou dito, do primeiro casamento de Rui 
Gomes da Silva, i.° senhor da Chamusca. Quando, em Novembro de 1490, 
a princesa D. Isabel entrou em Portugal desposada do príncipe D. Afonso, 
avinha por sua aya & camareira mor dona Isabel de Sousa portuguesa / 
molher muito fidalga: & prudente: & de muy onesta vida» (3). Meses antes, 
por carta dada em Évora a 14 de Julho de 1490, havia-lhe D. João II privi- 
legiado os lavradores da sua herdade da Fonte de Cantos, termo de Beja (4). 
Não sei se D. Isabel de Sousa acompanhou para Castela a Princesa, quando 
ela enviuvou; mas sei que tornou a ser sua camareira mor quando ela voltou 
a Portugal casada com D. Manuel. Também ignoro se em 1498 seguiu para 
o reino vizinho, quando D. Manuel e D. Isabel foram jurados príncipes de 
Castela; creio porem que acompanharia a Rainha e lhe assistiria à morte a 
24 de Agosto. Afastou-se então da corte, foi viver para as suas casas do 
Castelo, reedificou quase por completo a próxima igreja de Santa Cruz, com 
grande dispêndio, e elegeu para sua sepultura a capela mor, instituindo nela 
uma missa quotidiana, vinculando-lhe certos bens (5) e nomeando a adminis- 
tração no Reitor do convento de Santo Eloi. Morreu D. Isabel a 22 de Junho 
de 1 5 1 8, com setenta e um anos, e foi sepultada em monumento de pedra de 
baixo de um arco na referida capela mor da parte do evangelgo, com êste 
simples epitáfio: Sepultura de Dona Isabel de Sousa, Aia & Camareira 
mor da Rainha (6). Nada disto lá existe hoje; tudo o terremoto de 1755 

(1) Registo da freguesia de Santa Cru% do Castelo, pág. 240. 

(2) George Cardoso, Agiologio lusitano, III, 790. 

(3) Garcia de Rèsende, Vida de D. João II, cap. 119, fl. 71 v. 

(4) Chancelaria de D. João II, liv. 16. , fl. 45 v. 

(5) Havemos por bem e por serviço de Deus, que a capela por D. Isabel de Sousa feita 
e instituída na igreja de Santa Cruz de Lisboa, possn haver e ter por bens de raiz renda até 
20.000 rs. em cada ano para sempre, contanto que a dita renda não seja em propriedades em 
nossos reguengos, ou a nós foreira, &c. Évora 14 de Julho de 1497. — Chancelaria de D. Ma- 
nuel, liv. 28.", fl. 53 v. 

(6) George Cardoso, Agiologio lusitano, III, 789; P. e Francisco de Santa Maria, Ceo 
aberto na terra, pág. 457-458. 



140 



Brasões 



arruinou. Apenas lá se vê embebida na parede, uma lápida comemorativa, 
onde se lê (1): 

SEPULTURA DE DONA IZABEL DE SOUZA AYA E CA- 
MAREIRA MOR DA RAINHA D. LEONOR. FALECEO 
NO AN NO DE 1 5 16 

Rui de Sousa, quando morreu, era do conselho e tinha só dois filhos vivos 
aos quais nomeou seus testamenteiros (2), e já era viúvo, segundo parece, pois 
não se menciona a mulher no assento de óbito. Os dois filhos eram Lou- 
renço de Sousa e D. Camila, que poucos meses sobreviveu a seu pai pois 
faleceu a 2 de Março, deixando por testamenteiro a seu irmão (3). 

Lourenço de Sousa já exercia o ofício de aposentador mor em Junho de 
1534(4); mas n ã° consta quando o começasse a servir por não se encontrar 
registada a sua carta de nomeação (5). As atribuições do aposentador mor 
estavam determinadas no tit. 61 do liv. I das Ordenações afonsinas; a par 
porem daquele cargo criara-se o de provedor e superior da casa da aposen- 
tadoria de Lisboa, o qual João Fogaça, famoso poeta do Cancioneiro 
geral, vendeu a D. Martinho de Castelbranco, a quem foi confirmado por 
carta de 24 de Agosto de i5ii (6). Três anos depois já o cargo abrangia 
também as casas das aposentadorias de Évora e Santarém e as atribuições 
regimentais do superior, já elevado a conde de Vila Nova de Portimão, 
eram esclarecidas e ampliadas pela carta de 18 de Dezembro de 1514(7). 
Por ela foi também arbitrada de mantimento ao superior a quantia anual de 
cinquenta e dois mil reais, sendo trinta mil pagos pelas rendas da aposenta- 
doria de Lisboa, doze mil pelas de Évora e dez mil pelas de Santarém. Éste 
ordenado e as novas atribuições, tudo se manteve até à extinção do ofício. 

Haviam por tanto ficado muito restritas as atribuições do aposentador 
mor, pois se estabeleceram casas para aposentadorias nas três povoações onde 
a corte principalmente habitava. Lourenço de Sousa veio porém a reunir 
toda a jurisdição por ter comprado a seu tio materno D. João de Castelbranco, 

(1) Encontro êste letreiro, com todos os seus erros, transcrito por Júlio de Castilho na 
Lisboa antiga, part. II, vol. III, pág. 66. 

(2) Registo da freguesia de Santa Cruç, cit. pág. 240. 

(3) Ibidem. 

(4) Chancelaria de D. João III, liv. 7.° de Doações, fl. 120. 

(5) Aposentadores mores de D. João III foram estes três: D. Felipe Lobo nomeado 
por carta de 9 de Janeiro de i522 já lá acima citada; D. Afonso de Noronha a quem D. Fe- 
lipe vendeu o ofício e se lhe passou carta a i3 de Fevereiro de 1 525 (Ibidem, liv. 36.°, fl. 87); 
e Lourenço de Sousa. 

(6) Chancelaria de D. Manuel, liv. 42. , fl. 12 v. 

(7) Ibidem, liv. 24. , fl. 10. 



Silvas 



141 



filho segundo do Conde de Vila Nova e seu sucessor na superintendência das 
aposentadorias, o ofício de superior delas o quai lhe foi confirmado por carta 
de 4 de Julho de 1 538 ( 1 ). Era tam importante e proveitoso o cargo que, 
quando, a prazimento dos povos de Lisboa, Évora e Santarém, as rendas 
das aposentadorias foram vendidas, tiveram de dar de satisfação a Lourenço 
de Sousa uma tença de trezentos mil reais, em sua vida e na de seu filho 
Manuel de Sousa (2). D'então por diante continuou nos descendentes destes 
fidalgos o ofício, simplesmente honorífico porém, de aposentador mor. 

Lourenço de Sousa casou em 1 534 com D. Isabel de Eça (3) e por esta 
ocasião nele traspassou seu pai, por instrumento feito em Lisboa a i5 de 
Junho de 1 534, uma tença de cento e doze mil reais que havia sido de sua 
irmã D. Isabel de Sousa (4). D. Isabel de Eça era filha de D. Jerónimo de 
Eça, poeta do Cancioneiro, onde se encontram trovas suas endereçadas a 
D. Beatriz de Vilhena, a Perigosa, e a D. Francisco de Viveiro, e uns apodos 
a êie dirigidos por vários a propósito de «húas manguas que fez em Almeyrym, 
muyto estreytas & forradas de martas muyto velhas». 

Possuiu Lourenço de Sousa a comenda de Santiago de Beduído na Ordem 
de Cristo, e morreu «o derradeiro dia de Agosto deste ano presente de 376» . 
Assim se declara na carta de padrão da satisfação pelas rendas das antigas 
aposentadorias, carta dada em 23 de Novembro a seu filho Manuel de 
Sousa (5), já então aposentador mor, apesar da carta do ofício lhe haver sido 
passada só em 4 de Fevereiro de 1578(6). 

Lourenço de Sousa, filho dêste Manuel de Sousa, foi o 3.° aposentador 
mor na sua família, por carta de 25 de Janeiro de iõo3(7), comendador de 
Santiago de Beduído e senhor de Alfaiates e do reguengo de Arronches por 
sua mulher D. Luísa de Meneses. Estes bens haviam pertencido ao célebre 
aio de D. Sebastião, D. Aleixo de Meneses, e como, não só os Condes de 
Santiago o vieram a representar, mas tudo quanto a êle diga respeito inte- 
ressa, aqui lançarei breves notas a D. Aleixo relativas. 

(1) Chancelaria de D. João IH, liv. 6o.° de Doações, fl. iÍ2. 

(2) Chancelaria de D. Sebastião, liv. 38.° de Doações, fl. 54 v. 

(3) Havendo respeito aos muitos serviços que tenho recebidos de Lourenço de Sousa, 
fidalgo de minha casa e meu pousentador mor, e a ora casar com D. Isabel de Eça, donzela 
da Rainha, lhe faço mercê, em dias de sua vida, do casal que foi de D. Jerónimo de Eça, 
que Deus perdoi, pai da dita D. fsabel, o qual casal está em Almeirim, &c. Évora, 14 de 
Junho de 1534. — Chancelaria de D. João III, liv. 7. de Doações, fl. 120. 

(4) Carta de padrão de 23 de Junho de 1 534 dada a Lourenço de Sousa. — Ibidem, fl.'2o5. 

(5) Chancelaria de D. Sebastião, liv. 38.° de Doações, fl. 54 v. 

(6) Chancelaria de Felipe I, liv. 3.°, fl. io5 v. — A carta é de D. Sebastião, mas foi re- 
gistada neste livro. 

(7) Ibidem, liv. 12. de Doações, fl. 80. 



I 



1 42 Brasões 

D. Aleixo de Meneses era filho segundo de D. Pedro de Meneses, i.° conde 
de Cantanhede, havido de sua segunda mulher, a condessa D. Beatriz Soares. 
Serviu com distinção em Africa e na índia, foi embaixador junto de Carlos V, 
em 1537-39, mordomo mor da princesa D. Maria de Castela, a quem acom- 
panhou a Madrid em 1 543 ; assistiu à sua morte; e foi, em 2 de Agosto de 
i545, padrinho de baptismo de seu filho, o príncipe de Castela D. Carlos (1). 
Voltando para Portugal serviu de mordomo mor da rainha D. Caterina e 
finalmente, por eleição de D. João III, foi nomeado aio de D. Sebastião, a 
quem não conseguiu modificar o carácter, apesar de toda a sua prudência e 
zelo, devido principalmente à nociva influência sôbre o ânimo da criança exer- 
cida pelo cardial D. Henrique e os dois irmãos Câmaras. No seu posto 
morreu D. Aleixo de Meneses, certamente octogenário, a 21 de Fevereiro de 
1 56g(2). Obras suas encontram-se apontadas por Barbosa Machado na Bi- 
bliotheca lusitana e por êle fragmentos delas reproduzidos nas Memorias 
para a historia de D. Sebastião. 

Encontrava-se D. Aleixo de Meneses, aos setenta e cinco anos, viúvo e 
sem filhos; mas D. João III instou com êle para tornar a casar. Obedeceu; 
casou com D. Luísa de Noronha, filha de D. Alvaro de Noronha, capitão de 
Azamor; e ainda teve numerosa descendência d'entre a qual nomearei D. Luís 
e D. Alvaro de Meneses, que um após outro sucederam na casa de seu pai, 
como veremos, e D. Pedro de Meneses. Nasceu D. Pedro a 25 de Janeiro 
de i559; entrou para a Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho em 24 de 
Fevereiro de 1 574, tomando então o nome de Fr. Aleixo de Jesus; em 1594 
elegeu-o Felipe I arcebispo de Goa; e, sendo confirmado no ano seguinte, 
entrou na sua diocese em Setembro, já com o nome de D. Fr. Aleixo de Me- 
neses pelo qual é conhecido. Na índia, onde celebrou alguns sínodos, per- 
maneceu até iõii, ano em que voltou para Portugal eleito na prelazia de 
Braga, da qual só tomou posse em 161 2. Pouco tempo lá permaneceu, pois 
que indo a Madrid tratar de negócios da sua arquidiocese, Felipe II o nomeou 
vice rei de Portugal. Tomou posse a 6 de Julho de 16 14 e exerceu o cargo 
até 26 de Junho de 161 5 (3). Tornou então para Madrid, nomeado presidente 

(1) Gachard, Don Carlos et Philippe II, pág. 4. 

(2) Esta é a data expressamente indicada em dois documentos: na doação das rendas 
do reguengo de Arronches ao filho primogénito, em satisfação das da vila de Alfaiates, 
«como D. Luís houvera de haver as rendas de Alfaiates de 21 de Fevereiro de i56g em diante, 
que é o tempo que o dito seu pai faleceu»; e na mercê de 40.000 rs. de tença para também 
começar a receber pelo mesmo motivo do referido dia em. diante. Ambas as cartas, dadas 
em Lisboa ao i.° de Junho de i5yi, foram registadas no liv. 2S. de Doações de D. Sebastião, 
fis. 254 v. e 255. Diogo Barbosa Machado, tanto na Biblioteca lusitana, como nas Memorias 
para a historia de D. Sebastião, engana-se pondo a morte de D. Aleixo no dia 7. 

(3) João Pedro Ribeiro, Dissertações, tom. III, part. n, pág. 212. 



Silvas 



do conselho de Portugal, e naquela cidade morreu a 3 de Maio de 1617. 
Compôs várias obras das quais se encontra o catálogo na Bibliotheca lusi- 
tana, vol. I, pág. 90, e vol. IV, pág. 7. 

Por três cartas datadas de Sintra, a 1 de Agosto de 1067, fizera D. Se- 
bastião doação a D. Aleixo de Meneses, seu aio, da alcaidaria mor do cas- 
telo e fortaleza da vila de Alfaiates, com a sua capitania, tudo de juro e her- 
dade e na valia de duzentos mil réis, renda que, por outra carta, seria 
integrada por meio de uma tença de juro na importância da diferença entre 
o computado e o recebido. A terceira carta foi de doação em vida do senhorio 
da dita vila, com todos seus termos, limites e jurisdições (1). Ainda por 
outra carta desse mesmo ano, dada porém em Lisboa a 2 de Outubro, lhe 
permitiu o intitular-se senhor de Alfaiates (2). Não foi grande generosidade 
e parece ter vindo um tanto tarde. Também fôra provido na comenda velha 
da Redinha na Ordem de Cristo (3), mas não chegara a desfrutá-la, parece. 
Dela fez-lhe D. Sebastião mercê, por um alvará, para seu filho mais velho 
depois de seu falecimento; mas, não tendo chegado a ser provido, deu ao 
filho outras rendas em compensação. 

Chamou-se êste filho D. Luís de Meneses e por carta dada em Sintra, a 
i5 de Agosto de 1670, fez-lhe D. Sebastião mercê em duas vidas, em satis- 
fação da referida comenda, da alcaidaria mor do castelo e fortaleza de Ar- 
ronches, tirando o rendimento do reguengo da vila, o qual André de Sousa, 
último alcaide mor, trouxera com as rendas da alcaidaria. Este André de 
Sousa, 6.° alcaide mor de Arronches e senhor de Miranda, morrera pelos 
anos de 1070, deixando apenas um filho único legítimo, criança ainda, que 
pouco tempo lhe sobreviveu. Então vagou a casa para a Coroa; mas, em 
virtude de se terem apresentado vários opositores, só lhe foi sentenceada em 
27 de Março de 1 074, como já vimos (4). Tornando a D. Luís de Meneses, 
direi que por três cartas datadas de Lisboa, a 1 de Junho de 1571, foi-lhe 
feita doação: em duas vidas, das rendas do reguengo de Arronches, em 
satisfação das da vila de Alfaiates, que lhe haviam sido prometidas e foram 
dadas a outrem; 2. , de quarenta mil réis de tença, para, somados com os 
cento e sessenta mil atribuídos às rendas do reguengo, completarem os 
duzentos mil da avaliação de Alfaiates; 3.°, em sua vida, da portagem de 
Arronches (5). Ainda obteve confirmação da alcaidaria do castelo de Alfaiates 

(1) Chancelaria de D. Sebastião, liv. 18. de Doações, fls. 490, 489 e 491. 

(2) Ibidem, fl. 493. 

(3) O seu rendimento veio a ser avaliado, em 1608, em 876^666 rs. — Luís de Figuei- 
redo Falcão, Livro de toda a fazenda, pág. 235. 

(4) Vol. I, pág. 287. 

(5) Chancelaria de D. Sebastião, liv. 28.° de Dações, fls. 2^4 v., 255 e 255 v. 



144 



Brasões 



e do senhorio da vila, por duas cartas dadas em Sintra a i5 de Julho do 
mesmo ano(i). D. Luís de Meneses acompanhou D. Sebastião a Aírica e lá 
morreu com êle na batalha, sem deixar descendência. 

Seu irmão D. Alvaro de Meneses, mais feliz, apenas ficou cativo e, na 
volta do cativeiro, deu-lhe o Cardial Rei, em 17 de Dezembro de 1579, 
alvará para se lhe passarem cartas de mercê da alcaidaria mor de Arronches 
com o reguengo da vila, e da alcaidaria mor de Alfaiates. Foram expedidas 
as cartas a i3 de Agosto de i582 e i3 de Janeiro de i583 (2). Estava então 
D. Alvaro justo a casar com D. Violante de Távora, filha de D. Vasco da 
Gama, 3.° conde da Vidigueira, e da condessa D. Maria de Ataíde. Deste 
casamento foi único filho varão D. Aleixo de Meneses, alcaide mor de Al- 
faiates e de Arronches e senhor do reguengo desta vila, por cartas de confir- 
mação de i5 de Julho de i5g3, 20 de Julho e i3 de Outubro de i5g4(3). 
Poucos anos volvidos meteu-se D. Aleixo frade e professou a regra francis- 
cana. 

Em virtude da profissão de D. Aleixo vagaram para a Coroa os bens, que 
êle dela trazia, e Felipe II fez doação, nos anos de 1606, 1607 e 1614, da alcai- 
daria mor e senhorio de Alfaiates, com o reguengo de Arronches, a Lourenço 
de Sousa, aposentador mor, e a sua mulher D. Luísa de Meneses, irmã do 
referido D. Aleixo de Meneses (4), e em 1621 da alcaidaria mor de Arronches 
a Henrique de Sousa, i.° conde de Miranda (5). Por aquela forma entraram 
na casa dos Aposentadores mores os principais bens possuídos outrora por 
D. Aleixo de Meneses, aio de D. Sebastião, e a representação de sua casa. 

Lourenço de Sousa, depois de receber as sobreditas mercês, poucos mais 
anos teve de vida, por isso que a 19 de Junho de 1626, foi passada, por seu 
falecimento, carta da comenda de Santiago de Beduído a seu filho primogé- 
nito (6). Sua viúva D. Luísa de Meneses veio a ser aia dos infantes filhos 



(1) Chancelaria de D. Sebastião, liv. 28. de Doações, fls. 25o v. e 252. 

(2) Chancelaria de Felipe 1, Doações, livs. 26 o , fl. 232 v., e 27. , fl. 232, transcritas nas 
de confirmação a seu filho D. Aleixo. 

(3) Ibidem, livs. 27. °, fl. 232, e 26. , fl. 232 v. ; e Chancelaria de Felipe II, liv. 24. de 
Doações, fl. 90 v. 

(4) Cartas de iS de Agosto de 1606, 1 de Agosto de 1607, i5 e 18 de Abril de 1614. — 
Ibidem, livs. 24. , fl. 90 v., 19. , fl. 3c, 28. , fl. 299 v., e 38.°, fl. 62. 

(5) Havendo respeito aos serviços que sóror Beatriz da Cruz, religiosa no mosteiro da 
Assunção de freiras descalças da Ordem de S. Francisco da vila de Lerma, que antes d'entrar 
em religião se chamava D. Beatriz de Vilhena, e haver servido de dama da Rainha minha 
mulher, &c. alvará de mercê a Henrique de Sousa, conde de Miranda, seu pai, da alcaidaria 
mor de Arronches em duas vidas. Lisboa, 24 de Janeiro de 1621. — Ibidem, liv. 44. de Doa- 
ções, fl. 233 v. 

(6) Chancelaria da Ordem de Cristo, liv. 12. , fl. 343 v. 



Silvas 



. 4 5 



de D. João IV, e pelos seus serviços foi dado o título de conde a seu neto. 
Teve ela de seu marido dois filhos varões: Aleixo de Sousa de Meneses, 
que seguirá; e Manuel de Sousa da Silva. 

Foi Manuel de Sousa da Silva comendador do Casal na Ordem de Avis, 
mestre sala do príncipe D. Teodósio, vedor da casa da rainha D. Maria Fran- 
cisca e aposentador mor durante a menoridade de seu sobrinho. Morreu cheio 
de desgostos em 1669(1), deixando por herdeira a sua filha mais velha 
D. Luísa Maria de Mendoça e Eça. A outra filha, D. Madalena de Mendoça, 
casou, em fins de 1669, princípios de 1670(2), por ordem do Príncipe Re- 
gente, com Lourenço de Mendoça, 3.° conde de Val de Reis, por carta de 
21 de Agosto de 1672 (3). A primogénita, D. Luísa, veio a ser marquesa de 
Montebelo pelo seu casamento com António Félix Machado da Silva e Vas- 
concelos, 2. marquês de Montebelo, 5.° senhor de Entre Homem e Cávado. 
Foram sextos avós do actual Conde da Figueira. 

Eram os Marqueses de Montebelo senhores da torre de Crasto junto de 
S. Martinho de Carrazeda e mandaram-na reformar em 1699, como consta 
de uma inscrição sobrepujada de um escudo com as armas do Marquês: es- 
quartelado: no I e IV cinco machados em aspa; no II e III dois lióes bata- 
lhantes dentro de uma bordadura carregada de aspas (4). O I quartel é dos 
Machados: de vermelho, cinco machados de prata empunhados de oiro; o II 
não sei a que família pertença. No frontispício do Memorial dei Marques 
ie Montebelo, no brasão lá gravado, também se encontra o tal quartel; é o 
IV do escudete sobreposto, no qual o III é o dos Silvas, o II o dos Machados 
e o I (seis flores de lis, 3, 2 e 1) também ignoro a que família pertença. 
Nesta gravura, note-se, os dois bicharocos parecem mais dois lobos que dois 
liões heráldicos. Não são armas de família portuguesa, posso quáse jurá-lo; 
deverão ser dalguns Osórios ou Velosos, ou coisa semelhante, de quem Mon- 
tebelo julgasse descender a varonia dos Machados. O escudete sobreposto 
é, como se sabe, o principal das armas; nele, ou se indica a varonia, ou a 
representação da casa. Portanto aqueles dois quartéis, tanto o das flores de 



(1) Monstruosidades do tempo e da fortuna, págs. 107 e 108. 

(2) Esta é a data indicada nas cit. Monstruosidades, pág. 124. D. António Caetano de 
Sousa, nas Memorias dos grandes, pág. 591, põe o casamento no dia i5 de Janeiro de 1669, por 
pia fraude, para justificar o nascimento do primeiro filho seis meses depois de efectuado o 
matrimónio. Pois foi exactamente por causa da antecipação, que o casamento se celebrou 
por ordem urgente superior. 

(3) Ofícios e mercês de D. Afonso VI, liv. 36.°, fl. 218. 

(4) D. Carolina Michaèlis de Vasconcelos, Poesias de Francisco de Sá de Miranda. 
pág. xuv. 

VOL. II 19 



146 



Brasões 



lis, como o dos lobos ou liões, eram das mais autorizados na opinião do Mar- 
quês, que não deixava as suas prosápias por mãos alheias. 

Aleixo de Sousa de Meneses, acima nomeado, foi 4. aposentador mor e 
morreu moço antes da Restauração (1), havendo casado com D. Luísa de 
Távora, filha de Luís de Miranda Henriques, estribeiro mor, e de D. Joana 
Guedes, o,. a senhora de Murça. Deste casamento nasceu únko Lourenço de 
Sousa da Silva e Meneses. Sucedeu na casa, foi 5.° aposentador mor e 
i.° conde de Santiago de Beduído, por carta de 12 de Novembro de 1667 (2), 
serviu na guerra contra Castela, chegando a ocupar o pôsto de General de 
batalha, e morreu em 1675 (3), deixando um só filho varão por seu sucessor. 

Chamou-se ele D. Aleixo de Meneses, foi 2. conde de Santiago de Be- 
duído (4), 6.° aposentador mor (5), senhor das vilas de Estarreja e de Alfaiates, 
e do reguengo de Arronches, alcaide mor de Ervededo e de Alfaiates, comen- 
dador de Santiago de Beduído e de Santa Maria de Castelo Branco na Ordem 
de Cristo, padroeiro da capela mor da igreja de Santa Cruz do Castelo de 
Lisboa e deputado da Junta dos Três Estados. Faleceu em Belém, com se- 
tenta anos incompletos, a 28 de Novembro de 1744(6), tendo casado em 



(1) Por carta de 6 de Agosto de 1637 foi concedida a comenda de Santiago de Beduído 
a Lourenço de Sousa [de Meneses], filho de Aleixo de Sousa de Meneses, que Deus perdoi, 
tendo consideração ao estado em que por sua morte ficaram sua mãe D. Luísa de Meneses, 
sua mulher D. Luísa de Távora e ele próprio Lourenço de Sousa, a quem foi imposta a obri- 
gação de pagar 200 cruzados de pensão a cada uma das referidas senhoras. — Chancelaria 
da Ordem de Cristo, liv. 23.°, fi. 2. 

(2) Havendo respeito aos merecimentos e serviços de Lourenço de Sousa de Meneses, 
meu aposentador mor, e em particular aos que me fez nas fronteiras deste reino na guerra 
contra Castela, ocupando os postos de mestre de campo e sargento mor de batalha, em que 
procedeu com singular valor e muito a minha satisfação. . . tendo outrossi consideração aos 
serviços que sua avó D. Luísa de Meneses fez à Rainha minha mãe nas ocupações de sua 
guarda maior e aia, assistindo-a e acompanhando-a até o tempo de seu falecimento, pelos 
quais serviços lhe fiz mercê, entre outras, para o dito Lourenço de. Sousa do título de conde 
passados quatro anos, e ora me representar o dito Lourenço de Sousa faltarem-lhe para 
cumprimento deles três meses, &c. Carta do título de conde do lugar de Santiago de Be- 
duído, d'onde êle é comendador, em sua vida. — Chancelaria de D. Afonso VI, liv. 20. de 
Doações, fi. 232 v. 

(3) P. e Sousa, Memorias dos grandes, pág. 53j. 

(4) Carta de 3 de Março de 1676. — Chancelaria de D. Afonso VI, liv. 38.° de Doações, 

fi. 97 v. 

(5) Carta de 27 de Abril de 1695, indicada pelo P. e Sousa na Historia genealógica, VII, 

715-716. 

(6) Gajeta de Lisboa de 3 de Dezembro. Aqui dá-se ao Conde de Santiago o nome de 
Aleixo de Sousa da Silva e Meneses; mas nos documentos aparece sempre nomeado 

D. Aleixo de Meneses somente. 



Silvas 



147 



1695 com D. Leonor de Meneses, filha dos 2. 08 Marqueses de Fronteira, de 
quem teve vinte e oito filhos dos quais doze «morreram meninos». Deles 
mencionarei os seguintes: 

Lourenço António de Sousa da Silva e Meneses nasceu a 29 de Dezembro 
de 1708; foi 3.° conde de Santiago (1), 7. aposentador mor, senhor da casa, 
tenente general do exército (2) e governador da torre de S. Juliao da Barra; 
e faleceu a 7 de Fevereiro de 1786 (3). Casara a 6 de Janeiro de 1749 com 
D. Josefa de Noronha, filha dos 2. 0S Marqueses de Angeja, que havia nascido 
a 11 de Agosto de 173 1 e veio a falecer a 24 do mesmo mês de 1791 (4), 
sem ter tido filhos. 

D. Fernando de Sousa da Silva, quarto cardial patriarca de Lisboa, eleito 
em Dezembro de 1776 e sagrado a 3o de Maio de 1779, havia nascido a 26 
de Novembro de 1712, fora nomeado principal da Patriarcal em 3i de Julho 
de 1755 e veio a morrer a 11 de Abril de 1786(5). 

Nuno Aleixo de Sousa da Silva, foi 4. conde de Santiago pór carta de 
27 de Julho de 1786(6). Havia sido cónego da Patriarcal e, depois de 
suceder na casa, veio a ser 8.° aposentador mor, senhor de Estarreja, Al- 
faiates e reguengo de Arronches, alcaide mor de Alfaiates e de Ervededo, 
padroeiro da capela mor de Santa Cruz do Castelo de Lisboa, e comendador 
de Santiago de Beduído e Santa Maria de Castelo Branco na Ordem de 
Cristo. Morreu em Lisboa, na noite de 29 para 3o de Abril de 1798, com 
oitenta e cinco anos de idade, havendo nascido a 17 de Julho de 1713(7). 



(1) Carta de 3 de Janeiro de 1728. — Ofícios e mercês de D. João V, liv. 72. , fl. 272. 

(2) Por decreto de 3o de Abril de 1762, alegando a razão de ir para a campanha, alcançou 
o Conde de Santiago a moratória, que pedira, para poder durante dois anos receber todos 
os rendimentos da sua casa então cominados a crèdores. Está no cartório do hospital de 
S. José, junto aos mais papéis da capela de Afonso de Albuquerque. Pus aqui esta nota 
para, conjugando-a com o que ficou dito no capítulo dos Condes de Unhão, se apreciar o 
estado em que se encontravam nesses tempos a maior parte das casas fidalgas. 

(3) Gajeta de Lisboa de 11. 

(4) Gaveta de Lisboa de 3o. 

(5) Gaveta de Lisboa de 14. 

(6) Tendo consideração a Nuno Aleixo. . . ficar sucedendo na casa dos Condes de San- 
tiago de Beduído por falecimento de seu irmão. .. e a que lhe pertence a verificação da 
vida, que em todos os bens da Coroa e Ordens possuía a mesma casa, em remuneração de 
serviços concedida a D. Luísa, aliás Luzia, de Meneses para a pessoa que suceder na sobre- 
dita casa, &c. Carta de conde de Santiago de Beduído em sua vida {Ofícios e mercês de 
D. Maria 1, liv. 28. , fl. 90). — Análoga é a carta de aposentador mor dada a 14 de Agosto 
do mesmo ano (Ibidem, liv. 27. , fl. 36 1 v.). 

(7) Gajeta de Lisboa de 8 de Maio de 1798, onde se dá a notícia da morte e idade, e 
Almanachs de Lisboa, onde se lhe indica o dia dos anos a 17 de Julho. 



148 



Brasões 



Casara a 5 de Fevereiro de 1788 com D. Francisca Leonor de Castro (1), 
que morreu no ano seguinte a 24 de Setembro, com vinte e nove anos de 
idade (2), e era filha dos i. os Condes de Rèsende. Esta pobre senhora foi 
obrigada a casar aos vinte e sete anos com um velho de setenta e quatro, de 
uma família degenerada, na qual de vinte e oito irmãos só duas senhoras 
tiveram filhos, e ainda assim uma delas, a Condessa da Ponte (3), de cinco 
filhos que teve perdeu quatro; morreram crianças. Existiu na verdade um 
irmão que teve uma filha; mas esse melhor fôra que a não tivesse tido. Foi 
êle D. Francisco Manuel de Sousa da Silva, monsenhor protonotário da Pa- 
triarcal, falecido em 1782 e pai de D. Maria Mascarenhas de Sousa da Silva 
e Meneses, mulher de Lourenço Anastácio Galvão Mexia, estribeiro menor 
da casa real e autor de vários opúsculos. 

D. Joana Inês Vicência de Meneses nasceu antes de seus irmãos, casou 
com D. Brás Baltasar da Silveira, i.° senhor de S. Cosmado, de quem foi 
primeira mulher (4) e teve duas filhas. Casaram ambas com Nuno Gaspar 
de Távora, depois de Lorena; da primeira foi bisneto D. Brás Maria da Sil- 
veira e Lorena, 9. marquês das Minas, e da segunda foi filha D. Francisca 
de Paulo do Pópulo de Lorena, marquesa de Pombal, que veio a herdar, 
por morte da última Marquesa das Minas, os morgados desta casa e, por morte 
de D. Luzia de Meneses, os da casa de Santiago. 

D. Luzia Maria de Meneses, ou simplesmente D. Luzia de Meneses, já 
era dama da Rainha em 1750 e continuou servindo no paço até se finar. 
Ainda é mencionada no Almanach de Lisboa para o anno de 1802, mas já 
se não encontra no do ano seguinte. Havia sucedido a seu irmão Nuno 
Aleixo nos morgados da casa de Santiago, entre os quais se compreendia a 
administração da capela da Graça instituída pelo grande Afonso de Albu- 
querque e êste vínculo veio a passar por sentença à referida Marquesa de 
Pombal D. Francisca. Tudo irá melhor explicado no artigo dos Albuquer- 
ques. 

Da Marquesa D. Francisca foi bisneto António de Carvalho Daun e Lo- 



(1) Gaveta de Lisboa de 9 de Fevereiro. 

(2) Gaveta de Lisboa de 29 de Setembro. 

(3) D. Ana Caterina de Meneses casada com Luís de Saldanha da Gama de Melo e 
Torres, 4. conde da Ponte. 

(4) A segunda, com quem casou D. Brás Baltasar, a 25 de Fevereiro de 1732, foi D Maria 
Caetana de Távora, dama do paço e filha dos i. os Condes de Povolide. D. Brás morreu a 
7 de Agosto de 1751 e sua viúva, que passou a chamar-se D. Maria Caetana da Cunha depois 
de ser proscrito o apelido Távora, foi criada marquesa de Povolide e camareira mor da 
rainha D. Mariana Vitória e veio a morrer com oitenta e quatro anos, não exercendo ;á o 
cargo, em 22 de Outubro de 1783 (Gaveta de 1 de Novembro). 



Silvas 



H9 



rena, 5.° conde de Santiago de Beduído, por decreto de 3i de Julho de 1 865, 
e ó.° marquês de Pombal, por outro decreto de 21 de Outubro de 1886. Do 
5.° conde de Santiago foi filho segundo o actual 6.° conde. 

As armas dos Condes de Santiago eram: esquartelado: o I e IV contra 
esquartelado das armas do reino, diferençadas por um filete de negro sobre- 
posto em barra, e de uma caderna de crescentes de prata em campo ver- 
melho (Sousa); o II e III de prata, lião de púrpura, armado e linguado de 
azul (Silva). 

Aqui terminarei a sinopse dos Silvas. Apenas me referirei mais e de cor- 
rida a uns Silvas existentes no Brabante, onde tiveram o título de marquês 
de Monfort em 1682 e que trazem no primeiro quartel das armas, em campo 
de azul um liao coroado de oiro(i). Pela semelhança destas armas com as 
dos nossos Silvas, das quais apenas diferem nos esmaltes, suponho provirem 
aqueles dalgum ramo que no Brabante enraizasse. 

No Armoriai citado na nota também se mencionam uns Silvas em Milão, 
os quais, no segundo quartel das suas armas, trazem em campo de azul um 
lião de oiro. Na mesma cidade existem igualmente uns Condes Silvas, que 
do mesmo modo usam num dos quartéis do escudo de um liao ; êste porem 
é muito dissemilhante, não só nos esmaltes, mas por ser rompente contra 
uma árvore. Ainda em Milão teem a sua casa os Marqueses de Silva-Cas- 
tiglione, que outrossim carregam o seu escudo com um lião de oiro em campo 
azul, com a grande diferença contudo do lião segurar em cada uma das garras 
uma chave. 

E agora poderei escrever como os velhos autores: Finis, laus Deo. 

NOTAS 
I 

CATÁLOGO DOS REGEDORES DAS JUSTIÇAS 
DA CASA DA SUPLICAÇÃO 

Segundo prometi ao terminar a lista dos senhores de Vagos, vou apresentar aqui o 
catálogo cronológico dos Regedores das justiças da Casa da Suplicação. Apesar de me 
fundar em documentos e monumentos dignos de fé, não tenho presunções de fiizer obra 
perfeita. Dos primeiros tempos faltam documentos precisos e tenho de proceder por indica- 
ções, seguras certamente, mas todavia pouco explícitas. Começarei em 

L — D. ALVARO DE ABREU, bispo de Évora. — Existe uma carta régia dirigida de 
Santarém, a 2 de Novembro de 1430, a D. Alvaro de Abreu, bispo de Évora, que então tinha 



(1) Rietstap, Armoriai general, II, 874. 



Brasões 



«cargo da Casa da Relação e justiça em a- Corte», e a Pedr'Eanes Lobato, que isso mesmo 
tinha cargo do regimento da Casa do Cível da cidade de Lisboa (i). É o bispo D. Alvaro o 
mais antigo regedor das justiças por mim encontrado em documentos; e, pôsto que o seu 
cargo não apareça designado por aquela denominação, isso não obsta a ele não corresponder 
em tudo ao que posteriormente teve a designação de regedor. Pelo documento citado 
ficamos sabendo serem então os chefes da justiça no reino, os regedores dela, o Bispo, na 
Casa da Relação da Corte, a futura Casa da Suplicação, e Pedr'Eanes Lobato, na Casa do 
Cível de Lisboa. Morreu D. Alvaro de Abreu em 1440 (2). 

II. — D. FERNANDO DA GUERRA, arcebispo de Braga, primo dei Rei, foi regedor 
das justiças. Já exercia o ofício em Dezembro de 1441, como consta de um documento do 
cartório arquiepisçopal de Braga visto e extratado por Lousada (3). Por este mesmo tempo 
foi, segundo parece, nomeado chanceler mor. Efectivamente, se ainda a 28 de Novembro 
daquele ano de 1441 se encontra o dr. Diogo Afonso, seu predecessor no cargo, livrando 
uma carta registada a fl 55 da Chancelaria de D. Afonso V, é certo ver-se no verso da mesma 
fôlha outra carta, também de idêntico dia, mandada já passar pelo dr. Rui Gomes de Alva- 
renga, vassalo dei Rei a do seu Desembargo e Petições, «logo teente do Arcebispo de Braga, 
seu primo e seu chanceler mor» (4). D. Fernando da Guerra era filho, ilegítimo na minha 
opinião (5), de D. Pedro da Guerra, bastardo do infante D. João, e já estava provido no bis- 
pado do Pôrto em 1416, sendo no ano seguinte transferido para o arcebispado de Braga, no 
qual foi definitivamente confirmado em 1418. Nas suas ausências era substituído, segundo 
parece, pelo dr. Rui Gomes de Alvarenga; é, pelo menos, o que se depreende de um assento 
tomado a 4 de Janeiro de 1457, àcêrca de umas dúvidas apresentadas, «estando elRei... em 
Relaçom, per o Doctor Rui Gomes dAlvarenga, Cavaleiro, Comde Palatino, do Comselho 
do dito Senhor e Presidente por elle na sua Casa da Sopricaçom» (6). Passada meia dúzia 
de anos renunciou D. Fernando ambos os cargos e neles foram providos, por cartas de 10 
de Agosto e 12 de Setembro de 14Õ3, os drs. Rui Gomes de Alvarenga e João Fernandes da 
Silveira, respectivamente, em chanceler mor um e regedor da Casa da Suplicação o outro (7). 
Faleceu o Arcebispo a 26 de Setembro de 1467, como declara o epitáfio da sua sepultura no 
chão da capela de S. Nicolau da Sé de Braga, nestes termos : Aqui ja^ o muito nobre senhor 



(1) Chancelaria de D. João I, liv. 4. , fl. 122 v., tendo o copista escrito por êno Era de i-po, quando a carta é 
do ano do Nascimento de 1430. Se fôsse da era de César de 1430, vinha a cair no ano do Nascimento de i3q2 e nesse 
tempo o bispo de Évora chamava-se D. João ; ao passo que se encontra D. Alvaro de Abreu presidindo àquela diocese 
em m3o e anos seguintes {Évora gloriosa do P.e Francisco da Fonseca, pág. 284, § 504 e pág. 286, § 5og). J. P. Ri- 
beiro não reparou e mencionou êste documento, com o érro na data, nos Addilamentos e retoques a Synopse chronolo- 
gica, pág. 87. 

(2) P.e Francisco da Fonseca, Évora gloriosa, pág. 287. 

(3) «No Livro de mão do Cartono Primacial cm que estão algumas leis, que fez el Rey dom Afionso o 5 e pro- 
visoens que passou em seu tempo, esta huma dos bens que elRey daa a algumas pessoas, por os perderem para a 
coroa do Reino. Foi passada em Santarém no Dezembro anno 1441. sendo Regente o Iffante e Regedor da Justiça o 
Arcebispo de Braga; em hum feito de Fernão Gomes de Lemos«. — Gaspar Alvares de Lousada, Sumários da Tôrre 
do Tombo, II, 328 v. mihi. 

(4) A Chancelaria de D. Afonso V, no Archivo histórico portuguez, III, i38. 
|5) Brasões de Cintra, II, 90. 

(6| Fragmentos de legislação nos Inéditos de historia portuguesa, III, 25l. — O dr. Rui Gomes de Alvarenga 
havia sido nomeado presidente da Casa da Suplicação por carta de 29 de Julho de 1452 (Chancelaria de D. Afonso V, 
liv. I2. J , fl. 85). J. P. Ribeiro, reportando-se ao liv. de Extras, fl. r,8 v., traz esta carta com a data de 29 de Junho, 
em vez de Julho, nas Advertências à Synopse Ckronologica, pág. 127. A data da Chancelaria é de mais confiança 
por ser o original d'onde se copiou para o Extras. 

(7) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 9. , fl. 146. 



Silvas 1 5 1 

D. Fernando Arcebispo de Braga & bisneto delRey D. Pedro & finou aos xxvj de Setembra 
de MCCCCLxvij(i). 

DI. — DR. JOÃO FERNANDES DA SILVEIRA, do conselho, foi nomeado regedor da 
Casa da Suplicação, em virtude da renúncia do Arcebispo de Braga, por carta de 12 de Se- 
tembro de 14Ó3 (2). Exerceu o cargo 'até 3i de Outubro de 1473, como consta da carta de 
nomeação de seu sucessor. Criado i.° barão de Alvito, por carta de 27 de Abril de 1475(3), 
passou d'entáo em diante a chamar-se D. João da Silveira. Morreu em fins de 1488, prin- 
cípios de 1489. 

IV. — D. ÁLVARO, sobrinho dei Rei, teve carta de regedor da justiça da Casa da Su- 
plicação dada em Alenquer, a i5 de Outubro de 1473, por quanto o dr. João Fernandes, do 
nosso conselho, que o dito ofício e cargo tinha, o temos encaminhado a seu contentamento 
em outros cargos do Príncipe ; o qual cargo terá D. Alvaro na maneira e com aqueles po- 
deres, preeminências, privilégios, etc, com que o teve D. Fernando, arcebispo de Braga, e o 
começará a servir do i.° de Novembro em diante (4). Tendo D. Alvaro sido nomeado chan- 
celer mor, por carta dada em Toro, a 1 1 de Agosto de 1475 (5), parece haver então largado 
o cargo de regedor, pelo menos no ano seguinte com ele se encontra outro fidalgo; tornou 
porem a serví-lo, como logo direi. 

V. — D. RODRIGO DE NORONHA, bispo de Lamego^sobrinho dei Rei, capelão mor 
em Portugal e regedor da Casa da Suplicação, com todos estes títulos aparece numa carta 
de cento e cinquenta mil reais de tença para haver do i.° de Janeiro de 1476 em diante, carta 
dada no Pòrto a 2 de Agosto do mesmo ano (6). Esta tença era provavelmente a ordenada 
ao ofício de regedor, o qual o Bispo começaria a exercer no princípio daquele ano, pois que 
já a 19 de Abril dèle estivera, em Santarém, em relação, presidindo na qualidade de re- 
gedor (7). Com os mesmos títulos mencionados acima encontra-se D. Rodrigo noutra 



(1) D. Rodrigo da Cunha, Historia ecclesiaslica de Braga, II, 32fi. — Mandara o Arcebispo dar sepultura a seu 
pai na igreja do convento velho de S. Domingos de Coimbra, segundo referia o respectivo epitáfio : Aquija\ dom Pedro 
chamado da Guerra, filho do Infante dom João e neto delRei dom Pedro de Portugal e da infante D. Ines de Castro 
sua mulher e bisneto delRei dom Afonso o 4. que venceo a batalha do Salado em favor e ajuda detRei dom Afonso 
de Caslella seu genro. E este dom Pedro foi padre de dom Fernando Arcebispo de Braga que o aqui mandou tras- 
ladar o primeiro dia de Agosto de 1443. — Lousada, Sumários da Torre do Tombo, II, fl.^j.4 1 v. mihi. 

(21 Chancelaria de D. Afonso V, liv. 9. , ti. 146. * 

(3) Ibidem, liv. 3o.°, fl. 66. 

14) Ibidem, liv. 33 °, fl. 225 v. 

(5) Ibidem, liv. 3o.°, fl. 170. 

|6) Ibidem, liv. 7. , fl. 43. 

(7) Assento daquela data copiado no Livro das Extravagantes de Duarte Nunes do Lião, fl. 228 v., e impresso a 
pág. 56i do III vol. dos Inéditos de Historia poktugueza, com a data errada, como se adverte na tabela das erratas. 

Aquela colecção de leis ordenada por Duarte Nunes do Lião é diversa da impressa em 1 56g e conserva-se manus- 
crita. O seu titulo é assim : Livro das extravagantes, que alie ho tempo presente ha na cata da Suplicação. Ho 
qual se lançou na Torre do lombo. No anuo do senhor de MDLXV1. Per mádado do Sereníssimo príncipe ho In- 
fante Dó Henrique presbylero do titulo dos Sanctos quatro coroados. Cardeal de portugal Regente destes regnos. 
Ao frontispício segue-se no alto da primeira fôllia a dedicatória : «Ao muito alto e Sereníssimo Senhor Cardeal In- 
fante Dó Henrique Governador destes regnos o licenciado Duarte Nunez do Lião». No fim a data: «Em Lisboa a 
quinze de novembro de M.D.LX.VL». O recto da segunda lólha está em branco ; no verso porém, por cima de uma 
poesia em latim, lè-se: «Ad Sebaslianum Lusitanorum Regem Augustum Michael Cabedius ex ordini Senatorio». Na 
fl. 3 outra dedicatória: -Ao muito iliustre Sôr. o senhor Lourenço da Sylva, Regedor da Justiça destes regnos». A 
*.* fôlha cm branco; na b* um desenho à pena com as armas do reino; na 6. J eomeça a parte 1 da compilação. Na 
fl. 322, ultima do códice, encontra-se a autêntica escrita pelo próprio punho de Duarte Nunes: «Cerlchco eu o L.J* 



Brasões 



carta passada em Lisboa, a 23 do mesmo mês de Agosto, pela qual foi nomeado governador 
e protector do Estudo e Universidade de Lisboa, destribuidor de todos os resíduos do ar- 
cebispado da mesma cidade, governador dos hospitais, albergarias e gafarias de Portugal, e 
juiz dos Pobres da serra de Ossa, sendo pelo mesmo diploma autorizado a poder, com todos 
os seus, poisar em todos os paços reais de Portugal (i). Na carta de nomeação de desem- 
bargador da Casa da Suplicação do dr. Rui Boto, dada em Évora a i5 de Novembro de 1476, 
manda-se-lhe dar a posse por D. Rodrigo de Noronha, bispo de Lamego, primo, que ora é 
regedor da dita Casa (2). De uma determinação de 21 do mesmo mês consta ser ainda re- 
gedor (3) ; tinha porém já morrido a 26 de Janeiro de 1478, quando aquela determinação foi 
limitada (4). Morrera, segundo dizem, em Évora, no mês de Setembro de 1477 (5). Não se 
sabe ao certo de quem D. Rodrigo de Noronha foi filho; conjecturo porém que seu pai tivesse 
sido o arcebispo de Lisboa D. Pedro de Noronha. Tem a minha conjectura a seu favor, 
alem doutros indícios, os factos de D. Pedro de Noronha, outro filho do Arcebispo, estar já 
nomeado mordomo mor do Príncipe em 1475, quando começou o engrandecimento de seu 
irmão, e de a ambos êles em diplomas régios ser dado o mesmo tratamento de sobrinho. 
Estes dois factos juntos à identidade do apelido, fazem prova suficiente; mas ainda há 
mais. 

Na Chancelaria de D. Afonso V, no liv. 25.°, fl. 9, encontram-se registadas a seguir quatro 
cartas de legitimação todas datadas de i3 de Agosto de 1444 e relativas a filhos de D. Pedro, 
arcebispo de Lisboa. Pela última, lançada no verso da folha, foi legitimado com cláusulas 
especiais D. João, havido em D. Isabel, mulher solteira; pelas outras três foram legitimados 
D. Isabel, D. Pedro e D Pedro, todos havidos de Branca Dias, também mulher solteira. 
; É crível que o Arcebispo tivesse tido da mesma mulher dois filhos ambos Pedros ? Não 
é crível. Um dêles era Rodrigo e o outro Pedro. Nesses tempos usavam-se muito abre- 
viaturas, e as de Rodrigo e de Pedro, respectivamente R° e P°, muito fácilmente podiam ser 
confundidas pelo escrivão da Chancelaria mor encarregado de apontar no livro os diplomas, 
registados apenas em extracto, note-se, e não por extenso. Um dos Pedros teve legitimação 
simples, o outro teve-a com cláusulas especiais (6); êste deveria ser o Rodrigo, a quem as 
cláusulas especiais foram concedidas para se poder elevar no estado eclesiástico por êle 
abraçado. Foram elas também concedidas ao irmão João por êle ao tempo estar ajustado a 
casar, se não já casado (7), com uma filha de Alvaro Gonçalves de Ataíde, aio de D. Afonso V 
e futuro i.° conde da Atouguia, homem de grande valimento. 



Duarte Nunez do Lião q neste luiro vão todas as leis extrauagantes que stáo no original e copilaçáo q compus per or- 
denança do Sór Lourenço da Sylua q fica na casa da Suplicação. E pur certeza dello fiz e assinei este. xxiij de Noucb" 
de 1 566. / 1)' E nunez*. Termina com a Tavoada lançada em 16 fo'.has inumeradas. 

Êste exemplar existe na Torre do Tombo; outro que estava no cartório da Casa da Suplicação, guarda-se hoje 
no arquivo da Relação de Lisboa. Descreve-o minuciosamente João Pedro Ribeiro nas Reflexões históricas, part. II, 
pág. 1:4, e da sua descrição conhece-se serem iguais os dois exemplares. 

(1) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 7.", fl. 43. 

(2) Ibidem, fl. 94 v. 

(3) Fragmentos de legislação nos Inéditos de historia portuguesa, III, 553. 

(4) Ibidem. 

(5) Fr. Fernando da Soledade, Historia seráfica, part. III, pág. 585, § 947. 

(6) Eram muito amplas estas cláusulas especiais e podem-se ver na carta de legitimação do neto de Fernão 
Lopes, impressa a pág lix da Introdução à Primeira parte da Crónica de D. João I da edição do Arquivo histórico 

PORTUGUÊS. 

17) Por carta de 27 de Abril de 1443 deu Afonso V a D. João de Noronha, fidalgo de sua casa e filho do Arce- 
bispo de Lisboa, 40.00 > rs. de tença em satisfação de 4.000 coroas de oiro, que prometera em casamento a D. Felipa, 
donzela de sua casa, filha de Alvaro Gonçalves de Ataíde, nosso aio e do nosso conselho, a qual casámos. Manda 
pagar a tença a D. João do dia em que tomar sua casa em diante — Chancelaria de D. Afonso V, liv. 5.°, fl. iíí v. 



Silvas 



1 53 



VI. — D. ÁLVARO, sobrinho dei Rei e chanceler mor do reino, torna a encontrar-se 
intitulado regedor da justiça na carta de 25 de Janeiro de 1479, pela qual foi nomeado desem- 
bargador da Casa da Suplicação o dr. Vas*co Fernandes, desembargador do Príncipe (1). 
Ainda exercia D. Alvaro o ofício de regedor, cumulativamente com o de chanceler mor, em 
10 de Outubro da 1482, como se vê na carta de desembargador da Casa da Suplicação dada 
a Afonso Alvares, ouvidor do Mestrado de Santiago (2). Expatriou-se D. Alvaro em 1483, 
depois de fins de Maio, em seguida à prisão de seu irmão o Duque de Bragança (3); mas, 
segundo parece, não lhe seriam logo tirados os ofícios, porquanto uma carta dada em San- 
tarém, a 20 de Maio de 1484, de privilégios aos procuradores da côrte, foi mandada executar 
pelo dr. João Teixeira, do conselho, desembargador do paço e vice-chanceler (4). A 1 de 
Julho do mesmo ano porém foi dada carta de chanceler mor ao referido dr. João Teixeira, 
porquanto D. Alvaro, nosso primo, que o dito ofício de nós tinha, havemos por nosso ser- 
viço que o não tenha mais (5). Esta carta foi mandada executar pelo Regedor da Casa da 
Suplicação, a quem não nomeia, mas que já não era, é óbvio, D. Alvaro. Tornou êle para 
Portugal em 1496, sendo-lhe restituída a casa, mas não o ofício. Morreu a 4 de Março de 
1504. 

VII. — FERNÃO DA SILVEIRA, do conselho dei Rei e coudel mor do reino, ainda a 
14 de Julho de 1485 não era, parece, regedor da justiça, porque então tinha cargo do oficio 
o Chanceler mor (6); a 6 de Janeiro do ano seguinte porem já era regedor (7). Então estava 
a Casa da Suplicação em Lisboa; a 3 de Abril do mesmo ano, reunindo-se ela em Santarém, 
aprovou Fernão da Silveira, seu regedor, certa concórdia (8). Fernão da Silveira é o poeta 
tanta vez lembrado no Cancioneiro geral, onde se encontram muitas trovas suas e muitas 
outras a êle dirigidas. Morreu antes de 14 de Maio de 1498 (9) e, durante algum tempo a 
seguir, teve, «por especial mandado», o dr. Rui Boto, chanceler mor, o cargo de regedor da 
Casa da Suplicação, o qual exercia em 7 de Abril de 1494(10). 

VIII. — D. FERNANDO COUTINHO, bispo de Lamego, sucedeu a Fernão da Silveira 
no cargo de regedor da Casa da Suplicação. Para êle parece ter sido nomeado, como já lá 
acima ficou dito (1 1), em 1492 ou 93, não vindo contudo a tomar posse senão depois de 7 de 
Abril de 1494; em 1496 porém, na carta de 29 de Janeiro, pela qual João Fragoso foi no- 
meado escrivão per ante os ouvidores da Casa da Suplicação, aparece D. Fernando Coutinho 
exercendo o cargo de regedor e o dr. Rui Boto o de chanceler mor (12). Continuou no exer- 
cício nos anos seguintes e, na qualidade de regedor, figura no auto de 7 de Março de 1499 



(1) Chancelaria de D. João 11, liv. 3.°, fl. 2 v. — Aquele dr. Vasco Fernandes é o famoso dr. Vasco Fernandes de 
Lucena, futuro conde palatino, cronista mor e guarda mor da Tòrre do Tombo. 

(2) Chancelaria de D. João 11, liv. 3.°, fl. 71. 

(3) Rui de Pina, Ckronica de D. João II, pág. 45. 

(4) Chancelaria dê D. João II, liv. 23.°, fl. 8y. 

(5) Ibidem, fl. 1 3ç>. 

(6) Sentença daquela data no Ancmvo histórico pcrtuguez, 11, 23o. 

(7) Duarte Nunes do Lião, LiVro das Extravagantes, fl. 3io v. 

(8) Ibidem, fl. 63 v. 

(9) Data da carta de confirmação das Sarzedas, por falecimento de Fernão da Silveira, a Francisco da Silveira 
seu filho. — Chancelaria de D. Manuel, liv. 26. , fl. 78. 

(10) Alvará passado no mosteiro de «Emxabregas» e transcrito por Duarte Nunes do Lião, no Livro das Extrava- 
gantes, fl. 120. 1 

(11) Pig- 58. 

(12) Chancelaria de D. Manuel, liv. 32.°, fl. 86. 



V0L. II 



20 



Brasões 



de juramento do príncipe D. Miguel (i), e aparece mencionado em vários outros documentos 
até 22 de Março de i5o4, sendo nas suas ausências substituído pelo dr. Rui Boto, do conselho 
e chanceler mor (2). Anteriormente, em i5o2, havia D. Fernando Coutinho sido transferido 
para a diocese de Silves. Aqui sucederam os casos escandalosos em virtude dos quais se 
viu forçado a renunciar a regedoria. 

Estando D. Manuel nas casas de Alvaro da Cunha (para as bandas de Xabregas, me 
parece), onde então poisava, mandou chamar à sua presença no dia 22 de Março de t5o4, 
Duarte de Morais, seu moço da câmara, e, depois de lhe tomar juramento, ordenou-lhe que 
dissesse a verdade acerca de um caso trazido ao seu conhecimento. Então ouviu-o e ordenou- 
-lhe que repetisse o seu depoimento perante o secretário António Carneiro, a fim dele lavrar 
o respectivo auto. Pelo depoimento de Duarte de Morais ficamos sabendo que o Bispo de 
Silves Regedor partira uma noite, com um seu estribeiro e mais a testemunha, para a Lagoa, 
para onde previamente havia enviado certos escudeiros seus. Ao chegar à Lagoa meteu-se 
o Bispo numa igreja, onde estavam já os seus escudeiros; lá os deixou e sósinho, apenas 
acompanhado de um camareiro, ausentou-se. D'ali a pedaço voltou, trazendo consigo a pé 
uma moça e seu tio; então puseram-nos ambos em uma azêmola e se tornaram todos, menos 
o Duarte de Morais que ficou na Lagoa. «Nam sabe elle homde aquela noite vieram por 
asy ficar« ; mas «ao outro dia achou todos e Sylves e soube, segundo ouvyo, que ha mocinha 
tynha o bispo ê sua casa. E que sabe que ysto se fez asy cõ prazer do pay da moça e de 
sua may e de seu tio e da mesma moça». ; Santa família ! dignos diocesanos de tal Bispo! 
A rapariga estava para casar, continua o depoimento do Morais, mas o casamento desman- 
chou-se e, quando o Bispo viera agora à corte, deixara-a numa sua quinta da serra. Era 
esta já a segunda moça da Lagoa havida pelo Bispo nas mesmas condições, com aprazi- 
mento da família, e dela tivera uma filha (3). 

Conhecidos estes factos de D. Manuel, soberano casto e zelador da moral na sua còrte, 
levaram-no eles a impor ao Bispo de Silves a resignação da regedoria das justiças. Confor- 
mou-se D. Fernando, renunciou o cargo em seu irmão Aires da Silva e retirou-se para a sua 
diocese. Lá faleceu, em Ferragudo, a 16 de Maio de 1 538 (4). Dalguma das tais mocinhas 
deixou descendência, à qual já me referi. 

IX. — AIRES DA SILVA, do conselho dei Rei, teve o ofício de regedor das justiças da 
Casa da Suplicação em virtude, segundo se diz, da renúncia de seu irmão o Bispo de Silves (5). 
Prestou juramento de regedor em Almeirim, perante el Rei, que então lhe dera a regedoria, 
a 21 de Dezembro do ano de 1 5o5 (6), e no ano seguinte, a 21 de Março, é mencionado como 
regedor numa carta régia endereçada ao chanceler mor Rui Boto (7). Por alvará de 4 de 
Fevereiro de i5i8, por causa da sua doença e indisposição, foi mandado servir na regedoria 



(1) P.e Sousa, Provas da Historia genealógica, vol. II, pág 3ç)t, n.° 68. 

(2) A i5 de Junho de i5o2, p. ex. (Livro das Extravagantes, fl. 3o3). Tinha estado porém exercendo o ofício nos 
princípios do ano, a 26 de Janeiro e a 19 de Abril (Corpo cronológico, part. I, mac. i.°, doe. 23 ; Archivo histórico 
portuguez, vol. III, pág. 480, n.° 411). 

(3) Corpo cronológico, part. II, mac. 8.°, doe. 1 14. 

(4) Conforme o seu epitáfio lá acima, na pág. 58, transcrito. 

(5) Damião de Goes na Chronica do felicíssimo rei D. Emanuel, part. I, cap. 24, entre os fidalgos que acompa- 
nharam D. Manuel, em Outubro de 1407, quando foi a Valência de Alcântara realizar o seu primeiro casamento, 
nomeia a Aiies da Silva, regedor da Casa da Suplicação. Foi engano, ou melhor, antecipação. 

(6) Duarte Nunes do Lião, Livro das Extravagantes, í\. 3j, onde se transcreve o termo de juramento com o 
êrro, bem evidente, de o datar do ano de 1 555. Em fins de Outubro de i5o5, fugindo à peste, partira D. Manuel 
de Lisboa para Almeirim e lá passou os meses de Novembro e Dezembro (Corpo cronológico, passim). 

(7) Duirte Nunes do Lião, Livro das Extravagantes, ft. 64 v. 



Silvas 



i 55 



seu filho João da Silva (i), em quem renunciou definitivamente o ofício no ano de i522. 
Parece porem ter ainda depois disto tornado por algumas vezes a desempenhar o cargo, por 
isso que a Aires da Silva, na qualidade de regedor, são dirigidos alvarás a 26 de Março e i3 
Dezembro de 1528(2). Foi Aires da Silva o 5 o senhor de Vagos e morreu a 25 de Março 
de i53o, segundo declara o seu epitáfio já transcrito. 

X. — JOÃO DA SILVA, filho primogénito do precedente, foi, por alvará de 4 de Feve- 
reiro de 1 5 18, mandado servir no ofício de regedor da Casa da Suplicação, em quanto durasse 
o impedimento por doença de seu pai (3). Pouco depois, sendo já do conselho, foi-lhe dada 
em Lisboa, a 17 de Fevereiro de i522, carta do referido ofício, como o tinha seu pai, que o 
renunciara para ser dado ao filho (4). Passado um ano, em Almeirim, a 18 de Março de 
i"523, arbitrou el Rei a João da Silva, a contar do i.° de Janeiro passado, a tença anual de 
cento e dois mil e oitocentos e sessenta e quatro reais de assentamento de conde, entrando 
nela os oitenta e cinco mil reais do ordenado de regedor (5). João da Silva foi o 6.° senhor 
de Vagos e morreu a 11 de Agosto de i55y, com setenta e cinco anos de idade e quarenta 
de regedor, como declara o já transcrito epitáfio, que parece dar-lhe um ano a mais no 
exercício do cargo. 

D'aqui em diante deixou o cargo de regedor das justiças da Casa da Suplicação de ser 
vitalício, e passou a ser temporário. Organizou-se, também por estes tempos, o Livrinho 
da Casa da Suplicação, como o designa J. P. Ribeiro, ou o Livro antigo das posses da Casa 
da Suplicação, segundo a indicação do abade Correia da Serra; mas que, na verdade, se 
deverá chamar Livro dos juramentos e posses da Casa da Suplicação. Descreve-se o códice 
no vol. III dos Inéditos de historia portugueza, onde, de pág. 54.5 em diante, se reproduz 
a matéria das suas primeiras folhas sob o título de Fragmentos de Legislação Portuguesa. 
Começam os termos de juramento na foi. 71 v. com o de D. Luís Pereira; mais antigos 
porém são os de D. João de Melo, D. Francisco Coutinho e Lourenço da Silva, lançados 
contudo em folhas subsequentes. Acaba o livro na fl. 362 com o termo de juramento e 
posse, a 5 de Maio de 1753, do procurador da Fazenda António da Costa Freire, escrito o 
termo no recto da fôlha. No verso dela ainda se registou outra posse, mas em tam má cali- 
grafia, que só se percebe a data, i5 de Maio de 1753. 

Aproveitarei para a minha tarefa estes termos de juramento; antes porém de continuar 
nela parece-me interessante, visto me não constar a sua existência impressa, transcrever a 
fórmula do juramento do regedor, a qual se encontra nas folhas 75-77, e se manteve até 
171 1, pelo menos. 

Fórmula do Juramento. — «Eu foam Regedor da casa da sopricaçã. juro aos sanctos 
euãgelhos e q ponho as mãos. q nõ dey a ninhúa pessoa nê darey. nê prometi de dar ne 
mãdar ne mandarei cousa algúa a algúa pessoa, por causa de me ser dado o dito offiyçio & 
carreguo. né pera o diante o ter. & asy juro q quanto a my & a minhas forças & juizo for 
possiuel eu sseruirei o offiçio do regiméto da dita casa. de que sua alteza me fez merçee. 
bem & fyelmente. como a seruyço de d's & descarreguo da cõciençia. do dito senhor & 
minha, cõprir & trabalhare que o dereito & justiça jnteira & jgualmête se guarde aas partes. 



(1) Duarte Nunes do Liáo, Livro das Extravagantes, fl. 3y v. 

(2) Ibidem, fls. i35 v. e 127. 

(3) Ibidem, fl. 37 v. 

(4) Chancelaria de D. João III, liv. 5r° de Doações, fl. 35 v. 

(5) Ibidem, liv. 3.°, fl. 40 v. 



1 56 



Brasões 



sem algúua deferença. nem Respeito q aya de grandes & pequenos nê de ricos & pobres, né 
de estrangeiros. & naturaes. por que quãto e mí for sempre procurarey q a todo se faça & 
guarde por jnteyro & em especial terei cuydado dos presos. & orfaão & viuuas. & pobres. 
& pessoas miserauees. & trabalharey quãto ê my for & o regiméto de meo offiçio me der 
poder, que todos os feitos & negócios, dos sobreditos, se despache bem justa & breueméte. 
sem algua paixã de odio. amor. afeiçom. parentesco, né doutro semelhante respeito. E isso 
mesmo juro & prometo que por mjm ne por antreposta pessoa, nõ reçeberey dadiua pre- 
sente né seruiço alguu de qual quer pessoa q na dita casa tragua ou aa minha noticia vier 
que ha de trazer alguu feito ou demãda. saluo daqueles cõ que eu tenha tal diuido & paren- 
tesco ou razã. a que por dereito deua ser suspeito. & polia dita maneira quando o souber 
nõ o leixarei leuar aalguu desembargador, né offiçial de justiça da dita casa. E asy cõ deli- 
gemçia trabalharey que os desembargadores, escriuães. procuradores, meirinhos, carcereiros 
& todolos outros offiçiaes. & ministros da justiça que debaixo de meu mandado & jurisdiçã 
esteueré". bem & dereitamente. seguido seus Regijmétos seruam seus offiçios. & sen escam- 
dalo. Cautella. né delonga, guarde. & faça aas partes, em todo. dereito & de justiça, aos 
quaes y ynteiraméte. & sem mingua alguua farei guardar todalas leis. & ordenações do dito 
senhor. & guardarey as ditas ordenações. & achando q eles & cada huu delles assy o nom 
fazem prouerei a ysso cõ aquelle remédio & êméda. como sua alteza por suas ordenações 
& meu regimeto me mãda. & o q por elle nõ poder émédar. que a seu seruiço & beê de^jus- 
tiça cõprir. eu lho farei loguo saber, pêra o dito senhor o prouer como for sua mercee. E 
assi juro & prometo de é todo guardar sempre o meu Regiméto. & a sabendas o nõ passar, 
saluo quando & na maneira que polo dito senhor me for mãdado & asy prometo teer se- 
gredo naquelas cousas q descubrindose. seria preyujzo a seruiço do dito senhor & a beê de 
justiça das partes, ou cõtra meu regiméto. & qualquer cousa, que eu souber q a bem de 
justiça cumpra, assy na dita casa da sopricaçam como em qualquer outra parte de seus reinos. 
& senhorios, que toquem aos offiçiaes de justiça & assy a pessoas que jurdições de terras 
tenham do dito senhor, que necessário seya de sua alteza o saber. & a que eu por my se- 
gundo meu regimento & poder nom possa prouer. o farei loguo saber ao dito senhor pera 
o prouer. como sua mercee for. as quaes cousas todas, como aquy são declaradas outra vez 
juro aos santos auangelhos. & prometo. & dou minha fee. de inteiramête as guardar & 
cõprir quanto ê my for». 

Continuarei agora com o catálogo dos Regedores. 

XI. — D. JOÃO DE MELO, bispo do Algarve, prestou juramento na qualidade de re- 
gedor das justiças da Casa da Suplicação, a 17 de Setembro de 1 55y, em Lisboa, nos paços 
dei Rei, em presença da Rainha e do Cardial Infante, estando presentes como testemunhas: 
o dr. Gaspar de Carvalho, do conselho, chanceler mor e desembargador do Paço; Francisco 
Dias do Amaral, D. Simão da Cunha e Brás de Alvide, todos desembargadores do Paço; e 
Rodrigo Monteiro, do desembargo dei Rei (1). Assina D. João de Melo como regedor um 
assento de 8 de Agosto de 1 558 (2); encontra-se, exercendo o ofício, em documento de 17 
de Setembro daquele ano (3); e na quinta feira 22 de Dezembro, ainda do mesmo ano, esteve 
em Lisboa o Bispo do Algarve, regedor da Casa da Suplicação, em relação, na mesa grande (4). 
Mais notícias não encontro do Bispo exercendo o cargo de regedor, no qual já estava substi- 



(1) Livro dos juramentos, fi. 100. 

(2) Duarte Nunes do Liso, Livro das Extravagantes, fi. 242. 

(3) João Pedio Ribeiro, Dissertações, vol. V, pág. 192. 

(4) Duarte Nunes do Lião, Livro das Extravagantes, fi. 216 v. 



1 



Silvas i5j 

tuido em Janeiro de i55g. Nomeado desembargador do Paço, por carta de 2 de Agosto de 
i56i (1), e promovido em 1564 ao arcebispado de Évora, lá morreu dez anos depois, a 6 de 
Agosto de 1574 (2). 



XII. — D. FRANCISCO COUTINHO, conde do Redondo, prestou juramento a 12 de 
Janeiro de 1 559, nos paços dei Rei, na presença da Rainha e do Cardial Infante, e foi-lhe 
tomado por D. Simão da Cunha, chanceler mor, em presença das testemunhas D. António 
de Lima, Manuel de Melo, D. Alvaro Coutinho e Simão Guedes (3). Ainda aparece exer- 
cendo o cargo no alvará de repartição dos escrivães da correição da côrte, o qual, passado 
em Lisboa a 5 de Setembro de i56o, já foi contudo mandado publicar pelo sucessor do 
Conde (4). Foi este nomeado vice rei da índia, por carta de 27 de Janeiro de i56i (5), e lá 
morreu a 19 de Fevereiro de 1564(6). 

XIII. — LOURENÇO DA SILVA, do conselho, teve, por alvará de 16 de Novembro de 
i56o, mercê do ofício de regedor da Casa da Suplicação por três anos (7). Foi-lhe dado 
juramento a 19 do mesmo mês pelo chanceler mor D. Simão da Cunha, em I -isboa, nos paços 
dei Rei, em presença da Rainha (8). Ao findar o triénio, foi provido no ofício, por carta de 
3o de Novembro de 1564, para o haver como seu avô João da Silva o tivera (9), isto é, em 
vida. Morreu na batalha de Alcácerquibir a 4 de Agosto de 1578. 

XIV. — D. LUIS PEREIRA, do conselho, nomeado regedor da Casa da Suplicação por 
alvará de 23 de Julho de 1579(10), prestou juramento no dia seguinte, em Lisboa, junto ao 
mosteiro de S. Francisco, nas casas de Martim Afonso de Squsa, que Deus tem, «onde ora 
está o muy alto e poderoso Rey dom Henrique nosso Senhor», e foi-lhe tomado pelo dr. Simão 
Gonçalves Preto, chanceler mor, em presença de S. A. e das testemunhas: Francisco de Sá 
de Meneses, camareiro mor do dito Sr. é do seu conselho de Estado; Miguel de Moura, do 
conselho do dito Sr. e seu secretário; e Simão de Miranda, camareiro do dito Sr. (1 1). Mais 
nenhuma memória encontrei dêste Regedor. 

XV. — FERNÃO DA SILVA, do conselho, teve carta de regedor da justiça da Casa da 
Suplicação, dada em Almada, a 24 de Junho de 1 58 1 (12). Na mesma vila lhe foi dado jura- 
mento no dia 27, junto do mosteiro de S. Paulo, nas casas onde poisava el rei D. Felipe, pelo 
dr. Simão Gonçalves Preto, do conselho e chanceler mor, em presença das testemunhas: 
Bispo Capelão mor; Conde da Vidigueira; D. Cristóvão de Moura, do conselho de Estado 
de S. M. e vedor de sua fazenda; D. António de Castro, senhor do condado de Monsanto; 
e D. Rodrigo de Lancastre (i3). Conhecia já el Rei a Fernão da Silva de Madrid, onde esti- 



(1) Chancelaria de D. Sebastião, liv. 8." de Doações, fl. 222 v. 

(2) P.e Francisco da Fonseca, Évora gloriosa, pájt. 3oi, § 527. 

(3) Livro dos juramentos, fl. io3. 

(4) Duarte Nunes do Liáo, Livro das Extravagantes, fl. 129. 

(5) Chancelaria de D. Sebastião, liv. 7. de Doações, fl. 122. 

(6) Diogo do Couto, Década sétima da Asia, fl. 243 v. 

(7) Chancelaria de D. Sebastião, liv. 6." de Doações, fl. 224. 

(8) Livro dos juramentos, fl. Ill v.; Livro das Extravagantes, fl. 41 v. 

(9) Chancelaria de D. Sebastião, liv. i5. J de Doações, fl. i35. 

(10) Chancelaria de D. Sebastião e D. Henrique, liv. 42. de Doações, fl. 319. 
In) Livro dos juramentos, fl. 71 v. 

112) Chancelaria de D. Sebastião e D. Henrique, liv. 46. de Doações, fl. 288. 
( 3) Livro dos juramentos, fl. 114. 



1 58 



Brasões 



vera por embaixador no ano precedente (i). Serviu o cargo de regedor até à nomeação do 
seu sucessor, e num alvará de 19'de.Setembro de 1 5go declara-se que havia servido o ofício (2). 
Por outro de 26 do mês seguinte consta estar nomeado capitão mor e governador do reino 
do Algarve (3); e bem assim, ainda por um terceiro alvará, sabe-se que já a 3o de Abril de 
1 589 havia entrado para o conselho de Estado (4). Finalmente, por carta de 14 de Dezembro 
de i5o4, foi nomeado vedor da*fazenda (5), neste lugar permaneceu até sobrevir a morte no 
dia 9 de Fevereiro de 1607(6). Era neto do regedor João da Silva, por seu filho Rui Pe- 
rereira da Silva. 

Em quanto Fernão da Silva regeu as justiças da Casa da Suplicação, publicou-se a lei 
de 27 de Julho de 1 582, pela qual se marcou para residência continuada daquela Casa a ci- 
dade de Lisboa (7). 

XVI. — DIOGO DA SILVA, do conselho, foi nomeado regedor da Casa da Suplicação 
«■em quanto eu houver por bem», por carta de 10 de Setembro de 1590 (8), e prestou jura- 
mento a 28 do mês seguinte, em Lisboa, nos paços da Ribeira, onde então estava o príncipe 
cardial Alberto, governador do reino, sendo-lhe tomado pelo dr. Simão Gonçalves Preto, 
chanceler mor (9). Na carta de nomeação há referências aos serviços de seu pai Lourenço 
da Silva, falecido na batalha de Alcácerquibir, na qual este Diogo, seu filho mais velho, 
ficara prisioneiro e João, outro filho, também morrera; na carta alude-se igualmente aos 
serviços dos regedores João da Siva e Aires da Silva, bisavô e trisavô de Diogo, a quem fôra 
dado, a 8 de Setembro de 1 579, alvará de lembrança do ofício. Diogo da Silva foi 8.° senhor 
de Vagos e morreu, como já ficou dito, a 16 de Março de 1597, exercendo ainda o cargo de 
regedor. 

XVII. — FERNÃO TELES DA SILVA, do conselho de Estado, foi nomeado regedor 
da justiça da Casa da Suplicação por alvará de 12 de Julho de 1597 (10), tendo-lhe já sido 
tomado juramento no dia 9, em Lisboa, nos paços da Ribeira, onde estavam os Governadores 
do reino, pelo dr. Simão Gonçalves Preto, chanceler mor (11). Morreu a 26 de Novembro 
de i6o5, conforme o seu epitáfio acima transcrito, estando já substituído no cargo. 

No seu tempo foi publicada a lei dos tratamentos, de 16 de Setembro de 1597, na qual 
se determinou: «Que ao Regedor da Justiça da Casa da Suplicação, e Governador da Re- 
lação do Pôrto, Védores da Fazenda, e Presidente do Desembargo do Paço e Mesa da Cons- 
ciência e Ordens, no tempo, em que estiverem em seus Tribunaes fallem por Senhoria todas 
as pessoas, que nelles entrarem; e o mesmo faraó nas petições, e papeis, que se lhes escre- 
verem e, houverem de presentar, estando assi mesmo nos seus Tribunaes; e quando esti- 
verem fóra delles, se lhes naõ poderá fallar, nem escrever por Senhoria» (12). 



(1) Por provisão de 8 de Abril de i58o mandaram-llie os Governadores do reino dar mais 200.000 rs. de me- 
lhoria 110 seu ordenado de embaixador.— Chancelaria de D. Sebastião e D. Henrique, liv. 43. de Doações, fl. 385 v. 

(2) Chancelaria de Felipe I, liv. 21. de Doações, fl. 124 v. 

(3) Ibidem, fl. 12D v. 

(4) Ibidem, liv. 12. , fl. 23g v. 

(5) Ibidem, liv. 32.°, fl. i5i v. 

(6) Assim o declara a carta de padrão de 100.0:0 rs., dada a 21 de Março de 1607 a seu filho Rui da Silva. — 
Chancelaria de Felipe II, liv. 17." de Doações, fl. 1S2 v. 

(7) José Anastácio de Figueiredo, Synopsis chronologica, vol II, pág. 207. 

(8) Chancelaria de Felipe I, liv. 16. de Doações, fl. 3g3. 

(9) Livro dos juramentos, fl. 117. 

(10) Chancelaria de Felipe I, liv. 29. de Doações, fl. 275. 

(11) Livro dos juramentos, fl. 126. 

(12) Collecção I ao Liv. V das Ordenações, tit. 92, n.° 4, pág. 212. 



Silvas 



XVIII. — D. DIOGO DE CASTRO já era regedor da Casa da Suplicação em 7 de Junho 
de i6o5, quando de Valhadolid el Rei lhe dirigiu o Regimento daquela Casa (1); mas só lhe 
foi dado juramento a 3o de Agosto, em Lisboa, nos paços da Ribeira, «onde está o Sr. Bispo 
viso-rei D. Pedro de Castilho, inquisidor mor deste reino», pelo dr. Pedro Barbosa, chan- 
celer mor e do conselho de S. M., perante as testemunhas, Conde de Santa Cruz, Rui Lou- 
renço de Távora, D. João de Castro e o secretário Cristóvão Soares (2). A 20 de Março de 
1Ó06 presidia na Casa da Suplicação (li), e ainda figura de regedor a 27 de Agosto de 161 1 (4). 
Em 1614, sendo já do conselho de Estado, foi nomeado presidente do Desembargo do Paço 
por carta de 1 5 de Fevereiro (5) ; tinha já então largado a regedoria das justiças. Foi 2. conde 
de Basto a 1 de Fevereiro de 1614, em sucessão a seu pai, sendo-lhe porem só passada a 
carta a 27 de Junho de 1628; e faleceu a 19 de Maio de i638 (6). 

XIX. — MANUEL DE VASCONCELOS prestou juramento a i3 de Dezembro de i6i3, 
em Lisboa, nos paços da Ribeira, onde estava o vice-rei D. Pedro de Castilho, inquisidor 
mor, e foi-lhe tomado pelo dr. Luis da Gama Pereira, fidalgo da casa de S. M. e seu corre- 
gedor da corte do crime, «que ora serve de chanceler mor» (7). Ao i.° de Março de 1614 
tomou-se um Assento na Casa da Suplicação perante o regedor Manuel de Vasconcelos (8) 
e ainda então não estava assinado o alvará da sua nomeação o qual é datado de 23 de Maio 
de 16 1 5 (9). Ainda servia de regedor a 22 de Setembro de 1629(10) ; mas pouco mais tempo 
se conservou na efectividade, porque nos anos de 1 63 1 a 1 635 exercia aquele cargo o Chan- 
celer da Casa (11), e Manuel de Vasconcelos servia no conselho de Estado em Madrid, onde 
morreu a 25 de Abril de 1637. 

XX. — D. AFONSO DE LANCASTRE, marquês de Pôrto Seguro, por carta dada em 
Madrid a 18 de Abril de 1627 (12), foi nomeado para o cargo de regedor da Casa da Suplicação 
pelos anos de 1634 (i3), em seguida à recusa de D. Pedro Coutinho (14). Estava o Marquês 



(t) «Dom Diogo de Castro, Regedor amigo-..». — Collecçáo I ao Liv. I das Ordenações, tir. 1, § 33, n.° 4, 
pág. 236. 

(2) Livro dos juramentos, fl. 134. 

13) Joaquim Inácio de Freitas, Collecçáo dos Assentos cit., pág. 4, n.° 5. 
(4) Ibidem, pág. 18, n.° 20. 

(5| Chancelaria de Felipe II, liv. 35." de Doações, fl. 8 

(6) Sepulturas do Espinheiro, págs. 4 e 5. 

(7) Livro dos juramentos, fl. 145 v. 

(8) J. I. de Freitas, Collecçáo dos Assentos cit., pág. 22, n.° 23. 

(9) Chancelaria de Felipe II, liv. 34 de Doações, II. 164 v. 
(10) J. I. de Freitas, Collecçáo dos Assentos, pág. 52, n.° 53. 

111 Ibidem, de pág. 53 a 71, de n.° 54 a 70. 

(12) Tendo consideração aos serviços de D. Ana de Sande, dama da Rainha minha mulher, que casa com 
D. Afonso de Alencastre, meu sobrinho, comendador mor da Ordem de Santiago, faz-lhe mercê, havendo o casa- 
mento efeito, do titulo de marquês da vila de Pôrto Seguro ao estado do Brasil, para èle e seus descendentes dêste 
matrimónio, de juro e herdade na forma da Lei Mental, 4c. — Chancelaria de Felipe I, liv. 29. de Doações, ti. 38 v. 

(13) José Machado, Memorial de Diogo Soares publicado no vol. II do Boletim da Biblioteca Pública e do 
Arquivo Distrital de Braga, agora meemo (i7-vn-2i) recebido. 

(14) Ibidem, pág. 28. — D. Pedro Coutinho, depois de ter servido valorosamente nas partes da índia, tornou 
para Portugal em 1609 e, volvidos alguns anos, chamou-o Felipe III, para o conselho de Estado; mas não exer- 
citou o cargo e viveu sempre retirado em sua casa. Fundou em Lisbca, autorizado pela carta régia de 20 de No- 
vembro de 1621, o colégio de S. Pedro e S. Paulo, vulgarmente chamado dos Inglcsinhos, e por isso se vêem as 
armas dos Cominhos por cima da porta da igreja. Morreu a b de Abril de i638 e loi sepultado na igreja do con- 
vento de S. José de Ribamar, com êste simples letreiro na campa: Aqui ja\ quem foi D. Pedro Coutinho (Fr. An- 
tónio da Piedade, Chronica da província da Arrábida, tom. 1, § 281). 



i6o 



Brasões 



em exercício nos dias 7 de Julho de 1 636 e 23 de Março de 1 638, datas de dois Assentos da 
Casa tomados na sua presença (1); no ano seguinte porem já outro regedor tomava posse. 
Intentara o Marquês suceder a sua mãe na casa de Aveiro, preterindo o direito de seu so- 
brinho D. Raimundo de Lancastre, 2. duque de Torres Novas e 4. de Aveiro, e a esse fim 
lhe pôs demanda, sendo «bem para reflectir, que o Marquez procurou o lugar de Regedor 
das Justiças, para poder melhorar nesta demanda» (2). Morreu, segundo o autor citado, a 
28 de Março de 1654, havendo sido o i.° duque de Abrantes em Castela feito depois da Res- 
tauração. 

XXI. — D. DENIS DE MELO, bispo da Guarda, foi nomeado, por carta dada em Madrid 
a 12 de Julho de 1639, regedor da Casa da Suplicação por dois anos, cargo então vago (3). 
Foi-lhe dado juramento a 27 do mesmo mês, nos paços da Ribeira, em presença da princesa 
Margarida, pelo dr. Fernão Cabral, chanceler mor, servindo de testemunhas o Conde de 
Castro e Castanheira, do conselho de Estado e presidente da Mesa da Consciência e Ordens, 
e D. Miguel de Almeida, do conselho de S. M. (4). Ainda exercia a 16 de Maio de 1640(5), 
e morreu a 25 de Novembro desse ano (6). 

XXII. — PERO DA SILVA, conde de S. Lourenço, foi nomeado regedor da Casa da 
Suplicação, «em quanto eu houver por bem», por carta de 8 de Janeiro de 1641 (7). Não 
encontrei no respectivo registo o termo de juramento, nem do Marquês de Pôrto Seguro, 
nem de Conde de S. Lourenço. Ainda exercia êle o ofício a 28 de Março de 1643 (8); mas 
já no ano seguinte outro estava nomeado. Morreu o Conde de S. Lourenço a 25 de Outubro 
de i656 ( 9 ). 

XXIII. — JOÃO GOMES DA SILVA, do conselho e governador que havia sido da Re- 
lação e Casa do Pôrto, foi nomeado regedor da Casa da Suplicação, «em quanto eu houver 
por bem», por carta de i3de Abril de 1644(10), e foi-lhe dado juramento logo no dia 17, nos 
paços de Alcântara, em presença de S. M. pelo dr. Estêvão Leitão de Meireles, corregedor 
do crime da côrte, servindo de chanceler mor (1 1). Ainda servia a 10 de Novembro do mesmo 
ano (12), e ocupou-o mais alguns, hasta que perdiendo la vista, quedo impossibilitado de otros 
empleos (i3). Isto declara um autor quási contemporâneo, curando contudo apenas por infor- 
mações e errando tanto a respeito do próprio João Gomes da Silva, que não sei o crédito 
a dar àquela notícia. 

XXIV. — JOÃO DA SILVA TELES DE MENESES, conde de Aveiras, do conselho de 
Estado, foi regedor da Casa da Suplicação, não há duvida, apesar de se não encontrar o 



(1) J. I. de Freitas, Collecção dos Assentos, pág. j3 e 79, n. os 72 e 75. 

(2) P.e D. António Caetano de Sousa, Historia genealógica, XI, [8l. 

(3) Chancelaria de Felipe III, liv. 28. de Doações, fl. 248. 

(4) Livro dos Juramentos, fl. 172. 

(5) Collecção II ao Liv. III das Ordenações, tit. 20, § 45, n.° 1, pág. 145. 

(6) Manuel Pereira da Silva Leal, Catalogo dos Bispos da Guarda^ n.° 38. 

(7) Chancelaria de D. João IV, liv. io.° de Doações, fl. 3. 

(8) J. I. de Freitas, Collecção dos Assentos, pág. 96, n.° 91. 

(9) P.e Sousa, Memorias dos grandes, pág. 401. 

(10) Chancelaria de D. João IV, liv. i3.° de Doações, fl. 3io v. 

(11) Livro dos juramentos, fl. 181. 

(12) Collecção III ao Liv. I das Ordenações, tit. 6, § 7, n.° 3, pág. 5oo. 

(13) Salazar y Castro, Historia de la casa de Silva, II, 375. 



Silvas 



161 



termo do juramento. Exercia o cargo em 6 de Novembro de 1649 (1), e ainda o ocupava 
em princípios do ano seguinte, quando foi nomeado vice rei da índia, sendo-lhe nessa oca- 
sião, a 6 de Fevereiro, concedido alvará de lembrança para ser de novo provido no ofício 
de regedor, da maneira que então o tinha, no regresso da índia (2). Para lá embarcou em 
Abril e morreu na viagem. 

XXV. — FERNÃO TELES DE MENESES, do conselho de Guerra e gentil homem da 
câmara do Príncipe, foi nomeado, por carta de 28 de Abri! de i65o, regedor da Gasa da Su- 
plicação por três anos (3); e o juramento deu-lho o dr. Estêvão Leitão de Meireles, chan- 
celer mor, no dia 3o, nos paços da Ribeira, perante D. João IV (4). Havia sido governador 
da Relação e Casa do Pôrto, foi conde de Vilar Maior, por carta de 29 de Agosto de i652 
e ainda exercia o ofício de regedor a 1 1 de Janeiro de 1 653 (5). Neste mesmo ano terminou 
o triénio e foi substituído. 

XXVI. — D. RODRIGO DE MENESES prestou juramento a 5 de Outubro de i653,nos 
paços da Ribeira, em presença de S. M., e foi-lhe tomado pelo chanceler mor Afonso Fur- 
tado de Mendoça, perante as testemunhas: Conde de Cantanhede, do conselho de Estado 
e veador da fazenda; e Luís de Melo, porteiro mor e presidente da Câmara (6). D. Rodrigo 
havia sido governador da Relação e Casa do Pôrto, e foi por duas vezes reconduzido na re- 
gedoria da Casa da Suplicação, de cada vez por mais três anos: a primeira por carta de i3 
de Outubro dc 1656(7) > e a segunda por outra de 4 de Fevereiro de 1660 (8). Ainda exercia 
a 24 de Julho de i663 (9); mas foi nomeado, por carta de 29 do mesmo mês, presidente do 
Desembargo do Paço (10) e largou a regedoria. Em Junho de i674deu-lhe «hum accidente 
de apoplexia, tirou-lhe a fala, com lhe engrossar a lingoa, e o movimento de todo o corpo, 
deixando-lhe todos os mais sentidos» (11); veio a morrer no ano seguinte, a 3o de Junho (12). 
Fôra estribeiro mor e grande valido do príncipe regente D. Pedro, seu conselheiro e insti- 
gador no caso da deposição de Afonso VI. 

XXVII. — LUÍS DA SILVA TELO DE MENESES prestou juramento a i3 de Agosto 
de i663, nos paços da Ribeira, na presença de S. M., sendo-lhe tomado pelo dr. Miguel Ju- 
sarte de Azevedo, corregedor do crime da côrte, por impedimento do Chanceler mor (i3). 
Ainda exercia o cargo a 29 de Julho de 1668 (14); mas foi-lhe tirado no ano seguinte e no- 
meado presidente da Mesa da Consciência e Ordens por carta de 1 1 de Setembro (i5). 



(1) J. I.^de Freitas, Collecçâo dos Assentos, pág. io5, n.° 98. 

(2) Chancelaria de D. Joào IV, liv. i5.° de Doações, fl. 265. 

(3) Ibidem, liv. 21.', fl. 243. 

(4) Livro dos juramentos, fl. 189. 

(5) J. I. de Freitas, Collecçâo dos Assentos, pág. 111, n.* 102. 

(6) Livro dos juramentos, fl. 194. 

(7) Chancelaria de D. João IV, liv. 28. de Doações, fl. 89 ; Livro dos juramentos, (1. 198 v. 

(8) Livro dos juramentos, fl. 206 v. 

(9) J. I. de Freitas, Collecçâo dos Assentos, pág. i53, n.° 122. 

(10) Chancelaria de D. Afonso VI, liv. 25." de Doações, fl. 210 v. 

(11) Monstruosidades do tempo e da fortuna, pág. 272. 

(12) P.t Sousa, Memorias dos grandes, pág. 147. 

(13) Livro dos juramentos, fl. 209. 

(14) J. I. de Freitas, Collecçâo dos Assentos, pág. 154, n.° 123. 

(15) Chancelaria de D. Afonso VI, liv. 29. de Doações, fl. 35. 

VOL. II 21 



IÔ2 



Brasões 



XXVIII. — MANUEL TELES DA SILVA, conde de Vilar Maior e gentil homem da 
câmara, foi nomeado regedor da Casa da Suplicação por três anos, por carta de i3 de Se- 
tembro de 1669 (1), sendo-lhe tomado o juramento logo no dia 17, nos paços da Corte Real, 
em presença de S. A. como regente e governador destes reinos, pelo dr. João Velho Bar- 
reto e Rêgo, chanceler mor (2). Ainda exercia o ofício a 28 de Julho de 167 1 (3); no ano 
seguinte porem largou-o em virtude de haver sido nomeado vedor da fazenda da repartição 
de África, por carta de 4 de Outubro (4). Veio a ser o i.° marquês de Alegrete em 1687, e 
morreu em 1709. 

XXIX. — D. FERNANDO DE MENESES, conde da Ericeira e do conselho de Guerra, 
foi nomeado regedor da Casa da Suplicação por três anos, por carta de 1 de Outubro de 
1672 (5), e no dia 5 foi-lhe dado juramento pelo chanceler mor, o dr. João Velho Barreto, 
nos paços da Corte Real, em presença do Príncipe Regente (6). Ainda exercia o ofício em 1 1 
de Dezembro de 1674(7), e parece ter servido todo o triénio. Havia sido capitão general 
de Tânger desde 1 656 até 1661, ocasião em que largou o governo para não ter de entregar 
a cidade aos Ingleses; e veio a entrar para o conselho de Estado em 1679(8). Era o 2. 
conde da Ericeira, por carta de n de Abril de 1646(9), e morreu a 22 de Junho de 1699(10). 

XXX. — MANUEL DE MELO, do conselho de Guerra, foi nomeado regedor da Casa 
da Suplicação por três anos, por carta de 25 de Outubro de 1675 (1 1), e foi-lhe dado jura- 
mento a i5 de Novembro pelo chanceler mor João Velho Barreto (12). Foi -sucessivamente 
reconduzido por mais três anos e ainda por outros três, por cartas de 21 de Novembro de 
1678 e 2 de Dezembro de 1681 (i3). Já tinha largado a regedoria, quando, por carta de 18 de 
Fevereiro de 1686, lhe foram dadas as honras e o assentamento de conde, declarando-se 
nela haver então Manuel de Melo sido provido no priorado do Crato da Ordem de S. João (14). 
Faleceu o prior do Crato D. Fr. Manuel de Melo, tendo também sido capitão da Guarda 
Real Portuguesa, a 14 de Abril de i6g5 (i5). 

XXXI. — GARCIA DE MELO, monteiro mor e presidente da Mesa da Consciência e 
Ordens, teve carta de regedor da Casa da Suplicação por três anos, em i3 de Janeiro de 
i685 (16), e logo a 23 lhe foi dado juramento, em Lisboa, nos paços da Côrte Real, pelo 
dr. João de Roxas de Azevedo, chanceler mor do reino (17). Ainda exercia a 3i de Maio de 



(1) Chancelaria de D. Afonso VI, liv. 20. de Doações, fl. 424 v. 

(2) Livro dos juramentos, fl. 219 v. 

(3) J. I. de Freitas, Collecção dos Assentos, pág. 175, n.° 139. 

(4) Chancelaria de D. Afonso VI, liv. 37. de Doações, fl. 287. 

(5) Ibidem, liv. 3o.°, fl. 76 v. 

(5) Livro dos juramentos, fl. 223. 

(7) J. I. de Freitas, Collecção dos Assentos, pág. i83, n.° 147. 

(8) Monstruosidades do tempo e da fortuna, pág. 3i6. 

(9) Chancelaria de D. João IV, liv. 17.° de Doações, fl. 270. 

(10) Barbosa Machado, Bibliotheca lusitana, II, 42. 

(11) Chancelaria de D. Afonso VI, liv. 38.° de Doações, fl. 48 v. 

(12) Livro dos juramentos, fl. 227. 

(13) Chancelaria de D. Afonso VI, livs. 39. , fl. 70, e 40. , fl. 119 v.; Livro dos juramentos, fls. 23i e 236. 

(14) Chancelaria de D. Pedro II, liv. 32.° de Doações, fl. 375 v. 
(t5) José Anastácio de Figueiredo, Nova Malta, 111, 202. 

(16) Chancelaria de D. Pedro II, liv. 17. de Doações, fl. 53. 

( 17) Livro dos juramentos, fl. 242. 



Silvas 



i63 



1687(1); no ano seguinte porém largou a regedoria e, por carta de 1 1 de Março, foi no- 
meado presidente da Mesa do Desembargo do Paço por três anos (2), ofício em que foi 
sucessivamente reconduzido por cartas de 21 de Março de 1691 e 21 de Abril de 1694(3). 
Renunciou a presidência e posteriormente aceitou, muito constrangido, um lugar no con- 
selho de Estado. No exercício destas funções morreu a 26 de Fevereiro de 1706 (4). 

XXXH. — FRANCISCO DE TÁVORA, conde de Alvor e do conselho de Estado, no- 
meado regedor da Casa da Suplicação por três anos, por carta de 11 de Março de 1688 (5), 
foi-lhe dado juramento no dia i3, nos paços da Ribeira, na presença dei Rei, pelo dr. João 
de Roxas de Azevedo, chanceler mor (6). Reconduzido por mais três anos, por carta de 21 
de Abril de 1691 (7), despediu-se do cargo de regedor em 19 de Fevereiro de 1693, por ir 
para o Conselho Ultramarino (8), do qual fòra nomeado presidente por carta de 17 do mesmo 
mês (9), cargo em que foi sucessivamente reconduzido por cartas de 27 de Fevereiro de 1696, 
3 de Março de 1699, 22 de Abril de 1702 e 5 de Maio de 1705 (10). Francisco de Távora 
havia sido nomeado vice rei da índia por patente de 4 de Fevereiro de 1681 (n), e pouco 
depois, por carta de 20 de Março, fòra- lhe dado o título de conde de Alvor, para o ter em 
segredo por dois anos a contar da data da carta de nomeação de vice rei, podendo d'então 
em diante declarar a mercê e intitular-se conde (12). Efectivamente, expirados os dois anos, 
começou a chamar-se Conde de Alvor a 4 de Fevereiro de i683, como consta da carta de 
i5 dêsse mês pela qual se lhe mandou pagar o assentamento de conde desde aquela data (i 3). 
Morreu o Conde de Alvor a 3i de Maio de 1710(14). 

Existe um Assento da Casa da Suplicação lavrado «aos 7 dias do mês de Julho de 94... 
em mesa grande diante do Sr. Regedor Diogo da Silva», Assento transcrito por Feliciano 
da Cunha França (i5) e mencionado por José Anastácio de Figueiredo (16), em data de 7 de 
Julho de 1594, a verdadeira. Trazem-no porém com ela errada João Pedro Ribeiro (17) e 
Joaquim Inácio de Freitas (18), por o atribuírem ao ano de 1694 no qual não era regedor 
Diogo da Silva, que já tinha morrido havia perto de um século, como acima ficou dito no 
n.° xvi. 

XXXIII. — LOURENÇO DE MENDOÇA, conde de Val de Reis, teve carta de nomeação 
de regedor da Casa da Suplicação, por três anos, em 3o de Julho de 1694 (19), e foi-lhe dado 



(1) J. I. de Freitas, Collecçâo dos Assentos, pág. tg5, n.° i58. 

(2) Chancelaria de D. Pedro II, liv. 18. de Doações, fl. 176 v. 

(3) Ibidem, livs. 49.» fl. 219, e 5i.°, fl. 16. 

(«) P.« Sousa, Historia genealógica, V, 3<i8. 

(5) Chancelaria de D. Pedro II, liv. 34. de Doações, fl. 45 v. 

(6) Livro do» juramentos, fl. 248 v. 

(71 Cliancelaria de D. Pedro II, liv. 58." de Doações, fl. 312; Livro dos juramentos, fl. 252 v. 
(8) Livro dos juramentos, fl. 253. 

(91 Chancelaria de D. Pedro II, liv. 5o.° de Doações, fl. 128 v. 
íio) Ibidem, livs. 4o. , fl. 329; 61. fl. 276; 62.», fl. 38i; e3o.°,fl. 107. 

(11) Chancelaria de D. Afonso VI, liv. 44. " de Doações, fl. 201 v. 

(12) Ibidem, liv. 51.°, fl. 34 v. 

(13) Ibidem, liv. 54.*, fl. 3i v. 

(14) P.« Sousa, Memorias dos grandes, pág. 326. 

(15) Additiones ad Mendes, part. II, liv. i.°, cap. 2, g 6, n.* 2128, pág. 269. 

(16) Synopsis chronologica, II, 267. 

(17) índice chronologico, part. I, pág. 265. 

(18) Collecçâo dos Assentos, pág. 209, n.* 169. 

(19) Chancelaria d» D. Pedro II, liv. 5i.° de Doações, fl. 43 v. 



1 64 Brasões 

* 

juramento a 6 do mês seguinte, nos paços da Côrte Real, em presença dei Rei, pelo dr. João 
de Roxas de Azevedo, chanceler mor(i). Foi reconduzido, de cada vez por mais três anos, 
por cartas de 8 de Agosto de 1697, 23 de Agosto de 1700, 5 de Setembro de 1703 e 9 de 
Outubro de 1706(2). Era o 3.° conde de Val de Reis, por carta de 21 de Agosto de 1672(3), 
ainda em vida do pai; e morreu a 26 de Outubro de 1707(4). 

XXXIV. — JOÃO DA SILVA TELO DE MENESES, conde de Aveiras, foi-lhe dado 
juramento a 12 de Janeiro de 1707, no paço da Ribeira, em presença dei Rei, pelo chanceler 
mor Manuel Lopes de Oliveira (5); só porem lhe foi dada carta, nomeando-o regedor da 
Casa da Suplicação por três anos, a 25 de Novembro do referido ano (6). Ainda exercia 
a 5 de Junho de 1709(7); mas já tinha largado a regedoria quando, por carta de 17 de 
Março de 17 1 1, foi investido por três anos na presidência do Senado da Câmara de Lisboa (8)- 
Era o 3.° conde de Aveiras e fôra o 8.° e último regedor da geração dos Silvas. Morreu a 
27 de Abril de 1740, como já ficou dito. 

XXXV. — D. ÁLVARO DE ABRANCHES, bispo de Leiria e do conselho, nomeado re- 
gedor da Casa da Suplicação por três anos, por carta de 3i de Março de 171 1 (9), foi-lhe 
dado juramento a 17 do mês seguinte, nos paços da Ribeira, em presença dei Rei, pelo 
dr. Belchior da Cunha Brochado, corregedor do crime da côrte e casa, como chanceler mor 
do reino, perante as testemunhas, Marquês de Alegrete e D. Cristóvão José da Gama (10). 
Ainda exercia a 24 de Julho de 17 14 (1 1); no ano seguinte porém largou o cargo e por carta 
de 22 de Abril de 1716 foi nomeado para arcebispo de Évora (12), mas não aceitou. Morreu 
a 6 de Abril de 1746, com perto de oitenta e cinco anos (i3). 

Depois de D.Alvaro de Abranches ter largado a regedoria em 1 7 1 5, houve um intervalo 
de mais de trinta anos durante o qual o cargo de regedor das justiças não foi provido em 
ninguém; serviram vários interinamente, e encontro menção dos seguintes: 

i.° — António de Basto Pereira, do conselho de S. M., seu secretário, chanceler da 
Casa da Suplicação e posteriormente do conselho da Fazenda, serviu de regedor e vem men- 
cionado em Assentos desde 23 de Dezembro de 1715, até 22 de Abril de 1728(14); mas man- 
teve-se em serviço até morrer a i5 de Fevereiro de 1734 (i5). 



(•1) Livro dos juramentos, ft. 260 v. 

(2) Chancelaria de D. Pedro II, Doações, livs. 24. °, fl. 75; 62.', fl. 76; e 45. , fl. 225 v. Livro dos juramentos, 
fls. 263 v., 267, 272 v. e 284 v. 

(3) Chancelaria de D. Afonso VI, liv. 36.° de Doações, fl. 218. 

(4) P.e Sousa, Memorias dos grandes, pág. 591. 

(5) Livro dos juramentos, fl. 287 v. 

(6) Ofícios e mercês de D. João V, liv. 3o.°, fl. 88. 

(7) Feliciano da Cunha França, Additiones ad Mendes, part. II, Iít. i.°, cap. 2, § 70, n.° 2229, pág. 282. 

(8) Ofícios c mercês de D. João V, liv. 33.°, fl. 3i2. 

(9) Ibidem, liv. 33.°, fl. 326 v. 

(10) Livro dos /uramentos, fl. 2g5. — E êste o último termo de juramento de regedor lançado no livro. 

(11) J. 1. de Freitas, Collecção dos Assentos, pág. 237, n.° 186. 

(12) Gaveta de Lisboa de 2 de Maio. 

(13) Barbosa Machado, Bibliotheca lusitana, vols. I e IV; Ga\eta de Lisboa de 26 de Abril de 1746. 

(14) J. I. de Freitas, Collecção dos Assentos, n.° ! 189, 190, ig3, 194, 197, 198, 199, 202, 204, 205, 206, 208, 

págs. 241 a 273. 

(:5) Gaveta de Lisboa de 25 de Fevereiro: «Também faleceu a i5. deste mez em idade de 80. annos, Antonio 
de Basto Pereira, fidalgo da Caza de Sua Magestade, seu Secretario, e do seu Conselho, e Conselheiro de sua 
fazenda, Secretario da Rainha... seu Chanceller mòr, Ouvidor da sua fazenda, e estado; Chanceller da Corte, e 



Silvas 



i65 



2. ° — Belchior do Rêgo de Andrade, do conselho, desembargador do Paço, procurador 
da Coroa, chanceler da Casa da Suplicação, serviu de regedor e nesta qualidade assinou 
vários Assentos, desde 26 de Fevereiro de. 1735, até 17 de Agosto de 1787 (1). Morreu a 2 
de Março de iy38 (2). 

3. ° — Francisco Nunes Cardial saiu provido, por despacho de Março de 1738, em desem- 
bargador do Paço e chanceler da Casa da Suplicação (3). Nesta qualidade serviu de regedor 
e como tal assinou vários Assentos, desde 6 de Fevereiro de 1740 até 7 de Janeiro de 1741 (4). 
Era do conselho de S. M. e seu secretário. 

4. — Rodrigo de Oliveira Zagalo, do conselho de S. M., conselheiro e procurador da 
fazenda real, serviu de regedor das justiças da Casa da Suplicação e nesta qualidade assina 
o Assento de 22 de Fevereiro de 1742 (5). Dele não encontro mais noticias no exercício 
do cargo, mas suponho o desempenhou até morrer firmando-me na coincidência de só pouco 
depois da sua morte me aparecer outra pessoa servindo de regedor. Morreu Oliveira Za- 
galo a 22 de Março de 1747 (6). 

5.» — José Vaz de Carvalho, do conselho, desembargador do Paço, chanceler da Casa 
da Suplicação, serviu de regedor nos anos de 1747 a 1749, e assinou Assentos desde 10 de 
Junho do primeiro daqueles anos, até 3o de Janeiro do último (7), oito meses antes da no- 
meação de novo regedor. José Vaz de Carvalho, fidalgo da casa real, do conselho de S. M., 
desembargador do Paço, secretário da rainha D. Maria Ana e do infante D. Manuel, chan- 
celer da Casa da Suplicação e deputado da Junta da Bula da Cruzada, faleceu em Lisboa a 
20 de Dezembro de 1752, em idade de oitenta anos que completava a 9 de Março (nascera 
portanto a 9 de Março de 1673). Havia sido desembargador dos agravos, corregedor do 
crime da côrte e casa e juiz da Coroa, servindo ao mesmo tempo estes dois lugares de pro- 
priedade, e ocupando por muitos anos os lugares de regedor das justiças, presidente do 
Desembargo do Paço e por mais de vinte e dois anos o de chanceler mor do reino. Foi 
sepultado no carneiro da irmandade de N. Sr." da Boa Morte, na igreja de S. Roque (8). 

XXXVI. — D. PEDRO, duque de Lafões, sobrinho dei Rei, foi nomeado regedor da 

Casa da Suplicaçam, com o qual lugar sérvio lg. annos de Regedor das Justiças. Era juntamente Juiz das Jus- 
tificaçoens do Reyno, e Juiz Relator da Inconfidência; foy sepultado na Igreja de S. Roque da Caza Professados 
Padres da Companhia de Jezus, onde se fez o seu funeral com assistência, de todos os Ministros de Justiça, e de 
muita Nobreza da Corte». 

(1) J. I. de Freitas, Colleccão dos Assentos, n." 212, 2i3, 214 e 217, de págs. 280 a 288. 

(2) Gaveta de Lisboa de 6 de Março : «Faleceu nesta Cidade a 2. do corrente em idade de 66. annos de hum 
plauriz o Doutor Belchior do Rego de Andrade, Fidalgo da Casa de Sua Mag. e do seu Conselho, Alcaide mór 
de Aldegalega da Merceana, Cavalleiro da Ordem de Christo, Desembargador do Paço, e Procurador da Coroa, 
do Conselho da Rainha nossa Senhora, e seu Secretario, Chanceller da Casa da Suplicaçam com o exercício de 
Regedor das Justiças... Varam eminente em letras, e ornado de muitas virtudes, em que se faziam mais espe- 
ciaes a da justiça, e a da caridade. Ficou flexível era hum rigoroso exame de muita gente ; e até a sepultura 
correu sangue liquido das feridas, que a medicina fez precisas na esperança de lhe servirem de remédio. Foi 
sepultado na Igreja de S. Bartholomeu de Lisboa sua Parroquia com palma, e capella por advertência do seu Con- 
fessor, em demonstraçam da castidade, que guardou em toda a sua vida; e levado á sepultura por pobres pedintes, 
na forma, que tinha rogado aos seus testamenteiros. Tendo hum bom morgado, e muitos bens patrimoniaes se 
lhe nam achou dinheiro; porque tudo despendia com os necessitados a sua grande caridade». 

(3) Gaveta de Lisboa de 20 de Março de 1738. 

14) J. I. de Freitas, Colleccão dos Assentos, n °* 220, 221, 222 e 223, de págs. 293 a 299. — Ainda encontro 
mais um assento assinado por Francisco Nunes Cardial em 25 de Fevereiro de 1745 (n.° 225, pág. 3o2), mas náo 
sei se a data estará certa. 

(5) J. L de Freitas, Colleccão dos Assentos, n.° 224, pág. 3oi. 

(6) Gaveta de Lisboa de 28. 

(7) J. I. de Freitas, Colleccão dos Assentos, n. r * 226 a págs. 3o6 a 324. 

(8) Gaveta de, Lisboa de 8 de Fevereiro de 1753. 



i66 



Brasões 



Casa da Suplicação por três anos, por carta de 17 de Setembro de 1749(1). Ainda exercia 
a 20 de Dezembro de 1754(2); em 1760 porem estava nomeado outro rogedor, e o Duque 
morreu a 26 de Junho de 1761. 

XXXVII. — D. JOÃO DE NOSSA SENHORA DA PORTA, arcebispo de Évora, foi 
nomeado regedor da Casa da Suplicação por três anos, por carta de 5 de Julho de 1760(3). 
Em 1770 recebeu o barrete cardinalício e ficou-se chamando o cardial da Cunha. Exerceu 
o cargo de regedor por muitos anos, nele servia em 6 de Março de 1782 (4) e com êle morreu 
a 29 de Janeiro do ano seguinte, sendo também inquisidor geral e comissário geral da Bala 
da Cruzada (5). 

XXXVIII. — JOSÉ DE VASCONCELOS E SOUSA, conde de Pombeiro, teve carta de 
regedor da Casa da Suplicação, por três anos, em 29 de Julho de 1786(6); mas ainda exercia 
em 1807 (7), ano em que passou para o Brasil com a família real e lá morreu a 16 de Abril 
de 1812 (8). Era conde de Pombeiro, em virtude do seu casamento, por carta de 2 de Agosto 
de 1785 (9) ; entrou para o conselho de Estado em 1796 (10), e foi criado marquês de Belas 
por decreto de 17 de Dezembro de 1801 (11). 

XXXIX. — D. FRANCISCO RAFAEL DE CASTRO, principal da Igreja Patriarcal (12), 
foi pelo decreto de 26 de Novembro de 1807, nomeado membro da Regência do reino durante 
a ausência da família real no Brasil, ficando juntamente com o cargo de regedor da justiça (i3). 
Em quanto decorreram os primeiros meses da invasão francesa, continuou o Principal Castro 
desempenhando as funções de membro do govêrno delegado pelo Príncipe Regente, até 
aparecer o famoso decreto de 1 de Fevereiro de 1808 pelo qual o tiranete Junot, em nome 
do seu patrão, dispôs outra coisa, anunciando à Nação que «a casa de Bragança acabou de 
reinar em Portugal». A êste decreto seguiu-se logo outro da mesma data, substituindo o 
Conselho de regência por um Conselho de Govêrno, para o qual foi nomeado o Principal 
Castro, com o encargo da Justiça e dos Cultos e o título de regedor (14). Decorridos pouco 
mais de seis meses, tendo esta desgraçada Nação passado das mãos sujas de Junot para as 
execráveis de Dalrymple, o negociador da convenção de Sintra, proclamou êste, em 18 de 
Setembro de 1808, à Nação Portuguesa, dando-lhe a nova do restabelecimento da Regência 
nomeada pelo príncipe D. João, excluídos dela os governadores «suspeitos de adhesão ao 
interesse dos Francezes por haverem entrado no seu governo» (i5). Os excluídos foram o 
Conde de Sampaio, o Principal Castro e Pedro de Melo Breyner. Aquela proclamação veio 



(1) Ofícios e mercês de D. João V, liv. 124. °, fl. 3o8; Livro dos juramentos, fl. 35i. 

(2) J. I. de Freitas, Collecçãb dos Assentos, pág. 35 1, n.° 249. 

(3) Ofícios e mercês de D. José, liv. 69.*, fl. i55. 

(4) J. I. de Freitas, Collecção dos Assentos, pág. 440, n.° 294. 

(5) Gaveta de Lisboa de 4 de Fevereiro de 1783. 

(6) O/icos e mercês de D. Maria I, liv. 27. , fl. 35i. 

(7) Almanach do anno de 1807, pág. 210. 

(8) João Carlos Feo, Resenha das famílias titulares, pág. 89. 

(9) Mercês de D. Maria I, liv. 19. , fl. 3 v. 

(10) Gabela de Lisboa de 9 de Julho de 1796. 

(11) Gaveta de Lisboa de 16 de Janeiro de 1802. 

(12) A Gajeta de 1 de Junho de 1779 dá notícia da sua nomeação de principal diácono. 

(13) José Acúrcio das Neves, Historia da invasão dos Franceses, 1, i65. 

(14) Gaveta de Lisboa, n.° 5, Supplemento extraordinário. 
(:5) Gaveta de Lisboa, n.* 3.', Primeiro supplemento. 



Silvas 



167 



lançar ominosa suspeição sobre três homens distintos e notáveis, condenados sem serem 
ouvidos, nem regularmente processados, por um crime, no qual, se existiu, se encontravam 
igualmente incursos os restantes membros da antiga Regência, pois todos êles haviam humil- 
demente servido a Junot, em quanto êle os não escorraçou do governo. 

D. Francisco Rafael de Castro não deveria talvez ser incluído neste catálogo, por não 
haver sido propriamente regedor da Casa da Suplicação, mas sim regedor das justiças de 
todo o reino, mais depressa portanto um verdadeiro ministro da Justiça; mas, como lhe 
conservaram a antiga denominação, por êsse motivo o não excluí. Era o Principal Castro 
filho segundo do i.° Conde de Rèsende; havia sido em 1786 reformador reitor da Univer- 
sidade de Coimbra; e veio a morrer a 21 de Março de 1 8 1 6 (1). 

O cargo de regedor das justiças da Casa da Suplicação permaneceu vago, como indica 
o final do alvará de 4 de Outubro de 1808 dos Governadores do reino (2), e creio ter-se con- 
servado assim até à nomeação do regedor a seguir apontado. 

XL. — D. FR. PATRÍCIO DA SILVA, cardial arcebispo de Évora, foi demitido de 
ministro da Justiça por decreto de i5 de Janeiro de 1825, e por outro da mesma data no- 
meado regedor das justiças da Casa da Suplicação (3), passando-se-lhe a carta no último 
dia do mesmo mês (4). De Novembro dêsse ano de 1825 em diante serviu de regedor o 
desembargador António José Guião (5), e no ano seguinte D. Fr. Patrício foi promovido a 
patriarca de Lisboa. Morreu o Cardial Patriarca a 3 de Janeiro de 1840, e julgo haver êle 
sido o último regedor das justiças, ofício que teve quatro séculos de duração. 

A Casa da Suplicação havia sido extinta e dissolvida pelo decreto de 3o de Julho de 
i833, o mesmo que criou o tribunal da Relação de Lisboa (6). 

No tom. II do Repertório das Ordenações, a pág. 288 da edição Vicentina, imprimiu-se 
um catálogo dos Regedores composto por Francisco José da Serra Craesbeck de Carvalho. 
Está erradíssimo; mas, como é obra de genealogista, poderá ainda assim o leitor curioso 
recorrer a êle para saber com mais particularização os dados genealógicos dalguns dos Re- 
gedores. 

Durante a maior parte do xv século existiram simultaneamente Regedores das justiças 
da Casa da Suplicação, e Regedores das justiças da Casa do Cível de Lisboa. A semelhança 
dos títulos deu lugar a confusões e por isso talvez não seja de todo fora de propósito dar 
aqui uns resumidos apontamentos para o catálogo dos segundos. 

II 

CATÁLOGO DOS REGEDORES E GOVERNADORES 
DA CASA DO CÍVEL DE LISBOA 
E DOS GOVERNADORES DA CASA E RELAÇÃO DO PÔRTO 

Durante muito tempo um só tribunal existiu para conhecer dos feitos por apelação ou 
por suplicação. Este Tribunal da Côrte que acompanhava sempre o monarca, continuava 
julgando as apelações crimes mais graves, quando uma lei de 1 355 parece provar a existência 



(1) Inocêncio Francisco da Silva, Diccionario bibliographico, III, 3.> 

(2) Gabela de Lisboa, n.° 38, Primeiro supplemento. 

(3) Ga\eta de Lisboa de 22 de Janeiro de 182S. 

(4) Chancelaria de D. João VI, liv. 43. , fl. 76 v. 

(5) Almanach Português, Anno de 1826, pág. 161. 

(6) CHronica constitucional de Lisboa, n.° 6, de i de Agosto de i833. 



i68 



Brasões 



já então da Casa do Cível para o julgamento principalmente das apelações cíveis. Num re- 
gimento não datado, mas também do reinado de Afonso IV (i325-i357), aparece bem acen- 
tuada a separação de funções entre os juízes, propriamente da suplicação e os da apelação 
cível; e mais ainda «nos inculca a residência demorada do tribunal de appellação civil n'um 
mesmo logar, ao passo que o tribunal da suprema administração da justiça continúa a acom- 
panhar sempre o monarcha por toda a parte» (i). 

Não se pode contudo apresentar como prova, da definitiva separação dos dois tribunais 
já estar realizada no ano de i3g2, uma carta régia de 2 de Novembro dirigida a D. Alvaro 
de Abreu, bispo de Évora, que tinha «cargo da Casa da Relação e justiça, em a Côrte», e a 
Pedr'Eanes Lobato, que isso mesmo tinha «cargo do regimento da Casa do Cível da cidade 
de Lisboa». Não se pode apresentar como prova, porque a data dessa carta não é da era 
de César de 1430 e ano de Cristo de 1392, mas sim do ano de Cristo de 1430, como deixei 
provado na pág. i5o. 

Encontra-se a Casa do Cível funcionando em Santarém em Maio de Março de 

j 389, Novembro de 1409, Agosto de 14 10, Maio e Julho de 1412 (2) ; em Lisboa, em Novembro 
de 1390(3), Novembro de 1392(4), Julho de 1 3g5 (5) e em 1398 (6). Também funcionou em 
Coimbra, como declara, p. ex., a carta de D. João I de isenção de encargos, servidões e con- 
tribuições do conselho, e outros privilégios de libertado, concedida aos oficiais da «nossa 
Casa do Cível que ora está em a nossa cidade de Coimbra». Encontra-se porém êste docu- 
mento transcrito sem data em traslado autêntico requerido pelo dr. João Beleágua, deão da 
Guarda e do Desembargo, e mandado livrar, em 2 de Setembro de 1444, pelo dr. Rui Gomes 
de Alvarenga, do Desembargo e Petições e vice chanceler (7). 

Em 9 de Dezembro de 1433, confirmou D. Duarte aos escrivães da Casa do Cível 
de Lisboa os seus privilégios; mas só no ano seguinte tinha ela sede fixa na cidade do 
Tejo (8). 

Os sobrejuízes dei Rei na sua Casa do Cível eram regidos por um maioral, e o primeiro 
que me aparece, quando em Santarém a 26 de Maio de 141 3 (i3j5) se publicou a lei restri- 
tiva dos privilégios concedidos aos mercadores estrangeiros, é Gil Eanes, vassalo e sobrejuiz 
dei Rei na Casa do Cível, «que entom tinha o seello da dita Casa» (9). Gil Eanes pouco 
tempo permaneceu, segundo parece, na Casa do Cível, pois que em 1378 era ouvidor da 



(1) Henrique da Gama Barros, Historia da Administração publica em Portugal, vol. I, pág. 616. 

(2) Ibidem, págs. 616, 617, 618 e 619. — Deveria também, me persuado, estar a Casa do Civel em Santarém a 
22 de Novembro de 1440 (1403), quando naquela vila D. João I concedeu determinados privilégios taos homens bons 
do nosso desembargo, e ouvidores, e sobrejuízes, e oficiais da nossa Casa do Civel» (Chancelaria de D. João I, 
liv. 5.°, fl. 44 ▼•)." 

(3) Carta de privilégios aos do nosso desembargo, sobrejuízes, ouvidores, procurador, escrivão dos nossos feitos, 
escrivão da nossa chancelaria e aos outros oficiais da nossa Casa do Civel, «que ora está na nossa cidade de Lixboa», 
4c. — Liv. ii.° da Estremadura, fl. i85 v. 

(4) De 10 de Novembro de 1430 (1392) é datada a carta régia pela qual D. João I recebeu em sua guarda e enco- 
menda, e sob seu defendimento, assi o seu chanceler, os do seu desembargo, sobrejuízes, ouvidor, procurador e 
todolos outros oficiais «da nossa Casa», como os seus homens, mancebos, lavradores, gados, bestas, casais, herdades, 
quintãs, lavras, possissóes e todolas outras suas coisas, que eles tiverem e houverem, &c. (liv. de Extras, fl. 221 v.). 
Não se declara onde funcionava então a Casa do Cível, mas do facto do diploma ser datado de Lisboa e livrado por 
Lourenç'Eanes Fogaça, vassalo e chanceler mor, depreendo que ela estava então naquela cidade. 

(5) Arquivo da Câmara Municipal de Lisboa, Livro 3.° de D. João I, fl. 60. 

(6) Historia da Administração cit., pág. 618. 1 

(7) Chancelaria de D. Afonso V, liv. a5.°, fl. i3. 
18) Historia da Administração cit., pág. 619. 

(9) Ordenações Afonsinas, liv. IV, tit. 4. , § 8, pág. 49. 



Silvas 



169 



rainha D. Leonor (1) e em 1 383 corregedor da côrte (2). Neste pôsto, depois da morte de 
D. Fernando, o conservou a Rainha (3), a quem acompanhou a Alenquer quando, em De- 
zembro de 1 383, ela para lá fugiu (4). Talvez por este facto foram-lhe confiscados os bens, 
mas depois reconheceu-se ter êle sido vítima de más e falsas informações e D. João I, por 
carta de 12 de Novembro de 1422 (1384), mandou-lhe restituir a fazenda (5). 

Não sei quem sucedeu a Gil Eanes, nem a êle posso incluir no catálogo dos Regedores 
da Casa do Cível, designação posteriormente dada aos seus chefes, e terei de o começar no 
seguinte por ser o primeiro a constar-me por documentos ter exercido o cargo. 

Regedores da Casa do Cível 

I. — DIOGO LOPES consta ter sido regedor das justiças da Casa do Cível da carta de 
confirmação deste ofício a Pedr'Eanes Lobato. Diz o documento : Pedr'Eanes Lobato, do 
nosso conselho, pomo-lo na nossa Casa do Cível, que ora está em Lisboa, para haver de 
reger os da Relação e oficiais da dita Casa, e fazer livrar os feitos... E estes poderes suso 
ditos damos ao dito Pedr'Eanes assi e tam compridamente como os houveram Diogo Lopes, 
Gonçalo Peres e Alvaro Gonçalves, que este cargo tiveram... (6). De Diogo Lopes não 
encontro notícias nenhumas positivas. 

II. — GONÇALO PERES, o segundo nomeado no documento acima apontado, exercia 
o cargo em 1 395, como declara esta carta régia: «a vós Goçalo Perez, que por nós estades 
na nossa Casa do Cível, que estaa na cidade de Lixboa. . . sabede que a nós é dito e avemos 
certa informaçom, que alguíis nossos naturaaes colhem com os mercadores plazentijns e 
jenoeses, e outros mercadores estrangeiros stamtes em essa cidade e que a ela vêem mer- 
chantemente, e os doestam e lhis fazem outros muytos desaguisados. . .». Manda-lhe tomar 
conta da sua guarda e defensão, &c. Pôrto, 26 de Julho, Alvaro Gonçalves a fez, era de 
1433 (1395) (7). Era do conselho e por el Rei estava «na nossa Casa do Cível», quando, por 
carta de 10 de Abril de 1436 ( 1 398), D. João I lhe fez doação para sempre de todos os bens 
possuídos por João Fernandes Pacheco em Lisboa e seus termos, os quais compreendiam 
o lugar de Belas, com suas terras e padroado da igreja, as quintãs de Carnide e do Paço, os 
casais de Loires e os paços de Lisboa (8). Já era falecido, provávelmente, em Novembro 
de 1409, quando outro, como abaixo veremos, estava por el Rei na Casa do Cível; e, certa- 
tamente, em 1412, quando D. João I, por carta de 10 de Julho, confirmou a Maria Anes, sua 
viúva, todos os referidos prédios, com excepção do lugar de Belas, com suas herdades e o 
padroado da igreja, por quanto lho havia por então comprado (9). Gonçalo Peres foi pai 
dos Malafaias: Pero Gonçalves, rico homem, do conselho e vedor da fazenda de D. Duarte; 
e Luís Gonçalves, rico homem, do conselho e vedor da fazenda de Lisboa. 



(1) Carta de 16 de Outubro de 1416(1378) de couto para as herdades possuídas por Gil Eane6, ouvidor da Rainha, 
em termo de Évora e Arraiolos. — Chancelaria de D. Fernando, liv. 2. , fl. 42 v. 

(2) Cartas de 3 e 4 de Janeiro e 23 de Setembro. — Ibidem, liv. 3.°, fls. 46 v., 47, 96 e 96 v. 

(3) Carta de 9 de Dezembro de 1421 (i383) de doação em prestamo a Gil Eanes, corregedor na côrte, de muitos 
bens no Algarve. — Ibidem, liv. 2. , fl. 111 v. 

(4) Fernão Lopes, Crónica de D. João I, part. I, pág. 32. 

(5) Carta por que o dito Sr. mandou entregar e restituir a Gil Eanes, «corregedor que foe delrrey dom Fernádo», 
todolos seus bens, &c. — Chancelaria de D. João I, liv. fl. 74. 

(6) Liv. de Extras, fl. 170 v. 

(7) Arquivo da Camara Municipal de Lisboa, Liv. 3." de D. João I, fl. 60. 

(8) Chancelaria de D. João I, liv. 2 °, fl. 142 v. 

(9) Liv. 5.* da Estremadura, fl. 122 v. 



VOL. II 



22 



Brasões 



III. — ALVARO GONÇALVES, o terceiro nomeado no documento acima apontado, 
estava por el Rei na sua Casa do Cível, então em Santarém, no mês de Novembro de 1409 (i). 
Ainda servia em 1412, segunda consta, não só da carta de 14 de Maio de certos capítulos 
especiais de Santarém resolvidos nas Cortes de Lisboa desse ano, na qual se menciona Ál- 
varo Gonçalves e os outros «da nossa Rellaçom da Casa do Cível, que ora está em a dita 
Villa» (2); como também do instrumento de publicação de certo capítulo de Cortes ante- 
riores, feita em Santarém a 18 de Julho, «dentro no moesteiro de Sam Domingos, no Paaço 
onde fazem a Rellaçam, estando hy Alvaro Gonçalves, que por El Rey está em a sua Casa 
do Civil e Crime que está em a dita Villa» (3). Numa carta de brasão de 2 de Novembro 
de i5i3, transcrita noutra de 1599, diz-se que o agraciado era neto por uma parte de João 
Esteves de Vila-Nova Carregueiro, «alféres mor do rei D. João de Boa memória», e doutra 
parte neto de Alvaro Gonçalves Machado, «que foi governador da justiça nesta cidade de 
Lisboa e Casa do Cível».(4). Ora, assim como João Esteves nunca foi alféres mor de D. João I, 
também se deve ter por certo que o Alvaro Gonçalves, regedor da Casa do Cível, não é o 
Alvaro Gonçalves Machado, governador daquela Casa, quando, para maior prova da falsi- 
dade, tal designação ainda não existia. 

IV. — PEDR'EANES LOBATO tinha «cargo do regimento da Casa do Cível de Lisboa» 
em 2 de Novembro de 1430, como se declara numa carta já citada (5). Confirmou-lhe el rei 
D. Duarte o ofício por outra carta, infelizmente registada com a data incompleta por lhe 
faltar o número do ano. Diz o documento em extrato : Pedr'Eanes Lobato, do nosso con- 
selho, pomo-lo na nossa Casa do Cível, que ora está em Lisboa, para haver de reger os da 
Relação e oficiais da dita Casa, e fazer livrar os feitos. . . E estes poderes suso ditos damos 
ao dito Pedr'Eanes assim e tam compridamente como os houveram Diogo Lopes, Gonçalo 
Peres e Alvaro Gonçalves, que este cargo tiveram; e esta carta lhe damos e outorgamos 
por quanto mostrara outra tal de D. João I. Dada em Coruche, a i3 de Dezembro da era 
sobredita (6), a qual em parte nenhuma declarou, podendo-se portanto apenas afirmar ser a 
carta de um dos cinco anos de 1433 a 1437, provávelmente do de 1434, no mês de Dezembro 
do qual encontro diplomas régios datados daquela vila (7). «Pedre Anes Lobato, homem de 
grande autorydade, e bom cavalleiro, ao qual, como quer que de grande condyçam de sangue 
nom fosse, EIRey Dom Joam por conhecer delle ser bom, e discreto, e em armas homem 
esforçado, deu a governança da Justiça da Casa do Cyvel» (8), seguiu a parte da rainha 
D. Leonor na contenda sobre a tutela de D. Afonso V. Excluída inteiramente D. Leonor, 
cm fins de 1439, do govêrno e entregue êle ao infante D. Pedro, teve Pedr'Eanes de sair da 
Casa do Cível, onde todavia ainda permanecia em 18 de Janeiro do ano seguinte, data da 
carta de nomeação de desembargador dada a Diogo Afonso de Carvalho e endereçada a 
Pedr'Eanes Lobato, do conselho e regedor da Casa do Cível de Lisboa (9). Na antiga igreja 



(1) Gama Barros, Historia da Administração, vol. I, pág. 618, nota 5. 

(2) Ibidem, pág. 619. 

(3) Ibidem. 

(4) Sanches de Baena, Archivo heráldico, pág. 65o, emendando o evidente êrro de governador da junta, para 
governador da justiça. 

(5) Pág. i5o. 

(6) Liv. de Extras, fl. 170 v. 

(7) Carta de confirmação a D. Maria da Cunha, viúva do dr. Martim do Sem, das terras de Montelongo, Guilho- 
frei e Portocarreiro, dada em Coruche a 20 de Dezembro de 1434. Licença a D. Fernando, arcebispo de Braga, para 
poder comprar bens e terras, dada na mesma vila no dia seguinte. — Chancelaria de D. Duarte, liv. fls. C6 e 47 v, 

(8) Rui de Pina, Chronica de D. Afonso V, cap. xxv, pág. 23g. 

(9) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 20. , fl. 3 v. 



Silvas 



de S. Mamede de Lisboa, da parte da epístola, na capela do Espírito Santo, via-se uma 
sepultura nobre com este epitáfio : Esta capella mandou fa\er P" Annes Lobato cavaleiro 
do conselho delRey e Regedor nesta cidade na Casa do Civel em a qual ja\ elle e sua mollicr 
Caterina Annes e a dotaram pera missa perpetua e ao domingo missa cantada como consta 
do seu testamento. Faleceu no anno de 1442 (1). Caterina Anes já também era finada em 
Maio de 1446 (a). 

V. — D. FERNANDO DE CASTRO, governador da casa do infante D. Henrique, foi 
nomeado regedor da Casa do Cível pouco antes de falecer, como se depreende da carta de 
nomeação do seu sucessor. Morreu D. Fernando em Abril de 1441, no mar, às mãos de 
piratas genoveses, indo fazer a troca da cidade de Ceuta pelo infante D. Fernando (3). 

VI. — AIRES GOMES DA SILVA, do conselho, foi-lhe dado, por carta passada em 
Cernache a 7 de Julho de 1441, o ofício de regedor da justiça da Casa do Cível de Lisboa^ 
«assim como o ora tínhamos dado a D. Fernando de Castro, que se finou» (4). Havia sido 
Aires Gomes regedor da justiça na comarca de Entre Doiro e Minho, onde se encontra exer- 
cendo o cargo em vários anos entre os de 1430 e 1440(5). Muito afeiçoado ao infante 
D. Pedro, a quem acompanhava, perdeu por isso Aires Gomes a regedoria, que D. Afonso V, 
pouco depois de tomar conta do governo, em Maio de 1447, lhe tirou (6). Morreu Aires 
Gomes em 1454, havendo sido o i.° senhor de Vagos. 

VII. — DIOGO AFONSO MANGANCHA, doutor ín utroque jure e mestre em Artes, 
foi regedor da Casa do Cível, como se declarava no epitáfio, em caractéres góticos, da sua 
desaparecida sepultura na igreja de S. Jorge de Lisboa, o qual rezava assim: Sepultura do 
doutor Mangancha do conselho delRey e Regedor da Casa do Civel desta cidade de Lixboa 
que foi inviado por embaixador ao concilio de Basilea o qual deixou toda sua fazenda ao 
estudo desta cidade pera por ella se manterem escolares pobres (7). Nenhum documento meu 
conhecido confirma aquela informação, é certo; mas certo também é, que nenhum a infirma; 
tenho pois de aceitar como boa a afirmação epigráfica, e sem repugnância nenhuma o faço 
pois a acho muito verosímil. «O Doutor Diogo Affonso Mangancha em que avia letras e 
ardideza com pouco repouso» (8), fôra em 1439 muito parcial do infante D. Pedro no seu 
empenho de excluir a rainha D. Leonor da regência na menoridade de D. Afonso V, tanto 
na casa da Câmara de Lisboa, como nas Cortes celebradas na mesma cidade, havendo em 
ambos os sítios eloquentemente arengado a favor do Infante. Ainda por êle e por Afonso V 
fez a arenga solene da abertura das Cortes de 144Õ; mas já no ano seguinte, ao escrever o 
seu testamento, a 9 de Dezembro, depois dei Rei haver afastado D. Pedro, se lhe mostra 
Diogo Afonso desafeiçoado : «Peço por mercee ao Iffante Dom Pedrro — escreveu o Dr. — 
que com meu Testamento, nem coussas, nom aja de ver, nem se entremeta, per bem nem 



(1) P.e Sousa, Memorias sepulchraes, fl. 94. 

(2) Por carta de 24 do dito mês ocorreu el Rei ás dúvidas suscitadas para cumprimento dos testamentos de Pedro 
e Caterina, ambos já falecidos. — Chancelaria de D. Afonso V, liv. 5.°, fl. 46 v. ; Archivo histórico portuguez, III, 
424-425. 

(3) Rui de Pina, Chronica de D. Afonso V, pág. 292. 

(4) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 2. , fl. 69 v. 

(5) Joáo Pedro Ribeiro, Reflexões históricas, II, 43. 

(6) Rui de Pina, Chronica de D. A fonso V, pág. 369. 

(7) P.« Sousa, Memorias sepulchraes, fl. 84 v. 

(8) Rui de Pina, Chronica de D. Afonso V, cap. xzxyi, pág. 254. 



172 



Brasões 



per mal, e se tal coussa reccrrecer, leixo a elRey, que. per sy, e per conselho doutros, e nom 
delle ho determine» (i). Isto prova, me parece, que o célebre jurisconsulto adjunto à embai- 
xada enviada por D. Duarte ao concílio de Basileia, em 1435, segundo os cronistas, em 1436, 
conforme outro parecer (2), seria escolhido para substituir na regedoria da Casa do Cível 
ao seu predecessor, exonerado em meio do ano de 1447, e não deixaria vestígios documentais 
da sua passagem por lá por ter tido pouco tempo de serviço, visto que morreu entre 407 
de Janeiro do ano seguinte (3). Pelo seu testamento fundara o dr. Mangancha, que havia 
sido lente de Leis na Universidade de Lisboa, um colégio para dez estudantes pobres nas 
suas casas em frente da igreja de S. Jorge; teve porem pouca duração, pois que em 1459 
já estava extinto e as suas rendas aplicadas à Universidade (4). 

VIII. — PERO VAZ DE MELO, do conselho, já era regedor da Casa do Civel de Lisboa 
em 16 de Junho de 1450, data da confirmação do padroado de Bucelas (5). Criado conde 
da Atalaia, por carta de 21 de Dezembro de 1466, passou a chamar-se D. Pedro de Melo e 
ainda exercia o ofício de regedor a 5 de Julho de 1473 (6), no qual se conservou provável- 
mente até morrer, a. 24 de Agosto de 1478, como já ficou dito. 

IX. — D. LOPO DE ALBUQUERQUE, conde de Penamacor, foi regedor da justiçada 
Casa do Cível de Lisboa, segundo declara a carta de nomeação do seu sucessor; mas, se 
chegou a exercer o ofício, foi por pouco tempo. Renunciou-o a pedido dó príncipe D. João, 
que lhe deu por êle duzentos mil reais de tença e lhe prometeu carta geral, não só para re- 
ceber aquela quantia, como todos os mais dinheiros por D. Afonso V outorgados ao Conde. 
Desempenhou-se D. João II da sua promessa logo no princípio do seu reinado, pela carta de 
8 de Janeiro de 1482, dada em Évora (7). Implicado em 1484 na conspiração do Duque de 
Viseu, expatriou-se o Conde de Penamacor e morreu em Sevilha pelos anos de 1493. 

X. — D. AFONSO DE VASCONCELOS, conde de Penela, sobrinho dei Rei, teve carta 
do ofício da regedoria da Casa do Cível de Lisboa, como ora havia sido dado ao conde de 
Penamacor, que nas mãos dei rei o renunciou, e assim como d'antes dêle o tivera o Conde 
da Atalaia. Foi a carta passada em Avis a 1 de Maio de 1479 (8). Morreu o Conde de Pe- 
nela a 1 de Novembro de 1480. 

XI. — GONÇALO VAZ DE CASTELBRANCO, senhor de Vila Nova de Portimão, do 
conselho, vedor da fazenda e almotacé mor, teve, em 22 de Fevereiro de 1481, carta do 
ofício da regedoria da Casa do Cível, que está em Lisboa, como o tivera o Conde de Pe- 
nela (9). Deu-lhe D. João II, em Évora, logo ao subir ao trono, a 6 de Outubro de 1482, 
nova carta do mesmo ofício, como o tivera o Conde de Penela e os mais que antes dêle 
foram (10). A 6 de Agosto de 1484 ainda Gonçalo Vaz era regedor da Casa do Cível de 



(1) Joáo Pedro Ribeiro, Dissertações, tom. II, pág. 257. 

(2) António Pereira [de Figueiredo], Appendix, e illustração da Tentativa theologica, pág. 264.. 

(3) J. P. Ribeiro, Dissertações, tom. II, pág. 257. 

(4) Francisco Leitão Ferreira, Noticias chronologicas da Universidade de Coimbra, §§ 764, 767 e 768. 

(5) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 34. , fl. 172 v. 

(6) Carta de desembargador do cível a Gonçalo Garcia. — Ibidem, liv. 33.°, fl. 137 v. 

(7) Chancelaria de D. Joáo II, liv. 2.", fl. 2. 

(8) Liv. de Extras, fl. 166 v. 

(9) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 20. , fl. i5 v. 
(10) Chancelaria de D. João II, liv. 6.", fl. i3o v. 



Silvas 



i 7 3 



Lisboa (i); a i de Dezembro de 1485 porem, chamando-se D. Gonçalo de Castelbranco, já 
era governador da mesma Casa. 

Efectivamente naquele ano de 1485, segundo referem os cronistas, resolveu D. João II, 
para atalhar as confusões resultantes da identidade dos títulos dos chefes das justiças das 
Casas da Suplicação e do Cível, ambos intitulados regedores, que os da segunda se cha- 
massem d'ali em diante governadores (2). Foi por tanto D. Gonçalo o último regedor e o 
primeiro governador da Casa do Cível. 

•Governadores da Casa do Cível de Lisboa 

I. — D. GONÇALO DE CASTELBRANCO, senhor de Vila Nova de Portimão, do con- 
selho, governador da Casa do Cível, manda-lhe el Rei que se chame de dom e por conse- 
guinte sua mulher e todos seus filhos, que possa trazer bandeira quadrada e que haja, de 
Janeiro de 1486 em diante, cento e dois mil e oitocentos e sessenta e quatro reais de assen- 
tamento, o mesmo disfrutado pelos condes, tudo por carta dada em Sintra a 1 de Dezembro 
de 1485 (3). Confirma portanto este documento os dizeres dos cronistas, quando marcam 
o ano de 1485 para a mudança de designação de regedor em governador. Morreu D. Gon- 
çalo nos fins do ano de 1493, ou nos princípios do seguinte, antes de 16 de Maio (4), por 
isso que a seu filho D. Martinho se mandou pagar, como veremos, o assentamento de gover- 
nador, de Janeiro de 1494 em diante, pelo que se deve supôr ser seu pai já então falecido. 
Na Deducção chronologica (5) encontra-se uma provisão ou alvará dirigido, em 4 de Feve- 
reiro de 1495, ao governador D. Gonçalo; aquela data porem está errada, como já advertiu 
João Pedro Ribeiro (6). A data certa é 4 de Fevereiro de 1490, e com ela encontra-se o 
alvará transcrito na fl. bj do Livro das Extravagantes de Duarte Nunes do Lião, e impresso 
na pág. 574 do III vol. dos Inéditos de historia portuguesa. Tem importância histórica a 
averiguação desta data; porque tendo sido a provisão escrita por António Carneiro, se ela 
fòsse do ano de 1495, ficava sabido que D. João II chegara a perdoar àquele homem de 
Estado, a quem desterrara da Côrte em 1491. 

II. — D. MARTINHO DE CASTELBRANCO, senhor de Vila Nova de Portimão, do 
conselho e vedor da fazenda, foi, por morte de seu pai D. Gonçalo de Castelbranco, em fins 
de 1493 ou princípios de 1494, nomeado por D. João II governador da Casa do Cível de 
Lisboa, largando nessa ocasião a vèdoria da fazenda real (7), a qual ocupava desde 1481, 
substituindo nela a seu pai, então nomeado regedor da referida Casa (8). Não pode haver 
dúvida na exactidão da informação do cronista, porque ela é confirmada pelos dizeres da 
carta de 27 de Abril de 1496, pela qual D. Martinho tornou a ser nomeado vedor da fa- 



(1) Chancelaria de D. João II, liv. 22. , fl. 63. 

(2) Pina, Chronica de D. João II, pág. 70; Resende, Vida de D. João II, fl. 40 v. 

(3) Liv. 3.° dos Místicos, fl. 241 v. 

(4) Tôrre do Tombo, Documentos de Cheias, n.° 853, escritura da referida data na qual se nomeiam «D. Mecia 
Pereira e D. Maria Valente, filhas de D. Gonçalo, que Deus haja, governador da Casa do Cível». 

(5) Parte II, demonstração 6.*, § 12. 

(6) Additamentos à Synopsis chronologica, págs. 157 e 296. 

(7) Rui de Pina, Chronica de D. João II, pág. 70. 

(8) Martim Vaz de Castelbranco, fidalgo de nossa casa, atendendo á criação nêle feita e aos muitos serviços de 
seu pai Gonçalo Vaz, que ora fizemos regedor da Casa do Cível de Lisboa, temos por bem e damo-lo por vedor da 
nossa fazenda, assi como era seu pai, &c. Almeirim, 2 de Fevereiro de 1481 .— Chancelaria de D. Afonso V, liv. 26. , 
fl. 16. 



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Brasões 



zenda (1). Declara este documento, que D. João II tinha assentado e aposentado a D.Mar- 
tinho na cidade de Lisboa com o ofício de regedor fsicj da Casa do Cível; e D. Manuel lhe 
rogou e encomendou que quisesse andar na sua côrte e o servir no ofício de vedor de sua 
fazenda, largando o de regedor para o poder dar a outra pessoa. Alem disto consta da 
carta dada em Setúbal a D. Martinho, a 17 de Julho de 1494, pela qual lhe foi permitido o 
uso de bandeira quadrada, e lhe foi concedido o assentamento de cento e oito mil oitocentos 
e sessenta e quatro reais (o dos condes), que esta mercê do assentamento lhe fôra feita 
pelos seus muitos serviços, «assim no cargo que até aqui teve de vedor da fazenda» (2). 
Tinha portanto D. Martinho deixado já então a vèdoria e havia assumido a governança da 
justiça da qual parece já estar de posse desde o princípio de 1494, visto que o assentamento 
lhe foi mandado pagar do i.° de Janeiro daquele ano em diante. Encontra-se D. Martinho 
exercendo o ofício de governador em três cartas de 8 de Novembro de 1495 (3), e nele per- 
maneceu até princípios do ano seguinte, pois que já em Fevereiro, apesar .da carta de no- 
meação ser de 27 de Abril, se encontra exercendo o cargo de vedor da fazenda (4). D.Mar- 
tinho foi proclamado conde de Vila Nova de Portimão em 12 de Fevereiro de 1 5 14, e morreu 
em 1527. 

III. — D. ALVARO DE CASTRO, do conselho e vedor da fazenda, teve carta do ofício 
de governador da Casa do Cível de Lisboa, como o tinha D. Martinho de Castelbranco que 
o deixou, dada em Setúbal a 26 de Abril de 1496(5). D. Alvaro de Castro, estando em Jeru- 
salém, havia sido nomeado por D. João II vedor da fazenda, quando, em 1493 ou 1494, passou 
D. Martinho de Castelbranco para a Casa do Cível (6). Na vèdoria ainda se conservou 
D. Alvaro algum tempo mesmo depois de ter sido provido na governança das justiças, pelo 
menos, ainda a 29 de Março de 1499 assinou, na qualidade de vedor da fazenda, o caderno 
da sisa do Aver do Peso de Lisboa (7). Por carta passada em Lisboa, a 4 de Fevereiro de 
i5o2, foram-lhe dados de tença cento e dois mil oitocentos e sessenta e quatro reais do seu 
assentamento de conde, incluídos neles os oitenta e cinco mil do ordenado de governador (8) ; 
e por alvará de 22 de Maio de 1 52 1, confirmado por outro de 8 de Julho de i522, foi-lhe 
prometida a sobrevivência do ofício para seu filho D. Fernando quando tivesse trinta anos (9). 
O governador D. Alvaro morreu em Setembro de i528 (10), deixando de sua mulher D. Leonor 
de Noronha, filha dos 2.°' Condes de Abrantes, além doutros filhos, a D. Fernando, seu 
sucessor na governança da Casa do Cível, e a D. João de Castro, futuro vice rei da índia. 

IV. — D. FERNANDO DE CASTRO, fidalgo da casa dei Rei e filho de D. Álvaro de 
Castro, governador que foi da Casa do Cível, apresentou carta de D. Manuel de mercê a 



(1) Chancelaria de D. Manuel, liv. 33.°, fl. 106 v. 

(2) Chancelaria de D. João III, liv. 47." de Doações, fl. 114; liv. i.° dos Místicos, fl. 228 v. — Aparece também, 
mas com a data errada, no liv. 3.° dos Místicos, fl. 187. 

(3) Chancelaria de D. Manuel, liv. 27. , fl. 24; Chancelaria de D. João III, liv. 3o.° de Doações, 11. 2o3; e Iiv.9. 
da Estremadura, fl. 137 v. 

(4) Chancelaria de D. Manuel, liv. 33.°, fls. 1 17, 1 18 e outras. 

(5) Ibidem, fl. 100. 

(6) Garcia de Rèsende, Vida de D. João II, caps. 58 e 174, fls. 41 e 107 v. 

(7) Corpo cronológico, part. II, mac. 241, doe. io3. 

(8) Chancelaria de D. Manuel, liv. 4. , fl. 5 v. 

(9) Corpo cronológico, part. I, mac. 28, doe. 63. 

(10) Consta do mandado de 3o de outubro de i528 pelo qual se ordena ao recebedor da Chancelaria do Civel que 
pague aos herdeiros do Governador as tenças dêsse ano por inteiro, «posto que o Governador falecesse no mès de Se- 
tembro do dito ano». — Corpo cronológico, part. I, mac. 41, doe. 94. 



Silvas 



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D'. Álvaro da sobrevivência do dito ofício para este seu filho, logo que fizesse trinta anos 
de idade; e pelos ter feito e o ofício estar vago por morte do pai, mandou-lhe passar 
D. João III carta de nomeação, em Lisboa, a 23 de Abril de i53o(i). Ainda era governador 
e também do conselho em 24 de Agosto de 1540(2); mas já tinha falecido a 10 de Novembro 
desse ano (3). 

V. — D. HENRIQUE DE MENESES, do conselho, foi nomeado governador da Casa 
do Cível, ofício que vagara por falecimento de D. Fernando de Castro, por carta dada em 
Lisboa a 18 de Novembro de 1540 (4). Ainda exercia a 19 de Abril de 1546 (5); era porem 
já finado a i5 de Julho de 1547 (6)- 

VI. — D. RODRIGO PINHEIRO, bispo de Angra, confirmado por bula de 24 de Setembro 
de 1540(7), não foi ao seu bispado e exerceu no reino o ofício de governador da Casa do 
Cível de Lisboa. Com ele o encontro assinando um acórdão de 25 de Janeiro de 1549(8) e 
uma carta de 27 de Novembro de 1 55 1 (9). No ano seguinte foi transferido para o bispado 
do Pôrto, por bula de 24 de Agosto (10), e morreu a i3 do mesmo mês de 1572 (u). 

VII. — D. MANUEL DE MENESES, posteriormente bispo de Coimbra, foi governador 
da Casa do Cível, sucedendo no cargo a D. Rodrigo Pinheiro, segundo afirma mui conside- 
rado autor contemporâneo (12); advertirei contudo que ainda em nenhum documento encon- 
trei D. Manuel intitulado governador. Eleito bispo de Lamego em 1570 (i3), já então havia 
largado a governança da Casa do Cível. Fôra reitor da Universidade de Coimbra e veio a 
ser bispo daquela diocese em 1573. Morreu na batalha de Alcácerquibir em 1578. 

VIII. — DIOGO LOPES DE SOUSA foi governador da Casa do Cível e já, em 12 de 
Julho de 1569, se encontra exercendo aquele cargo (14), sendo do conselho e senhor de Oli- 
veira do Bairro (i5). Afirma D. António Caetano de Sousa que Diogo Lopes fôra nomeado 
governador em 1 552 (16); mas é engano, porque existindo do ano de i5^.3 por diante muitos 
documentos relativos àquele fidalgo, em nenhum, anterior ao alvará de 12 de Outubro de 



(1) Chancelaria de D. João III, liv. 42* de Doações, fl. 101. 

(2) Carta régia relativa aos privilégios para as pessoas que pedirem esmolas, dirigida na referida data a D. Fer- 
nando de Castro, do conselho e governador da Casa do Cível. — Vitor Ribeiro, A vida lisboeta nos séculos XV e XVI, 
no Archivo histórico portuguez, VIII, 32(5. 

(3) Alvará de 200.000 rs. por ano pelo rendimento das saboarias pretas de Lisboa a seu filho D. Jerónimo, de 
quem era tutor sua mãe L). Maria de Aiala. — Chancelaria de D. João III, liv. 63." de Doações, fl. i38 v. 

(4) Ibidem, liv. 40. , fl. 237. 

(') Carta de desembargador ao dr. Francisco de Leiria. — Chancelaria de D. João III, liv. 33." de Doações, 
fl. 83. 

(6) Carta de vinte moios de trigo de tença a sua viúva D. Beatriz de Vilhena (Ibidem, liv. i5.°, fl. io3), a Perigosa 
do Cancioneiro geral. 

(7) Corpo diplomático português, IV, 349. 

(8) Duarte Nunes do Lião, Livro das extravagantes, fl. i55. 

(9) Corpo cronológico, part. I, mac. 87, doe. 25, impressa no Archivo dos Açorês, II, i32. 

(10) Corpo diplomático português, VII, 168. 

(11) J. P. Ribeiro, Dissertações, V, 189. 

(11) Jorge de Cabedo, Decisionum Supremi Senatus regni Lusitânia;, part. I, decisão 2.*, § 3.°. 

(13) João Mendes da Fonseca, Memoria chronologica dos prelados de Lamego, pág. 96. 

(14) Alvará daquela data nos Elementos para a historia do município de Lisboa, vol. I, pág. 476, nota. 

(15) Èra sncessáo a seu pai por carta de confirmação dada em Xabregas a 18 de Maio de 1548. — Chancelaria de 
D. João III, liv. 55." de Doações, fl. 147 v. 

(16) Historia genealógica, XII, 5i5. 



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Brasões 



\56g de certa mercê (1), é intitulado governador. Serviu no conselho de Estado e de gover- 
nador do reino por morte do Cardial rei, e morreu a i3 de Setembro de i58o. Teve a alcunha 
do Diabo e já a êle me referi no liv. L 

IX. — D. RODRIGO DE MENESES, do conselho, foi, por alvará dado em Almada a 
21 de Junho de i58i, nomeado governador da Casa do Cível de Lisboa, em quanto el Rei o 
houver por bem e para começar logo a servir (2). Ainda exercia a 24 de Setembro de 1 582 (3) ; 
era porém já morto a 8 de Fevereiro do ano seguinte, data de um alvará de mercê de seis 
mil cruzados a sua viúva e herdeiros (4). 

Durante o govêrno de D. Rodrigo de Meneses, foi criada a Casa da Relação do Pôrto, 
destinada a substituir a do Cível de Lisboa, e àquela deu o regimento a lei de 27 de Julho 
de i582, publicada a 26 de Outubro (5), quando já, quási com certeza, D. Rodrigo era morto. 

Governadores da Relação do Pôrto 

I. — PERO GUEDES, do conselho, foi nomeado governador da Relação do Pôrto em 
quanto el Rei o houver por bem, por alvará de i5 de Novembro de i582(6), e tomou posse 
a 4 de Janeiro do ano seguinte, na primeira sessão que a nova Casa teve depois de transfe- 
rida para aquela cidade (7). Serviu Pero Guedes durante a menoridade de Henrique de 
Sousa, a quem o ofício de governador fôra prometido por alvará de lembrança de 3 de Maio 
de 1 58 1 e no qual foi provido por carta de 26 de Abril de 1590, como logo direi. Pero Guedes 
largou então o govêrno da Relação e, sendo já do conselho de Estado, foi nomeado presi- 
dente da Câmara Municipal de Lisboa por alvará de 22 de Junho do ano seguinte (8). Aca- 
bado o triénio passou a exercer o cargo de vedor da fazenda, para o qual foi nomeado por 
carta de 14 de Dezembro de 1594 (9). Era já falecido em 8 de Março de 1600 e deveria ter 
morrido nos princípios dêsse ano, ou nos fins do precedente (10). 

II. — HENRIQUE DE SOUSA, fidalgo da casa dei Rei e sobrinho de Diogo Lopes de 
Sousa, teve alvará de lembrança, passado em Tomar a 3 de Maio de i58i, da mercê do 
ofício de governador da Casa do Cível para sempre, logo que passasse dos trinta anos de 
idade. Tendo-os completado, foi-lhe dada, em 26 de Abril de 1590 carta de governador da 
Casa da Relação do Pôrto, a qual substituirá a do Cível de Lisboa (u), e tomou posse a 10 



(1) Diogo Lopes de Sousa, do conselho, governador da Casa do Civel, alvará para os i5o.ooo rs. de tença que íle 
tem, em quanto não for provido em alguma das Ordens, fiquem por seu falecimento a seu filho António de Sousa. — 
Chancelaria de D. Sebastião, liv. 22. de Doações, fl. 3o8. 

(2) Chancelaria de D. Sebastião e D. Henrique, liv. 46. de Doações, fl. 226 v. 

(3) Joaquim Inácio de Freitas, Collecçáo dos Assentos das Casas da Supplicação e do Civel, pág. i63, num alvará 
ai transcrito com a data errada, 1572 por i582. 

(4) Chancelaria de Felipe I, liv. 2. de Doações, fl. 325 v. 

(5) José Anastácio de Figueiredo, Synopsis chronologica, II, 198. 

(6) Chancelaria de Felipe I, liv. 3.°, fl. 314. 

(7) José Anastácio de Figueiredo, Synopsis chronologica, II, 2o3. 

(8) Chancelaria de Felipe I, liv. 23.° de Doações, fl. íou 

(9) Ibidem, liv. 32.°, fl. 149. 

(10) Apostila daquela data para Simão Guedes começar a receber, do i.° de Janeiro de 1600 em diante, 2O1.000 rs. 
de juro pertencentes ao morgado, em que sucedera por morte de seu pai Pero Guedes. — Chancelaria de Felipe II, 
liv. i.° de Doações, fl. 194 v. 

(11) Chancelaria de Felipe I, liv. 16. de Doações, fl. 357 v. 



Silvas 



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de Novembro do mesmo ano ( i). Em 1609 passou Henrique de Sousa para a côrte de Madrid 
a ocupar um lugar no Conselho da Coroa de Portugal, sendo então substituído por outro 
fidalgo no governo da Relação do Pôrto. Dois anos depois, sendo do conselho de Estado, 
foi criado conde de Miranda do Corvo, em sua vida, por carta dada em Madrid a 21 de Março 
de 161 1 (2); e, por alvará passado em Lisboa a 24 de Janeiro de 162 1, foram-lhe concedidas 
mais três vidas no referido título, pelos serviços prestados pelo Conde no Conselho da Coroa 
de Portugal em Madrid, e pelos de sua filha, então religiosa no mosteiro da Ascensão de 
freiras descalças da Ordem de S. Francisco da vila de Lerma, com o nome de sóror Beatriz 
da Cruz, a qual, antes de entrar em religião, se chamara D. Beatriz de Vilhena e servira de 
dama da falecida rainha D. Margarida de Áustria (3). Era o Conde de Miranda já falecido 
a 3 de Outubro de 1628, tendo provávelmente morrido no próprio ano, porque naquela data 
foi confirmada a seu filho, o 2° Conde de Miranda, uma tença vinculada para a começar a 
haver do i.° de Janeiro do ano seguinte em diante (4), devendo-se entender portanto que o 
pai ainda recebera a tença do ano de 1628. 

III. — LUIS DA SILVA, do conselho, foi, por alvará de 3 de Maio de 1609, nomeado 
governador da. Relação e Casa do Pôrto, «pelo tempo que eu for servido» (5). Parece ter 
tomado posse a i5 de Julho (6), e serviu durante o impedimento de Henrique de Sousa cha- 
mado para a côrte de Madrid a ocupar um lugar no Conselho da Coroa de Portugal. Era 
Luís da Silva alcaide mor de Seia e foi posteriormente do conselho de Estado e vedor da 
fazenda. Morreu, segundo declara o seu epitáfio, a 18 de Setembro de 1636(7). Foi pai 
dos dois governadores, João Gomes da Silva e Fernão Teles de Meneses, adiante nomeados. 

IV. — DIOGO LOPES DE SOUSA, filho maior de Henrique de Sousa, teve um alvará 
de lembrança, passado em Valhadolide a 26 de Setembro de 1608, do ofício de governador 
da Relação do Pôrto, para o começar a servir quando el Rei o ordenasse; e se lhe passou 
carta em forma, em Madrid a 14 de Janeiro de 16 13 (8). Entrou logo a ocupar o cargo em 
17 de Maio (9), e conservou-o até ao ano de 1 633, no qual foi nomeado, por carta feita em 
Madrid a 29 de Março, presidente do Conselho da Fazenda (10). Era já então 2. conde de 
Miranda, título que lhe fôra dado, ainda em vida de seu pai, por carta de 28 de Novembro 
de 1620 (1 1): e veio a morrerem Madrid, pouco depois da Restauração, a 27 de Dezembro de 
1640 (12). 

V — MANUEL DA SILVA DE SOUSA foi. por alvará de 20 de Janeiro de 1634, no- 



(1) José Anastácio de Figueiredo, Synopsis chronologica, II, 2o3. 

(2) Chancelaria de Felipe II, liv. 29.° de Doações, fl. 3 16. 

(3) Ibidem, liv. 44. °, fl. 334. 

(4) Chancelaria de Felipe III, liv. 21. de Doações, fl. 112 v. 

(5) Chancelaria de Felipe II, liv. 23." de Doações, fl. 102. 

(6) Francisco José da Serra Craesbeck de Carvalho, Catalogo Jos Governadores, pág. 294, col. 1, do vol. 11 do 
Repertório das Ordenações, onde, provávelmente por írro de impressão, se lê i5 de Julho de 1606, devendo ser 1609. 
Os Catálogos de Craesbeck estão muito errados; o dos Governadores da Relação do Pôrto merece porém confiança, 
na parte relativa às datas da posse, porque, segundo o próprio autor declara, à sua averiguação procedeu o chanceler 
daquela Casa, Francisco Luis da Cunha de Ataíde. 

(7) P.« Sousa, Historia genealógica, IX, 604. 

(8) Chancelaria de Felipe II, liv. 25." de Doações, fl. 179 v. 

(9) Craesbeck, Catalogo cit., pág. 294, col. 1. 

(10) Chancelaria de Felipe III, liv. 23.° de Doações, fl. i32. 

(11) Chancelaria de Felipe II, liv. 44. de Doações, fl. 233. 
(ia) P « Sousa, Historia genealógica, XII, 532. 

VOL. II . 23 



178 



Brasões 



meado governador da Casa da Relação do Pôrto, pelo tempo que estiver servindo o Conde 
de Miranda na presidência do Conselho da Fazenda (1), e entrou a exercer o cargo em 2 de 
Maio do mesmo ano (2). Ainda o ocupava a 24 de Abril e 19 de Junho de 1640(3); no prin- 
cípio do ano seguinte porem outro era já o governador. Foi comendador de Alpalhão e 
alcaide mor da tôrre de Belém. 

VI. — JOÃO GOMES DA SILVA, do conselho, foi, por provisão de 8 de Janeiro de 
1641, nomeado governador da Relação da Casa do Pôrto, pelo tempo por que el Rei for 
servido (4), e entrou em exercício a 28 do mesmo mês (5). Passou depois para regedor da 
Casa da Suplicação, nomeado por carta de i3 de Abril de 1644. 

VII. — FERNÃO TELES DE MENESES, do conselho de Guerra, foi nomeado gover- 
nador da Relação do Pôrto por três anos, por provisão de i5 de Fevereiro de 1645 (6) e 
tomou posse a 2 de Maio (7). Ainda exercia a i3 de Novembro de 1647 (8) j no ano seguinte 
porem foi nomeado novo governador, e Fernão Teles veio em i65o a ser regedor da Casa da 
Suplicação, como já ficou dito. 

VIII. — D. JOÃO DE MENESES, do conselho de Guerra, foi, por alvará de i3 de 
Outubro de 1648, nomeado por três anos governador da Relação do Pôrto (9) ; mas só tomou 
posse a 2 de Agosto de 1649 (10). Morreu neste mesmo ano, estando nomeado embaixador 

em Holanda ( 1 1). 

IX. — D. RODRIGO DE MENESES, do conselho, entrou a servir de governador da Re- 
lação do Pôrto em 23 de Julho de i65o(i2) e ainda exercia a 1 de Julho de i653 (1 3) ; no 
ano seguinte porem, a 2 de Maio, já era regedor da Casa da Suplicação, como ficou dito. 

X. — D. ÁLVARO DE ABRANCHES DA CÂMARA, do conselho de Estado, teve pro- 
visão de governador da Relação e Casa do Pôrto, por três anos e o mais que el Rei houver 
por bem, passada em Lisboa a 3i de Outubro de 1654(14). Tomou posse a i5 do mês se- 
guinte (i5), ocupando também o pôsto de governador das Armas. Não chegou a completar 
o triénio e morreu em Abril de 1660 (16). 



(1) Chancelaria de Felipe III, liv. 29.° de Doações, fl. i83. 

(2) Craesbeck, Catalogo cit., pág. 294, col. 1. 

(3) J. I. de Freitas, Colleccáo dos Assentos, n.°' 83 e 84. 

(4) Chancelaria de D. João IV, liv. n.° de Doações, fl. 4 v. 

(5) Craesbeck, Catalogo cit., pág. 294, col. 1. 

(6) Chancelaria de D. Joáo IV, liv. 17.° de Doações, fl. 129 v. 

(7) Craesbeck, Catalogo cit., pág. 294. col. 2. 

(8) J. I. de Freitas, Colleccáo dos Assentos, pág. 104, n.° 97.— Nesta mesma compilação, pág. 45, n.° 46, encon. 
tra-se um Assento tomado na presença do governador Fernão Teles de Meneses a 9 de Janeiro de 1624, mas nesta data 
deve haver êrro. 

(9) Chancelaria de D. João IV, liv. i5.° de Doações, fl. 213. 

(10) Craesbeck, Catalogo cit., pág. 294, col. 2. 

(11) Conde da Ericeira, Portugal restaurado, I, 701. 
(13) Craesbeck, Catalogo cit., pág. 294, col. 2. 

(13) Ordenações, liv. II, tit. v, § 8.°, n.° 2, Colecção 3.*. 

(14) Chancelaria de D. Joáo IV, liv. 26. de Doações, fl. 200 v. 

(15) Craesbeck, Catalogo cit., pág. 294, col. 2. 

(16) P.e Sousa, Historia genealógica, XI, 271. 



Silvas 



179 



XI. — HENRIQUE DE SOUSA DE TAVARES DA SILVA, conde de Miranda, foi, 
por provisão de 16 de Agosto de 1657, nomeado por três anos governador da Relação e 
Casa do Pôrto, da maneira por que o fora o conde Diogo Lopes de Sousa seu pai (1). Dizem 
haver entrado a servir em 3 de Agosto de i65y (2); mas parece haver algum engano nesta 
data. É certo porem exercer ainda o cargo a 29 de Abril de 1659 (3), ano em que foi no- 
meado embaixador aos Estados Gerais das Províncias Unidas, para onde partiu a 21 de 
Outubro (4), sendo então substituído no governo da Relação do Pôrto, o qual contudo ainda 
tornou a exercitar. Era filho de Diogo Lopes de Sousa, 2. conde de Miranda, acima nomeado, 
e o título de conde havia sido dado a Henrique de Sousa por carta de 20 de Janeiro de 1644, 
em verificação da segunda das três vidas concedidas a seu avô, o i.° Conde (5). 

XII. — LUIS DE SOUSA, deão da Sé do Pôrto e irmão do Conde de Miranda, foi no- 
meado governador da Relação e Armas do Pôrto, onde entrou a servir a 4 de Novembro de 
1659 (6). Ainda exercia a 16 de Agosto de 1G61 (7) ; no ano seguinte porem, regressando seu 
irmão da embaixada a Holanda, foi êle novamente provido no governo da Relação do Pôrto. 
Luís de Sousa, veio a ser capelão mor em 1669, arcebispo de Lisboa em 1675, conselheiro 
de Estado em 1679 e cardial em 1695. No fastígio das dignidades, faleceu a 5 de Janeiro 
de 1702 (8). 

XIII. — HENRIQUE DE SOUSA DE TAVARES, conde de Miranda, do conselho, go- 
vernador da Relação e das Armas da cidade do Pôrto, pelos muitos serviços que «me tem 
feito, passando-se de Castela, aonde se achava, para êste reino com grande risco de sua 
pessoa no naufrágio que padeceu, salvando-se a nado por vir servir a el Rei, meu senhor e 
pai, . . . depois que se restituiu a estes seus reinos, servindo com toda a satisfação, que de 
sua pessoa e casa se esperava, nos exércitos, armada, e campanhas que se ofereceram, não 
só como soldado, mas com o posto de mestre de campo da armada, adiantando-se sempre 
muito, como quem é, e foram aqueles de quem descende; e considerando mais o amor, 
cuidado e assistência com que serviu ao príncipe D. Teodósio, meu irmão, de seu gentil- 
-homem da câmara e seu estribeiro mor; e muito grande e particular serviço que o Conde 
me fez indo por meu Embaixador extraordinário aos Estados das Províncias Unidas, em 
tempo e ocasião, e com tantas circunstâncias, que fizeram êste serviço merecedor de muita 
estimação, sem para êle pedir mercê alguma nem acrescentamentos de sua conveniência, 
assistindo por espaço de dois anos na embaixada com grande luzimento e reputação, e 
obrando com acêrto e conforme as minhas instruções ao ajustamento da paz com aqueles 
Estados, que no decurso de tantos anos se não pôde efeituar, e o Conde com sua boa dili- 
gência ultimamente concluiu com grande conveniência para o reino e geral aprovação; dese- 
jando fazer mercê ao Conde, muito conforme a todos estes respeitos, a quem êle é, e à boa 
vontade que lhe tenho, me praz e hei por bem de lho fazer, em satisfação de tudo, da pro- 
priedade do cargo de governador da Relação do Pôrto, assim como o tiveram seus pais e 
avós por espaço de tantos anos, e como o êle exercita; e que por seu falecimento suceda 



(1) Chancelaria de D. Afonso VI, liv. 27. de Doações, fl. 65. 

(2) Craesbeck, Catalogo cit., pág. 294, col. 2. 

(3) J. I. de Kreitas, Collecçáo dos Assentos, pág. 126, n.° 114. 

(4) Conde da Ericeira, Portugal restaurado, II, 3o8. 

(5) Chancelaria de D. João IV, liv. 14." de Doações, fl. 216. 

(6) Craesbeck, Catalogo cit., pág. 204, col. 2. 

(7) J. I. de Freitas, Collecçáo dos Assentos, pág. 191, n.° 120. 

(8) P.t Sousa, Historia genealógica, XII, pág. 54a. 



i8o 



Brasões 



na mesma propriedade o filho que houver mais velho, e por sua morte lhe fique em duas 
vidas mais, alem das referidas, com que se cumprirão quatro vidas; e pela satisfação com 
que Luís de Sousa, irmão do Conde, está exercitando o mesmo cargo, hei outrossim por 
bem fazer mercê ao Conde, que nas ausências que fizer por meu serviço, ou noutros justos 
impedimentos, ou menoridade de quem fôr proprietário, sirva nestes casos o dito Luís de 
Sousa, e em sua falta sempre terei lembrança, quando haja de prover serventia, de que seja 
em seus parentes, beneméritos e capazes, que para isso se me apresentarão, etc. Lisboa, 
3o de Outubro de 1662» (1). Foi este alvará confirmado por carta de 23 de Junho de 1664(2). 
O Conde de Miranda já exercia a 19 de Fevereiro de 1664 e ainda ocupava o cargo em 3 de 
Outubro de 1667 (3); no ano seguinte porém levaram os povos do Pôrto as suas queixas às 
Cortes contra as opressões exercidas pelos governadores principalmente quando eram per- 
pétuos. Foram ouvidos, resolveu-se dar-lhes deferimento e então o Conde para atenuar os 
efeitos, ofereçeu-se para ir por embaixador a Madrid (4), para onde foi nomeado por carta 
de 4 de Fevereiro dêsse ano de 1668, na qualidade de um dos plenipotenciários a concor- 
darem a paz com a Espanha (5). Tornou então a largar o govêmo da Relação do Pôrto, 
sendo nele substituído. Concluído o tratado e publicada a paz, dilatou-se ainda por mais 
algum tempo a ausência do Conde, por ter sido nomeado embaixador na côrte de Madrid, 
para onde partiu a 22 de Julho de 1668 e só regressou a Lisboa em Maio de 1670(6); pouco 
depois porém estava de novo no Pôrto. 

XIV. — D. SANCHO MANUEL, conde de Vila Flor, do conselho de Guerra, foi no- 
meado governador da Relação e Casa do Pôrto por três anos, e o mais que el Rei houver 
por bem, por provisão de 20 de Dezembro de 1668(7). Parece porém ter só feito a sua 
entrada na cidade do Pôrto em 1 de Junho de 1670, tomando então posse, não só do govêmo 
das justiças, mas também do das armas do distrito (8). Pouco tempo lá permaneceu pois 
que saiu da cidade a 20 de Dezembro do mesmo ano (9). D. Sancho era o general vencedor 
da gloriosa batalha do Ameixial e poucos mais anos teve de vida, pois que morreu a 3 de 
Fevereiro de 1677(10). 

XV. — HENRIQUE DE SOUSA TAVARES DA SILVA, conde de Miranda, voltando 
em 1670 da sua embaixada a Madrid, conseguiu tornar a ser reintegrado no govêrno da Re- 
lação do Pôrto do qual novamente tomou posse a 20 de Janeiro do ano seguinte. «Entrou 
de noite, e foi sua entrada sem demonstração alguma de alegria; se fôra de dia poderá ver 
nas caras de muitos o pouco gosto com que era recebido. Não devia esperar muito, quem 
sabia o muito que havia feito aquella Cidade, por se ver livre do jugo do seu governo. Accusado 
da própria conciencia, teme a injuria quem lhe foge» (1 1). Encontro-o exercendo o cargo a 
5 de Maio de 1674(12), sendo já a êste tempo marquês de Arronches, se não há algum êrro 



(1) Chancelaria de D. Afonso VI, liv. 27. de Doações, fl. 435. 

(2) Ibidem, liv. 25.°, fl. 388. 

(3) J. I. de Freitas, Collecção dos Assentos, pág. i58, n.° 126, e pág. 169, n.° i35. 

(4) Monstruosidades do tempo e da fortuna, pág. 67. 

(5) Conde da Ericeira, Portugal restaurado, II, 944. 

(6) Monstruosidades cit., págs. 46 e [41. 

(7) Chancelaria de D. Afonso VI, liv. 20. de Doações, fl. 378. 

(8) Monstruosidades cit., pág. 142. 

(9) Ibidem, pág. i53. 

(10) P." Sousa, Historia geneologica, XII, 83o. 

( 1 1) Monstruosidades do tempo e da fortuna, pág. 1 55. 

(12) J. I. de Freitas, Collecção dos Assentos, pág. 180, n.° 144. 



t 



Silvas 



i8r 



no autor citado, porque a carta do título só foi passada a 27 do mês seguinte (1). Nela 
declara o Príncipe Regente, em nome de D. Afonso VI, conceder em sua vida ao Conde de 
Miranda o título de marquês da vila de Arronches de que era alcaide mor, em conside- 
ração da muito particular satisfação com que servira nos maiores e mais importantes negó- 
cios do reino tratados fora dele nas embaixadas de Holanda e Castela, e em outros de iguais 
consequências. Encontro o Marquês exercendo pessoalmente o cargo de governador da Re- 
lação do Pôrto em 7 de Agosto de 1677 (2); mas noutros Assentos daquela Casa de 1 683 e 
i685, aparece, servindo na sua ausência, o Chanceler da Relação (3). Morreu o Marquês a 
10 de Abril de 1706 (4), tendo conservado até então a dignidade de governador; mas, como 
não deixasse geração varonil, extinguiram-se as três vidas mais, que, no citado alvará de 3o 
de Outubro de 1662, lhe haviam sido dadas na propriedade do referido ofício. 

XVI. — D. TOMÁS DE ALMEIDA, ou D. TOMÁS DE ALMEIDA E NORONHA, 
bispo de Lamego, foi transferido em 1709 para a diocese do Pôrto e, por carta de 6 de Maio 
dêsse ano, nomeado governador da Relação e das Armas daquela cidade, onde fez a sua 
entrada pública a 3 de Novembro e logo no dia 9 tomou posse do governo das justiças (5). 
Ainda exercia a 4 de Fevereiro de 1716 (6); um ano depois, a 14 de igual mês, fazia porem 
a sua entrada solene em Lisboa investido na alta dignidade de patriarca. 

Seguiu-se, à transferência do Bispo do Pôrto para o patriarcado de Lisboa, um longo 
período de mais de quarenta anos durante o qual permaneceu vago o ofício de governador 
da Relação do Pôrto. Neste intervalo serviram de governadores os seguintes chanceleres 
daquela Casa: Francisco Luís da Cunha de Ataíde entrou a 12 de Janeiro de 1722 e serviu 
até fim do ano de 1749 (7); José Pedro Emauz, a quem encontro servindo desde 9 de Junho 
de 1750 até 24 de Março de 1753 (8) ; Pedro Velho do Lagoar, que, sendo chanceler e gover- 
nador das justiças da Relação do Pôrto. morreu naquela cidade a 2 de Abril de 1755 (9); e 
Francisco José da Serra Craesbeck de Carvalho desde 9 de Março de 1738, até 18 de Maio 
de 1762 (10). 

Não tenho presunções, repito, de escrever o catálogo definitivo dos Governadores da 
Relação do Pôrto; para isso precisava consultar o livro dos juramentos ou das posses 
existente no arquivo daquele tribunal, mas não me foi possível por êle se encontrar em per- 
feita desordem. Apurei tudo quanto sôbre o assunto encontrei na Tôrre do Tombo e nos 
livros meus conhecidos. Não serei muito completo nesta primeira parte; mas para a se- 
guinte, advirto, ainda muito menos elementos encontrei. 

XVII. — JOÃO DE ALMADA DE MELO, tenente general do exército e governador 
das Armas do Pôrto, foi, por carta de 17 de Dezembro de 1764, nomeado governador das 
justiças da Relação e Casa do Pôrto () 1). Nomeado por três anos, «e o mais que decorrer 



(1) Chancelaria de D. Afonso VI, liv. 3i.° de Doações, fl. 64. 

(2) J. I. de Freitas, Collecção dos Assentos, pág. 186, n.° i5o. 

(3) Ibidem, pág. 191, n.° 04, e pág. ig3, n.° i56. 

(4) P.» Sousa, Historia genealógica, XII, 552. 

(5) Craesbeck, Catalogo cit., pág. 295, col. 1. 

(6) J. I. de Freitas, Collecção dos Assentos, pág. 245, n.° 191. 

(7) Craesbeck, Catalogo cit., pág. 295, col. 2. 

(8) J. 1. de Freitas, Collecção dos Assentos, pág. 333, n.° 238, e pág. 345, n.' 246. 

(9) Gajeta de Lisboa de 17 de Abril. 

(10) J. I. de Freitas, Collecção dos Assentos, pág. 352, nS 25o, e pág. 366, n.° 257. 
(t 1) Ofícios e mercês de D. José, liv. 74. , fl. 181. 



l82 



Brasões 



em quanto não mandar o contrário», desempenhou-se por forma tal, que só a morte veio 
mandar o contrário e durante vinte e dois anos esteve João de Almada à frente do governo 
das armas e das justiças do Pôrto. Morreu o governador em Outubro de 1786 (i), e a cidade 
reconhecida perpetua a memória da sua boa administração no nome duma das suas princi- 
pais ruas, a do Almada. A seu irmão Francisco de Almada e Mendonça, ministro plenipo- 
tenciário em Roma, foi, por carta de 17 de Maio de 1774, dado o título de visconde de Vila 
Nova de Souto dei Rei, em duas vidas, sendo a segunda para seu sobrinho António José de 
Almada, filho primogénito de João de Almada, donatário da referida vila (2). A António 
José foi passada carta, em 11 de Abril de 1783, do título, por morte de seu tio e em veri- 
ficação da segunda vida que lhe havia sido concedida (3). Tem havido quatro viscondes de 
Vila Nova de Souto dei Rei; o título acha-se extinto, mas existem ainda descendentes. 

Caqui por diante ainda mais dificultoso se me torna continuar com estes apontamentos. 
Encontro, servindo de governador: em 1787-88, o chanceler José Roberto Vidal da Gama; 
em 1789, o governador interino do partido das armas do Pôrto, Sebastião Correia de Sá 
posteriormente marquês deTerena; em 1790, o chanceler Alexandre José Ferreira Castelo; 
em 1791 e 92, o chanceler Francisco Roberto da Silva Ferrão, e de 1794 a 1798, o chanceler 
Manuel Francisco da Silva e Veiga Magro de Moura. 

XVIII. — PEDRO DE MELO BREYNER, desembargador dos agravos da Casa da Su- 
plicação, foi nomeado governador das justiças da Relação e Casa do Pôrto, por três anos e 
o mais em quanto se não mandar o contrário, por carta de 5 de Maio de 1800(4). P° r de- 
creto de 26 de Novembro de 1807 foi Pedro de Melo escolhido com outros pelo Príncipe 
Regente para governarem o reino durante a sua ausência no Brasil; largou então o govêrno 
das justiças do Pôrto, o qual em 16 do mês seguinte já era outra vez exercido pelo chanceler 
Manuel Francisco da Silva e Veiga Magro de Moura (5). Teve Pedro de Melo Breyner papel 
notável na História do seu país e deixou, em especial, tam boa fama do seu govêrno das 
justiças do Pôrto, que a cidade lha comemorou dando o nome de Breyner a uma das suas 
ruas. Morreu em i83o e a ele já me referi. 

Em Pedro de Melo Breyner acabarei com os apontamentos para o catálogo dos Gover- 
nadores da Relação do Pôrto, por me faltarem elementos para o continuar, apesar de en- 
contrar notícia de mais dois governadores: Aires Pinto de Sousa, irmão do 2. Visconde de 
Balsemão, em 1820, 25, 26 e 27, ano em que foi exonerado por motivo das suas moléstias, 
por decreto de 18 de Setembro (6) ; e Fernando Afonso Geraldes, pai do i.° Marquês da 
Graciosa, em 1823. Despachos ou cartas das suas nomeações não existem registados na 
Tôrre do Tombo, e chego até a julgar haverem êles apenas interinamente exercido. 



(1) Segundo supplemento à Gaveta de Lisboa, n.° 42. 

(2) Chancelaria de D. José, liv. 77. , fl. 3gi v. 

(3) Mercês de D. Maria I, liv. 14. , fl. 33o. 

(4) Ofícios e mercês de D. Maria I, liv. 61. °, fl. 281. 

(5) Gaveta de Lisboa de 5 de Janeiro de 1808. 

(6) Gaveta de Lisboa de 21. 



XIV 

ALBUQUERQUES 



Sí 



J 



XIV 




Brasões da Sala de Sintra, Vol. II. 



Esquarteladp: o 1 e IV de prata, cinco escudetes de azul em cruz carre- 
gados cada um de cinco besantes do campo, e um filete de negro sobpôsto 
em banda; o II e III de vermelho, cinco flores de lis de oiro(i). Timbre: 
aza de vermelho. 

As armas antigas dos senhores de Alburquerque eram em campo de . . . , 
castelo de -..(2). Destas usaram os primitivos senhores daquela vila até 
D. Afonso Sanches casado com D. Teresa Martins, filha do 4. senhor è sua 
herdeira no senhorio. As armas destes senhores foram: em campo de prata 
cruz de vermelho, carregada de cinco castelos de oiro e acompanhada de 
vinte escudetes à antiga de azul, cada um sobrecarregado de dez besantes do 
campo, 3, 2, 3 e 2, postos cinco escudetes em cada cantão e dispostos em 
cruz, com os dos lados apontados ao do centro (3). 

Posteriormente adoptaram, parece, por brasão o escudo esquartelado das 
armas do reino e de cinco flores de lis de oiro em campo de vermelho; e por 
timbre castelo de três torres de oiro, sobrepujado de flor de lis do mesmo (4). 

(1) Para ocorrer a reparos direi, que a disposição dos móveis no campo do escudo é 
feita quási sempre debaixo de uma ordem determinada, e que, portanto, só nos casos excep- 
cionais ela se deverá indicar. O contrário é desilegante e oposto à boa prática. Uma figura 
ocupa o centro do escudo; três figuras são postas 2 e 1, isto é, em roquete; quatro, 2 e 2; 
cinco, 2, 1 e 2, isto é, em aspa; seis, 2, 2 e 2; nove, 3, 3 e 3; dez, 4, 3, 2 e 1 ; treze, 3, 3, 3, 
3 e i. Acostando-me a esta regra, tenho portanto de no I quartel das armas dos Albu- 
querques indicar a posição dos cinco escudetes, por estarem em cruz; e não o devo fazer a 
respeito das flores de lis do II quartel, por se verem em aspa. 

(2) Argote de Molina, Nobleça dei Andaluzia, liv. cap. 87, ft. 90. 

(3) Combinando-se os selos n.°" xxiv e xxv da Est." G do tom. iv da Historia genealó- 
gica, com a descrição da Nobleça dei Andaluzia, loc. cit. 

(4) Francisco Coelho, Thesouro da nobreça, fl. 28; Fr. Manuel de Santo António, The- 
souro da nobreça, a- 18. — No Livro do Amieiro mor, fl. 54 v., e no Livro da Torre do Tombo, 
fl. 11, vêem-se, unicamente as flores de lis, atribuídas por armas aos Albuquerques, pare- 
cendo porem deverem ser estas as de D. Teresa Martins casada com D. Afonso Sanches 
(Armaria portuguesa, pág. 1). 

tol. 11 24 



i86 



Brasões 



Esta adopção é já bastante antiga, pois, por destas armas terem usado os 
descendentes de D. Fernando Afonso de Albuquerque e os de sua irmã a 
Condessa de Neiva, os Meneses de Cantanhede, se há de infalivelmente 
admitir, que delas já tinham usado os dois irmãos seus progenitores. 

D 1 onde provieram as flores de lis, não sei. Terem elas sido adoptadas 
pelos dois referidos irmãos, como diferença no escudo da família, por eles 
serem bastardos, é conjectura, com um aFgumento favorável e outro contrário. 
O favorável é aqueles irmãos serem netos maternos de Iria Martins Alardo, 
filha que veio a ser herdeira de Pero Rodrigues (ou Gonçalo Martins) Alardo, 
senhor de Vila-Verde, cujas armas eram em campo de vermelho um crescente 
de prata acompanhado de tres Jlores de li\ de oiro. O argumento contrário 
é já se verem no selo de D. Tereza Martins (i), avó paterna dos ditos irmãos, 
e na sua sepultura (2) umas flores de lis e uns liões, rodeando o escudo. É 
este argumento de bastante peso. 

Parentesco com a casa real de França não havia; e para se supôr, como 
alguns querem (3), que as flores de lis tivessem essa proveniência, era for- 
çoso ser o campo de azul, o que só os Meneses de Cantanhede muito moder- 
namente começaram a adoptar. 

I 

REVOLTAS NO REINADO DE D. DENIS 

Havia já trinta e cinco anos que D. Denis reinava em Portugal; trinta e 
cinco anos de governo popular, ilustrado, reformador, de governo emfim que 

( 1 ) P. e Sousa, Historia genealógica da casa real, IV, estampa G, selo n.° xxiv. 

(2) Luz Foz, Memorias sepulchraes, fl. 46. 

(3) Afonso de Albuquerque nos Comentários, part. 4.% cap. 5o, diz, que «D. João Dalbo- 
querque. . . edificou a torre. . . da Codiceira, e nela pôs as suas Armas . . misturando com 
as quinas de Portugal as Flor de Lis, que eram Armas de sua mulher, que descendiam da 
Casa Real de PYança, que os Alboquerques agora trazem». Neste é completo o desacerto, 
pois que os Albuquerques, descendendo por bastardia do tal D. João Afonso, não podiam 
usar das armas de sua mulher. 

Quem escrever a árvore de costados de D. João Afonso verá, que nenhum dos seus dezas- 
seis quartos avós pertence à casa real de França, nem dela descende directamente. E, se o 
investigador quiser destruir completamente esta tradição, usará do mesmo processo a res- 
peito de D. Isabel de Molina, mulher do dito D. João Afonso, e verá, que dos seus dezasseis 
quartos avós, só o último, isto é, o pai da terceira avó, avô da bisavó, bisavô da avó, e ter- 
ceiro avô da mãe, só esse, André II rei de Hungria, é que foi casado com Violante de Cour- 
tenay, neta de Pedro, senhor de Courtenay, sétimo filho de Luís VI, rei de França. Mas, se 
o investigador discreto procurar em qualquer dos muitos livros de armaria franceses, encon- 
trará que os senhores de Courtenay usaram por armas em campo de oiro três arruelas de 
vermelho, e não as flores de lis de França. Os Albuquerques e os Meneses de Cantanhede 
são bastante ilustres; não precisam revestir as penas de pavão. 



Albuquerques 



187 



desenvolvera exiraordináriamente para o tempo e estado da nação a agricul- 
tura, o comércio, a indústria e até as artes e as letras, quando lutas intestinas, 
resultantes de ódios e intrigas, ameaçaram o reino de perturbações tam 
graves, que poderiam, senão apagar, pelo menos embaciar o brilho civili- 
zador e vivificador da esclarecida administração do Fundador da Universi- 
dade. 

O causador das dissenções, o infante D. Afonso, herdeiro do trono, se foi 
o mais culpado, não foi contudo o único. Seu pai, el rei D. Denis, homem 
vigoroso, ardente e sensual, tinha, desde a mais remota mocidade, procurado 
com ardor a convivência das mulheres. As suas amantes não tiveram conto; 
e numerosos foram seus filhos bastardos. 

A Rainha, inspirada pela sua muita virtude e profunda fé, procurou alívio 
e resignação na religião, entregando-se exclusivamente às práticas do culto. 
De temperamento frio e pouco afectuoso, preferiu buscar o esquècimento a 
sacrificar-se pelos seus e, levantando os olhos da terra, fitou-os tam intensa- 
mente no céu, que, nem para curar da educação de seus filhos, os pôde de 
lá apartar. A rainha santa Isabel não foi uma extremosa mãe. 

El Rei, ocupado com a administração do reino e com a satisfação dos 
seus naturais extintos, a Rainha entregue ao misticismo e à caridade em que 
foi sublime, cada um puchando para seu lado, chegando a viver quási como 
desconhecidos na própria casa, abandonaram sua filha de oito anos aos cui- 
dados de sua futura sogra a Rainha de Castela; e na mesma idade, pondo 
casa a seu outro filho o infante D. Afonso, entregaram a sua educação a es- 
tranhos, regateando-lhe até os afagos paternais por que a pobre criança 
decerto anelava. D'aqui resultou tornar-se o carácter do Infante seco, duro, 
egoísta, ambicioso e pouco escrupuloso. Educado no regaço de sua mãe, 
incutindo-se-lhe bons princípios de sã moral, edificado com exemplos de 
paciência e resignação, não se amaciaria a natural braveza do seu ânimo ? 
E-me lícito acreditá-lo, porque o terno afecto por êle consagrado a sua mulher 
mostra ser amoroso o coração de D. Afonso. 

O aio e os mais moradores da casa do moço Infante, mais numerosa do 
que cumpria, formavam uma corte à parte, onde logo se começou a desenhar 
oposição, de princípio dissimulada e receosa, ao govêrno paterno. Sucessos 
pessoais em que D. Denis interviera, favorecendo o seu predilecto bastardo, 
acirraram a má vontade dos da casa do Infante. Trataram de convencer a 
D. Afonso, que seu pai o pretendia afastar do trono para nêle colocar a 
D. Afonso Sanches, sendo o principal instigador desta intriga o atraiçoado 
bispo de Lisboa D. Estêvão Anes Brochado. 

Em i3 14 já era manifesta a resistência e fundamentados os receios de 
conflito. Ainda permaneceu todavia uma aparente tranquilidade até i3 19, 



i88 



Brasões 



ano em que o moço Infante, contra a expressa determinação de seu pai, foi 
em Maio avistar-se em Fuente Grinaldo com sua sogra a Rainha de Castela. 

O futuro Afonso IV amava sinceramente sua mulher; era-lhe pois fácil 
acreditar nas insinuações da sogra, D. Maria de Molina, a quem a história 
nos aponta como mulher astuciosa e resoluta. Durante a entrevista tiveram 
o arrojo de intimar a D. Denis a renúncia à coroa. 

Repelida com hombridade a intimação, principiou o despeitado Infante a 
usar de menos resguardo e de mais violência na sua oposição. Cercado de 
cavaleiros ambiciosos e pouco escrupulosos, acolhendo todos aqueles que por 
seus maus feitos tinham de fugir à justiça real, não deixavam, êle ou os do 
seu bando, de praticar toda a casta de distúrbios e malversações. Calúnias, 
roubos, saques, ciladas, violações de religiosas e seculares, sacrilégios, assa- 
ssínios, tal é o quadro que nos representa a história portuguesa durante esses 
tempos. 

Em i32o começou, com a súbita ocupação de Leiria, a guerra cevil ma- 
nifesta. E, ainda que el Rei reprimisse rigorosamente esta manifestação e 
levasse o Infante fugitivo adiante das suas tropas, a brandura usada, não o 
perseguindo e destroçando como muito bem o poderia ter feito, foi incita- 
mento à continuação da revolta. 

Ameaçada Lisboa pouco depois pelo Infante, teve D. Denis de novamente 
se apresentar com as suas tropas em frente das do filho que, receoso, se foi 
entrincheirar na serra de Sintra, d'onde el Rei, com brandura impolítica, o 
deixou a salvo regressar a Coimbra. 

Aqui permanecia D. Afonso, não dentro dos muros da cidade, que se con- 
servava fiel a el Rei, mas nos paços do arrabalde junto a S. Lourenço; esti- 
mulando-se-lhe porem o ânimo com a resistência da cidade a tomar a sua 
voz, decidiu acometê-la. Nem disso o demoveu, apesar da superstição do 
tempo, um violento tremor de terra que então teve lugar (i). Preparadas as 
forças e talvez pactuado acordo com os moradores, investiu o Infante as 
muralhas, e delas se apossou sem resistência em 3 1 de Dezembro de 1 32 1 . 
Senhor de Coimbra saiu imediatamente em excursão pelos arredores, a re- 
duzir ao seu partido outras povoações. Apoderou-se sucessivamente de 
Montemor, Gaia, Feira e Pôrto, e foi cercar Guimarães, d'onde apressada- 
mente teve de se levantar, por lhe constar o apêrto em que seu pai pusera 
Coimbra. 

Resolvera efectivamente D. Denis acabar com a guerra cevil e, juntando 
um numeroso exército, avançara sobre a cidade, principal baluarte dos re- 



(i) A i3 de Dezembro de i32i, estando o Infante em Coimbra e D. Denis em Lisboa, 

como se lê no Chronicon Conimbricense. 



Albuquerques 



189 



voltosos. Em princípios de Março de i322 assentou êle o seu arraial 
junto à antiga capital, que intimada não capitulou, antes persistiu tenaz na 
sua revolta. Em vista disso e do inexpugnável das suas muralhas não 
permitir o assalto, usou el Rei de represálias, talando e saqueando o arra- 
balde. 

Sabedor o Infante destes acontecimentos, levantou apressado o cerco de 
Guimarães e com seu irmão bastardo o conde D. Pedro, que então com êle 
andava, se dirigiu à frente das suas tropas para Coimbra. Não podendo 
penetrar na cidade, por lho estorvar o exército real, alojou-se no próximo 
convento de S. Paulo de Bernardos. Era já então com êle sua mãe, que 
sabedora do conflito partira de Alenquer, onde por ordem de seu marido per- 
manecia desde a redução de Leiria, a ver se com exortações e súplicas re- 
duzia D. Afonso à obediência. 

A futura heroína de Alvalade começou então a sua missão de pacifica- 
dora e medianeira entre o marido e o filho. Esta parte da vida de santa 
Isabel é digna do maior respeito, da maior veneração. Afastada da corte, 
sequestrados os rendimentos de seus bens, acode pressurosa assim que vê o 
perigo ameaçador. 

Unidos os seus esforços aos do conde D. Pedro, alcançou D. Isabel a 
trégua necessária para se ajustarem as condições da paz. Em quanto se dis- 
cutiam as bases do tratado, veio o Infante para Coimbra e partiu el Rei a 
16 de Março para S. Martinho do Bispo, meia légua d'ali. 

Lá em Coimbra ficou a Rainha com o conde D. Pedro e os meis dele- 
gados; como porém se dilatassem as negociações, D. Denis, enfadado com 
a demora, levantou o campo a 20 de Março e veio acometer a cidade. 

Ao escutarem o estrépito das trombetas e ao avistarem os pendões do 
exército real, armam-se apressurados os defensores de Coimbra, cerram as 
portas, guarnecem as muralhas e saem os melhores a tomar posição na ponte 
para embargarem o passo às tropas reais na única passagem que tinham. 
Acometidos com denodo, resistem com supremo esforço, praticando-se de 
parte a parte tais façanhas, que, ajuizadamente diz o cronista, muito de louvor 
seriam se fossem contra inimigos da pátria ou da fé. 

Repelido o assalto, recolheu-se D. Denis ao ainda então não soterrado 
mosteiro de S. Francisco, e D. Isabel, ajudada por parentes e leais conse- 
lheiros, renovou as negociações para a futura concórdia. Nela afinal se 
assentou tendo-se préviamente afastado el Rei para Leiria e o Infante para 
Pombal, a fim de se evitarem novos combates. 

Aceitas pelo pai e pelo filho as condições propostas, jurou-se o pacto em 
princípios de Maio: el Rei em S. Simão de Leiria, o Infante em S. Martinho 
de Pombal, cada um na presença de procuradores do outro. Seguidamente 



190 



Brasões 



foi D. Afonso àquela cidade, acompanhado pela .Rainha, a beijar a mão a 
D. Denis. 

Pouco tempo permaneceram as coisas em socêgo. El Rei mandou pro- 
ceder com rigor e energia contra os autores dos muitos crimes praticados 
durante o tempo das discórdias, e, como eles na maior parte tinham sido do 
bando do Infante, não viu este decerto com bons olhos o procedimento do 
pai, que era contudo ditado pela justiça. Posteriormente, tendo-se levantado 
uma revolta em Castela em meio do ano de i323, e tendo sidò reclamado o 
auxílio dei Rei de Portugal, pôs D. Denis o Infante à frente das numerosas 
tropas, cujo aparecimento na fronteira bastou para dispersar os revoltosos. 

Custa a compreender como D. Denis, político tam cauteloso, cometeu um 
erro destes, cujas funestas consequências logo se manifestaram. 

Soberbo com a fácil vitória, e não lhe minguando lisonjas nem pérfidos 
conselhos dos seus sequazes, que interesseiros o incitavam a exigir aumento 
de rendas, procurou D. Afonso a el Rei em Santarém e, encontrando-o rodeado 
dos seus bastardos, mais fácil e prontamente se desenvolveram os germens 
das ruins sementes lançadas em seu espírito. 

Como o pai lhe não desembargasse os pedidos na maneira desejada, re- 
quereu o Infante convocação de Cortes para nelas expor os seus agravos. 
Aceitou D. Denis sem demora o alvitre, pois antevia já o parecer dos pro- 
curadores. Convocadas as Cortes, reuniram-se em Lisboa em Outubro de 
i323, e aquele que as solicitara, conhecendo-as hostis, não compareceu. 

Efectivamente, depois de discutidas e decididas várias matérias sobre 
administração de justiça, consultou el Rei os Estados àcêrca da forma, como 
deveria proceder em relação ao herdeiro da coroa, o qual, apesar da bene- 
volência e generosidade havidas, continuava a mostrar-se agravado e impor- 
tunava por novos favores. Unânimes se declararam os procuradores con- 
trários às exigências do Infante, e ofereceram a el Rei as vidas e fazendas 
dos povos seus constituintes, se necessárias fossem. Despeitado saiu o In- 
fante para Santarém, onde juntou as suas tropas e as dos seus vassalos e à 
frente delas, talvez já em princípios de Novembro, se pôs a caminho de 
Lisboa, a tentar apoderar-se da capital e do governo. 

D. Denis pensou ainda em dissuadí-lo de tam desleal e desrespeitoso pro- 
pósito; vendo porem a sua pertinácia e constando-lhe o aparecimento das 
tropas revoltosas no Lumiar, saiu da cidade a fim de as dispersar. Ainda 
antes contudo de vir às mãos com o Infante, mandou-lhe nova mensagem por 
Álvaro Martins de Azevedo. 

Não sei a que se possam atribuir tantas hesitações havidas sempre por 
D. Denis, nas ocasiões de reduzir o revoltado filho. A amor paternal não, 
pois que parece nunca ter sido excessivo, e agora, depois de tantas ofensas, 



Albuquerques 



191 



menor ainda deveria ser. A receio pelo resultado da luta, também não, pois 
que el Rei, além de dispor de forças superiores, tinha atraz de si a grande 
maioria do país. Só à benignidade de carácter e ao generoso desejo de poupar 
o sangue de seus vassalos, se poderão atribuir as hesitações de D. Denis. 

Repelido o novo mensageiro contra o qual, por lhe ter dito algumas ver- 
dades amargas, chegou o fementido Infante a levantar ferro ameaçador, viu 
o Soberano que não havia outro meio, senão o das armas, para acabar com 
a contenda. 

Avançaram as duas hostes e nos campos de Alvalade, que compreendiam 
o actual Campo Grande, Campo Pequeno e terrenos circunvizinhos, se avis- 
taram os dois exércitos. Pararam, formaram em ordem de batalha, e com 
tal ódio vinham que, ainda antes de se dar o sinal do combate e dos corpos 
principais avançarem, começaram logo as vanguardas a escaramuçar. 

A escaramuça da vanguarda ia seguir-se o choque geral dos dois exércitos 
e já pelos ares voavam os dardos e as pedras, quando apareceu entre os 
combatentes, serena, majestosa, de aspecto triste e venerando, a imagem do 
Anjo da Paz, ante a qual se curvam todas as frontes, se abatem todas as 
armas. Era a Rainha que, não lhe suportando o ânimo o derramamento 
eminente de sangue em combate quási parricida, se pusera a caminho, só, 
sem ninguém ousar acompanhá-la, nem tendo sequer quem lhe levasse a 
mula pela rédea. Atravessara a hoste do marido e penetrara em seguida 
na do filho, ao qual se dirigiu guiada pelo seu pendão, que via hasteado. 

Curvemo-nos agora respeitosos perante esta sublime mulher e esqueçamos 
os seus defeitos, se ela alguns teve. 

Misturadas as exortações aos rogos, as exprobaçÕes às súplicas, conseguiu 
a Rainha Santa demover o filho dos seus sinistros projectos, coadjuvada na 
empresa pelo bispo de Lisboa D. Gonçalo Pereira, que acudira também com 
o mesmo propósito. Veio D. Afonso acompanhado de poucos cavaleiros ao 
encontro de seu pai, a beijar-lhe a mão, a implorar-lhe o perdão, que nova- 
mente alcançou. 

Mandado retirar o filho para Santarém, voltaram el Rei e a Rainha para 
Lisboa, onde foram alvo de espontânea e ruidosa manifestação de alegria da 
parte do bom e fiel povo da capitai. 

Não aproveitaram os acontecimentos, nem para dissipar a confiança impo- 
lítica de D. Denis, nem para modificar o carácter altaneiro de D. Afonso. 
Para êste não havia respeitos humanos, nem divinos, de qualidade nenhuma. 
Nem as cãs de seu pai, nem as lágrimas de sua mãe, nem os mais solenes 
juramentos, nada obstava a que na primeira ocasião êle deixasse de mani- 
festar a sua cobiça, a sua ambição. 

Logo no Fevereiro do ano seguinte, o de 1324, isto é, pouco mais ou 



192 



Brasões 



menos três meses depois do narrado, foi D. Denis, como costumava naquela 
parte do ano, para Santarém a passar uns tempos. Nos paços da Alcáçova 
estava residindo o Infante e tencionava cerrar as portas da vila a el Rei, que 
prevenido apressa a marcha e inopinadamente penetra na vila, indo alojar-se 
nas casas de Fernão Rodrigues Redondo. 

E repetição; mas realmente causa assombro o procedimento dei Rei com 
o Infante, e não se encontra desculpa para tal confiança em quem, por tantas 
e consecutivas vezes, mostrara a dureza do seu carácter. Veio D. Denis 
fechar-se em Santarém, onde o filho residia e tinha numerosa corte, trazendo 
consigo únicamente quarenta lanças ! 

Neste bêco sem saída, onde o soberano se veio meter, teve êle de se su- 
jeitar à mais humilhante capitulação. Por ela se vio obrigado a aumentar 
as rendas do Infante e a despedir de ao pé de si, desterrando para fora do 
reino, a Afonso Sanches, o seu predilecto bastardo, que foi o próprio a in- 
sistir com o pai na aceitação desta áspera condição pelo filho legítimo imposta. 

Retirado o bastardo para Alburquerque e satisfeita a ambição e o ódio 
de D. Afonso, deixou êste el Rei em socêgo durante o pouco tempo de vida 
que ainda teve. E pouco foi êle, pois que menos de um ano depois, nessa 
mesma vila de Santarém, veio D. Denis a morrer a i3 (1) ou 7(2) de Janeiro 
de i325. 

II 

LINHAGEM 

D. Denis não foi casto, longe disso. Desta fraqueza existem as provas 
evidentes nos numerosos filhos bastardos, que se lhe conhecem, havidos em 
diferentes mulheres. E de que usava de pouco resguardo nos seus amores, 
há também a prova na bem singular doação de Mirandela a Branca Lourenço, 
em 28 de Junho de i3oi (3). Na carta declara el Rei fazer-lhe esta mercê 
«por compra de vosso corpo», e determina que, «se deus tever por bem q 
eu aja de vos filho ou filhos filha ou filhas», eles herdem a dita vila. E no- 
tável o confirmarem esta doação, além do merdomo mor, do alféres mor e do 
chanceler, o Arcebispo de Braga e seis bispos ! 



(1) «Idus Januarii Obiit domus Dionisius inclitus rex Portugalie cuius anima requiescat 
in pace Amen. Era M.'CCC. a LX.III." Et in ipsa era Regnauit donnus Alfonsus filius eius 
pro eo.» — Chronicon Conimbricense^ nos Portugaliae monumenta histórica. Scripsores, 

pág. 4. 

(2) «E. M. CCC.LXIII. VII. die Januarij, obijt inclitus D. Dionisius rex Portugalliae, & 
Algarbij». — Kalendario da Sé de Lisboa na Monarchia lusitana, vol. VI, pág. 473. 

(3) Liv. 2. de Além Doiro, fl. 274 v. 



Albuquerques 



De uma de suas amantes, Aldonça Rodrigues Telha, teve o marido de 
santa Isabel um filho nascido antes do ano de 1289, vindo a ser o primogé- 
nito de todos quantos êle teve. Este filho chamou-se D. Afonso Sanches e 
foi mordomo mor de seu pai e como tal o encontro confirmando em uma 
carta de 7 de Outubro de i353 (i3i5)(i); mas suponho o oficio lhe seria reser- 
vado por D. Denis em i3o4 ou pouco depois em seguida à morte de D. João 
Afonso de Albuquerque, i.° conde de Barcelos, por não encontrar em todo 
este período ninguém outrem exercendo o cargo. Entretanto em 19 de Ou- 
tubro de i345 (i3o7) aparece Afonso Sanches confirmando uma carta régia, 
não se intitulando porém mordomo mor mas simplesmente senhor de Albu- 
querque (2). Já então o mordomo mor não era o primeiro ministro do rei, 
por assim dizer, como antigamente o fora; mas, ainda que tivesse perdido da 
sua preponderância nos assuntos do governo, conservava as suas grandes pre- 
rogativas de primeiro entre os próceres. Com a segunda filha do falecido 
Conde de Barcelos, aquela que sucedeu ao pai no senhorio de Alburquerque, 
o casara el Rei antes de Outubro de i3oy, como demonstra a indicação con- 
tida na sua confirmação da carta régia acima citada. 

Pela posse dos bens de sua mulher e dos senhorios que lhe foram doados 
tinha o bastardo uma grande casa; pelo seu ofício de mordomo mor ocupava 
uma posição elevada; pela afeição de seu pai, da qual era merecedor, se 
exaltou D. Afonso Sanches ao ponto de provocar os ciúmes e dar pretexto 
às rebeliões de seu irmão, o Infante herdeiro. 

Como seu pai também Afonso Sanches cultivou as letras, e de sua lavra 
existem trovas no Can\oniere portughese delia Biblioteca Vaticana. Acom- 
panhou D. Denis e coadjuvou-o nas importantes providências governativas, 
que ilustraram o seu reinado. 

Era evidente e merecida a predilecção de D. Denis por êste filho; e ainda 
que não creia ter o soberano tentado chamá-lo a sucessão do trono com pre- 
juízo do filho legítimo, não duvido dos afectos lhe sugerirem por vezes tal 
pensamento. 

O facto é que, existisse ou não a intenção, serviu ela de pretexto para as 
discórdias cevis terminadas definitivamente pelo destêrro de D. Afonso San- 
ches em 1324 como ficou dito. 

Com o destêrro evitou talvez o bastardo a sorte de seu outro irmão João 
Afonso, a quem Afonso IV mandou degolar logo no princípio do seu reinado; 
mas não conseguiu contudo afastar completamente a cólera dei Rei. Este, 
ainda no primeiro ano do seu governo, mandou instaurar processo contra 



(1) Chancelaria de D. Denis, liv. 3.°, fl. 98 

(2) Ibidem, fl. 58 v. 

VOL. II 25 



194 



Brasões 



Afonso Sanches e em virtude dêle lhe confiscou todos os bens. Para abrandar 
o ódio do irmão, enviou-lhe o desterrado uma respeitosa mensagem, protes- 
tando-lhe fidelidade e obediência. De nada serviu porem. 

Agravado e cônscio do poder, que as suas riquezas e dedicação de muitos 
amigos existentes em Portugal lhe proporcionava, armou-se o Senhor de Al- 
burquerque contra el Rei. Por Trás os Montes e pela Estremadura pene- 
traram as armas do bastardo no domínio do irmão. O próprio Afonso San- 
ches foi o caudilho da hoste, que invadiu esta última província e desbaratou 
próximo de Ouguela o exército real, comandado pelo Mestre de Avis. 

Seguiram-se as represálias. Afonso IV à frente de numerosas tropas 
invade os estados de Alburquerque, e arraza e saqueia Codiceira. Não pro- 
grediu porem, nem se demorou, pois que logo regressou ao reino e se cele- 
braram as pazes entre os dois irmãos. • Uma das condições delas foi a res- 
tituição de todos os seus bens a Afonso Sanches, que pouco tempo gozou da 
sua vitória, pois faleceu, segundo parece, em 1.S29. 

O seu corpo foi trazido para Portugal e sepultado no mosteiro de Santa 
Clara de Vila do Conde sumptuosa fundação sua, e onde o cadáver de sua 
viúva igualmente encontrou jazida (1). Do túmulo de Afonso Sanches, com 
a sua figura jacente, se vê a reprodução numa bela estampa do vol. II da 
Arte e Natureza em Portugal. 

Têem sido os restos destes cônjuges objecto de veneração no seu mos- 
teiro, onde por excelência são intitulados os Senhores, e até se pensou na sua 
beatificação. Para êste efeito chegou Fr. Fernando da Soledade a compor 
a Memoria dos Infantes D. Affonço Sanches, e dona Thereja Martins. Fun- 
dadores do Real Mosteiro de Santa Clara de Villa do Conde. .. Dada ao 
prelo pela Madre Soror Josefa Maria de Jesus Abbadessa do dito Mosteiro. 
Foi impressa a memória em Lisboa no ano de 1726. Notarei ser desacêrto 
grave, por outros repetido, o dar o título de infantes aos dois cônjuges, título 
que nunca tiveram os bastardos dos reis. 

Tinha D. Denis casado o seu filho predilecto antes de Outubro de 1807, 
como acima ficou dito, com D: Teresa Martins, filha de D. João Afonso, 
i.° conde de Barcelos, 4. senhor de Alburquerque e mordomo mor, e da con- 
dessa D. Teresa Sanches, filha bastarda de D. Sancho IV de Castela. 

D. João Afonso, ou D. João Afonso de Albuquerque, como ele se assina 
entre os confirmantes dalgumas cartas régias (2), foi um dos maiores senhores 



(1) O seu epitáfio vem transcrito a pág. 112 da Memória do P.e Fr. Fernando da Sole- 
dade abaixo citada. 

(2) Em 9 de Dezembro de 1 333 (1295) e 10 de Novembro de 1 334 (1296). — Chancelaria 
de D. Denis, liv. 2. , fls. 116 v., 117 v. e 128. 



Albuquerques 



do seu tempo na península. Em Castela tomou parte nas revoltas do rei- 
nado de Sancho IV pelo que chegou a estar preso e teria sido degolado se 
não fosse a intervenção de sua prima a rainha D. Maria de Molina, a qual 
logo que, depois de 25 de Abril de 1295, por morte de Sancho IV, tomou 
posse do governo do reino, o mandou soltar. Concluídas ainda nesse ano as 
tréguas entre D. Denis de Portugal e a Rainha Regente de Castela, se passou 
D. João Afonso de Albuquerque a servir na corte portuguesa e como rico 
homem já confirmou no foral de Moura, a 9 de Dezembro do referido ano(i). 
Em 1297 por sua intervenção se ajustaram os casamentos da infanta e do 
príncipe, filhos de D. Denis, com Fernando IV de Castela e sua irmã. Por 
esta ocasião seria feito mordomo mor e com este título confirma no foral de 
Alfaiates, a 1 de de Março de 1297(2). No ano seguinte o criou D. Denis 
conde de Barcelos e lhe fez doação desta vila com seu termo, por carta pas- 
sada em Santarém a 8 de Maio de 1 336 (1298) (3). Precedera a doação, 
como da própria carta dela consta, a investidura no condado, ceremónia 
então usada e que ainda se repetiu por muitos anos. Continuou o Conde de 
Barcelos a servir a D. Denis e no ano de 1299 foi por êle enviado como 
embaixador a Castela a concluir a composição com Fernando IV; nessa oca- 
sião aproveitou-se este do talento e bom nome do Conde e mandou-o a 
Jaime II de Aragão para tratar com êle as pazes, sendo a sua missão coroada 
de êxito. Em i3o2 voltou novamente a Castela a concluir o casamento de 
Fernando IV com a infanta D. Constança de Portugal. Foi este o seu último 
serviço público e a 5 de Maio de 1342 (i3o4) fez o seu testamento (4). Nele 
pede para Alburquerque ser dado a sua filha .D. Teresa Martins, e pouco 
depois morreu indo a sepultar ao convento de Pombeiro. 

Casara com D. Teresa Sanches, filha bastarda de D. Sancho IV rei de 
Castela e dela teve duas filhas: D. Violante Sanches, condessa de Barcelos 
pelo seu casamento com D. Martim Gil, 2. conde de Barcelos, alféres mor, 
de quem não teve descendência; e D. Teresa Martins, 5. a senhora de Albur- 
querque e mulher de D. Afonso Sanches, como já ficou dito. 

Dêste casamento sobreviveu apenas aos pais o filho D. João Afonso de 
Sousa(5) e depois de Alburquerque, o do Ataúde, 6.° senhor de Alburquerque. 
E bem curioso o facto que deu origem àquela alcunha póstuma; é porém 
bem conhecido e não o narrarei para não alongar mais o presente artigo. 

Havia o rico homem sido aio e mordomo mor de D. Pedro I de Castela, 

(1) Fr. Francisco Brandão, Monarchia lusitana, V, 233. 

(2) Ibidem, 25o. 

(3) Chancelaria de D. Denis, liv. 3.°, fl. 3. 

(4) Encontra-se transcrito por Fr. Francisco Brandão na Monarchia lusitana, VI t pág. 3o. 

(5) Fr. Francisco Brandão, Monarchia lusitana, V, fl. 241. 



Brasões 



contra quem posteriormente se revoltou, vindo a morrer no ano de 1 354 em 
Medina dei Campo, não sem suspeitas dei Rei lhe ter mandado propinar 
peçonha, hierbas(i). D. João Afonso havia casado com sua segunda prima 
D. Isabel de Molina, io. a senhora de Meneses, filha de D. Telo Afonso, 
8.° senhor de Meneses, e de sua mulher D. Maria, filha do infante D. Afonso, 
senhor de Portalegre, e da infanta D. Violante Manuel. 

Dêste casamento nasceu D. Martinho de Alburquerque (2), senhor de Al- 
burquerque, falecido sem geração, ainda em vida de sua mãe, entre 1 364 e 
1 366, apoderando-se a coroa de Castela das casas de Meneses e Alburquerque. 

Com a morte sem filhos de D. Martinho, não se acabou contudo a geração 
dos Alburquerques, pois que D. João Afonso de Alburquerque deixara de 
Maria Rodrigues Barba, filha de Rui Martins Barba e de Iria Martins Alardo, 
os seguintes filhos naturais: 

i.° — D. Fernando Afonso de Albuquerque, adiante; 

2. — D. Beatriz de Albuquerque, condessa de Barcelos, mulher de 
D. João Afonso Telo, 6.° conde de Barcelos, sem geração; 

3.° — D. Maria Afonso de Albuquerque, condessa de Neiva, legitimada 
por carta de 23 de Outubro de 1372, sendo já casada com D. Gonçalo Teles (3), 
posteriormente conde de Neiva. Dêste casamento provieram os Meneses de 
Cantanhede, que em atenção a êle sobrepuseram o seu escudo de oiro liso 
ao esquartelado dos Albuquerques. 

Também alguns pretendem, tivesse sido filho de D. João Afonso de Al- 
burquerque um Pero Gil. Dêste direi de sua justiça no cap. V. 

D. Fernando Afonso de Albuquerque foi mestre da Ordem de Santiago 

(1) D. Pedro Lopez de Ayala, Crónica dei Rey D. Pedro, ed. de Sancha, pág 1 5 1 . — 
Morote na sua Antiguidad y blasones de Lorca, citado por Piferrer na pág. i65 do III vol. 
do seu Nobiliário de Espana, faz a D. João Afonso de Alburquerque, o do Ataúde, filho de 
um D. Martim Gil de Alburquerque casado com D. Francisca Irurita. Em seguida a este 
erro palmar acrescenta, que êle, D. João, tivera um irmão chamado Sancho Martin de Al- 
burquerque de quem descendeu uma linha de Alburquerques em Lorca. N5o merece abso- 
lutamente crédito nenhum, e seguramente não devemos entroncar nos nossos estes Albur- 
querques de Lorca, que até nas armas diferem muito. 

(2) Assim o prova, contra a opinão de vários linhagistas, entre outros documentos, os 
dois seguintes: a carta de doação de todos os seus bens em Portugal, exceptuado Jarmelo, 
feita em 23 de Outubro de 1367 por D- Isabel, mulher que fòra de D. João Afonso de Al- 
burquerque e herdeira de D. Martinho seu filho, a D. Maria de Vila Lobos, testamenteira 
do dito seu marido; e a carta régia de 20 de Janeiro de iSyo, de doação a João Afonso 
Telo, para si e herdeiros, do lugar de Jarmelo, que íôra de D. João Afonso de Alburquerque 
e depois de D. Martinho seu filho, e ora era de D. Isabel, mulher que fôra do dito D. João 
Afonso e mãe do dito D. Martinho, a qual está em desserviço dei Rei. — Chancelaria de 
D. Fernando, liv. i.°, fis. 21 e 5 1 . 

(3) Ibidem, fl. 106 v. 



Albuquerques 



197 



por influência da rainha D. Leonor por êle ser irmão de suas cunhadas (1). 
Esta nomeação foi posterior a 1 de Julho de 1417 (1379), data da carta de 
doação a Fernando Afonso de Albuquerque, nosso vassalo, de todos os bens 
confiscados a João Lourenço da Cunha (2); mas seria ainda daquele mesmo 
ano, se é exacta a data apontada para a morte de seu predecessor D. Estêvão 
Gonçalves (3). Em 1 38 1 era certamente já mestre da Ordem, visto que nesta 
qualidade lhe foram confirmadas, por carta de 8 de Outubro, a correição e 
jurisdição cível e crime das terras da Ordem (4); e o último documento, 
em que aparece intitulado mestre, é a carta de 20 de Junho de 1 383 (5). 
Nesse mesmo ano foi enviado pelo Mestre de Avis, juntamente com o chan- 
celer mor Lourenço Eanes Fogaça, por embaixador a Inglaterra (6), d'onde 
voltaram em Julho de i38õ (7), tendo assinado a 9 de Maio a convenção do 
auxílio de dez galés a prestar por D. João I a Ricardo II (8). 

Pouco mais tempo teve de vida D. Fernando Afonso de Albuquerque, 
visto estar já substituído no mestrado em 3 de Fevereiro de 1387 por D. Mem 
Rodrigues de Vasconcelos (9). Em quanto esteve em Inglaterra subiram-lhe 
à cabeça as mimosas e loiras Inglesas, e por lá se apaixonou o Mestre por 
uma Laura, de quem teve duas filhas: Joana e Teresa. D. Joana de Albu- 
querque foi a segunda mulher do nosso já conhecido marichal Gonçalo Vas- 
ques Coutinho, o vencedor da batalha de Trancoso. Em seus descendentes 
não se repetiu o apelido materno. 

D. Teresa de Albuquerque foi a segunda mulher de Vasco Martins da 
Cunha, o Velho, 7. senhor da Tábua, como se referiu no artigo dos Cunhas. 
Dêste casamento nasceram, entre outros filhos de que não ficou geração, 
Pero Vasques da Cunha e D. Isabel de Albuquerque. 

Pero Vasques da Cunha foi senhor de Angeja, Pinheiro e outras terras, 
e o progenitor dos Albuquerques, senhores delas, e de D. Lopo de Albu- 
querque, conde de Penamacor em 1475. Dêste provieram os Albuquerques 
copeiros mores em cujos descendentes se renovou em 1*844 o título de conde 
de Penamacor, tendo eles, já de muito, a varonia de Saldanha e a casa de 
D. João de Castro. 



(t) Fernão Lopes, Chronica de D. Fernando, pág. 261. 1 

(2) Chancelaria de D. Fernando, liv. 2. , fl. 45 v. 

(3/ Fr. Agostinho de Santa Maria, Historia tripartita, pág. 24S. 

(4) Fr. Manuel dos Santos, Monarquia lusitana, VIII, 848. 

(5) Livro dos Copos, fl. 72 v. 

(6) Fernão Lopes, Crónica de D. João 1, part. I, pág. 83; part. II, pág. 197. 

(7) Ibidem, II, 217. 

(8) Visconde de Santarém, Quadro elementar, XIV, 100. , 

(9) Vol. I, 346-347. 



V 



ig8 



Brasões 



D. Isabel de Albuquerque casou com Gonçalo Vasques de Melo, 2.° senhor 
da Castanheira, Povos e Cheleiros, de quem teve, entre outros filhos que 
continuaram a casa dos Meios, a D. Leonor de Albuquerque. Foi ela casada 
com João Gonçalves de Gomide, 2. senhor de Vila Verde dos Francos e es- 
crivão da puridade de D. João I e D. Duarte, senhorio e cargo em que sucedeu 
a seu pai Gonçalo Lourenço de Gomide, companheiro de D. João I na empresa 
de Ceuta, onde se apresentou com quatrocentos homens, «todos de sua livree, 
e a maior parte delles de sua criaçom» (i). Reconheceu-lhe el Rei o bom 
serviço armando-o cavaleiro, quando repousava às portas da cidade, em 
quanto os Infantes terminavam a sua conquista. 

«João Gonçalves de Gomide matou a mulher indevidamente, e sendo degol- 
lado pela culpa os filhos se chamarão de Albuquerque, tomando-o da mãy» (2). 
O trágico sucesso passou-se antes de 24 de Março de 1437, data do alvará 
autorizando o curador e tutor dos filhos de João Gonçalves, escrivão que fora 
da puridade, e de D. Leonor de Albuquerque, a outorgar por êles em certo 
contrato (3). Deste malogrado casamento provieram os Albuquerques cha- 
mados Gomides, dos quais foram chefes os senhores de Vila Verde, que 
posteriormente, já com a varonia de Noronha, receberam os títulos de conde 
de Vila Verde, em 1654, e de marquês de Angeja, em 1714. 

D'entre os filhos de João Gonçalves de Gomide e D. Leonor de Albu- 
querque mencionarei dois: Gonçalo de Albuquerque e João de Albuquerque. 

Gonçalo de Albuquerque, 3.° senhor de Vila Verde, por carta de confir- 
mação de 2 de Abril de 1456(4), casou com D. Leonor de Meneses, filha dos 
i. os Condes da Atouguia, e dela teve a Fernão de Albuquerque, 4. e último 
senhor de Vila Verde da varonia dos Albuquerques Gomides, ao grande 
Afonso de Albuquerque e a outros. 

João de Albuquerque, senhor do lugar da Esgueira, com as jurisdições, 
por carta de 18 de Dezembro de 1454(5), teve, entre outros filhos, a Lopo de 
Albuquerque, fronteiro em Africa, progenitor dos Albuquerques da casa dos 
Bicos e dos Albuquerques Coelhos, capitães de Pernambuco, ramos lá adiante 
indicados. 

A representação do grande Afonso de Albuquerque tem sido, e ainda 
talvez seja, disputada entre várias casas. Irei expor no cap. seguinte os di- 
reitos por cada uma delas invocados, para em conclusão apresentar o meu 
parecer. 

(1) Gomes Eanes de Azurara, Crónica da tomada de Ceuta, ed. Esteves Pereira, pág. 212. 

(2) Fr. Manuel dos Santos, Monarquia lusitana, VIII, 5 18. 

(3) Doe. xxxviii em António Baião, Alguns ascendentes de Albuquerque e seu Jilho. 

(4) Chancelaria de D. Manuel, liv. 20. , fl. 20 v. 

(5) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 10.°, fl. i3o. 



Albuquerques 



! 99 



As armas dos Gomides eram: de azul, cinco gomis com sua asa e tampa, 
tudo de oiro; timbre: um dos gomis (i). Os descendentes de João Gonçalves 
de Gomide porem, assim como adoptaram o apelido de Albuquerque, tam- 
bém passaram a usar das armas desta linhagem. 

III 

REPRESENTANTE DE AFONSO DE ALBUQUERQUE 

A casa dos Marqueses de Angeja é, como ficou dito e pelos Noronhas, 
senhores de Vila Verde, sua varonia, a representante do 3.° senhor daquela 
vila. Gonçalo de Albuquerque, de quem Afonso foi terceiro filho. 

E curioso, que a favor dos Monizes senhores de Angeja, dc quem os 
Marqueses também são (ou melhor eram, porque tudo isto já lá vai) os re- 
presentantes, chegasse a ser julgada a administração da capela instituída na 
igreja da Graça pelo primeiro Afonso de Albuquerque; e mais singular ainda 
é que, ano e meio depois disto, outra sentença tivesse declarado a D. Fran- 
cisco Luís de Albuquerque e Noronha, senhor de Vila Verde, legítimo e ver- 
dadeiro sucessor do morgado de Azeitão instituído pelo segundo Afonso de 
Albuquerque. Quero dizer que por pouco se não juntou nos Noronhas a 
administração d'ambos os vínculos instituídos pelos dois Afonsos; não sucedeu 
porém assim, porque nenhuma das sentenças passou em julgado, como logo 
referirei. 

A casa de Pombal foi (2) a administradora da capela instituída por Afonso 
de Albuquerque na igreja do convento da Graça de Lisboa. Era pois a única, 
ultimamente, na posse de bens que houvessem pertencido ao conquistador 
de Goa. 

Em seu primeiro testamento, feito em Almada a 24 ou 28 de Março de 
i5o6, instituiu Afonso de Albuquerque uma capela, ou melhor, uma missa 
diária por alma de seus pais e pela sua. Determinou, que esta missa fôsse 
dita no altar da capela do capítulo do convento da Graça de Lisboa, onde 
jaziam seu pai e seu bisavô, ou na igreja de Santo Eloi, se os Gracianos não 
consentissem. Ordenou, que anualmente se contratasse um padre, livre 
doutro qualquer encargo análogo, a quem se dessem seis mil reais por ano 

( 1 ) Armaria portuguesa, pág. 23o. 

(2) Recebo hoje (25 de Julho de 1898) uma carta do meu velho amigo Marquês de 
Pombal; dela transcrevo o seguinte período: «Herdei os bens instituídos pelo grande 
Afonso de Albuquerque, vendi-os e remi a missa da Graça. Abolidos os vínculos, os encargos, 
principalmente pios, são difficeis de subsistir, e para descargo de consciência liquidei. É 
triste, não é ? Mas não temos culpa de termos vindo a este mundo n'esta triste época». 



200 



Brasões 



e mil e quinhentos para o ajudante. Vinculou a esta capela as suas quintas 
da Atouguia e da Alhandra, e as suas vinhas e pinhais de Alhos Vedros. 
Nomeou para primeiro administrador a seu filho Brás; nau cumprindo este 
as condições, passaria então a administração para o filho da irmã do insti- 
tuidor D. Constança; e, se este também as não cumprisse, passaria ao outro 
irmão que se lhe seguisse em idade. E continuou dizendo: «quero e me praz 
que el Rei nosso senhor, aquele que a tal tempo reinar, possa dar estes bens 
para a obrigação que mando que se faça, e será o parente mais chegado, 
começando nos filhes de minha irmã D. Constança, porque com este medo 
de perder esta fazenda terá cuidado de cumprir» (i). 

No seu segundo testamento, feito nas partes da índia em i de Novembro 
de 1 5 1 5, sem revogar o primeiro, alterou contudo Afonso de Albuquerque a 
primitiva instituição. Mandou dizer duas missas em vez de uma; nomeou 
para primeiro administrador a sua irmã D. Isabel (2), em sua vida somente, 
em seguida a ela, a Brás, seu filho, do instituidor, e depois deste aos seus 
descendentes legítimos; finalmente, na falta destes, determinou, que os bens 
passassem por doação, que dêles lhes fazia, aos Frades da Graça (3). 

Encontro porem desta verba outra versão, segundo a qual a ordem da 
sucessão seria alterada, pois diz: «a não haver filhos de meu filho, ou fale- 
cendo antes de mim, e, ficando assim, quero, que Pero Correia (4) os haja 
(os bens) e seus filhos, com condição de os dar a quem o fizer melhor e 
cumprir; e, não ficando filhos, torne-se esta capela ao filho de D. Fernando, 
o mais velho, e de D. Constança minha irmã» (5). Esta irmã de Afonso de 



(1) Os ossos d'Affonso d' Albuquerque, artigos de José Maria António Nogueira no Com- 
mercio de Portugal, n. os 1 53 5 a 1 537, ^ e l ^ a '9 ^ e Agosto de 1884. Foi este trabalho feito 
sôbre documentos do cartório do hospital de S. José. 

(2) D. Isábel de Albuquerque, mulher de Pero da Silva, o Relê, alcaide mor de Pôrto 
de Mós. 

(3) Os ossos d' Afonso d' Albuquerque cit., reportando-se a uma sentença de 1621 apre- 
sentada pelos Frades da Graça em 182^ no juízo da provedoria das capelas. Já outra sen- 
tença, publicada a 5 de Novembro de i5q3, declarara o mesmo. — Pedro de Azevedo, O fidei- 
-commisso d'Affonso d' Albuquerque, doe. II, alínea f, pág. 192 no vol. I do Archivo histórico 
portuguez. , 

(4) Èste Pero Correia foi senhor de Belas e vedor da casa da rainha D. Caterina. «Dom 
Martinho de Castello Branco. . . e Pero Correa, veador da casa da Rainha, que erão grandes 
amigos dAffonso dAlbuquerque» (Gaspar Correia, Lendas da Índia, II, 463). Era Pero 
Correia já falecido, sem deixar descendência, em 23 de Janeiro de 1 543, quando o senhorio 
de Belas foi confirmado a seu sobrinho Francisco Correia (liv. 6.° de Doações de D. João llh 
fl. 23). 

(5) Joaquim Rasteiro, Quinta e palácio da Bacalhoa em Azeitão, pág. 55. Este autor 
porém não cita as fontes. — Ao facto de ter sido chamado Pero Correia alude a sentença 
acima apontada. 



Albuquerques 



201 



Albuquerque, por êle nomeada em ambas as instituições, chamava-se D. Cons- 
tança de Castro e casara com D. Fernando de Noronha, governador da casa 
da Excelente Senhora. 

Brás, o filho do vencedor de Ormuz, ficou-se chamando, depois da morte 
de seu pai e por ordem dei Rei, Afonso de Albuquerque. Administrou a 
capela e morreu a 6 de Maio de 1 58 1 (i), não deixando filhos legítimos, e 
então tomaram logo os Frades da Graça posse da quinta da Alhandra. Por 
estes tempos do primeiro Afonso o parente mais próximo existente era, se- 
gundo parece, D. Luísa de Noronha (2), neta de D. Constança e mulher de 
D. Aleixo de Meneses, aio dei rei D. Sebastião. Apesar disso já em 1 588 
os Frades da Graça estavam de posse dos bens da capela (3). Não sei bem 
se esta data estará certa, advertirei, fundando-me nos mais dados colhidos. 

O filho bastardo do segundo Afonso, D. João Afonso de Albuquerque, 
havia intentado acção de reivindicação contra os Frades, apresentando seu 
tutor o libelo em 14 de Março de i586(4). Aparece pouco depois, em 20 
de Janeiro de 1 588, como opoente no processo, D. Afonso de Noronha (5), 
bisneto de D. Constança de Castro, irmã do primeiro Afonso. Durante o 
pleito faleceu o opoente, mas logo se habilitou em seu lugar sua irmã D. Vio- 
lante de Noronha, mulher de Vasco Martins Moniz, senhor de Angeja (6). 

Em i593, a 5 de Novembro, alcançaram os Frades na primeira instância 
sentença favorável (7), da qual imediatamente apelaram o autor e o opoente, 
e a Relação, em 10 de Maio de i6o3, deu um acórdão favorável a D. Vio- 
lante, já substituída ao irmão (8). Em virtude desta resolução foram os Gra- 
cianos obrigados a largar os bens e os frutos da lide contestada. João 
Afonso de Albuquerque desistiu; os Frades porem ainda embargaram, mas 
sem resultado (9). Começou então a correr o processo de liquidação dos 
rendimentos, o qual, depois de passar por várias fases, veio a terminar em 
1621, quando a 14 de Janeiro D. Violante de Noronha e Vasco Martins Moniz, 
deram dêles quitação aos Gracianos, sendo a sentença definitiva de liquidação 
passada no Março seguinte (10). Importaram os rendimentos, então pagos 



(1) Pedro de Azevedo, O fidei-commisso d'Affonso d' Albuquerque cit., doe. I, pág. 188. 

(2) Joaquim Rasteiro, Quinta da Bacalhoa, loc. cit. 

(3) J. M. A. Nogueira, Os ossos d' Albuquerque cit. 

(4) O fidei-commisso cit., doe. II, alínea a, pág. 188. 

(5) Ibidem, doe. II, alínea b, pág. 189. 

(6) Os ossos d' Albuquerque cit. 

(7) O fidei-commisso cit., doe. II, alínea /, pág. 192. 

(8) Ibidem, doe. III, pág. 193. 
{9) Os ossos d' Albuquerque cit. 

(10) O fidei-commisso cit., págs. 1 58, 159. 

vol. 11 26 



202 



Brasões 



pelos Frados, em um conto cento e sessenta e quatro mil seiscentos e cin- 
quenta réis (i). 

Ainda por aqui não terminaram as demandas, pois que a administração 
dos bens da capela de Afonso de Albuquerque foi, por sentença de data por 
mim ignorada(2), atribuída a D. Luísa de Meneses, neta de D. Luísa de Noronha 
e de D. Aleixo de Meneses, acima referidos, e terceira neta de D. Constança 
de Castro. D. Luísa de Meneses pôde habilitar-se a esta sucessão, em vir- 
tude de seu irmão D. Aleixo de Meneses se ter metido frade, entre Ó94 e 
1606 (3). Pela referida sentença não ficaram os bens da capela da Graça na 
posse de D. Violante de Noronha, nem na de seus descendentes, apesar da 
outra sentença de i6o3 acima apontada. 

D. Luisa de Meneses, a venturosa litigante, casara com Lourenço de 
Sousa, 3.° aposentador mor, a quem muito sobreviveu, bem como a todos 
seus filhos varões. Por morte de D. Luísa ainda se suscitou demanda, sobre 
a tam disputada administração da capela. Nela sucedeu seu neto Lourenço 
de Sousa de Meneses, i.° conde de Santiago de Beduído; veio-lhe porem dis- 
putar a posse sua tia D. Felipa de Meneses, mulher do almotacé mor Fran- 
cisco de Faria; mas a administração foi julgada ao Conde por sentença de 
20 de Novembro de 1674(4). 

Nos Condes de Santiago se continuou a administração da capela instituída 
por Afonso de Albuquerque, até à morte do 4. Conde, Nuno Aleixo de 
Sousa da Silva de Meneses. Então passaram os bens vinculados para sua 
irmã D. Luzia de Meneses, de quem os herdou sua sobrinha neta, a marquesa 
de Pombal D. Francisca de Paula do Pópulo de Lorena, que naquele tempo 
era o parente em grau mais próximo do instituidor. Da marquesa D. Fran- 
cisca herdou os bens o penúltimo Marquês de Pombal, falecido em 4 de 
Outubro de 1886, a quem se seguiu seu filho António de Carvalho Daun e 
Lorena, 5.° conde de Santiago e 6.° marquês de Pombal, último possuidor 
dos bens vinculados pelo grande Afonso de Albuquerque, os quais rendiam 
em 1 885, como vi em documentos do cartório da casa Pombal, a quantia de 
cento e vinte mil novecentos e quarenta réis, sendo de sete mil e quinhentos 
rs. o seu encargo ao hospital. Morreu o Marquês em 191 1, tendo alie- 



(1) J. M. A. Nogueira, Os ossos d' Albuquerque cit. 

(2) Joaquim Rasteiro, no seu livro Quinta e palácio da Bacalhoa, loc. cit., sempre com 
o defeito de não indicar as fontes, atribui a data a 20 de Junho de 1 6 1 5 à sentença que desa- 
possou a mulher de Vasco Martins Moniz da administração da capela; mas não pode ser 
porque ainda em 1621, como vimos, ela pertencia àquela gente. Talvez a data seja 1625 ; 

mas, certamente, não o afirmarei. 

(3) Veja-se lá acima na pág. 144. 

(4) Pegas, Tractatus de exclusione, inclusione, successione et erectione maioratus, 11,283. 



Albuquerques 2o3 

nado os bens da capela havia muito, como acima vimos pelo trecho da sua 
carta. 

A casa de Mesquitela foi possuidora dos bens, ou melhor, da maior parte 
dos bens do morgado fundado pelo segundo Afonso de Albuquerque, filho 
legitimado do primeiro. Daquele já tive ocasião de traçar umas leves notas 
biográficas, as quais para aqui trasladarei. 

Afonso de Albuquerque é o filho do herói da índia, o autor dos Commcn- 
tarios do Grande Afonso Dalboquerque impressos duas vezes em sua vida, 
em 1 557 e 1576. Fôra legitimado em i5o6, com o nome de Brás, como filho 
de Afonso de Albuquerque e de Joana Vicente, mulher solteira, «huma 
mulher d'Africa» declara autor contemporâneo, uma parenta de Gil Vicente, 
insinuam sem fundamento certos genealogistas. Por morte do pai mandou- 
-lhe D. Manuel mudar o nome em Afonso de Albuquerque, deu-lhe quatro- 
centos mil reais de juro e mandou-lhe pagar cento e oitenta mil cruzados 
devidos a seu pai de ordenados e quintaladas de pimenta. Pouco depois 
casou-o com D. Maria de Noronha, filha de D. António de Noronha, primo 
dei Rei, seu escrivão da puridade e conde de Linhares por carta de 20 de 
Outubro de 1 525. Afonso de Albuquerque era muito rico; edificara em 
Lisboa, pelos fins do primeiro quartel do século xvi, a casa dos Bicos; com- 
prara em i528 a quinta da Bacalhoa, em Azeitão, a qual posteriormente 
muito aformoseou, terminando as obras em 1 554 ? D- IH pedia-lhe em 
1524 dinheiro emprestado; por estes e outros factos análogos é que Gil Vi- 
cente afirma, no Clérigo da Beira, ser Mercúrio a estrela de Afonso de Al- 
buquerque. Acompanhou em i52i a infanta D. Beatriz a Itália; foi um dos 
fidalgos portugueses que em 1 526 acompanharam a imperatriz D. Isabel 
quando foi para Castela; e lá assistiu ao seu casamento, em Sevilha, a 23 
de Março. Afonso de Albuquerque foi provedor da Misericórdia de Lisboa 
em seis anos diversos, desde 1542 a 1577, e presidente da câmara municipal 
da mesma cidade por carta régia de 12 de Dezembro de 1572. Morreu a 6 
de Maio de 1081, com oitenta anos e as faculdades mentais um tanto obscu- 
recidas, única atenuante, que encontro, para certos actos públicos e particu- 
lares da sua vèlhice (1). 

Afonso de Albuquerque e sua mulher D. Maria de Noronha instituíram, 
em 27 de Janeiro de 1 568, um vínculo do qual fizeram cabeça uma quinta 
em Azeitão, posteriormente chamada da Bacalhoa. Alem da referida quinta 
com todas suas pertenças, ficaram também vinculadas ao morgado as casas 



(1) Vida e obras de Gil Vicente, págs 200 e 390. omitindo as notas. 



204 



Brasões 



de Lisboa às portas do Mar(i), as casas dos Bicos, das quais adiante tratarei. 
Pelo mesmo instrumento foi fundada uma albergaria para pobres caminhantes, 
pegada com a igreja de S. Simão de Vila Fresca, fronteira à quinta. No- 
mearam os instituidores a administração no sobrinho de Afonso, André de 
Albuquerque, com a obrigação de casar com pessoa da família de D. Maria. 
Na falta do nomeado poderia o cônjuge instituidor sobrevivente chamar para 
a sucessão um dos descendentes de Gonçalo de Albuquerque, qual quisesse. 
Por último a todos os administradores é imposta a obrigação do nome de 
Afonso de Albuquerque, e da sucessão não são excluídos os filhos naturais 
havidos em mulher honrada, isto é, de limpo sangue e recatada vida. 

André de Albuquerque não era rigorosamente sobrinho do instituidor, 
porque o ascendente comum dambos era bisavô do segundo e terceiro avô 
do primeiro. Já nesses tempos porém era uso nas familias fidalgas, uso con- 
servado até nossos dias, tratarem por tios, não só os primos com irmãos 
dos pais, mas até todos os parentes que com aqueles estivessem no mesmo 
grau, fôsse qual fôsse, em relação ao antepassado comum. Ainda mais se 
dava isto, quando havia diferença grande de idade. Há cinquenta anos, 
quantos fidalgos, ou pretendentes a isso, haveria que não tratassem por tio 
ao Conde do Lavradio d'então ? não seriam meia dúzia. 

Tratou logo André de Albuquerque, para se pôr em regra com o precei- 
tuado na instituição do vínculo, de casar com uma parenta da instituidora e 
a escolhida, essa sim, era aobrinha direita. Foi ela D. Caterina de Noronha, 
filha de D. Pedro de Meneses, capitão e governador de Ceuta, filho segundo 
do i.° Conde de Linhares e portanto irmão de D. Maria de Noronha, mulher 
do segundo Afonso de Albuquerque. Todavia nem deste casamento, o pri- 
meiro de André, nem do segundo, houve descendência e à morte do insti- 
tuidor do vínculo, então casado em segundas núpcias, já o próprio André 
também era falecido. 

Afonso de Albuquerque, o de Azeitão, morreu em 6 de Maio de 1 58 1 sem 
deixar descendência legítima; mas deixou legitimado e parece que chamado 
para a sucessão, a D. João Afonso de Albuquerque. A legitimação teve con- 
firmação régia. Aqui, à morte de Afonso, começaram as intermináveis 
demandas. Sua segunda mulher e viúva, D. Caterina de Meneses, pretendeu 
suceder-lhe na administração do morgado; opôs-se-lhe porém o curador do 
enteado ainda menor, e alcançou deferimento, em virtude do qual D. João 
Afonso esteve na posse pelo menos até i585 (2). 



(1) Silva Túlio, A casa dos Bicos, no Archivo pittoresco, III, 400; Rasteiro, Quinta da 
Bacalhoa cit., pág. 52. 

(2) Rasteiro, Quinta da Bacalhoa cit., pág. 56. 



Albuquerques 



205 



Não foi pacífico porem este logro, por haverem aparecido novos e muitos 
pretensores, originando porfiado processo, no qual se lavrou sentença na pri- 
meira instância em i5 de Novembro de 1604(1). 

Desta sentença consta, que a primitiva autora havia sido D. Luísa de No- 
ronha e Albuquerque, viúva de D. Aleixo de Meneses, a qual depois desistiu. 
Consta também, haverem sido muitos os opoentes, dos quais uns abando- 
naram, outros desampararam a causa, subsistindo então apenas quatro pre- 
tensores, a saber: D. Francisco Luís de Albuquerque e Noronha, Pedro 
Barreto de Albuquerque, Jerónimo Teles Barreto de Albuquerque e D. João 
Afonso de Albuquerque (2). Consta mais que ao tempo era D. João Afonso 
quem possuía a quinta de Azeitão, na qual lhe haviam sido assinados os ali- 
mentos. 

Entre os litigantes preferiu o juiz a D. Francisco, a quem julgou pertencer 
a administração do morgado, não por ser o parente mais próximo, mas por 
estar em linha mais directa de Gonçalo de Albuquerque, o avô comum, cujos 
descendentes haviam sido chamados para a sucessão. 

Não se conformou Jerónimo Teles com esta sentença. Interpôs agravo e, 
em 14 de Agosto de 1608, alcançou provimento na Casa da Suplicação (3). 

Fundaram-se os juízes no facto de Jerónimo Teles ser neto de Pedro Bar- 
reto a quem havia de ter pertencido em vida a sucessão do morgado por ser, 
como bisneto de Gonçalo de Albuquerque, o seu parente em grau mais pró- 
ximo existente ao tempo em que ela faltou. Morto Pedro Barreto transfe- 
riu-se a instância da causa em seu neto Jerónimo, que era legítimo e verda- 
deiro sucessor do morgado, e por tal o declaram. 

Ainda por aqui não findou a demanda. Requereu D. Francisco Luís re- 
vista e, concedida ela, decaiu de todo por acórdão do Desembargo do Paço 
de 10 de Julho de 1648(4). Desde então ficaram pacíficos na já usufruída 
posse os Albuquerques Barretos, que, para dizer mais certo, já eram Albu- 
querques Manueis. 

Efectivamente Jerónimo Teles pouco tempo administraria o morgado, pois 
que tendo-lhe sido entregue por sentença de 14 de Agosto de 1608, em 21 
de Novembro de 1610 já a quinta pertencia a sua irmã D. Maria de Men- 
doça (5). 

Esta senhora havia casado com D. Jerónimo Manuel, o Bacalhau, filho de 

(1) Pegas, De exclusione. .. maioralus, II, 41Ò. 

(2) Na árvore genealógica, no fim deste capítulo, se poderá ver o grau de parentesco exis- 
tente entre os pretensores e aquele em que estavam para com o instituidor. 

(3) Pegas, De exclusione... maioratus, II, 41 3. 

(4) Ibidem, pág. 414. 

(5) Rasteiro, Quinta da Bacalhoa cit., pág. 58. 



206 



Brasões 



um cadete da casa da Atalaia; foi D. Jerónimo porteiro mor e depois de viúvo 
capitão mor da armada do ano de 16 1 5. A alcunha de D. Jerónimo refle- 
tiu-se provavelmente na mulher, a quem chamariam a Bacalhoa e, por ela 
ser a verdadeira senhora da quinta, se ficaria esta chamando desde logo, no 
vulgo pelo menos, da Bacalhoa. Até quem sabe se o nome não "lhe seria 
posto por escárnio pelo próprio D. João Afonso de Albuquerque, o desapos- 
sado filho do instituidor, ou por seus sequazes ? A demanda dera decerto 
brado entre os moradores daquelas aldeias de Azeitão, a sentença ainda mais. 
Eles haviam de ser afeiçoados aos Albuquerques, ricos e liberais, que muito 
dinheiro lhes deram a ganhar nas obras do prédio e que na própria instituição 
deixaram prova da sua caridade. Vem gente nova para o palácio. Quem 
será? preguntam os aldeãos. Ora! é o Bacalhau e a Bacalhoa; respondem 
uns aos outros. Parece-me mais verosímil, em quanto algum documento não 
mostrar o contrário, do que supôr ter provindo o nome à quinta de uma se- 
nhora, D. Francisca de Noronha, que mais de um século depois administrava 
a casa por seu marido, terceiro neto do Bacalhau por uma linha muito arre- 
dada de Mendoças e Guedes, linha em que se não repetiu o apelido Manuel 
nem a alcunha, certamente já esquecida, se não tivesse ficado desde logo 
ligada ao nome da quinta. 

Tinha esta a sina de se não conservar por muito tempo na mesma família, 
e de originar demandas. Dos Barretos passou logo aos Manueis, destes em 
breve trecho aos Mendoças Furtados, destes aos Guedes de Murça e d'aqui 
a um Melo dos da calçada do Combro, D. António José de Melo. Nesta 
altura surgiu a última demanda. 

Foi ela intentada pelo visconde de Mesquitela D. José Francisco da Costa, 
que a venceu e entrou na posse do morgado da Bacalhoa. Transmitiu-o a 
seus descendentes e estes deixaram chegar a célebre quinta quási ao último 
estado de ruina. O neto daquele Visconde, D. João Afonso da Costa de 
Sousa de Macedo e Albuquerque, 2. conde de Mesquitela, foi criado Duque 
de Albuquerque por decreto de 19 de Maio de 1886, o que não tira nem põe 
para lhe dar mais direito à representação do grande Afonso de Albuquerque, 
apesar de ser essa a pretensão; porque, quanto à dos Albuquerques Gomides, 
essa está sem dúvida nos Angejas. 

Conta-se, que a el rei D. José, quando lhe ofereceu o título de duque, 
respondera o Marquês de Pombal, depois de agradecer a sua majestade: 
«Meu Senhor, os duques em Portugal nascem, não se fazem». Assim seria, 
mas era no tempo dele. 

Morreu o Duque de Albuquerque em 24 de Setembro de 1890(1). Por 



(1) O dito acima não envolve menosprezo pela pessoa e carácter do falecido Duque, 



Albuquerques 



207 



sua morte passou a Bacalhoa a seu irmão D. Luís António da Costa de Sousa 
de Macedo e Albuquerque, 3.° conde de Mesquitela, falecido em 1898. Se- 
guiu-se-lhe na posse da quinta sua viúva, a condessa D. Mariana da Mota, 
a quem a propriedade foi penhorada por execução movida no tribunal de 
Setúbal e lá vendida, em praça, no dia 3 de Maio de igo3, por catorze contos 
e dez mil re'is, a el rei D. Carlos. Posteriormente tornou a ser vendida, ainda 
em completo estado de ruína, por escritura de 9 de Julho de 1914(1). 

A casa dos Teles de Melo, antigos Secretários do Conselho de Guerra, 
foi administradora do morgado a que pertencia a famosa casa dos Bicos em 
Lisboa. 

Pelos fins do primeiro quartel do século xvi edificou o segundo Afonso de 
Albuquerque na Ribeira de Lisboa, junto às portas do Mar, uma casa, à qual, 
pela ornamentação, tam extravagante, como deselegante, da frontaria, deram 
o nome de casa dos Diamantes ou dos Bicos, nome que persistiu (2). E 
muito provável que Albuquerque durante a sua viagem em iÒ2i a Itália, onde 
foi no séquito da infanta D. Beatriz, lá encontrasse, ou em Ferrara, ou em 
Bolonha, o motivo que lhe inspirou tal devaneio de ricaço (3). 

Quando ele em 1 568 instituiu com sua primeira mulher o morgado de 
Azeitão, formou-o, não só da quinta e suas pertenças* naquela aldeia, mas 
também das suas casas em Lisboa às portas do Mar, como já atraz ficou 
dito (4). Estas casas são indubitávelmente as chamadas dos Bicos, ficando 
por aqui provado haverem elas também sido vinculadas ao tal morgado. Em 
i58i morreu o instituidor, deixando um único filho, D. João Afonso de Albu- 
querque, bastardo, mas legitimado. Meteu-se ele de posse da fazenda do 
pai, mas foi afinal excluído da sucessão do morgado de Azeitão; não obstante 
sabe-se que herdou a casa dos Bicos, pertença desse morgado. Como é que 
isto foi ?. . . Não encontro documento para o explicar; nem os autores meus 



com quem mantive sempre óptimas relações de sociedade, que nas suas cartas me tratava 
por primo (por afinidade), e a quem devo o grandíssimo favor de me permitir em 1884 o 
tirar uma cópia descritiva do famoso Livro do Amieiro mor, então depositado em seu poder. 
Apraz-me reconhecê-lo e testemunhá-lo, e cito os factos do tratamento e da permissão, 
como prova bem evidente, para quem conheceu o Duque, da simpatia que lhe mereci e com 
que me honrou. 

(1) Informações prestadas pelo actual proprietário, sr. Raul Martins Leitão, a quem as 
agradeço. 

(2) Desta curiosa casa vem uma vista estampada na pág. 7 3 do vol. III do Archivo pit- 
torçsco e outra, muito melhor, na publicação francesa Le tour du monde. 

(3) Júlio de Castilho, Ribeira de Lisboa, pág. 186; Joaquim Rasteiro, Quinta da Bacalhoa» 
pág. 3o. 

(4) Pág. 203-204. 



» 



.208 



Brasões 



conhecidos, que directa ou indirectamente tratam desta matéria, a resolvem 
e até nem sequer nela tocam, mostrando-me nada saberem a tal respeito; 
tenho só pois adiante de mim a conjectura. E campo vasto, mas dela me 
receio. 

Por morte do segundo Afonso de Albuquerque começaram as longas 
demandas, atraz indicadas, sôbre a sucessão do seu vínculo. Numa sentença 
de 1604 diz-se, que D. João Afonso de Albuquerque estava de posse da 
quinta de Azeitão, «em que lhe foram assinados os seus alimentos» (1). Por 
esta sentença e pela subsequente de 1608(2), teve ele de largar a quinta, por 
não haver sido julgado sucessor do morgado, «embora se lhe conferissem di- 
reitos a outros bens, que herdou de sei pai» (3). Entre estes bens compre- 
ender-se-hia a Casa dos Bicos ? E possível, se não provável, ou mesmo 
certo. 

Em todos os casos, de posse dela estavam, em 26 de Outubro de 1649, 
D. João Afonso de Albuquerque e sua mulher D. Violante de Távora. Na- 
quela data, vendo-se êles sem filhos, fizeram uma escritura de doação de 
vários bens e entre êles adas suas casas da porta do Mar a que chamam dos 
Bicos na Ribeira, assim e da maneira que as possuem, e que de presente 
rendem duzentos e vinte e quatro mil réis de antemão, e as pagas duzentos 
e quarenta mil réis» (4). 

Esta escritura não foi só de doaçãq; envolveu também a instituição de um 
morgado, para a administração do qual chamaram em primeiro lugar a seu 
sobrinho (5) António de Albuquerque, o donatário. A êste e aos seus suces- 
sores impuseram a obrigação de «trazerem as armas dos Albuquerques sem 
nenhuma mistura, e que se apelidem de Albuquerque sem nenhum outro 
apelido» (6). 



(1) Pegas, De exclusione . . . maioratus, II, 4i3. 

(2) Ibidem. 

(3) Joaquim Rasteiro, Quinta da Bacalhca, pág. 56. É pena que êste autor numa mo- 
nografia tam interessante, tam original na lusa terra, onde pouco mais de nada se sabe 
àcêrca de Arte, e onde campeia triunfante e inexpugnável o mau gosto, num trabalho emfim 
tam conscienciosamente escrito, como se conhece logo à simples leitura; pena é, repito, 
que seja tam parco em citações, sobretudo na parte histórica para a qual se percebe ter o 
autor disposto de documentos e elementos, que se dispersarão. A mesma queixa faço de 
Silva Túlio que no seu artigo da Casa dos Bicos, acima citado, dizendo-nos haver encon- 
trado os autos, não nos declara onde os topou. 

(4) Silva Túlio, Casa dos Bicos cit., pág. 95. 

(5) Sôbre êste tratamento veja-se o exposto na pág. 204* D. João Afonso era terceiro 
neto de João Gonçalves de Gomide, de quem António de Albuquerque era quarto neto. 
Vidé Arvore de geração adiante. 

(6) Silva Túlio, Casa dos Bicos, loc. cit. 



Albuquerques 



209 



Na mesma escritura lê-se, segundo a versão de Túlio: ao dito António 
de Albuquerque, seu sobrinho, he só o Albuquerque varão, que ha neste 
reino descendente do grande Affonso de Albuquerque» (1). Ora isto é um 
erro tam grande, que nem a descuido do tabelião ao lavrar da escritura se 
poderá atribuir, pois que o doador não o deixaria passar. Tenho por certo 
haver êle sido êrro de leitura. O *que havia de lá estar, era: do sangue (ou 
outro equivalente) do grande Affonso. Isto sim, porque isto era a verdade, 
pois que, se mais algum Albuquerque da varonia existisse, seria lá pelo 
Brasil e obscuro. 

Vamos agora às armas destes Albuquerques mandadas usar pelo insti- 
tuidor aos sucessores do vínculo, armas que estavam na Casa dos Bicos (2). 

Túlio, que não as podia ter visto, apresenta-nos dela um desenho (3), 
errado, como já estava errada a descrição que dela nos dera (4). É para 
admirar tal engano visto o autor citar a propósito as Advertências de Fran- 
cisco Coelho, a quem, não sei por quê, acrescenta entre parênteses o ape- 
lido Gasco, e a Manuel Gomes Bezerra nos Estrangeiros no Lima, vol. I, 
pág. 405, quando ambos êles as trazem por outra forma, que é a verdadeira. 

Eram elas, segundo dizem Coelho e Bezerra, e segundo o estampou 
Afonso de Albuquerque filho (5): esquartelado: o I e IV das armas do reino 
(castelos e quinas, e não as quinas somente); o II e III de vermelho, cinco 
flores de lis de oiro. Acrescenta Coelho, que haviam de ter o seu filete por 
quebra no primeiro quartel; assim devia ser pelas regras da armaria, mas 
estas sempre esqueciam e vejam lá se o Albuquerque pôs o filete na estampa 
do seu livro. 

Voltemos atraz. 

António de Albuquerque simplesmente, ou António de Albuquerque Ma- 
ranhão, como também é nomeado, foi o i.° administrador do morgado que 
compreendia a casa dos Bicos; e era digno do sangue de que procedia. Su- 
cedera no ano de 1618 na capitania do Maranhão a seu valoroso pai Jerónimo 
de Albuquerque Maranhão, que acrecentara êste apelido ao seu para eter- 
nizar a memória de seus feitos naquela província. Durante o curto govêrno 
de catorze meses do segundo Maranhão, alcançou seu irmão Matias de Al- 
buquerque por sua ordem uma assinalada vitória sôbre os índios Topinam- 
bazes. Apesar deste sucesso foi o capitão mor, como tantos outros nas nossas 

(1) Supra. 

(2) Francisco Coelho, Advertências á Nobiliarchia portuguesa, pág. 683 do tom. VI das 
Provas da Historia genealógica. 

(3) Casa dos Bicos cit., pág. 112. 

(4) Ibidem, pág. 95. 

(5) Commentarios do Grande Afonso Dalboquerque, no frontispício da edição de 1 586. 
vol. 11 27 



2 IO 



Brasões 



conquistas, vítima das intrigas. O governador . geral do Brasil, D. Luís de 
Sousa, confirmou-lhe a patente de capitão mor do Maranhão; pôs-lhe porem 
outro capitão por adjunto ao governo e ainda mais restrições lhe impôs, as 
quais o levaram a recusar a patente e abalar para o reino (1), onde disfrutou 
a comenda do Ervedal. 

Não persistiu por muito tempo nos senhores do morgado da casa dos 
Bicos a varonia dos Albuquerques, pois que por morte de Afonso de Albu- 
querque, 2. administrador e filho primogénito do sucedeu o neto dêste, 
filho de sua filha D. Antónia Margarida de Castelo Branco. Tinha ela casado, 
antes de Abril de 1671, com Brás Teles de Meneses e Faro (2), filho primo- 
génito de D. Fernão Teles de Faro, a quem, como já acima vimos, foram 
confiscados os bens por traição, escapando apenas um pequeno morgado. 

D. Antónia e Brás Teles não foram felizes na sua vida conjugal. Divor- 
ciaram. Ela recolheu-se ao mosteiro da Madre de Deus, onde professou a 1 
ou 2 de Abril de 1Ó80, tomando o nome de sóror Antónia do Santíssimo Sa- 
cramento (3); êle também professou depois, e fê-lo na Terceira Ordem de 
S. Francisco. 

Apesar de tudo no ano de 1672 havia nascido um filho, Manuel Teles de 
Meneses e Albuquerque (4). Foi 4. senhor da Lamarosa e 5.° da casa dos 
Bicos, contando desde o fundador, e morreu na sua quinta do Lavradio, a 
16 de Março de 1737(5). Seu filho primogénito, Brás Teles de Meneses e 
Albuquerque, 6.° senhor , da casa dos Bicos, morreu sem geração e lá foi o 
morgado procurar nova estirpe em seus sobrinhos. 

Tivera êle uma irmã chamada D. Isabel Caterina de Meneses e Faro, que 
faleceu a 7 de Dezembro de 1 741 (6), havendo casado com Pedro de Melo de 

(1) Pereira de Berredo, Annaes históricos do Maranhão, págs. 196 e segs. 

(2) Por parte de D. Joana Luísa de Castelo Branco, conteúda na apostila do padrão 
atrás escrito, os 181.000 rs. de juro que por êle tinha somente em sua vida, pertenceram a 
Brás Teles de Meneses e Faro e a D. Antónia Margarida de Castel Branco, filha da dita 
D. Joana, por estar legitimamente casado com ela, por lhe ser adjudicado em sua legítima 
nas partilhas dos bens que ficaram de António de Albuquerque seu pai, o que constou por 
sentença de justificação, &c. Hei por bem e me praz que o dito Brás. . . e a dita sua mulher 
D.Antónia . . tenham e hajam de minha fazenda, do i.° de Janeiro do ano presente em 
diante, os ditos 181x00 rs. de juro e herdade, assentados no almoxarifado de Lamego, &c. 
Lisboa, i5 de Abril de 167 1. — Chancelaria de D. Afonso VI, íiv. 7. de Doações, fl. 378. 

(3) Veja-se o seu curioso testamento feito no referido mosteiro, sendo ela noviça, em 
i5 de Fevereiro de 1680, e lá aberto, depois de professa, em 2 de Abril. — Sanches de Baena, 
Resumo dos Albuquerques, pág. 41. 

(4) No testamento de sua mãe dá-se-lhe o nome de Brás Manuel; parece porém não ter 
usado do Brás. 

(5) Gaveta de Lisboa de 21 de Março. 

(6) Gaveta de Lisboa de 14 de Dezembro. 



Albuquerques 



21 1 



Ataíde, cavaleiro da Ordem de Cristo e i.° secretário do Conselho de Guerra 
na sua família, por despacho de 12 de Maio de 1746(1). 

Era opulenta a casa do Secretário de Guerra; o que lhe crescia em ri- 
queza, minguava-lhe porem em nobreza. Era êle filho de Luís Correia da 
Paz, negociante muito rico com seus laivos de cristão novo (2), que instituiu 
um grande morgado e havia casado, contra vontade dos parentes dela, com 
D. Josefa Teresa de Melo da Silva, da casa dos Ataídes morgados da Capar- 
rota no campo de Coimbra. Esta casa findou em Pedro Xavier de Ataíde 
Brito e Melo, visconde de Condeixa, governador de Minas Gerais, ao qual, 
por morrer sem filhos, sucedeu no morgado o 3.° Secretário de Guerra. 

Nos Teles de Melo, descendentes do i.° Secretário de Guerra, conser- 
vou-se a casa dos Bicos até seu quarto neto Erancisco Maria Teles de Melo 
Malheiros de Brito Freire de Albuquerque. Este vendeu-a por escritura de 
17 de Julho de 1873, por nove contos de réis, a Joaquim Caetano Lopes da 
Silva, bacalhoeiro (3); e lá se perdeu a casa dos Bicos! 

De tudo quanto nas páginas precedentes ficou exposto concluo, quanto às 
várias representações, o seguinte: o representante de Afonso de Albuquerque 
é o Marquês de Pombal, hoje seu filho o Conde de Oeiras; a casa de Mes- 
quitela representa o segundo Afonso, o filho bastardo do Grande; a casa dos 
Teles de Melo é a representante de D. João Afonso de Albuquerque, o filho 
bastardo do segundo Afonso. Os Pombais administraram os bens da capela 
da Graça instituída pelo conquistador de Goa; os Mesquitelas possuíram a 
quinta da Bacalhoa fundada pelo segundo Afonso; os Teles de Melo final- 
mente foram proprietários da casa dos Bicos vinculada pelo neto do Gover- 
nador da índia. Os Marqueses de Angeja eram, sem dúvida nenhuma, os 
chefes da família dos Albuquerques Gomides, senhores de Vila Verde, mas 
por esse facto não representavam Afonso de Albuquerque, filho segundo de 
um daqueles. 

Não sou eu quem dá graciosamente ao Marquês de Pombal a represen- 
tação de Afonso de Albuquerque, são duas sentenças passadas em julgado. 
A primeira declara pertencer a administração da capela de Afonso de Albu- 
querque a D. Luísa de Meneses por ser neta de D. Luísa de Noronha, que 
ao tempo da morte do filho do «Albuquerque terribil» era a mais próxima 

(1) Gaveta de Lisboa de 3i de Maio. 

(2) Era filho de Manuel Gomes Pernegão de Seixas e de sua mulher Branca da Paz, 
apelido de antiga origem judaica. No capítulo 9. da Vida do Infante D. Duarte conta o 
mestre André de Rèsende várias travessuras à antiga portuguesa, algumas que «botavam 
mal pelos narizes de muitos», das quais foi vítima um judeu Paz, caturra do Infante. 

(3) Liv. 427 do tabelião Scola, fl. 19. 



212 



Brasões 



parenta viva de D. Constança de Castro, a irmã do instituidor a quem ele 
quis que passasse a sua representação, no caso do filho não ter descendência 
legítima. A sentença funda-se por tanto nas próprias determinações de 
Afonso de Albuquerque; foi êle quem escolheu para seus representantes, na 
falta de geração legítima do filho, aos descendentes de sua irmã D. Constança. 

A segunda sentença declara ser o Conde de Santiago o representante de 
sua avó D. Luísa de Meneses, e por isso manda-lhe entregar a administração 
da capela da Graça. 

São pois duas sentenças lavradas em conformidade com as disposições 
do próprio Afonso de Albuquerque no seu testamento, que nós não conhe- 
cemos na íntegra, mas que os juízes tiveram à vista, que dão ao Conde de 
Oeiras, actual representante do referido Conde de Santiago, a representação 
do grande Afonso de Albuquerque. 

Ao tomar posse da capela da Graça modificou o 5.° Marquês de Pombal 
as armas da sua casa que até então tinham sido as dos Carvalhos puras e 
passou a usar de escudo partido de Carvalho e Albuquerque. 

Dito isto só me resta apresentar a árvore de geração atrás prometida. 
Serve ela, simples e unicamente, para mostrar o grau de parentesco exis- 
tente entre os diferentes pretensores e administradores da casa de Vila Verde, 
da capela da Graça instituída por Afonso de Albuquerque pai, do morgado 
de Azeitão ou da Bacalhoa instituído pelo filho, e do vínculo, a que pertencia 
a casa dos Bicos, instituído pelo neto. Não estranhe pois o leitor encontrar 
na árvore apenas os nomes daqueles, e não note a omissão de muitas linhas 
e pessoas fora do caso especial, que me propus. 

IV 

ALBUQUERQUES COELHOS 
CAPITÃES DONATÁRIOS DE PERNAMBUCO 
CONDE DE ALEGRETE 

Lopo de Albuquerque, filho de João de Albuquerque, senhor da Esgueira, 
mencionado no cap. II, servia em Ceuta em 1420, sendo então «homem man- 
cebo ardido» (1), e em Arzila em 1463(2). Casou com D. Joana de Bulhão, 
filha de Afonso Lopes de Bulhão, cidadão honrado de Lisboa, e irmã de 
D. Maria Afonso de Bulhão, primeira mulher de D. Aires da Cunha, 14. se- 
nhor da Tábua. Daquele casamento nasceram, entre outros: Manuel de Al- 
buquerque, Jerónimo de Albuquerque e D. Beatriz de Albuquerque. 

(1) Gomes Eanes de Azurara, Chronica do Conde D. Pedro, pág. 5oo. 

(2) Gomes Eanes de Azurara, Chronica do Conde D. Duarte, pág. 343. 



II. 
III. 

IV. 



VI. 



VII. 



ARVORE DE GERAÇÃO DOS ALBUQUERQUES GOMIDES NOS SENHORFS DF Vir a vmnr ^ .imp.. 

v vutb iv^-a sciNMUKb.b DL, VILA VERDE, CAPELA DA GRAÇA, MORGADO DE AZEITÃO E CASA DOS BICOS 



João Gonçalves de Gomide, 2. cr. de Vila Verde, escrivã 
8.° sr. da Tábua, e de sua 



■■ d mS^ 3, sr. da Castanheira, . >de , D Isabel de Albuquerque, 

ne M 4 ' ^1 Uago, D. Fernando Afonso de Albuquerque d'onde pr0v ei0 este apelido aos Gon.id 



t , f. de Vasco Martins da Cunha, 
apelido aos Gomides. 



! — 37 

Gonçalo de Albuquerque, 3.° sr. de Vila Verde, c. c. D. Leonor de MenèTeliJX^TTConde da Atouguk 



Fernão de Albuquerque, 4. sr. de Vila Verde, c. c. 
D. Caterina da Silva, f. de Diogo da Silva, tesoureiro 
mor de D. Afonso V. 1 



João de Albuquerque, sr. da Esgueira, c . c. D. Leonor, fj do dr Lopo Vaz, ou Gonçalves, des. da Casa do Cível. 



Afonso de Albuquerque, o Grande eov. da índia, insti- 
tuidor da capela da Graça. Deixou B. L. a 



D. Constança de Castro, chamada 



instituição, c c. D. Fernando de NoronlhV Tov° da 
casa da Excelente Sr." e tio de D. Martinho, sr. de 
Vila Verde, abaixo. 



D. Isabel de Albuquerque, também chamada por seu 
irmão na instituição, c. c. Pero da Silva, o Uelé. al- 
caide mor de Põrto de Mós. S. G. 



Lopo de Albuquerque, 1 
Africa, c. c. D. Joana de 
de Bulhão, cidadão de 1 



noço fidalgo, Ironteiro em 
Bulhão, f. de Afonso Lopes 
.isboa. 



D. Guiomar de Albuquerque, 5." 
sr.' de Vila Verde, c. c. D. Mar- 
tinho de Noronha, sr. do Ca- 
daval e Vila Verde, sobrinho 
de D. F'ernando, acima. 

1 



D. Joana de Albuquerque, 
c. c. Jorge Barreto com. 
de Almada, capitão de 
Cochim. I 



Brás depois Afonso de 
tuidor do mori 



Albuquerque, 



D. Pedro de Noronha, 
6.° sr. de Vila Verde, 
c. c. D. Violante de 
Noronha, f. do Cou- 
del mor. 



Pedro Barreto, com. 
de Almada, c. c. D. 
Paula de Brito, f. de 
Nuno Fernandes da 
Mina. | 



;ado de Azeitão, fundador 
casa dos Bicos e sr. da capela da Graça, 
c. c. D. Maria de Noronha f. do i.° Conde 
de Linhares, S. G. — Teve B L. a 

1 

1 



D. João Afonso de Albuquerque, insti- 
tuidor do morgado da Casa dos Bi- 
cos. — A. em i5g3, O. em 1Ô04 c. 

i.° c. D. Isabel de Cerqueira: 2. c. 
D. Violante de Távora, 



D. Alonso de Noronha, cap. 
na Índia, c. c. D. Violante 
Jácome, f. de Pedro Já- 
come, amo do malogrado 
pr. D. Afonso. 
I 



D. Al 

em Afric 
Ázamor, 
veiri 



de No 



ha, Ironteiro 
cap. de Cochim e 
c. D. Mecia da Sil- 
f. de Diogo da Silveira. 



>. Garcia de Noronha, vice- 
-rei da Índia, c. c |j. i n g s 
de Noronha, f. de D. Al- 
varo de Castro, g ov . da 
Casa do Cível. 

I 



Manuel de Albuquerque, capitão 
da Mina, c. c. D. Camila de No- 
ronha, í. de Rui de Sousa. 



Jerónimo de Albuquerque, viveu em Per- 
nambuco, foi gov. de Olinda e cap. do 
llio de Janeiro. Teve descendência 
legítima no Brasil e B., havido na 
Arco Verde, a I 



D. Fernando de Noronha, com. de Vila 
Cova. cap. de Azamor, c. 2° c. D. Joana 
de Meneses, f. de Mateus da Cunha, 7.° 
sr. de Pombeiro. I 



D. Luisa de Noronha e Al- 
buquerque, em i58i a 
parenta mais próxima 
do grande Afonso — A. 
em 1004.— C.c, D. Aleixo 
de Meneses, aio dei rei 
D. Sebastião. 



I 



do 



D. Bernardo de N 
nha, alcaide moi 
Cartaxo, c. c. D. Joa 
na de Noronha, f 
de Alvaro da Cunha 



I 



André de Albuquerque, i.° cha- 
mado na instituição do mor- 
gado de Azeitão 'que não lo- 
grou, c. 1.0 c. D. Caterina de 
Noronha, f. de D. Pedro de 
Meneses, gov. de Ceuta; 2. c. 
D. Isabel de Lima. S. G. 



Matias de Albuquer- 
que, vice rei da 
Índia, c. c. D. Fe 
lipa de Vilhena. 
S. G. 



D. Pedro de Noronha, 
7* sr. de Vila Verde, 
c. c. D. Ana de Cas- 
tro, f. do Barão de 
Alvito. I 



PedroBarretodeAl- D. Joana de Albu- 

buquerque, com. querque, c. c. Ma- 

de Penagarcia. — nuel Teles Barre- 

O. em 1604. S. G. to, gov. do Brasil. 



). Afonso de Albuquerque 
(da 1.»), foi para índia em 



D. Afonso de Noro- 
nha. — O. em i5q3. 
S. G. 



D. Violante de Meneses — O. em 
i6o3. — c. c. Vasco Martins 
Moniz, 4. sr. de Angeja. 



D. Francisco Luís de Albuquerque e 
Noronha, 8.° sr. de Vila Verde — 
O. em 1004 — c. c. sua sobrinha, 
D. Caterina de Sousa e Ataíde, f. 
de D. Manuel de Sousa de Távora. 



! 

Jerónimo Teles Barreto de Al- 
buquerque. — O. em 1604. — 
3.° sr. do morgado de Azei- 
tão. S. G. 



D. Mana de Mendoça e Albuquerque, 
4." sr. 8 da quinta dé Azeitão, a qual da 
alcunha de seu marido se hcou cha- 
" mando da Bacalhoa, c. c. D. Jerónimo 
Manuel, o Bacalhau, copeiro mor. 



D. Juliana de Noronha, 6.° sr.° de Angeja, 
c. c. D. Pedro de Noronha, 9.° sr. de 
Vila Verde, abaixo. 



D. Alvaro de Meneses, al- 
caide mor de Arronches, 
c. c. D. Violante de Tá- 
vora, f. do 3.° Conde da 
Vidigueira. 



___ I 

D. l-r. Aleixo de Mene- 
ses, arcebispo de Goa 
eBraga.— O.em i6i3. 
S. G. 



D. Garcia de Noronha, sr. 
do morgado dos Calvos 
emLoures. — O.em 16 1 5. 
S. G. L. 



I 

Jerónimo de Albuquerque, o 
Maranhão, pelas suas vitó- 
rias contra os Franceses 
naquela província, c. c. D. 
Caterina Feo, f. de António 
Pinheiro Feo, feitor mor da 
armada da conquista do Ma- 
ranhão. I 



Antonio de Albuquerque Mara- 
nhão, com. do Ei vedai, 3.° sr. 
da casa dos Bicos e 1 .* do mor- 
gado, c. c. D. Joana Luisa de 
Castelo Branco, f. B. de D. João 
de Castelo Branco. 



D. Luísa de Meneses. — O. em 1O1 5 — Sr.* da capela 
instituída por Afonso de Albuquerque na iyreja da 
Graça, c. c. Lourenço de Sousa, 3." aposentador 
mor e com. de Santiago de Beduido. 



I 



Afonso de Albuquerque, 
cápitão mor de Pernam- 
buco, 4. sr. da Casa dos 
Bicos. S. G. 



! 

D. Antónia Margarida de Castelo Branco, c. c. 
Brás Teles de Meneses, f. de D. Fernando 
Teles de Faro, sr. da Lamarosa e Carvalho, 
degolado em estátua com os bens confi - 
cados. 



VIII. D - PetJro 
Verde, 
6." sr." 



IX. 



XI. 



XII. 



de Noronha, 9. sr. de Vila 
c. c. D Juliana de Noronha, 
de Angeja, acima. 



). Jorge Manuel de Albuquerque, 5.°- sr. da 
quinta da Bacalhoa, c. c. D. Teresa Maria 
Coutinho, f. do 4. Conde da Vidigueira. 

! 



D Antónia de Mendoça, c. c. Pedro de Men- 
doça. alcaide mor de Mourão. 



Aleixo de Sousa de Meneses, 4." aposentador 
mor, morreu em vida de sua mae, c. c. D. 
Luísa de Távora. I 



D. Felipa de Meneses e seu 2. mando o almotacé- 



■raor. Fra: 



1 de Faria, foram A. A. em 1574. 



Manuel Teles de Menesi 
da casa dos Bicos, c 
Castro e Silveira. 



■ Albuquerque, 3." sr. 
IX Ana Helena de 



XIII. 



lio de Noronha, i.° conde e 
■. de Vila Verde, 9. sr. de 
i, c. c. D. Maria de Meneses, 
!.« Conde de Tarouca. 



). Jerónimo Afonso 
de Albuquerque, G.° 
sr. da Bacalhoa. S. 
G. 



D. Pedro Antonio de Noronha Albuquerque e Sousa, i.° 
marquês e io." sr. de Angeja, 2. conde e i3. c sr. de Vila 
Verde, c. c. D. Isabel Maria Antónia de Mendoça, f. do 
1.* Marquês de Arronches. 

1 



D. António de Noronha, 2. mar- 
quês de Ángeja e 3.° conde de 
Víla Verde, c. c. D. Luísa Jo- 
sefa de Meneses, f. do 4, 
Conde de Tarouca. 



D. Diogo de Noronha, mar- 
auês de Marialva, c. c. a 
3." marquesa, D. Joa- 
quina de Meneses. C. G. 



D. Pedro de Noronha Camões 
de Albuquerque Moniz e Sousa, 
3.° marquês de Angeja, 4.° con- 
de de Vila Verde, c. i.° c. 
D, Maria de Lorena, f. do 3.° 
Marquês de Alegrete; 2. c. 
D. Francisca de Noronha, f. do 
3." Marquês de Marialva. 



D. Francisco Sebas- 
tião de Albuquerque, 
7. sr. da Bacalhoa. 
S. G. 



Luis de Mendoça 
Furtado, conde do 
Lavradio, 8.° sr. 
da Bacalhoa, vice 
rei da índia. S. G. 



i 

Nuno de Mendoça 
Furtado, cónego 
em Évora e depois 
9. sr. da Baca- 
lhoa. S. G. 



I 

D. Maria Josefa de 
Mendoça, 10.» sr.* 
da Bacalhoa, c. c. 
Pedro Guedes de 
Miranda, io.° sr. 
de Murea, 



.ourenço de Sousa da Silva e Meneses, i.° 
conde de Santiago de Beduído, 5.° apo- 
sentador mor. — R. em 1674.— Sr. da ca- 
pela de Afonso de Albuquerque na igreja 
da Graça, c. 2.* c. D. Luísa Maria de 
Mendoça, f. do 2. Conde de Val de 
Reis. I 



Brás Teles de Meneses l'aro e Albuquerque, 
ó.° sr. da casa dos Bicos. S. G. 



D. Isabel Caterm 
Pedro de Melo 
do Conselho de 



1 Gaetana de Melo, c. c. 
de Ataíde, i.° secretário 
Guerra na sua família. 



Luís Guedes de Miranda e Albuquerque, u.° sr. 
de Murça e da Bacalhoa, c. c. D, Maria de 
Ataíde, í". do 2, Conde de Val de Reis. 



D. Joana de Mendoça, c. c. D. António Jose de 
Melo, sr. da casa dos Meios da calçada do 
Combro e do morgado da Figueira. 



1 



D. Aleixo de Meneses, 2. u conde de Santiago, 6." aposentador 
mor, sr. da capela da Graça, c. c. D. Leonor de Meneses, 
f. do 2.° Marquês de Fronteira. 



! 

Francisco Xavier Teles de Melo Albuquerque e Brno Freire de 
Faro e Meneses, 2. secretário de guerra, 7. sr. da casa dos 
Bicos, c. c. D. Rita da Graça de Lancastre, f. de D. Rodrigo 
de Lancastre. 



João Guedes de Miranda e Albu- 
querque; i2.° sr. de Murça e 
da Bacalhoa, c. c. D. Francisca 
de Noronha, f. do 3.° Conde de 



! 

D. João José Ansberto de 
Noronha, conde de S. 
Lourenço, c. c. a 6." con- 
dessa D. Ana de Melo 
e Silva. C. G. 



D. Pedro António de Melo Ho- 
mem, sr. da casa dos Meios 
e morgado da Figueira, c. c. 
D. Maria Antónia de Bourbon, 
f. do 7. sr. das Alcáçovas. 



b. Madalena Luisí 
doca, c. c D. 
Estêvão da C 
armeiro mor. 



de Men- 
Antonio 



Lourenço Antonio de 
Sousa da Silva e Me- 
neses, 3." conde de 
Santiago, sr. da ca- 
pela da Graça, c. c. 
D. Josefa de Noro- 
nha, f. do 3.» Mar- 
quês de Angeja. S.G. 



Nuno Aleixo de 
Sousa da Silva, 4. 
conde de Santia- 
go, sr. da capela 
da Graça, c. c. D. 
Francisca Leonor 
de Castro, f. do 
i.° conde de Re- 
sende. S. G. 



D. Joana Inês Vicência 
de Meneses, c. c. 
D. Brás Baltasar da 
Silveira, sr. de S. 
Cosmado, conse- 
lheiro de guerra, 
mestre de campo 
general. 



1 



D. Luzia Maria de 
Meneses, dama da 
Rainha, sr." da ca- 
pela da Graça, sol- 
teira. S. G. 



Luis Guedes de Miranda, t3.° sr. 
de Murça e da Bacalhoa, c. c. 
D. Madalena Mascarenhas, f. do 
3.° Marquês de Fronteira. S. G. 
Teve B. a 



! 

D. Antonio José de 
Melo Homem, sr. da 
casa dos Meios, e 
morgado da Figueira, 
sr. da Bacalhoa 
que lhe foi tirada por 
sentença. Foi avó da 
i." Condessa da Fi- 
gueira em quem se 
extinguiu esta linha. 



1 

D. Maria Ana Josefa 
de Bourbon c. c. D. 
Miguel de Melo e 
Abreu Soares de Vas- 
concelos, sr. dos 
morgados da Fonte 
Boa e outros. Foram 
avós do i.° Conde de 
Murça, em quem se 
reuniram estas três 
casas. 



I 



D. José da Cos- 
ta, 9." armeiro 



5." Conde dos 
Arcos. S. G, 



1 

D. Antonio José da 
Costa, moço fi- 
dalgo, cap. de mar 
e guerra, c. c. D. 
Antónia Rosa de 
Melo, f. de D. 
Cristóvão de Me- 
lo, gov. da índia. 



D. José Xavier de Noronha Camões Al- 
buquerque e Sousa Moniz (da í."), 4. 
marquês de Angeja, 6.° conde de Vila 
Verde, c. c. D. Francisca Teresa de 
Almeida, f. do 2. Marquês do La- 
vradio. 



D, Caetano José de Noronha e Albuquer- 
que (da 2.°), i.° conde de Peniche, c. c. 
D. Maria José Juliana Lourenço de Al- 
meida Portugal, sr." de casa, f. H. de 
D. Manuel Caetano de Almeida Portugal. 



Manuel José Guedes de Miranda, 14." sr. 
de Murça e da Bacalhoa. S. G. 



D. José Francisco da Costa de Sousa e Albuquerque, 
visconde de Mesquitela, io.° armeiro mor, ió> sr. 
da Bacalhoa, c. c. D. Maria José de Sousa de Ma- 
cedo, 2." viscondessa, f. H. do i.° visconde Luís 
de Sousa de Macedo, 3.° barão da Ilha Grande de 
Joanes. 



). Luisa Francisca Antónia 
da Silveira, H. c. c. Nuno 
Gaspar de Lorena (antes 
de Távora), veador de D. 
Maria 1, tenente general. 
Foram ascendentes dos úl- 
timos Marqueses das Minas 
e dos modernos Condes das 
Sarzedas que não represen- 
tam os antigos. 



! 



Maria Inácia 
da Silveira, c. 
c. seu cunhado 
Nuno Gaspar 
de Lorena. 



Pedro Teles de Melo Albu- 
querque e Brito Freire de 
J/aro e Meneses, J.° secretário 
de guerra, tí." sr. da casa dos 
Bicos, c. c. D. Maria da Graça 
de Sousa de Macedo, f. do 
i.° Visconde de Mesquitela. 



Francisco Teles de Melo Albuquer- 
que e Brito Freire de Faro e Me- 
neses, 9. sr. da casa dos Bicos, c. 
c. D. Mariana Guilhermina de An- 
tas da Cunha Leite Pacheco de 
Baena Almeida Malheiros, sr.' do 
paço da Cunha, da casa solar de 
Antas e da casa de Malheiros, 



D. Francisca de Paula do Pópulo de Lorena, mar- 
quesa de Pombal, sr.° da capela de Afonso de Al- 
buquerque na igreja da Graça, na qual sucedeu 
a D. Luzia, c. c. José Francisco de Carvalho Melo 
e Daun, 3." marquês de Pombal e i.° conde da Re- 
dinha. I 



Pedro João Teles de Melo d'Antas da Cunha 
Leite Pacheco Malheiros de Almeida Albu- 
querque Brito Freire de Faro e Meneses, 
io.° sr. da casa dos Bicos, etc, c. c. D. Mana 
Carlota de Cabedo de Vasconcelos Sardinha 
do Couto, f. do i.° Barão do Zambujal. 



xiv. 



XV. 



XVI. 



>. Pedro de Noronha Camões 
Albuquerque e Sousa Mo- 
niz, b,° marquês de Angeja, 
8.° conde de Vila Verde, 
solteiro. S. G. 



D. João de Noronha Camões Al- 
buquerque e Sousa Moniz, 6.° 
marquês de Angeja, 9. conde de 
Vila Verde, c. 2." c. D. Juliana 
da Câmara, irmã do i.° Conde 
da Taipa. 



_L 



! 

D. Maria do Carmo de Noro- 
nha Camões Albuquerque e 
Sousa Moniz, 7." marquesa 
de Angeja, solteira. S. G. 



mosca de Noronha, már- 
:sa de Alegrete, i.« mu - 
r de Luís 1 eles da Silva, 
marquês de Alegrete, 
conde de Tarouca. 



). Manuel Caetano de Al- 
meida Noronha e Portugal, 
2. conde de Peniche, c. 2. 
c. D. Isabel Teles da Silva, 
f. do 3.° Marquês de Pe- 
nalva. 



D. Francisca Xavier Teles da Silva, 
marquesa de Chaves, 16." sr." de 
Angeja e nj. n de Vila Verde, c. 1.° 
c. Manuel da Silveira Pinto da Fon- 
seca Teixeira, i.° marquês de Cha- 
ves, 2. conde de Amarante. S. G. 



__J_ 

D. Caetano Gaspar de Almeida 
Noronha Portugal Camões Al- 
buquerque e Sousa Moniz, 8.° 
marquês de Angeja, 3.° conde 
de Peniche, c. c. D. Maria An- 
tónia Raposo de Sousa d'Alte 
Espargosa. I 



D. Luís da Gosta Sousa Macedo e Albuquerque, i.° 
conde e 3.° visconde de Mesquitela, n.° armeiro 
mor, 17. sr. da Bacalhoa. c. c. D. Maria Inácia 
de Saldanha Oliveira e.Daun, f. do i.° Conde de 
Rio Maior. I 



D. Manuel Gaspar de Almeida Portugal Camões 
Albuquerque e Sousa Moniz, 9. marquês de 
Angeja, falecido S G. L. 



D. Pedro de Noronha, io. u conde de Vila Verde, 
falecido. C. c. D. Maria Isabel de Santa Marta, 
f. do 3.° Visconde de Andaluz. C. G. 



i 



D. João Afonso da Costa Sousa 
Macedo e Albuquerque, duque 
de Albuquerque, 2." conde de 
Mesquitela, 12. ai meiro mor, 
18. sr. da Bacalhoa, solteiro» 
S. G. ' 



! 

D. Luis Antonio da Costa sousa Ma- 
cedo e Albuquerque, 3.° conde de 
Mesquitela, i3.° armeiro mor, 19." 
sr. da quinta da Bacalhoa, c. c. 
D. Mariana da Mota, última pos- 
suidora da quinta, vendida em 
1903. C. G. 



Sebastião Jose de Carvalho Melo e Daun, 4. 
marquês de Pombal, 2* conde da Redinha, 
c. c. D. Leonor Ernestina de Saldanha Oli- 
veira e Daun, f, do i.° Conde de Rio Maior. 



Nuno Jose de Car- 
valho Daun e Lo- 
rena, 3.° conde da 
Redinha. C. G. 



■rancisco Maria Teles de 
Melo, n.° sr. da casa dos 
Bicos que vendeu em 187J. 



Manuel de Carvalho Melo Daun Albuquerque Sousa e Lorena, 
5.° marquês de Pombal, 5." conde de Oeiras, sr. da capela da 
Graça, instituída pelo grande Afonso de Albuquerque, c. i.° c. 
D. Margarida Manuel de Noronha, f. do io.° Conde da Atalaia. 



António de Carvalho Melo Daun Albuquerque e Lorena, 6.° mar- 
quês de Pombal, 5.° conde de Santiago, último possuidor da 
capela da Graça, falecido em 191 1. C. G, 



Abreviaturas 

A. — Autor. 

B. — Bastardo. 

B. L. — Bastardo legitimado, 
c. c. — casou com. 

C. G. — Com geração, 
cap. — capitão. 

com. — comendador. 

des. — desembargador. 

dr. — doutor. 

f. — filho ou filha. 

gov. — governador. 

H. — Herdeira. 

O. — Opoente. 

pr. — príncipe. 

R. — Kéo. 

S. G. — Sem geração. 

S. G. L.— Sem geração legítima. 

sr. — senhor 

sr.« — senhora. 



Albuquerques 



Manuel de Albuquerque serviu na índia durante o governo de Nuno da 
Cunha nos anos de 1 53 1 a 1 536, tendo sido por vezes capitão mor de armadas 
da costa. Voltou para Portugal e morreu a 21 de Janeiro de 1 552, segundo 
declarava o epitáfio da sua sepultura na igreja da Misericórdia de Lisboa (1). 
Havia casado com D. Camila de Noronha, filha de Rui de Sousa e irmã de 
Lourenço de Sousa, i.° aposentador mor, a qual faleceu a 2 de Março de 
1 558 deixando a André de Albuquerque, o primeiro chamado para a admi- 
nistração do morgado da Bacalhoa e Matias de Albuquerque, famoso vice 
rei da índia, ambos falecidos sem geração. 

Jerónimo de Albuquerque viveu em Pernambuco e foi seu filho natural 
outro Jerónimo de Albuquerque, o Maranhão, gloriosa alcunha que lhe foi 
imposta pelas suas vitórias contra os Franceses de quem recuperou aquela 
província. Seu filho António de Albuquerque foi o primeiro chamado, como 
acima vimos, em 1649, P ara a administração do morgado da casa dos Bicos. 

D. Beatriz de Albuquerque, também filha de Lopo de Albuquerque, casou 
depois de 1527 com Duarte Coelho, valente soldado na índia e capitão dona- 
tário de sessenta léguas de costa no Brasil, por carta de 10 de Março e 
apostila de 25 de Setembro de 1 534 (2), carta a que se seguiu outra passada 
em 24 de Setembro seguinte, de foral para a mesma capitania (3). Era Duarte 
Coelho ao tempo fidalgo da casa dei Rei e para os seus domínios partiu em 
Outubro do mesmo ano de 1 534, levando sua mulher, seu filho Duarte, seu 
cunhado Jerónimo de Albuquerque e outros parentes. Lá fundou a cidade 
de Pernambuco, capital da sua capitania, que em pouco tempo de bom 
govêrno e boa administração levou ao maior grau de prosperidade. 

D. João III pelos muitos serviços de Duarte Coelho, fidalgo da sua casa, 
tanto nas partes da índia, onde por muito tempo andou na guerra que sempre 
lá se mantinha contra os Moiros e infiéis, como na capitania de Fernãbuco 
da Nova Lusitânia no Brasil, onde ele ora por -mandado dei Rei era gover- 
nador geral, e a qual êle novamente começara de povoar e aproveitar, pele- 
jando com os índios da terra e com alguns corsários armados, que a ela 
foram ter; por todos estes serviços e a seu requerimento, em prémio e 
galardão, lhe concedeu, em 6 de Julho de 1545, carta de brasão de armas (4). 
E por ela as seguintes: de oiro, leão aleopardado de púrpura, acompanhado 
a dextra de uma cruz de Calvário de sua côr firmada sôbre um monte de 
verde em ponta; chefe de prata carregado de cinco estrêlas de seis pontas 

(1) P.e Sousa, Memorias sepulchraes, fl. 1 14 v. ; Vítor Ribeiro, A Santa Casa da Miseri- 
córdia de Lisboa, pág. 72. 

(2) Chancelaria de D. João 111, liv. 70. de Doações, fl. 83. 

(3) Ibidem, fl. 182. 

(4) Transcrita na Armaria portuguesa, pág. 144. 



214 



Brasões 



de vermelho,, afogueadas de oiro; bordadura de azul carregada de cinco cas- 
telos cobertos de prata, com as portas, frestas e o lavrado de preto. Elmo 
de prata, aberto, guarnecido de oiro. Paquife e virol de oiro e púrpura. 
Timbre : o lião. 

Basta a existência deste documento para me dar a certeza de Duarte 
Coelho não haver sido fidalgo, como alguns autores modernos o querem fazer, 
declarando-o por filho de Gonçalo Pires Coelho, senhor de Felgueiras. 

Não me consta se tivesse jámais passado a nenhum fidalgo carta de brasão 
de armas novas, e até de armas de sucessão são elas raríssimas naquela 
classe, tam raras que só agora me lembro da concedida ao duque Manuel 
Teles da Silva, havendo para esta a explicação dêle estar residindo em país 
estrangeiro, e país como a Áustria todo de formalidades aristocráticas. 
Tirante esta carta, não me ocorre mais nenhuma; mas, entenda-se bem, eu 
não quero dizer que todos aqueles, a quem se têem passado cartas de brasão, 
fossem plebeus, não, senhor, há entre êles inúmeros nobres, agora fidalgos, 
isso não. Entre o fidalgo e o nobre há uma grande diferença; há, não; 
havia. Hoje as diferenças sociais consistem únicamente em ter, ou não ter 
dinheiro no bôlso. Aquela diferença conheciam-na êles bem(i); entendo-a 
eu, mas não a sei explicar, o que mais uma vez mostra não ser sempre ver- 
dadeiro o conhecido aforismo de Boileau: 

Ce que l'on conçoit bien s'énonce dairement, 
Et les mots pour le dire arrivent aisément. 

Mas, tornando à tal diferença, que se não supria com títulos nem com 
distinções, notarei que em princípios do século passado o Conde da Anadia 
era um nobre, Francisco de Melo Vacas era um fidalgo. Ontem, para certas 
pessoas, o Marquês da Praia e de Monforte era um nobre, Jacinto de Siqueira 
Freire, um fidalgo. 

Voltarei a Duarte Coelho. Faleceu êle em Olinda a 7 de Agosto de 
1554(2), e por sua morte ficou governando a capitania sua viúva, D. Beatriz 



(1) Em uns pasquins que apareceram nas portas da capela real, numa manhã do ano 
de 1679, fazia-se dizer à Nobreza: 

Disem sou nada os Fidalgos 
Hei ainda degolá-los. 

Encontram-se nas Monstruosidades do tempo e da fortuna, pág. 3 1 5. 

(2) Fr. António de Santa Maria Jaboatao, Novo orbe seraphico brasílico, vol. I, pág. 143, 
§ 129. — Varnhagen (Visconde de Pôrto Seguro) na segunda edição da sua Historia geral 
do Bfa^il, vol. I, pág. 271, põe em dúvida a data do falecimento de Duarte Coelho dada por 



Albuquerques 



2l5 



de Albuquerque, até iõóo, na ausência do filho primogénito então no reino 
com seu irmão. 

Duarte Coelho de Albuquerque, fidalgo da casa dei Rei e filho primogé- 
nito do i.° Capitão donatário de Pernambuco, teve mercê da sucessão na 
capitania depois do falecimento do pai, por carta de 8 de Novembro de 
i56o(i). Para lá partiu nesse mesmo ano e até ao de 1572 exerceu o govêrno; 
então deixou-o a sua mãe e voltou aò reino. Acompanhou D. Sebastião na 
jornada de Africa, ficou prisioneiro na batalha de 4 de Agosto de 1678, foi 
um dos oitenta fidalgos resgatados e morreu, solteiro e sem filhos, pouco 
antes de chegar a Portugal. 

Jorge de Albuquerque Coelho, irmão de Duarte Coelho de Albuquerque, 
exerceu na ausência do primogénito o govêrno da capitania de Pernambuco, 
do qual tomou posse em Õ72 e manteve até 5 de Março de 1 576. Foi tam- 
bém dos oitenta resgatados depois da batalha de Alcácerquibir, na qual foi 
ferido, tendo dado o seu cavalo a el Rei para o livrar. Morto o irmão, foi, 
por carta de i5 de Maio de 1082, confirmado na capitania (2), onde havia 
nascido, na cidade de Olinda, a 23 de Abril de i53ç). E êste o herói de um 
célebre naufrágio narrado no princípio do II vol. da Historia tragico-mari- 
lima. Casou em Portugal por duas vezes: a primeira, em 18 de Dezembro 
de 1 583, com D. Maria de Meneses, que morreu em 12 de Maio de 1 585, 
sem deixar geração masculina, e era filha de D. Pedro da Cunha, capitão 
das galés e do conselho de Estado, e de sua mulher D. Ana de Meneses; e 
a segunda, em 20 de Novembro de 1087, com D. Ana de Meneses, filha de 
D. Alvaro Coutinho, comendador de Almourol, e de D. Beatriz da Silva, de 
quem teve a Duarte de Albuquerque Coelho e Matias de Albuquerque. Es- 
creveu Jorge de Albuquerque várias obras e dêle se encontra memória na 
Bibliotheca lusitana de Diogo Barbosa Machado. 

Duarte de Albuquerque Coelho nasceu em Lisboa a 22 de Dezembro de 
1 59 1 , sucedeu na casa e foi o 4. capitão donatário de Pernambuco, por carta 



Jaboatão, alegando que já em 10 de Maio do mesmo ano, isto é, três meses antes, havia 
sido passada a carta de confirmação da capitania ao filho do morto. Há aqui um engano 
de que o ilustre Brasileiro não foi culpado. A carta de sucessão da capitania passada ao 
segundo Duarte Coelho é de 8 de Novembro de i56o (liv. 7. de Doações de D. Sebastião, 
fl. 2o5 v.), e Varnhagen serviu-se de uma cópia com a data errada, na fl. 282 do liv. 3.° de 
Doações de Felipe I. 

(1) Chancelaria de D. Sebastião, liv. 7. de Doações, fl. 2o5 v. — Por cartas de 24 de 
Novembro de i56i, 8 de Junho de i5G8 e 10 de Fevereiro de 1570 foi-lhe concedido poder 
usar da carta de doação da capitania feita a seu pai, apesar da mercê lhe não estar ainda 
confirmada. — Ibidem, livs. 3o.°, fl. 23 v., 22. , fl. 106 v., e 26. , fl. i5 v. 

(2) Chancelaria de Felipe I, liv. 3.° de Doações, fl. 282. 



2l6 



Brasões 



de confirmação de 2 de Julho de i6o3 (1). Passou ao Brasil em i63i a acudir 
à restauração da sua capitania, e lá militou contra os Holandeses até i638. 
Também havia prestado bons serviços em 162D por ocasião da recuperação 
da Baía, onde mandou um navio com muitos homens à sua custa, e de sua 
fazenda na capitania de Pernambuco cedeu então muito cabedal para a refe- 
rida empresa (2). Voltou para Portugal e, sucedendo cá a gloriosa revolução 
de 1640, conservou-se fiel a Felipe IV, de quem foi gentil homem da câmara 
e do seu conselho de Estado de Portugal, e por quem foi criado conde de 
Pernambuco e marquês de Basto. Compôs em Castelhano as Memorias 
diárias de la guerra dei Brasil, impressas em Madrid no ano de 1654, livro 
em cujo frontispício se vê gravada a empresa do Marquês, um ilhéu batido 
das ondas, açoitado dos ventos contrários, mas, como dizia a divisa, SEMPER 
IDEM. Morreu Duarte de Albuquerque em Madrid a 24 de Setembro de 
i658 e foi sepultado naquela cidade, apesar de haver adquirido para seu 
jazigo, por contrato celebrado com os Frades e confirmado por el Rei em 
6 de Janeiro de 1Õ26, a capela mor da igreja do convento da Trindade de 
Lisboa (3). Havia casado com D. Joana de Castro, que morreu em i63i e 
era filha de D. Diogo de Castro, 2. conde de Basto, vice rei de Portugal, e da 
condessa D. Maria de Távora. Dêste casamento nasceram, entre outros: 
Jorge de Albuquerque Coelho, que em Castela, depois da morte de seu tio 
o 3.° Conde de Basto, se intitulou 4. conde e lá morreu moço na guerra de 
Catalunha; e D. Maria Margarida de Castro e Albuquerque, condessa do 
Vimioso, senhora da capitania de Pernambuco e do condado de Basto, e 
mulher de D. Miguel de Portugal, 7". conde do Vimioso, de quem não teve 
filhos. 

Matias de Albuquerque, irmão do Marquês de Basto, seguiu política 
diametralmente oposta à dêste. Chamara-se Paulo de Albuquerque e depois, 
em virtude de ser nomeado pelo seu parente Matias de Albuquerque, vice 
rei que fora da índia, para primeiro administrador do morgado de todos seus 
bens por êle instituído em seu testamento, passou a chamar-se Matias de 
Albuquerque (4). Passara ao Brasil em 1629 e servira nã guerra de Pernam- 
buco com distinção, mas por intrigas tinha sido mandado recolher prêso a 



(1) Chancelaria de Felipe II, liv. i5.° de Doações, fl. 22 v. 

(2) Carta de 7 de Agosto de 1627 na qual, em galardão dos serviços referidos, conce- 
deu-se-lhe a faculdade de apresentar a el Rei os nomes de três indivíduos para durante sua 
ausência servirem de capitão e governador de Pernambuco, a fim d'entre êles ser escolhido 
o que havia de exercer. — Chancelaria de Felipe III, liv. 22. de Doações, fl. 20 v. 

(3) Ibidem, liv. 3o.°, fl. 294. 

(4) Pegas, De exclusione . . . maioratus, IV, pág. 479. 



Albuquerques 



217 



Lisboa, onde se encontrava no castelo de S. Jorge, quando estoirou a revo- 
lução do i.° de Dezembro de 1640 a qual o libertou. Encarregado logo do 
comando das armas do Alentejo, achou-se pouco depois suspeito na conspi- 
ração do Marquês de Vila Real, e foi demitido e preso para Setúbal, sendo 
em breve reconhecido por inocente e solto. Em 1043 voltou a comandar o 
exército do Alentejo e no ano seguinte, a 26 de Maio, ganhou sobre as tropas 
espanholas a grande vitória de Montijo, a primeira da guerra da Restauração. 
D. João IV reconheceu-lhe logo a acção, criando-o conde de Alegrete por 
carta de 1 de Junho de 1644(1). Continuou servindo com vária fortuna 
e muitos desgostos resultantes das implacáveis intrigas, de que se encontrou 
rodeado. Faleceu o Conde de Alegrete em 1647, deixando viúva sem filhos 
a D. Caterina Bárbara de Noronha, irmã do i.° Conde de Vila Verde, a qual 
foi marquesa de Alenquer (2) e camareira mor da rainha D. Maria Sofia. 
Morreu a Marquesa a i5 de Maio de 1703. 

Pelo exposto vê-se haver-se extinguido antes do fim do século xvn a 
família dos Albuquerques Coelhos, derivada de Duarte Coelho e de D. Bea- 
triz de Albuquerque. Esta família em pouco mais de cem anos de existência, 
produziu alguns homens notáveis nas armas e nas letras. E por lhes faltar 
esta condição, e por nêles se não darem estas circunstâncias e por serem de 
difícil enxêrto nos principais ramos da família, que deixarei de nomear outros 
Albuquerques que em várias partes da província têem existido. 

Deu-se porém um caso com Albuquerques das ilhas adjacentes, caso que 
não quero deixar passar sem protesto. 

O nome de Albuquerque não é só nosso; é universal. Todos o ligam ao 
grande Governador da índia e o envolvem na auréola da sua glória. E pois 
um nome que nós temos de respeitar todos, devendo-nos dar o exemplo o 
chete do Estado, não consentindo que êsse nome seja aproveitado para satis- 
fazer quaisquer vaidades pessoais. Infelizmente porém nos últimos tempos 
da Monarquia olhava-se com criminosa indiferença, para não dizer com cínico 
desdém, para certas coisas sem ocorrer a idea de que do seu achincalha- 
mento o maior desdouro recaía sôbre o representante das instituições. De 
roda do Rei devia existir para seu próprio prestígio uma côrte na qual não 



(1) Chancelaria de D. João IV, liv. 14.° de Doações, fl. 282. 

(2) Não encontro a carta deste título. A Condessa de Alegrete fôra nomeada cama- 
reira mor da rainha D. Maria Sofia por ocasião do seu casamento, o qual se realizou em 1 1 
de Agosto de 1687, e parece ter sido então criada marquesa. No título de um feito julgado 
em primeira instância a 12 de Janeiro de 1686 e na segunda a 29 de Abril de 1688, se diz ter 
sido dada a sentença contra a Marquesa de Alenquer. — Pegas, De exclusione. . . maioratus, 
IV, págs. 479 e 483. 

VOL. II 28 



2l8 



Brasões 



se atendesse, muito embora, tanto ao nascimento como ao mérito pessoal. 
Esta corte assim formada competia ao Rei mantê-la por forma a merecer o 
respeito e a consideração gerais; não permitindo embaciar-lhe o brilho com 
a entrada de pessoas pouco idóneas e sôbre tudo não consentindo que as 
destinções honoríficas de todas as qualidades fossem distribuídas a esmo, sem 
critério. Mas tudo isto já tenho dito e não paga a pena repeti-lo. O caso 
presente entra na categoria das tais facilidades impensadas prejudiciais ao 
prestígio do nome português. 

Em 1909 publicou o Diário do Governo um decreto concedendo o titulo 
de conde de Albuquerque a um indivíduo qualquer da ilha de S. Miguel. 
Note-se que o agraciado, a quem não conheço, pode ser e certamente será 
um prestante e digno cidadão; mas o que êle não possui é a representação 
dos Albuquerques e nem remotamente pertence à família do conquistador de 
Goa. Como não pensou nisto o ministro que apresentou o decreto para ser 
referendado, e como ao referendá-lo, quem acima de todos tinha o dever de 
zelar pelo bom nome do seu país, não fez objecções, é facto superior ao meu 
alcance. Deu-se êle porem e foi arvorado em representante daquele nome 
ilustre, quem nenhum direito a tal representação tinha. 

O Conde de Mesquitela havia sido criado duque de Albuquerque por 
decreto de 1886; êle porem pertencia à linhagem e nas suas veias corria 
sangue do irmão primogénito do conquistador de Goa; ora em 1909 nada de 
semelhante se dava. 

Aproveitarei agora a ocasião, visto ter falado no Conde de Albuquerque, 
de mencionar um caso curioso com êle sucedido. Ao Conde foi concedida 
a última carta de brasão passada em Portugal. Tem ela a data de 7 de 
Julho de 1910 e encontra-se registada na fl. 182 v. do liv. 10. do Cartório 
da Nobreza, hoje no Arquivo Nacional da Torre do Tombo. 

Resumindo, notarei agora, que os antigos senhores de Alburquerque, 
ramo da casa de Meneses, perderam a varonia no i.° Conde de Barcelos, 
de cuja filha D. Teresa e de seu marido D. Afonso Sanches, bastardo dei Rei 
D. Denis, saiu uma nova família de Albuquerques, da qual logo se extinguiu 
a varonia na pessoa de D. Fernando Afonso de Albuquerque, mestre de 
Santiago. 

Seguidamente, oriunda duma filha dêste cavaleiro, formou-se, com a 
varonia da Cunha, outra geração de Albuquerques à qual pertenceu o antigo 
Conde de Penamacor e é hoje representada pelo filho do 3.° Conde. 

Ultimamente dêstes Albuquerques Cunhas provieram por linha feminina 
os Albuquerques Gomides, família a que pertenceu o grande Afonso de Al- 
buquerque e da qual foi representante o último Marquês de Angeja. Ainda 



Albuquerques 



219 



dêstes, também por linha feminina, sairam os Albuquerques Coelhos, extintos 
em Portugal na pessoa do Conde de Alegrete. 

Para concluir direi que hoje em Portugal ninguém tem a varonia de Al- 
buquerque. 

V 

MOUSINHOS DE ALBUQUERQUE 

Conforme uma carta de brasão passada, em 20 de Dezembro de 1 667, a 
favor de Gaspar Gil Carrilho, foi também filho bastardo de D. João Afonso 
de Alburquerque, o do Ataúde, 6.° senhor de Alburquerque, um Pero Gil(i). 
A êste, conforme o mesmo documento, deu D. João I em 1427 carta de 
fidalguia e, segundo algumas memórias, legitimou por carta de 20 de Feve- 
reiro de 1427 (i38g). De nenhuma destas duas cartas se encontra porém o 
registo na Chancelaria daquele soberano (2). 

Duvido muito, não só da existência dêste filho tam obscuro de D. João 
Afonso de Alburquerque, como sobretudo da autenticidade da linha, que dêle 
se quer derivar na citada carta de brasão. Nela diz-se, que de Pero Gil foi 
filho Gil Afonso Fernandes e continua-se com a geração até ao agraciado, 
Gaspar Gil Carrilho, trineto do tal Pero Gil. Quem acreditará que um 
homem, neto de D. João Afonso de Alburquerque, aio e mordomo mor de 
D. Pedro I de Castela, sobrinho de D. Fernando Afonso de Albuquerque, 
mestre de Santiago, mui próximo parente em suma das casas reais de Cas- 
tela e de Portugal e dos maiores senhores dêstes reinos e que, de mais a 
mais, era filho legítimo de filho legitimado, se chamasse Gil Afonso Fer- 
nandes como qualquer pai de velhacos ? Certamente ninguém; e dizer-se na 
carta de brasão, que se tirou inquirição e larga prova sobre a ascendência 
do agraciado, é palavrório devidamente apreciado por todo aquele que tenha 
lidado com êste género de documentos e tenha critério. 

A Gaspar Gil Carrilho, o suposto quarto neto de D. João Afonso de Al- 
burquerque, foram concedidas estas armas: esquartelado: o I de vermelho, 
cinco flores de lis de oiro; o II de vermelho, castelo de oiro; o III de ver- 
melho, castelo de prata sôbre um monte de verde em ponta, acompanhado 
de duas cabeças de serpe, cosidas de verde e salpicadas de oiro; o IV de 
vermelho, cinco vieiras de oiro empequetadas de negro; e, sobreposta às 

(1) Esta carta de brasão está registada a fl. 53o do liv. 17. de Doações de D. Sebas- 
tião, e foi impressa na íntegra e com poucos erros a pág. xxiv do Archivo heráldico de 
Sanches de Baena. 

(2) Estas duas cartas são uma e a mesma, segundo depois averiguei, e essa é. . . o que 
lá adiante direi. 



220 



Brasões 



linhas da partição, uma cruz de prata carregada de cinco escudetes de azul, 
sobrecarregados cada um de cinco besantes de prata. Timbre: castelo de 
vermelho, saindo de um coronel e sobrepujado de uma flor de lis de oiro. 
Deste Gaspar Gil Carrilho procederam os Mousinhos de Albuquerque. 

Isto escrevia eu em Fevereiro de 1 885, e não me arrependo de o ter es- 
crito. 

Tenho porém de lhe acrescentar hoje (1899) mais algumas palavras, porque 
se tornou a apresentar como certa a existência e descendência de Pero Gil, 
filho suposto de D. João Afonso de Alburquerque, o do Ataúde, e se fez isto 
no mesmo periódico, onde eu afirmara o contrário (1). 

E-me desagradável, muitíssimo desagradável, mas não tenho outro re- 
médio senão fazê-lo e destruir de vez tal lenda, por forma a desvane,cer-se 
inteiramente. 

Vou fazê-lo, protestando, que a isso me não leva o mínimo desejo de 
melindrar o autor impugnado, a quem, neste caso, só prejudica a sua nímia 
boa fé e, desculpe-me, a sua falta de crítica histórica. Portanto algum adjec- 
tivo malsoante, que me escape, dirige-se aos falsificadores dos documentos e 
a mais ninguém. 

Protesto mais, que nenhuma má vontade me move contra Mousinho de 
Albuquerque, o capitão valoroso por todos respeitado e admirado. Nisto, 
que vou escrever, não o vejo a êle; encaro só a verdade histórica. Ficam- 
-lhe, para honrarem o seu nome por terem bem servido a pátria, como êle 
faz, muitos antepassados; que perde êle ? uns avós, alem de falsos, bastardos 
e espúrios ? se isso é perda, dirão. Conta-se de António Carneiro, que, 
apresentando-lhe alguém (Damião de Goes dizem, mas não creio) uma genea- 
logia muito bem traçada, mas falsa, êle pegara do papel e lançara-o ao lume 
a que se aquentava, dizendo: «A meus descendentes basta-lhes, que contem 
por seu progenitor a honra e merecimento com que procuro viver, sendo 
útil ao rei e ao reino». Mousinho não pode dizer só isto, porque já herdou 
nome honrado e ilustre; mas com ufania pode gabar-se de o ter honrado e 
ilustrado ainda mais. 

Pôsto isto, mãos à obra e tratarei de ser o mais breve possível, sem con- 
tudo alcançar sê-lo tanto quanto desejava. 

São cinco os documentos apresentados para prova desta falsa ascendência. 
Para aqui os copiarei do citado artigo Mousinhos d' Albuquerque. 



(1) Visconde de Sanches de Baena, Mousinhos d' Albuquerque, artigo publicado no jornal 
Diário Illustrado. Numero extraordinário. Saudação a Mousinho d' Albuquerque no seu 
regresso á metrópole. Não tem data, mas é dos primeiros dias de Dezembro de 1897. 



Albuquerques 



22 I 



i.° «D. Pedro Gil d'Albuquerque, filho de D. João Affonso d'Albuquerque 
— o do Ataúde, e de D. Maria Gil, como ficou dito e consta da carta de 
legitimação e fidalguia, passada a seu favor na era de 1427, onde se refere 
a sua irmã (D. Maria Affonso) e a varias circumstancias já por nós apontadas. 
A referida carta foi em meiados do século xvu encorporada a uma justificação 
de nobresa e fidalguia, e registada no livro 25 de D. Affonso VI a fl. 3o». 
E uma carta de legitimação. 

2. «Gaspar Gil Carrilho... aquelle que em 20 de dezembro de 1567 
obteve a confirmação da sua ascendência (chamada de nota), como aqui a 
descrevemos». Diz a nota: «Chancellaria de El-Rei D. Sebastião, L. xvn, 
fl. 53o». E uma carta de brasão. 

3.° «Gaspar Mousinho Barba. . . aquelle que pela terceira vez justificou 
perante os poderes públicos a sua ascendência, como se prova pelo alvará 
registado na Chancelaria de El-Rei D. Affonso VI, no liv. 25 a fl. 3o». E 
um alvará. 

4. «Antonio Mousinho da Silveira e Albuquerque, que pela quarta vez 
provou a sua descripta ascendência, no tribunal do Santo Officio, para carta 
de familiar, etc». E um processo de limpeza de sangue como habilitação 
para familiar. 

5.° «Antonio Pedro Mousinho d'Albuquerque . . . mais tarde familiar do 
Santo Officio, para a obtenção de tal privilegio provou pela quinta vez a sua 
nobilíssima ascendência». E outro processo de limpeza de sangue como 
habilitação para familiar. 

Está instruído o processo com estas cinco provas. Vou examiná-las e 
mostrar a sua valia. Começarei de baixo para cima, ao inverso da ordem 
cronológica, e para brevidade e clareza designarei as provas por habilitações, 
alvará, brasão e legitimação. 

A 5. a e a 4. a prova, pois vou tratar delas ambas juntas para reunir tudo 
quanto diga respeito ao Santo Ofício, são duas habilitações para familiares. 
A 5." é a de António Pedro Mousinho de Albuquerque; a 4.* a de António 
Mousinho da Silveira e Albuquerque. Estão ambos os processos na Tôrre 
do Tombo, um no maço 114 de Antónios sob n.° 1976, o outro no maço 1 53 
dos mesmos sob n.° 2434. Quem tiver dúvidas sobre o que vou expôr, pode 
lá ir certificar-se. 

Pelo processo de habilitação de António Pedro Mousinho de Albuquerque 
consta haver êle sido baptizado em 10 de Maio de 1731 na freguesia de 
S. Vicente de Lisboa, tendo sido seu padrinho o primeiro ministro de 
D. João V, o Cardial da Mota, que se fez representar por seu irmão Pedro 
da Mota e Silva. Consta mais: ser o habilitando solteiro, soldado, morador 



222 



Brasões 



à Cruz de Santa Helena; ter tido a petição original despacho para informar 
em 25 de Fevereiro de 1752; e haver a carta de familiar sido passada em 
21 de Abril do mesmo ano. Quanto à sua ascendência consta unicamente, 
que ele era filho de Pedro Mamede Mousinho de Albuquerque, familiar do 
Santo Ofício, e de sua segunda mulher D. Isabel Margarida de Almeida do 
Amaral. Mais nada. 

E esta habilitação uma grande prova para a ascendência dos Mousinhos 
de Albuquerque, pois não é ? 

Pois olhe o leitor que, se a 5. a prova nada prova, a 4.* ainda menos. 
Vai ver. 

E ela o processo de habilitação de António Mousinho da Silveira e Al- 
buquerque e quem o quiser ver já sabe onde o encontra. 

Na petição, que tem despacho para informar datado de 9 de Março de 
1762, declara o habilitando ser nascido e morador em Castelo de Vide. Do 
processo consta mais, que era solteiro e havia nascido a i5 de Setembro de 
1729. Foi muito demorado o despacho final; houve muitas dúvidas; por três 
vezes veio o processo à Mesa e, finalmente, só foi aprovado a 16 de Agosto 
de 1764. 

Agora, na árvore de costados impressa na página seguinte poderá o 
leitor ver tudo quanto desta habilitação se apura com respeito a ascendência 
do habilitando. Nada mais lá se encontra; nem se fala em Pero Gil, nem 
em D. João Afonso de Albuquerque, nem nos Carrilhos, nem em nada rela- 
tivo a esta linha. Fala-se bastante na família do mestre de meninos que 
cheirava muito a cristão novo. Emfim, para dizer tudo, o habilitando An- 
tónio Mousinho da Silveira e Albuquerque não foi do ramo dos Mousinhos 
estudado no artigo Mousinhos d' Albuquerque. O autor encontrou uma série 
de apelidos, que se prestava a confusões, e, sem ler o processo (é a sua 
única desculpa), como já deixara de fazer ao precedente, apresentou-no-los 
a ambos como prova, quando nada provam. 

Posto isto passarei a outro processo, que não está apontado, mas que 
como realmente faz prova, convêm muito ser estudado. E êle o de habili- 
tação para familiar do Santo Ofício de Pedro Mamede Mousinho de Albu- 
querque, pai de António Pedro Mousinho de Albuquerque atrás referido (1). 

Este processo durou a bagatela de trinta e oito anos, e custou a sair com 
despacho favorável ao habilitando, que, tendo apresentado a sua petição em 
princípios de Maio de 1714(2), só alcançou carta de familiar em 24 de Janeiro 
de 1752. 



(1) Está o processo na Torre do Tombo, no maç. 28 de Pedros, sob n.° 5i6. 

(2) Tem despacho de 2 desse mês. — Processo, fl. 5. 



Albuquerques 



223 



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224 



Brasões 



Pedro Mamede era natural de Portalegre, cavaleiro professo na Ordem 
de Cristo, fidalgo da casa de S. M. e morador em Lisboa. Foi filho legí- 
timo de António Mousinho de Albuquerque, cavaleiro professo na referida 
Ordem e então, 17 14, prior de S. João da Praça de Lisboa (1), e de D. Maria 
Micaela de Tavares; neto paterno de Lourenço Mousinho Barba e de sua 
mulher Mariana Nogueira de Valadares, nascidos e moradores em Castelo 
de Vide; neto materno de Pedro Tavares de Mesquita e de sua mulher e 
prima D. Maria de Mesquita, nascidos e moradores em Portalegre. Era 
casado com sua prima D. Maria Teresa Mousinho de Albuquerque, filha 
do desembargador do Paço Gaspar Mousinho de Albuquerque, havida em 
Antónia Maria das Neves, solteira; neta paterna do desembargador do 
Paço Mateus Mousinho e de D. Maria Velada; neta materna de Domingos 
Rodrigues de Carvalho, morador na rua da Ferraria de Baixo da cidade do 
Porto, e de sua mulher Maria das Neves, que ganhava a vida cosendo roupa 
branca por casa dos desembargadores e fazendo «rendalhos, que em esse 
tempo se costumava». 

Consta que Pedro Mamede fôra baptisado na Sé de Portalegre, em 12 
de Setembro de 1693, e sua mulher na igreja de Leça de Matosinhos, em 
Abril de 1681. Consta que o pai, António Mousinho, fôra baptisado na 
matriz de Castelo de Vide, em 10 de Maio de i658, e casara na Sé de Por- 
talegre, em 12 de Janeiro de 1693, com sua referida mulher. Consta tam- 
bém que o avô, Lourenço Mousinho, fôra baptizado na dita igreja de Castelo 
de Vide, em 24 de Abril de i63o, e na mesma casado em 3 de Maio de 1 653. 
Já aqui ficam umas poucas de datas e apenas isto me convêm por ora notar 
relativamente ao processo. 

Voltarei à história deste. A petição originária é dos princípios de Maio 
de 17 14, e logo passados três meses tornou o habilitando com petição nova, 
emendando e acrescentando alguns dos dizeres da outra. Decorreu mais 
algum tempo e, como não recebesse despacho, veio com um requerimento a 
pedi-lo; mas o tribunal ainda nada respondeu e Pedro Mamede socegou por 
alguns anos. Entretanto enviuvou e tornou a casar; mas desta vez acaute- 
lou-se e foi escolher noiva, irmã, filha e neta de familiares. Voltou então, 
em Novembro de 1746, com outro requerimento e êste teve despacho para 
informar a 20 daquele mês. 

No novo papel declarou Pedro Maniede haver enviuvado sem lhe ficarem 
filhos e achar-se de presente casado com D. Isabel Margarida de Almeida 



(1) O autor do artigo Mousinhos d' Albuquerque equivocou-se, quando afirma haver sido 
Pedro Mamede, que depois de viúvo se ordenara; foi o pai. 



Albuquerques 



225 



do Amaral (1), irmã inteira do familiar Inácio de Almeida do Amaral e 
ambos filhos e netos dos familiares, desembargadores e juízes do fisco da 
Inquisição, Pedro de Almeida do Amaral e António dos Santos de Oliveira. 
Pede lhe despachem a pretensão, pois julga não ter ela tido seguimento por 
se haver encontrado- alguma coisa duvidosa na família de sua primeira mulher, 
por ela ser filha natural e portanto pela linha materna, por que pela paterna, 
por onde era sua prima, se persuade não pode haver dúvidas. 

Começou então o processo a ter andamento e em 17 de Outubro de 1747 
veio pela primeira vez à Mesa, para informar, depois de concluídas as dili- 
gências ordenadas. Então os inquisidores Simão José da Silveira Lobo e 
Manuel Varejão de Távora, informando, narraram o que estava provado no 
processo, referiram-se ao depoimento de António Rodrigues Mozinho de 
Matos e aos documentos por êle apresentados, de que tudo tratarei lá mais 
adiante, e concluíram: «Porem, suposto o referido defeito, somos de parecer 
que não está em termos de V. Em. lhe deferir. E V. Em. mandará o que 
fôr servido» (2). 

Parou aqui outra vez o processo por perto de quatro anos, até que, em 
i3 de Agosto de 175 1, o Conselho Geral, que então governava a Inquisição 
por morte do Cardial da Cunha, ordenou novas diligências visto achar-se 
habilitado para familiar Gaspar Mousinho Galeano, parente de Pedro Ma- 
mede (3). Então marchou o processo a galope, pois que a 1 de Janeiro de 
1752, sendo visto em mesa do Conselho Geral e relatado por Francisco 
Mendo Trigoso, foi despachado favorávelmente e Pedro Mamede Mousinho 
de Albuquerque aprovado para familiar. 

Nunca empreguei o advérbio favorávelmente mais a propósito, porque 
houve por certo, um grande favor na concessão da carta de familiar. Os 
tempos iam mudando, o reinado do Marquês de Pombal já começara e Pedro 
Mamede era compadre do Cardeal da Mota. Bem sei, acudo já, que o pri- 
meiro ministro de D. João V era morto, mas ocupava agora o seu lugar seu 
irmão Pedro da Mota e Silva, primeiro ministro dei rei D. José, e que, assim 
como viera a suceder, no ministério, teria logo sucedido no compadrado, 



(1) Tivera lugar este casamento em 27 de Maio de 1730 e efectuara-se no oratório das 
casas na Cordoaria Velha, frèguesia dos Mártires, residência do desembargador Pedro de 
Almeida do Amaral. — Processo, fl. 90. 

(2) Processo citado, fl. 2. 

(3) Este Gaspar Mousinho Galeano também tinha costela de Carrilhos e por tanto o 
mesmo defeito de Pedro Mamede.' No processo daquele (maç. 10 de Gaspares, n.°20o) tam- 
bém depôs António Rodrigues Mozinho, e nele repetiu o mesmo que já dissera. Os do Con- 
selho Geral fizeram jôgo de um processo com o outro, para os aprovar ambos. Era scritto, 
e fez-se. 



vol. 11 



29 



226 



Brasões 



tanto mais que fora êle realmente quem segurara a criança sôbre a pia do 
baptismo. Atrás o referi, e já foi de propósito. 

Também se conhece o favor, ou pelo menos o empenho, de duas notas 
postas pelo secretário do Conselho Geral em requerimentos do habilitando. 
Num, fl. 7, escreveu êle: «S. Em. (o cardeal inquisidor geral Nuno da Cunha) 
recomenda estas informações». Noutro, na seguinte fôlha: «Em 20 de No- 
vembro de 1746 me deu S. Em. este memorial, que lhe apresentou o desem- 
bargador António Sanches Pereira, e me ordenou que buscasse êste reque- 
rimento (o originário de Pedro Mamede) e o remetesse a algum dos senhores 
do Conselho para nêle se ver».- Para quem conheça a frasiologia cautelosa 
do Santo Ofício não está tudo claro ? 

Foi favor e grande, repito, e o leitor vai vê-lo; e se ainda estivesse de pé 
em todo o seu rigor o Regimento do Santo Ofício (1), atrevo-me a afirmar, 
que o silêncio sucederia a todos os requerimentos do habilitando. 

Em virtude do despacho para informar, começara-se a proceder às averi- 
guações e tudo ia correndo menos mal, quando apareceu um «subjeito de 
conhecida verdade e nobreza, e benévolo ânimo (2), e que nada de tolo tinha, 
acrescentarei eu; o qual, com o seu depoimento e sobre tudo com os docu- 
mentos apresentados, veio fazer inteira luz sôbre a origem dos Carrilhos de 
Castelo de Vide. Era êle António Rodrigues Mozinho de Matos, familiar do 
Santo Ofício (3), fidalgo cavaleiro, chefe da família dos Mozinhos, único da 
sua varonia e sétimo neto de Diogo Rodrigues Mozinho, que foi alcaide mor 
de Castelo de Vide (4). Nesta vila nascera e na sua igreja matriz fora bapti- 
zado, em 11 de Setembro de 1702. Estudara filosofia e fôra graduado em 
Artes pela Universidade de Évora; dela passara para a de Coimbra e lá se 
aplicara ao estudo da Jurisprudência cesárea. Tinha grande instrução em 
matemática, arte de cavalaria, língua francesa, e escrevera algumas memórias 
históricas que não chegaram a ser impressas (5). 



(1) O Regimento do Santo Oficio, então em vigor era o de 1640 e dizia êle, no tit. xxi, 
§ que os familiares terão as qualidades declaradas no tit. 1, § 2. , as quais eram: «serão 
naturais do reino, cristãos velhos de limpo sangue sem raça de Moiro, Judeu, ou gente no- 
vamente convertida à nossa Santa Fé e sem fama em contrário... nem sejam descendentes 
de pessoas que tivessem alguns dos defeitos sobreditos. 

(2) Informação de 25 de Fevereiro de 1747 dada por Manuel Mendes Boroa, comissário 
do Santo Ofício em Portalegre. Fl. 17 do processo. 

(3) Carta de 1 de Julho de 1738. — Mac. 85 de Antónios, n.° 1627. 

(4) Assim se declara no alvará de 3i de Março de 1747, de fidalgo cavaleiro, no qual se 
repetem todos aqueles dizeres e se acrescenta o apelido de Castelo Branco. — João Carlos 
Feo, Diccionario aristocrático, pág. 240. 

(5) Barbosa Machado, Biblioteca lusitana, IV, 58, onde se podem ler os títulos dos es- 
critos de António Rodrigues Mozinho. 



Albuquerques 



227 



Não era um qualquer, vê-se; e não depunha por ódio ou inimisade, ates- 
ta-o o próprio comissário do Santo Ofício que o inquiriu, dizendo ser certo 
não haver demanda ou dúvida nenhuma, nem haver notícia de a ter jámais 
havido, entre os ascendentes de António Rodrigues e os de Pedro Mamede (1). 
Levava-o somente a falar o amor da verdade e conhecimento que dela tinha 
por papéis existentes em seu poder; e tanto isto era assim, que êle dizia não 
poder acreditar nunca na pureza do sangue do habilitando, em quanto o não 
visse aprovado para familiar, pois sabia pretendê-lo êle havia muitos anos sem 
alcançar despacho. 

Entre vários documentos apresentou António Rodrigues Mozinho uma 
árvore de geração feita por Pedro Mamede e por seu pai António Mousinho. 
Nela vem a descendência dos Carrilhos desde Gonçalo Mendes Carrilho, e 
essa tinha-a a testemunha por verdadeira; mas na mesma árvore se fazia 
aquele Carrilho filho de Gonçalo Carrilho, irmão do i.° Conde de Cabra, e 
com êste por serem parciais de Afonso V, fugidos de Castela após a batalha 
de Toro; e, sem saberem um do outro, viera Gonçalo parar a Castelo de 
Vide onde casara. 

Esta história tinha-a António Rodrigues por falsa, ponderando: «que 
aquele Gonçalo Fernandes Carrilho não era filho do pai que nela lhe dão, 
porque Haro lho não traz no seu livro (2), nem passou a êste reino por oca- 
sião da guerra e batalha do Touro, porque Duarte Nunes de Lião o não traz 
no catálogo dos cavalheiros castelhanos, que seguiram a voz de Portugal, e 
não lhe esqueceria um filho de pai tam ilustre (3); nem se havia de vir meter 
em Castelo de Vide, mas sim seguir a el rei D. Afonso V até à corte, como 
o fizeram os mais cavalheiros castelhanos; para que lhe desse de comer, já 
que por êle se tinha perdido (4)». Foi ou não com razão, que há pouco disse 
não ter nada de tola esta testemunha? 

Então quem vinha a ser o tal Gonçalo Fernandes Carrilho ? Lá o diz 
António Rodrigues Mozinho no fim da fl. 16 e na 20. Era um Judeu que, 
com sua primeira mulher e o filho desta, viera para Castelo de Vide, onde 
todos foram baptisados em pé na freguesia de S. João, sendo seu padrinho 
o Carrilho, comendador de Malta, de quem êles tomaram o apelido; e para 
confirmação cita uns autos (5). 



(1) Processo de Gaspar Mousinho Galeano, mac. 10 de Gaspares, n.° 200, fl. i36. 

(2) É certo. Veja-se Alonso Lopez de Haro, Nobiliário de Espana, I, 365. 

(3) Também é certo. Veja-se Duarte Nunes do Lião, Chronica e vida de D. Afonso V, 
cap. 5i e segs. 

(4) Cit. processo, fl. 20. 

(5) No processo de habilitação, que vou seguindo, lá vem na fl. 22 e segs. a cópia de 
parte dos tais autos, da qual extratarei isto : «... Diogo Carrilho (filho de Gaspar Carrilho 



228 



Brasões 



O tal Gonçalo Fernandes Carrilho, depois de lhe morrer a mulher que 
trouxera comsigo para Castelo de Vide, tornou a casar nesta vila com a 
Serrinha, crista velha dos quatro costados, e por isso os descendentes deste 
segundo matrimónio só ficaram sendo meios cristãos novos. Do primeiro 
casamento teve Gonçalo Fernandes a Gaspar Carrilho; do segundo teve a 
Caterina Carrilho da Serra, mulher de Manuel Gil Velho e com êle quintos 
avós de Pedro Mamede Mousinho de Albuquerque. 

Gaspar Carrilho, primeiro filho de Gonçalo Fernandes, foi escudeiro da 
casa dei Rei e serviu trinta anos de tabelião e alcaide das sacas em Castelo 
de Vide. Foram seus filhos, entre outros não nomeados no processo, Jorge 
Carrilho e Diogo Carrilho, este já mencionado na nota. Para mais confirmar 
a origem judaica desta família apresentou António Rodrigues Mozinho, dois 
alvarás, ou melhor, uma provisão e um alvará, com as competentes petições 
a êles anexas. 

Da provisão consta haver Jorge Carrilho, cavaleiro da casa de S. A. e 
moço da câmara da infanta D. Isabel, sido feito cavaleiro no cêrco de Ma- 
zagão, onde servira, bem como nas galés. Era morador em Castelo de Vide 
e em 1 565 tinha ajustado a compra dos ofícios de tabelião de notas, contador 
e inquiridor daquela vila; reconhecia porem ter o impedimento de cristão 
novo e, por isso, suplicava a S. A. lho dispensasse. Assim se lhe concedeu 
por provisão de 3 de Março daquele ano(i). 

Do alvará vê-se que Diogo Carrilho, escudeiro da casa de S. A. e moço 
da câmara da referida Infanta, era morador em Castelo de Vide e obtivera, 
em 7 de Março de 1 56 1 , carta do ofício de alcaide das sacas das vilas de Cas- 
telo de Vide, Montalvão, Póvoa e Meadas, ofício já possuído por seu pai. 
Consta também, que o referido seu pai, Gaspar Carrilho, servira em muitas 
coisas a S. A., indo em armadas à sua custa; que dois de seus filhos morreram 
em serviço na índia, tendo sido um dêles capitão de gente; que outro filho 
era moço da câmara e outros dois haviam ido ao cêrco de Mazagão, onde 
foram feridos e téem alvarás de cavaleiros. Consta mais, que todos foram 
casados com cristãs velhas e fidalgas; que o avô dêles, o tal Gonçalo Fer- 



e neto de Gonçalo Fernandes Carrilho) o qual era homem de nação hebreia e cristão novo 
dos quatro costados, e era filho e neto de Judeus que se baptisaram em pé na igreja de 
S. João daquela vila (Castelo de Vide), sendo seu padrinho o comendador Carrilho da Ordem 
de Malta, d'onde tomaram o apelido de Carrilhos sem lhes pertencer...». — Na sentença, 
de 24 de Abril de 1 63 1 , entre vários considerandos diz-se: «mostra-se mais ser a A. meia 
cristã nova, mostra-se mais não levar a bem o dito Simão Fernandes (o instituidor da capela 
litigada) que a dita Isabel Vaz, mãe da A., casasse com Diogo Carrilho, pai da dita A., por 
ser cristão novo. . .». Esta sentença foi confirmada na Relação em 8 de Maio de i632. 
(1) Cit. processo, fl. 24 v. 



Albuquerques 



229 



nandes Carrilho, ao chegar a este reino, logo casara com mulher crista velha, 
de quem houvera muitos filhos e filhas, todos aliados com os principais da 
comarca. Consta por último, que por alvará de 1364 lhe lôra ordenada, por 
ser cristão novo, a venda do oficio dentro de seis meses. Reconhece Diogo 
Carrilho o impedimento; mas suplica lho dispensem, revoguem o alvará e o 
mantenham na posse do ofício. Tudo alcançou por alvará de 14 de Fevereiro 
de i565 (i). 

Não me alongarei mais. Não pretendo escrever a história dos Carrilhos 
de Castelo de Vide; pretendo unicamente tornar patente a falsidade de todas 
estas genealogias, antigamente feitas e ainda hoje sem critério apresentadas 
como verdadeiras. 

Ainda assim direi, que também na habilitação de Pedro Mamede Mousinho 
de Albuquerque se não fala em Albuquerques, nem em Pero Gil, bisneto de 
D. Denis, nem em nada desta linha. 

Destruídas por esta forma a 5. a e a 4.* prova, passarei à 3. a . 

A 3.* prova é o alvará. 

No artigo Mousinhos d' Albuquerque aparece o documento sem data'; foi 
porém passado em Lisboa a 2 de Maio de 1Ó62, a favor do dr. Mateus Mou- 
sinho, desembargador dos agravos da Casa da Suplicação, e acha-se efectiva- 
mente registado no lugar indicado no citado artigo. 

Começa o alvará por declarar que foi apresentada uma carta de privilégio 
e fidalguia (é a legitimação, última prova a ser logo examinada) passada a 
Pero Gil e tirada dos livros do registo da Tôrre do Tombo, onde actualmente 
não existe. Em seguida, trasladada a tal carta, continua descrevendo a ascen- 
dência de Mateus Mousinho até ao capitão Gaspar Gil Carrilho, que diz ser 
seu bisavô, e d'aqui para cima até D. Afonso de Albuquerque (o João ficou 
no tinteiro) que diz ser seu sétimo avô (2). De Gaspar Gil Carrilho para trás 
segue porém a linha, como vem escrita na carta de brasão, à qual se refere 
quási no fim e a qual eu logo analizarei. Vê-se pois servir apenas o alvará, 
por si só, para prova da ascendência de Mateus Mousinho até seu bisavô, 
substituindo-se ao alvará para as gerações precedentes, o brasão e a legiti- 
mação. 

O alvará afirma haver o dr. Mateus Mousinho sido filho do dr. Gaspar 



(1) Cit. processo no verso de uma tolha não numerada e colocada entre a 22 e a 23, 
continuando nesta. 

(2) O autem genuit é este: D. Afonso Sanches, D. João Afonso de Albuquerque, Pedro 
Gil, Gil Afonso Fernandes, Fernão Gil de Albuquerque, Manuel Gil Velho, Gaspar Gil Car- 
rilho, Manuel Gil, Gaspar Mousinho Barba e Mateus Mousinho. 



V 



23o 



Brasões 



Mousinho Barba e de sua mulher D. Mecia de Matos, neto paterno do capitão 
Manuel Gil e de sua mulher Isabel Mausinha, e bisneto pela mesma linha do 
capitão de cavalos Gaspar Gil Carrilho e de sua mulher Ana Gomes Bar- 
regão. 

Esta ascendência está confirmada, menos o bisavô, que se não nomeia e 
o posto de capitão do avô, que com êle se não encontra. Existe na Tôrre 
do Tombo o processo de habilitação do bacharel Mateus Mousinho para 
ocupar os lugares de letras (i). A inquirição de testemunhas foi feita em 
Portalegre a 17 de Abril de 1637, e por ela provou-se, que o habilitando era 
filho do licenciado Gaspar Mousinho Barba, ao tempo despachado corregedor 
de Santarém, e de sua mulher Mecia de Matos; neto paterno de Manuel Gil 
e de sua mulher Isabel Mousinha; neto materno de Mateus Gonçalo Barrento 
e de sua mulher Caterina Fernandes; todos cristãos velhos, nascidos e mora- 
dores em Castelo de Vide, e dos nobres da vila. Esta modesta ascendência 
aceitou o dr. Mateus Mousinho, o próprio apresentante da habilitação a des- 
pacho, a qual foi julgada corrente em 6 de Maio de 1637. 

Nos pais e avós de Mateus Mousinho está o alvará certo; isso não con- 
testo e até não julgo fácil poder neste ponto" haver falsificação por dizer res- 
peito a pessoas tam próximas aos tempos então correntes. Ainda assim foram 
fazendo capitão ao avô Manuel Gil, pacato burguês de Castelo de Vide. 

Entretanto vou já notando, que nem no alvará, nem no brasão, nem na 
legitimação, se atreveram a dar o dom a Pero Gil e a Gil Afonso Fernandes; 
não se atreveram a dar o apelido de Albuquerque, nem a Pero Gil, nem aos 
dois Manuéis Gil, o Velho e o neto. Também se não atreveram a dar o dona 
às mulheres. Pois estes títulos e apelidos, sem outro fundamento nenhum 
além do capricho, deu-lhos com mão pródiga o autor dos Mousinhos d' Albu- 
querque. Mais ainda: ao segundo Manuel Gil, que não passou de Manuel 
Gil tout court, dá-lhe os apelidos de Carrilho de Albuquerque, dos quais não 
usou, nem podia usar, nem lhe passou pela cabeça usar, porque não podia 
adivinhar as futuras presunções vaidosas de seus descendentes; dá-lhe o fôro 
de moço fidalgo que não teve; dá-lhe por último o pôsto de capitão que não 
ocupou. Se Manuel Gil tivesse tido o fôro e o pôsto sobreditos, com certeza 
o declarariam as testemunhas de seu neto no citado processo de habilitação; 
elas até foram nomear, como ilustração da família, um tio, Lourenço Mou- 
sinho, que servira na guerra, embarcara para a índia capitaneando uma 
naveta e no mar morrera; elas calariam lá semelhantes cargos? E não me 
venham objectar, que o Manuel Gil podia ter recebido as distinções posterior- 
mente ao processo, porque neste se declara ser êle já então defunto. 



(1) Leitura de bacharéis, mac. 6.°, letra M, n.° 4. 



Albuquerques 



Também notarei, para este ponto ficar liquidado, que. em nenhum dos 
três documentos: alvará, brasão e legitimação, em nenhum deles ousaram 
declarar, que D. Afonso Sanches, até quem remontavam a ascendência, era 
filho dei rei D. Denis. A isto pretendiam chegar; mas, como sabiam ser 
mentira, usaram da astúcia de o ocultar, com receio da divulgação causar 
reparo e pedir averiguação rigorosa, averiguação capaz de deitar por terra 
todo o castelo de cartas (sem trocadilho). Pois mete-se lá na cabeça de nin- 
guém, que uma pessoa, mesmo dos tempos presentes, com a certeza compro- 
vada por documentos autênticos de descender em linha direita e varonil de 
D. Denis, e do facto tirando orgulho ou simples vaidade, chegasse à ocasião 
de o declarar alto e bom som e se calasse ? Nada, com certeza não o faria. 
Pois, se o não faria agora, muito menos deixaria de o fazer no século xvi o 
capitão Gaspar Gil Carrilho, ou cem anos depois o bacharel Mateus Mou- 
sinho. E então êste, simples nobre de província transportado para a côrte, 
onde quereria figurar entre os seus colegas desembargadores, alguns dos quais 
olhariam para êle por cima do ombro ! 

Terá sido Mateus Mousinho juiz integérrimo, nenhuns dados tenho para 
o duvidar, mas tinha a sua tineta, quem a não tem ? e a dêle era a de querer 
ser fidalgo à fina força. Ainda desta sua fraqueza não veio mal a mais nin- 
guém senão agora a mim, e não lhe sucedeu como a outro, a quem não quero 
nomear, o qual, tendo análogo achaque de vaidade e por forma parecida pro- 
vado, alcançou para seus descendentes um morgado, que lhes não pertencia. 

Concluindo: que resta do alvará, 3.° documento? nada mais álêm dos 
nomes dos pais e avós de Mateus Mousinho, e das cartas de legitimação e 
de brasão. Vamos examinar esta. 

A 2. a prova é o brasão. 

Foi êle passado por carta de 20 de Dezembro de 1667, registada a fl. 53o 
do liv. 17. das Doações de D. Sebastião e D. Henrique, e já publicada, na 
íntegra e com poucos erros (1). 

Na carta de brasão deduz-se a linha pela seguinte forma. O agraciado 
Gaspar Gil Carrilho, capitão de cavalos, natural de Castelo de Vide, foi 
tfilho de catrina carrylho da serra e do capitam manuel gil velho fidalgo 
muito estimado do senhor Rey dó João meu avo que santa gloria haya neto 
por sua maj de catrina da serra e de gonçalo fernandes carrylho fidalgo cas- 
telhano que sérvio bé a esta coroa filho de dona maria serrvantes e do coronel 
gonçalo carrilho que foi irmão do primeiro conde de cabra e por seu pay 
manuel gil velho neto de beratis gonçalves- paredes e do capitam de cavalos 



(1) Sanches de Baena, Archivo heráldico, pág. xxiv. 



1 



232 



Brasões 



fernão gil de Albuquerque filho de gil Afonso fernandes neto de pero gil bis- 
neto de dom João Afonso senhor de Albuquerque e tresneto de dom Afonso 
sanches e por quanto. . . fuy certeficado descender o dito capitão gaspar gil 
por seu pay e baronia de dom João Afonso filho de dom Afonso sanches e 
por sua may do coronel gonçalo carrilho filho de dom pero fernandes de cor- 
duva e dos mais nomeados... lhe mandey dar esta carta de fidalguia e brasão 

darmas que me pedia illuminadas em 
escudo esquarteado com húa cruz de 
prata por deferemsa que uzava em seu 
escudo dom Afonso sanches quinto avo 
do supplicante e nella e no primeiro 
quartel as armas dos Albuquerques a 
saber sobre crus de prata que atravesa 
todo o escudo os sinco escudos de por- 
tugal azues com quinas de prata e no 
primeiro quartel em campo vremelho 
sinco flores de lys de ouro postas em 
aspa no segundo as dos carrilhos da 
casa de cabra que uzavõ Castello de 
ouro em campo de sangue no terceyro 
as dos serras que são em campo ver- 
melho castello de prata sobre um monte 
verde duas cabeças de serpe verdes sal- 
picadas de ouro no quarto quartel as 
dos velhos que são em campo vermelho 
sinco vieiras de ouro em aspa empeque- 
tadas de preto por timbre castello vre- 
melho com flor de lis de ouro e por resão de húa carta de fidalguia que o 
sor Rey dom João de boa memoria deu no Anno de mil quatro centos vinte 
e sete a pero gil (é a carta de legitimação) tercero avo do dito capitão gaspar 
gil e lembrança da honra que a elle e a seos descendentes deseyo fazer... 
lhe mandey acresentar nesta carta de fidalguia e brazão darmas o coronel 
posto ao pe do timbre asim como usarão seos avos dom Afonso sanches e 
dom João Afonso... dada em a cidade de lix. a aos xx de desembro. . . Ano 
do nacimento. . . de mil b 1 x b i j (sic) (1567) annos. . . » (i). 




(i) As armas concedidas por esta carta de brasão, e muito confusamente descritas, enten- 
do-as pela forma por que vão desenhadas. Estas deverão ser pois as armas dos Mousinhos 
de Albuquerque, e não as quinas esquarteladas com flores de lis apresentadas pelo autor do 



artigo do Diário Illustrado. 



Tenho minhas dúvidas sôbre a autenticidade da carta de brasão extratada no texto, mas 



Albuquerques 



233 



Temos pois Gaspar Gil Carrilho filho de Manuel Gil Velho, neto de 
Fernão Gil de Albuquerque, bisneto de Gil Afonso Fernandes, terceiro neto 
de Pero Gil e quarto neto de D. João Afonso, senhor de Alburquerque. 

Diz a carta de brasão haver sido o capitão Manuel Gil Velho fidalgo muito 
estimado de D. João III. Era tam estimado, que o seu nome se não encontra 
em toda a extenssíssima lista dos moradores da casa daquele monarca (1). 
Entre perto de cinco mil pessoas não havia um cantinho onde el Rei acomo- 
dasse êste seu predilecto fidalgo ! Isto e', aparece lá um Manuel Gil entre 
os moços da câmara (2). Querem-no ? Pois dou-lho; mas olhem que na 
lista êle é declarado por filho de Duarte de Tristão. O mesmo que sucede 
nas listas dos moradores, dá-se nas chancelarias. Manuel Gil, porque êle 
provávelmente chamou-se só Manuel Gil, o Velho seria alcunha para se dife- 
rençar do neto do mesmo nome; Manuel Gil, repito, era tam desinteressado, 
que nem uma mercêsinha aceitou de seu afectuoso amo (3). 

Afirma também a carta de brasão haver Manuel Gil casado com Caterina 
Carrilho da Serra, filha de Gonçalo Fernandes Carrilho e de Caterina da 
Serra (a tal Serrinha cristã velha), e isso é verdade. Pouco tempo porem 



por ora não as posso resolver. É a única daqueles tempos antigos na qual se concede o 
uso de coronel; mas não é só isto. Não me cheira; e nestes estudos o faro é um grande 
auxiliar. 

(1) P. e Sousa, Provas da Historia genealógica, tom. II, de pág. 786 a 844, e tom. VI, de 
pág. 576 a 623. O número dos moradores nomeados era de 4.920, segundo a conta de Sousa 
na pág. 625. 

(2) P.e Sousa, Provas da Historia genealógica, VI, 6o3. 

(3) Na Chancelaria de D. João III, em nome de Manuel Gil Velho, não há registo 
nenhum. 

Em nome de Manuel Gil existem cinco: três cartas e dois padrões. As cartas são: de 
escrivão do tesouro de Cochim, de recebedor da alfândega de Olivença e de tabelião na 
mesma vila. Estes pacatos empregos coadunam-se pouco com a mavórcia figura do capitão 
Manuel Gil. 

Dos dois padrões o mais amigo é de 8.000 rs. de tença; tem a data de 22 de Novembro 
de 1542; foi dado pelo infante D. Luís a Mapuel Gil, cavaleiro de sua casa; e foi confirmado 
por D. João III, depois da morte do Infante, a 2 de Outubro de 1 556 (Chancelaria de 
D. João III, liv. 71. de Doações, fl. 291 v. 

O segundo padrão foi dado em 27 de Junho de 1547 P e '° referido Infante ao mesmo 
Manuel Gil, cavaleiro de sua casa. A tença, de dois moios de trigo, dera-lhe o Infante por 
êle ter renunciado o ofício de almoxarife da Amieira, e foi-lhe posteriormente confirmada 
por D. João III, em 20 de Outubro de 1 557 (Ibidem, fl. 375 v.). Com aquele ofício proveu 
então o Infante a António Carvalho, seu moço da câmara, a quem casava com Ana de 
Morais, sobiinha do licenciado Gil Fernandes. 

Se o Manuel Gil dos dois padrões fôsse o nosso, não esqueceria na carta de brasão, 
apenas dez anos posterior, de se declarar a circunstância dêle ter sido cavaleiro da casa 
daquele Infante. Isso esquecia lá ! 

vol. 11 3o 



234 



Brasões 



dura ela, pois que logo começa a mentira, quando se afirma ter sido Gonçalo 
Fernandes Carrilho fidalgo castelhano, bom servidor desta coroa e filho do 
coronel (i) Gonçalo Carrilho (irmão do i.° Conde de Cabra) e de sua mulher 
D. Maria Cervantes (2). 

O que foi realmente o tal Gonçalo Fernandes Carrilho já ficou averiguado 
e bem. Não insistirei no caso; acrescentarei porem aqui mais alguma coisa 
de reforço às afirmações de António Rodrigues Mozinho de Matos. 

O i.° conde de Cabra, D. Diogo Fernandes de Córdova, teve realmente 
um irmão chamado Gonçalo, ou talvez dois: um, Gonçalo Fernandes de Cór- 
dova; o outro, Gonçalo Carrilho de Córdova; se não são ambos a mesma 
pessoa com dois casamentos diversos. Encontro D. Gonçalo Fernandes de 
Córdova casado com D. Joana de Sousa, ou de Sousa de los Rios, com 
vários filhos, nenhum Gonçalo (3). Encontro a Gonçalo Carrilho de Cór- 
dova casado com D. Maria de Cervantes, e só com quatro filhas (4). 

Por aqui se vê ser verdadeira a afirmação de António Rodrigues Mozinho 
quando dizia nem mesmo pelos livros constar que o tal Gonçalo Fernandes 
Carrilho, o de Castelo de Vide, tivesse sido filho de Gonçalo Carrilho, irmão 



(1) Não tenho a certeza de haver já coronéis naqueles tempos, meado século xv; essa 
averiguação porem tomar-me-hia tempo e não pagaria a pena. 

Posteriormente a esta observação indicou-me o meu falecido amigo, general Brito Re- 
belo, uma carta de 23 de Janeiro de 1499 pela qual foi nomeado procurador do número em 
Elvas Tristão Reimão, coronel na dita vila (Chancelaria de D. Manuel, liv. 14. , fl. 5 v.); e 
encontrei na Chronica de D. Emanuel de Damião de Goes (part. III, cap. 46, fl. 21 3) a 
indicação do duque D.Jaime, quando foi da empresa de Azamor em i5i3, haver feito quatro 
coronéis cada um de mil homens. É tudo posterior. 

(2) Vai isto em nota. No artigo dos Mousinhos d' Albuquerque não foi o autor feliz nas 
citações. A propósito destes Carrilhos e Córdovas cita : «Hist. Gen. da Casa Real em 
titulo de Carrilhos e Córdovas». Na Historia genealógica não há títulos; há livros e capí- 
tulos; título é um só, o da Gasa Real. Nos livros e capítulos não há nenhum especial a 
Carrilhos e Córdovas. No tomo XII, pág. 609, nomeia-se efectivamente a D. Gonçalo Fer- 
nandes de Córdova, irmão do 1 .° Conde de Cabra ; menciona- se-lhe o casamento com D. Joana 
de Sousa de los Rios; e declaram-se-lhe os filhos dela havidos, nenhum porém com o nome 
de Gonçalo Fernandes Carrilho. 

Também o autor diz numa nota, que «D. Antonio Caetano de Sousa na sua Hist. Gen. 
da Casa Real ignorava a filiação dos tres primeiros acima enumerados». São cies D. Martim 
Gil, D. Maria Afonso e D. Pedro Gil. Não é isso exacto. No tom. I, pág 241, lá vem o 
Martim Gil, com o mesmo erro de o fazer bastardo, tal qual como o autor dos Mousinhos 
d' Albuquerque, mas lá vem. A D. Maria Afonso também lá aparece na pág. 253. Só quem 
o Teatino não nomeia é o D. Pedro Gil, et pour cause. 

(3) Salazar y Castro, Casa de Lara, II, 732; P.<= Sousa, Historia genealógica, XII, 609; 
Descripcion genealógica de la casa de Sousa, pág. 292. 

(4) Haro, Nobiliário de Espana, I, 365 ; Imhoff, Genealogia? viginti illustrium in His- 
pânia familiarum, pág. 38; Moréri, Grand dictionnaire, III, 10, mihi. 



Albuquerques 



235 



do i.° Conde de Cabra. Também tinha razão quando afirmava ser falso 
terem os Carrilhos castelhanos seguido a parcialidade de D. Afonso V, terem 
entrado da banda deste na batalha de Toro e terem fugido para Portugal. 
Citou para prova a Duarte Nunes do Lião nas suas Chronicas, e eu virei 
confirmar o silêncio do cronista português com o dos cronistas castelhanos. 
Começarei por Hernando dei Pulgar, cronista dos Reis Católicos. 

Em 1475, ao começar a invasão portuguesa, convocaram, diz êle, Fer- 
nando e Isabel os seus parciais para Valhadolid, excepto el duque de Mediria 
Sydonia cõde de Niebla, y don Diego Fernandez de Cordova conde de 
Cabra, que no fueron llamados, porque estavan en guarda de toda el Anda- 
luzia contra. . . dos cai>alleros. . . que seguirian el partido dei Rey de Por- 
togal {1). 

Pouco depois, em Julho, el cõde de Paredes maestre de Sanctiago, y 
don Diego Fernandez de Cordova conde de Cabra, por virtud de los poderes 
que tenian dei Rey y de la Reyna, fa\iã guerra a las tierras dei maestre 
de Calatrava, y a la tierra dei conde de Vruena su hermano, y dei mar- 
ques de Villena su primo (que segun avemos dicho estavan en la obediência 
dei Rey de Portogal) y tomaron a Ciudad real, que tenia el maestre de 
Calatrava, y reduxeronla a la abediecia dei Rey y de la Reyna. Y de tal 
manera estos cavalleros tenian occupada la tierra dei maestre de Calatrava, 
que el ni gente suya no pudo yr en ayuda dei Rey de Portogal: por que le 
era necessário guardar con ella sus logares, por la guerra que desde Ciudad 
real les fa\ia el maestre don Rodrigo Manrrique, y el conde de Cabra (2). 

Mudemos de cronista e vejamos as afirmações de Jerónimo Zurita, o his- 
toriador do Aragão. Este, nomeando los que en Castilla seguia la empresa 
dei Rey de Portugal, não só não inclui neles ao Conde de Cabra (3), mas 
claramente noutras passagens mostra a sua intervenção na guerra a favor dos 
Reis Católicos. 

Em princípios de Setembro de 1475, declara o cronista: Quando fue 
el Rey de Castilla a Duehas... se concerto de casar a don Sancho de Rojas, 
hijo de don Diego Hernandez de Cordova Conde de Cabra, con dona Mar- 
garita de Lemos, dama muy favorecida dela Reyna: y hi\ieron merced a 
don Sancho ... y cÕ esto tuvieron mas cierto a su servido al Conde, que era 



(1) Pulgar, Chronica de los reyes Catholicos, fl. 43 da éd. de 1 565 ainda publicada em 
nome de António de Nebrixa. 

(2) Ibidem, As. 47 v. e 48. 

(3) Geronymo Çurita, Anales de la corona de Aragon, tom. IV, da ed. de 1610, liv. xix, 
caps. 18 e segs., fts. 225 e segs. 



236 



Brasões 



un muy valer oso Cavallero: y aquella casa que... era gran parte en la 
Andaluzia (i). 

Pouco mais de um ano passado, em Novembro ou Dezembro de 1476, já 
ferida havia muito a batalha de Toro,/we a Sevilla dÔ Diego Hernande\ de 
Cordova Conde de Cabra, que era tio dei Rey (Fernando o Católico): y de 
muy anciana edad:... para declarar mas, que toda su casa, y los suyos 
avian de servir a la casa real cõtra todos: assi amigos, y parientes, como 
contra sus enemigos: y fue uno de los prudentes, y sábios cavalleros de su 
iiempo, y de mucho valor. . . (2). 

Creio deixar exuberantemente provado não ter nunca o Conde de Cabra, 
nem nenhum dos seus, seguido a parcialidade de D. Afonso V na guerra da 
sucessão da coroa de Castela. Que mais querem a respeito da linha descrita 
na carta de brasão? Que lhes diga não encontrar nomeados em mais nenhum 
documento o avô, o bisavô e o terceiro avô de Gaspar Gil Carrilho? Que, 
tendo eles sido tam insignes varões, as crónicas e chancelarias são mudas a 
seu respeito ? Pois fique isso dito e vamos à girândola final, pois estou com 
pressa de lá chegar. 

Cheguei, denique tandem, à pedra angular de toda esta grande máquina 
de mentiras, a qual vai cair no chão pois assenta por inteiro sobre um docu- 
mento FALSO. 

E êle a quinta prova que me resta examinar, a primeira na ordem cro- 
nológica, a tal carta de legitimação dè Pero Gil. Vai impressa por extenso 
na nota (3); para o texto irei extratando o que me fôr preciso. 



(1) Ibidem, fls. 246 v. 247. 

(2) Ibidem, fl. 284. 

(3) «Dom João etc. a quantos esta carta virem fazemos saber que pero gil vasalo que 
foi de dom iame conde de Urgel e ora nosso vaçalo da caza do infante dom pedro meu 
muito amado e prezado filho nos mostrou por inquirison que sobre ello foi tirada en como 
era filho de dom ioão afonço de Albuquerque ávido en maria gil con palavra de cazamento 
e neto de dom Afonço sanches fidalgos de grande ser e estado en castella e portugal pe- 
dindo que porquanto elle e seus filhos vieron a estes Reinos pera nos bem servirem e o dito 
seu pai e avo servirem em muito aos senhores Reis meus avos lhe concedemos o privilegio 
de legitimaçon que o sfíor Rei dom fernando meu irmão que santa gloria aja concedera a 
dona Maria afonço sua irmã filha do dito dom ioão e houvesemos elle e todos os que delle 
desendesem por homens fidalgos de solar asii como eram os milhores destes nossos Reinos 
e lhe mandademos dello dar nossa Carta pera que nos e os Reis nosos desendentes lhe fize- 
semos a mercê que merecião por seu pai e avo e nos vendo o que nos asi pedia vista a dita 
inquiriçon e ligitimaçon e o que por ello se mostra temos por bem de lhe conceder a dita 
legitimaçon na forma que se concedeo a dita dona maria afonço sua irmã e havemolo por 
homem solar fsicj e fidalgo elle e todos os que delle dessenderem asi como elles milhor 



Albuquerques 



23j 



Começa ela: «Dom João etc. a quantos esta carta virem, fazemos saber 
que Pero Gil, vassalo que foi de D. Jaime conde de Urgel. . .». 

Já aqui o falsificador se ia atrapalhando. Ele queria fazer a Pero Gil 
vassalo do conde de Urgel D. Jaime, sogro do nosso infante D. Pedro, para 
assim tornar mais verosímil a sua vinda para Portugal e o seu serviço em 
casa do futuro regente. Não era mal pensado, mas felizmente este falsifi- 
cador era dos tais que não sabiam cronologia. 

Houve dois Jaimes condes soberanos de Urgel: D. Jaime I, que reinou 
de i33õ a 1347; e o sogro do vencido de Alfarrobeira, D. Jaime II, cujo rei- 
nado se estendeu de 1408 a 1412, ano em que foi deposto e preso (1). Por 
aqui se vê, sendo a carta de legitimação da era de César de 1427, ano do 
Nascimento de 1 389, o tal Pero Gil, a ter sido vassalo de um D. Jaime conde 
de Urgel, havia de tê-lo sido do primeiro e não do sogro do nosso infante 
D. Pedro. Mas isto não é nada comparado com o resto. 

Continua a carta: «... E ora nosso vassalo da casa do infante D. Pedro 
meu muito amado e presado filho. . .». 

Fecha a carta: «... lhe mandamos dar esta nossa carta, dante na cidade 
de Lisboa vinte de Fevereiro, el Rei o mandou... Gonçalo Anes a fez, era 
de mil quatro centos e vinte e sete». 

Era de César de 1427, abatendo-lhe trinta e oito anos (2), temos o ano 
de 1389 do nascimento de Cristo, como sendo aquele em que foi escrita a 
carta. 

O leitor vê bem. A carta foi passada na era de César de 1427, que é o 
ano de Cristo de 1389, e nela declara-se ser o agraciado vassalo da casa do 
infante D. Pedro. Pois bem, o infante D. Pedro nasceu quarenta e cinco 
meses depois, a 9 de Dezembro de 1392 (3). Nem leva ponto de admiração. 

Parece que podia ficar por aqui, mas não ficarei para ocorrer a todos os 
reparos. 



podem e devem ser e que ajão e lhe sejão guardadas todallas honras privilégios e liberdades 
que hão devem haver e ser guardadas aos milhores fidalgos de nossos Reinos sem outro 
embargo algiá que sobre ello seja posto en testemunho dello lhe mandamos dar esta nossa 
Carta dante na cidade de Lix.* vinte fevereiro el Rei o mandou por ioáo afonço escolar 
en leis seu vasalo do seu Conselho goncalo annes a fes era de mil e quatro sentos vinte e 
sete». 

Está incorporada no alvará de 2 de Maio de 1662 registado na Chancelaria de D. Afonso VI, 
liv. 25.° de Doações, fl. 3o. 

(1) L'Art de vérifier les dates, e tutti quanti. 

(2) João Pedro Ribeiro, Dissertações chronologicas, dissertação vi, cap. ív, vol. II,. 
pág. 23 mihi. 

(3) Fernão Lopes, Chronica de D. João 7, part. II, cap. 148, pág. 323. 



238 



Brasões 



Podia ter havido engano, em quem fez a carta, e ter escrito era em vez 
de ano do nascimento. Há enganos destes, e João Pedro Ribeiro aponta 
alguns (i). 

Pois bem, suponhamos ter havido este engano e a carta ser do ano de 
1427 do nascimento de Cristo. Sucedia então ser o documento passado 
setenta e três anos depois da morte de D. João Afonso de Albuquerque (2), 
o suposto pai de Pero Gil, que, com oitenta anos ou mais, estava em idade 
já pouco própria, se ainda fôsse vivo, ou tivesse já mais existido, para pedir 
a sua legitimação. 

Por aqui me quedo, preguntando ao leitor: que ficou de Pero Gil e da 
sua linha de Mousinhos de Albuquerque ? 



(1) Dissertações chronologicas, vol. II, pág. 26, e vol. IV, pág. 140. 

(2) Ayala, Crónica dei Rey don Pedro, pág. i5i. 



XV 

ANDRADAS 



1 



XV 




Brasões da Sala de Sintra, Vol. II. 



De verde, banda de vermelho perfilada de oiro, saindo das cabeças de 
duas serpes do mesmo. Timbre: duas serpes nascentes e batalhantes de 
oiro, atadas de vermelho. 

Estas armas, sem discrepância no escudo, mas com a designação de serem 
as dos Freires de Andrade, encontram-se no Livro do Armeiro Mór, fl. 55, 
e no Livro da Torre do Tombo, fl. 1 1 ; atribuídas aos Freires, no Thesouro 
da nobreza de Fr. Manuel de Santo António, a 36. 

A mesma confusão nota-se nas cartas de brasão, pois que, p. ex., em 
i522 e 1529 passaram-se cartas com estas armas a dois indivíduos por 
serem da família de Andrade (i); e em i53o passou-se nova carta com idên- 
tico brasão a outra pessoa por ser Freire de Andrade (2). 

Ambas as famílias, tanto a dos Freires, como a dos Andradas, são ori- 
ginárias da Galiza e desde logo mesclaram o seu sangue e as suas armas 
tão repetidas e sucessivas vezes, que hoje já nem se lhes discerne a origem 
nem o brasão, ainda que se supõe ser o escudo da banda vermelha o priva- 
tivo dos Freires e diverso o dos Andradas (3). 

Os Andradas da casa da Anunciada usaram de armas diferentes, ainda 
que com bastante analogia, e lá adiante a elas me referirei. A uns Pinheiros 
de Andrade são atribuídas as seguintes armas: de prata, cinco pinheiros 
arrancados de verde, chefe do mesmo carregado de uma banda de vermelho 
perfilada de oiro, saindo das bocas de duas serpes também de oiro. Timbre: 
pinheiro de verde, saindo da boca de uma serpe de oiro (4). Acham-se estas 
armas ainda em outros livros, além dos citados; a família porém a que elas 
pertenciam, nunca fui. capaz de encontrar. 

(1) Chancelaria de D. João III, Doações, livs. fl. 45, e 17. , fl. i3o. 

(2) Ibidem, liv. 52.°, fl. 128. 

(3) Piferrer, Nobiliário de Espafia, vol. V, pág. 121, nota ao n.° 2075, onde contudo se 
não cita a autoridade sôbre que se fundou o asserto, e o autor por si pouca tem. 

(4) Livro do Armeiro Mor, fl. 123, sem o timbre, e Livro da TSrre do Tombo, fl. 3o v. 
vol. n 3 1 



242 



Brasões 



I 

OS TEMPLÁRIOS E A ORDEM DE CRISTO 

Vi los valientes Templários 
Batallar en claro dia, 
Y a los Freires sus contrários, 
De sus bienes proprietários, 
Traer el ave maria. 

Su sena verde cerrada, 
A quien su banda dorada 
El Rey con três villas dió, 
Quien la victoria ganó ? 
Don Fernan Pérez de Andrada. 

Assim o dizia a velha trova e da tradição, em que ela se fundava, s 
colige o poder da antiga linhagem dos Freires ou Andradas, capaz de lut 
com aquele colosso da Ordem do Templo. Por que foi um colosso aquel 
Ordem. Colosso de virtudes e valor na sua mocidade, de poderio e riqueza 
na sua virilidade, de vícios ou infortúnios na sua caducidade. 

A redenção da Terra Santa ! Pensamento sublime que inquietava 
imaginação ardente dos cristãos da idade média, nos quais o profundo sen 
timento religioso exaltado pela narrativa da perseguição por seus irmãos 
padecida naquelas partes, e o anseio, a necessidade, por assim dizer, de pos- 
suir para a representação do culto relíquias, objectos palpáveis, foram levando 
o entusiasmo das populações ao ponto de produzir uma das mais extraordi- 
nárias invasões originadas nas crenças religiosas. 

Um inspirado, Pedro o Ermitão, voltando em 1094 da Palestina, comunicou 
o seu entusiasmo ao papa Urbano II e, percorrendo seguidamente a Itália e 
a França, sublimou com as suas prédicas os ânimos das multidões, predis- 
pondo-as por tal forma, que, sendo no ano seguinte decretada a guerra santa 
no concílio de Clermont, se levantaram extraordinárias massas de gente, 
prestes, uns, a sacrificarem vidas e fazendas em tão gloriosa empresa; outros 
a aproveitarem o ensejo para se locupletarem. 

Na primavera de 1096 sessenta mil pessoas de todas as camadas infe- 
riores da sociedade, e de ambos os sexos, punham-se a caminho guiadas 
pelo novo profeta. Em breve t espaço mais duzentas mil seguiram as pri- 
meiras. Todas levavam, cosida sôbre o ombro ou cravada na frente do 
capacete, uma cruz benta, encarnada para os Franceses, verde para os Fia- 



Andradas 243 

mengos e branca para os Inglêses, da qual lhes proveio a designação de 
Cruzados. 

Estas hordas, nas quais se compreendiam, de envolta com os crentes, 
bandidos, caloteiros, devassos, malfeitores de toda a espécie, escravos e 
servos da gleba com seus grilhões quebrados, e até prostitutas, hordas a 
quem os chefes não podiam conter, iam saqueando e devastando pelo caminho 
fora, sem respeitarem sequer os territórios cristãos que atravessavam. Dis- 
persos uns pelos Húngaros, perseguidos de morte outros pelos Turcos da 
Anatólia, acharam-se os seus restos, mutilados e lamentáveis, acampados 
junto do Bósforo na primavera do ano seguinte, o de 1097. 

Então aportou a esses sítios a verdadeira, a terrível força militar dos 
cristãos, constituída pela flor da cavalaria ocidental, a qual, em parte atraída 
pela esperança na conquista de dilatados domínios, se abalançara a tão 
grandiosa empresa. 

Avante ! 

.A conquista de Nicea em 20 de Junho de 1097, a sanguinolenta vitória 
de Dorilea em 3o desse mês, o prolongado e áspero cerco e final redução de 
Antioquia, seguida imediatamente do apertado assédio posto pelos restabe- 
lecidos Muçulmanos, definitivamente desbaratados junto às muralhas em 28 
de Junho de 1098; todos estes mortíferos combates, segundados pelas doenças, 
privações e deserções, dizimaram por tal forma os Cruzados, que, de seis- 
centos mil, número exagerado dos cronistas, apenas quarenta mil avistaram 
das alturas de Emaúz a cidade de Jerusalém. 

Ao cabo de um mês, pelas três horas da tarde de sexta feira i5 de Julho 
de 1099, tomaram os Francos por assalto a Cidade Santa, manchando a 
conquista com as mais atrozes iniquidades. Setenta mil habitantes foram 
passados à espada e o sangue derramado era tanto, que nêle se atolavam 
até ao tornozêlo. Depois, depostas as armas, descalços, cabisbaixos, com 
os olhos arrazados de lágrimas, as mãos ferindo os peitos, avançam, entoando 
hinos, direitos ao Santo Sepulcro, ante o qual se prosternam. 

Fundado o novo Estado, aclamado rei dêle por unanimidade o valente 
caudilho Godofredo de Bouillon, foram precisas as mais veementes exortações 
para decidir os cansados Francos a novamente pegarem em armas, a fim de 
defenderem a sua conquista. A decisiva batalha de Ascalónia, em 12 do 
Agosto seguinte, veio dar todavia certa estabilidade e desafogo ao novo reino 
cristão. 

Já o primeiro e segundo rei de Jerusalém tinham morrido, quando em 
11 18 Hugo de Payens, Godofredo de~ Saint Omer e mais sete cavaleiros 
franceses, antigos companheiros de Godofredo de Bouillon, seguindo o 
exemplo dos Hospitalários de S. João, fundaram uma ordem de cavalaria 



244 



Brasões 



com o fim especial da defensão dos peregrinos que se encaminhavam para 
Jerusalém. 

Dirigiram-se os nove cavaleiros a Balduíno II e este lhes concedeu para 
residência um palácio junto ao lugar, onde fora o templo de Salomão, do 
qual a nova milícia tomou o nome. 

Dividiram a Ordem em quatro classes: cavaleiros, escudeiros, freires 
leigos e freires eclesiásticos. Os cavaleiros, recrutados unicamente entre a 
classe dos nobres, traziam manto branco de lã ou linho e sobre êle cosida 
uma cruz vermelha de forma especial; os eclesiásticos usavam hábito branco 
e os leigos hábito preto ou cinzento. Todos os dignitários da Ordem eram 
escolhidos sòmente de entre os seus cavaleiros. O grão mestre não reco- 
nhecia outra soberania além da do Papa, e reputava-se por igual dos outros 
soberanos. A Ordem não tinha nacionalidade; por todo o orbe cristão se 
alastrou, dividindo-o em províncias, conforme os estados ou o seu agrupa- 
mento. 

O estandarte do Templo, denominado Beaucéant, por ser meio preto 
meio branco, e em Portugal Balsa, tinha esta divisa: non nobis, domine, 
sed nomini tuo da gloriam. O sêlo da Ordem, representando dois cavaleiros 
sobre um só cavalo, aludia à penúria dos seus primeiros tempos. 

Além dos votos de castidade, pobreza e obediência, comuns às mais 
Ordens, jurava o Templário atravessar os mares sempre que necessário 
fosse; auxiliar contra os infiéis a quem o reclamasse; nunca fugir diante de 
três inimigos; não ceder para seu resgate nem um palmo de chão, nem uma 
pedra de muralha; não beijar as damas como então se usava nas saudações, 
etc. 

Com cinco dos seus cavaleiros apresentou-se Hugo de Payens, em i3 de 
Janeiro de 1128, perante o concílio de Troyes, que lhe aprovou o instituto e 
mandou, em virtude de recusa de S. Bernardo, redigir a regra da Ordem 
por João de S. Miguel. Seguidamente percorreu o grão mestre diferentes 
países da Europa, alcançando inúmeras adesões e importantes doações. 

Dois meses depois de aprovado o instituto no concílio Trecense recebeu 
a nova milícia em Portugal a doação de Soure, em 19 de Março de 1128, 
nas mãos de D. Raimundo Bernardo, seu representante neste reino. A esta 
carta seguiu-se logo outra, passados dez dias, na qual se delimitava o vasto 
território com aquele castelo doado à Ordem, onde ela fundou as vilas de 
Pombal, Ega e Redinha. 

Decorridos dezanove anos já a Ordem era poderosa a ponto de D. Afonso 
Henriques lhe prometer o eclesiástico de Santarém em troca de seu auxílio 
para a conquista da vila. Conquistada ela em i5 de Março de 1147, cum- 
priu el Rei a sua promessa por carta do Abril seguinte. Não pôde porém 



Andradas 



tornar efectiva a doação por a ela se opor, com justos fundamentos, o Bispo 
de Lisboa e então deu à Ordem, por carta de Fevereiro de u5o, o castelo 
de Ceras e terrenos circunvizinhos. Aqui, em sítio escolhido, edificou o 
então mestre do Templo em Portugal, o famoso D. Gualdim Pais, o castelo 
de Tomar, que se tornou o principal assento e a cabeça da Ordem neste 
reino (i). 

Com esta e muitas outras notáveis doações régias, e com análogos 
favores de particulares foi crescendo a Ordem por forma tal a tornar-se a 
mais poderosa e rica das existentes em Portugal. E merecidas eram as 
mercês por ter ela mais do que nenhuma outra trabalhado pela libertação 
do território, tornando-se pelo seu valor e disciplina tão temida dos Muçul- 
manos, que quási bastava verem-lhe alvejar os mantos para se sentirem der- 
rotados. 

Não foi só em Portugal, o mesmo sucedeu no resto da Europa, onde a 
Ordem do Templo tanto se elevou, que, segundo uns, degenerou pelo efeito 
das riquezas, poderio e contacto com os costumes orientais em pélago dos 
mais ascorosos vícios e sacrilégios; ou, segundo outros, excitou pelo efeito 
das mesmas riquezas e poderio o ciúme e a cobiça de Felipe o Belo, rei de 
França. 

Nem creio inteiramente na depravação dos Templários, nem na ambição 
de el Rei. De tudo haveria um pouco e somente são indesculpáveis os meios 
extremos adoptados, os quais transformaram em mártires aqueles que talvez 
fossem culpados. 

Em 1307 o grão-mestre e sessenta cavaleiros são presos em Paris. Ins- 
taura-se-lhes o processo, são postos a tratos e por fim condenados. Em i3io 
sao queimados cinquenta e tantos nos terrenos da Abadia de Santo António, 
junto àquela cidade. Em i3 de Abril de i3i2 proclama Clemente V no con- 
cílio Vienense a supressão da Ordem do Templo de Salomão. Subsistia 
porém ainda o grão-mestre Jacques de Molay, o qual, com o commendador 
de Normandia Gui de Clermont, recebe a morte, em 18 de Março de i3 14, 
na mesma fogueira acesa no sítio onde depois foi a praça Dauphine em 
Paris. 



(1) Encontro na Arte portuguesa, pág. 1 14, a reprodução do epitáfio do mestre D. Gual- 
dim Pais existente em Tomar, na igreja de Santa Maria dos Olivais. Diz o letreiro: 

f ; obiit • frater '• gval // dinvs \ magister j mi // litum [ templi j portu // 
galie • E A • M A • CO \ XXX a j III a \ m \ idvs \ octobris j hic j cas // 
trvm | tomaris \ cum \ // multis \ aliis \ popvlauit • // requiescat • í pace j 
amen [// 

A data da morte, segundo a era vulgar, corresponde ao dia i3 de Outubro de 1 195. 



246 



Brasões 



Estando sobre a fogueira, conta-se, emprazara o grão-mestre do Templo 
ao Papa e a el Rei de França a comparecerem ante o tribunal de Deus dentro 
de um ano. Efectivamente, antes dele decorrido, ambos morreram: Cle- 
mente V com cinquenta anos, Kelipe IV com quarenta e seis. 

A primeira manifestação hostil do Papa contra os Templários fôra a 
bula de 12 de Agosto de i3o8, na qual êle ordenara se procedesse a inqui- 
rições em todos os lugares onde a Ordem existisse. Em Portugal foi rece- 
bida com frieza e desagrado a resolução pontifícia e vagarosamente se lhe 
começou a dar execução, não disfarçando D. Denis a sua simpatia pela Or- 
dem, pois que a insinuação dei Rei se deve atribuir, o não se terem encon- 
trado Templários em Portugal quando se publicou a bula de 3o de Dezembro 
de i3o8, ordenando a sua prisão. 

D. Denis, como bom político, foi-se logo apossando dos bens da Ordem, 
ao passo que esta pela retirada dos freires os ia abandonando; e, proposta 
a acção civil, já em 27 de Novembro de i3oo, eram vários bens da Ordem 
julgados à Coroa. Não se considerando contudo ainda seguro bastante, fez 
el Rei de Portugal com seu vizinho Fernando IV de Castela um tratado. 
Por êle combinaram, no caso de se tornar definitiva a supressão da Ordem, 
não consentirem na alheação de seus bens, se não em proveito da Coroa, e 
neste empenho se coadjuvarem. Assinado o tratado em 21 de Janeiro de 
i3io, a êle em breve aderiu D. Jaime de Aragão. 

Em 21 de Outubro do mesmo ano examinou o concílio de Salamanca, 
onde se acharam representados os estados cristãos da Península, a causa 
dos Templários e declarou-os inocentes. Em virtude desta sentença decre- 
tou-se que os cavaleiros do Templo poderiam persistir, não em comunidade, 
mas debaixo das ordens do prelado diocesano da localidade onde residissem, 
dando lugar esta deliberação à sua sucessiva reaparição. 

Continuando as pretensões do papado sobre os bens da Ordem, resolveu 
D. Denis seguir o exemplo dei Rei de Aragão. Havia êste, com a fazenda 
possuída pela Ordem no seu reino e com os cavaleiros dela que lhe apare- 
ceram, fundado em 1817 a Ordem de Montesa. 

Em seguida a demoradas negociações, os procuradores enviados por 
el Rei de Portugal a Avinhão alcançaram da cúria a bula de 14 de Março 
de 1 3 19 de instituição da Ordem de Cristo. Fundou-se ela com todos os 
bens da do Templo, acrescentados com a vila de Castro Marim dada por 
el Rei para seu assento principal. Estabeleceu-se a regra de Calatrava para 
a nova Ordem, e nomeou-se para seu mestre a D. Fr. Gil Martins, então 
mestre da cavalaria de Avis(i). 



(1) Encontro também na Arte portugueza, pág. 35, nos artigos de Luciano Cordeiro 



I 



Andradas 



247 



Este foi o princípio da famosa Ordem de Cristo, que teve o seu assento 
em Castro Marim conservando o senhorio daquela vila até 1372. Neste 
ano, por carta passada em Leiria a 6 de Novembro, deu D. Fernando à « 
Ordem Castelo de Vide em troca de Castro Marim, que não estava povoado 
nem reparado, segundo cumpria, por a Ordem o não poder fazer, visto ser 
a vila muito distante das suas outras possessões (1). Fixou-se então a sede 
da Ordem em Tomar, e lá se conservou até à sua extinção em 1834, pos- 
suindo então esta rica Ordem quatrocentos e cinquenta e quatro comendas, 
com o rendimento aproximado de cem contos de réis. 

A grande dignidade de mestre da cavalaria de Cristo pouco tempo per- 
maneceu nos seus freires, pois que pelos anos de 1420 já se encontra gover- 
nando a Ordem o famoso infante D. Henrique, a quem sempre se seguiram 
no mestrado pessoas da família real. 

O penúltimo mestre da Ordem de Cristo tirado.de entre os seus cava- 
leiros foi D. Nuno Rodrigues Freire (2), eleito em 7 de Novembro de i357, 
a ligar crédito inteiro à inscrição adiante transcrita, gravada sobre a porta 
dos paços de Ferreira, inscrição confirmada pelo instrumento de 9 de No- 
vembro do mesmo ano de eleição e confirmação no convento de Alcobaça do 
mestre de Cristo D. Nuno Rodrigues (3). Ganhou este mestre a amizade 
de D. Pedro I e a sua confiança, a ponto de el Rei lhe entregar a educação 
de seu filho bastardo D. João. Este facto deu lugar a supor-se haver sido 
Teresa Lourenço, mãe de D. João, da família dos Andradas e parenta do 
mestre D. Nuno. Para o jovem D. João pediu o seu preceptor em 1364 o 
mestrado de Avis, então vago; pedido que el Rei, como é de supor, gosto- 
samente outorgou. Morreu o mestre D. Nuno Freire em 1372. 



intitulados Inscripções portuguesas, o epitáfio da sepultura de D. Gil Martins na capela mór 
da igreja de Santa Maria dos Olivais de Tomar. Como o calco da inscrição está em parte 
mal tirado, dela aproveitarei apenas a data da morte do Mestre. Teve ela lugar no dia i3 
de Novembro da era de 1 35g, ano do Nascimento de i32i. 

(1) Chancelaria de D. Fernando, liv. fl. 114 v. 

(2) O extracto da carta de entrega do castelo de Vide de 9 de Novembro de 1410 (1372) 
{Chancelaria de D. Fernando, liv. i. e , fl. n5). É o único documento das chancelarias em 
que se encontra declarado o património do mestre D. Nuno Freire, a quem aí se chama 
D. Nuno Rodrigues. 

(3) Fr. Joaquim de Santo Agostinho, Memorias sobre os Códices Manuscritos, e Cartório 
do Real Mosteiro de Alcobaça, nas Memorias de Litteratura da Academia, tôm. XV, pág. 328. 



« 



248 



Brasões 



II 

LINHAGEM 

Nas agrestes montanhas da Galiza, nas chuvosas margens das su;;.. rias, 
estão as vilas de Ferrol e Puente de Eume (ou melhor Puente j me), 
outrora pequenas aldeias de pescadores, hoje muito aumentadas principal- 
mente a primeira, um dos melhores portos de Espanha. No fundi scuro 
da serrania destaca-se o vistoso Ferrol com os seus belos edifício.s, : >m as 
suas ruas traçadas a cordel, com os seus viçosos jardins, e mira-se desvane- 
cido nas profundas águas da sua ria brilhante espelho pela natureza emmok 
durado de verdejantes montanhas, como diamante entre esmeralda-. 

Estas vilas e a de Vilalva pertenciam, nos princípios do século nu, ao 
senhor do forte castelo de Andrada, que de riba da sua enorme penha ainda 
hoje as domina. Era êle então de Nuno Freire de Andrada, comendador de 
La Barra na Ordem de Santiago pelos anos de 1220. 

Deste senhor de Puente de Eume, Ferrol e Vilalva foi filho primogénito 
e senhor da casa Fernão Pérez de Andrada e segundo-génito Pedro Freire 
de Andrade, em quem, por falta de descendência do primeiro, se con:inuou 
a casa que nos fins do século xv já gozava dos títulos castelhanos de conde 
de Vilalva e de Andrada, cuja representação está hoje no duque de Ah a. 

Em Portugal, meado do século xiv encontra-se Nuno Freire em b de 
Agosto de 1 355, em Canaveses na qualidade de um dos doze vassalos do 
infante D. Pedro que juraram fazer quanto pudessem a fim dêle observar e 
cumprir o tratado de concórdia celebrado com D. Afonso IV seu pai(i). 
Em i357 foi Nuno Freire eleito mestre da Ordem de Cristo (2 , a. mo já 
vimos. Era natural da comarca da Corunha (3), na qual estav..m situados 
os referidos senhorios. Conjecturo seria o mestre filho de Nuno Fi ene de 
Andrada e irmão de Fernão Pérez de Andrada, senhores de Puente de Eume, 
Ferrol e Vilalva, atrás referidos, ou pelo menos sobrinho de um e primo 
com irmão do outro, visto o Fernão Pérez ser tio de Rui Freire, íiiho do 
mestre D. Nuno (4). Encontro contudo a fl. 624 v. do tôm. III da Collecçâo 
de InscripçÔes de Moreira, na biblioteca da Academia, inscrição aoaixo 

(1) Aires de Sá, Frei Gonçalo Velho, I, 67. 

(2) Em 17 de Julho de 1399 (i36i) alcançou êle carta de privilégios para a cobrança 
das rendas de certos bens da Ordem em Entre Doiro e Minho. — Chancelaria de D. Pedro J, 
liv. fl. i3 4 . 

(3) Fernão Lopes, Chronica de D. Fernando, cap. 32.° 

(4) Supra, cap. 99. 



Andradas 



249 



copiada, a qual ele diz existira sobre a porta dos paços da vila de Fer- 
reira. 

Aquele aliás benemérito coleccionador não declara sistemàticamente o 
lugar de onde transcreveu as suas inscrições, o que lhes tira grande parte 
do valor, havendo para mais a certeza, como eu tenho, de muitas delas não 
haverem sido copiadas dos originais. 

Se a inscrição merece crédito, esclarece ela de vez a filiação do mestre 
de Cristo D. Nuno Freire. Aqui vai a inscrição conforme a encontro no 
lugar citado: 

Estes passos fes o Mestre de Christo D. Nuno Roif Freire de Andrada, 
filho de Ruy Freire de Andrada e de D. Ignes Gonçalves de Soutto Maior. 
Forão começados em cinco dias de Julho Era de 1400 annos guando era 
do seu Mestrado quatro, sete meses e seis dias reynando em Portugal o muy 
nobre Rey D. Pedro o primeyro, sendo andado de seu reynado cinco annos 
e desanove dias. Estas letras pintou Gonçalo Tenrreiro, Mordomo mor e 
Chanceler mor do dito senhor Mestre. 

Na vida de combates e aventuras levada pelos cavaleiros das ordens mi- 
litares, achavam-se de contínuo os seus votos de castidade sujeitos a violentas 
tentações, das quais raros saíam ilesos. 

Aos pés da gentil Clara Martins esqueceu D. Nuno Freire os solenes 
juramentos prestados ante o altar, substituindo-os por outros mais doces e 
fáceis de cumprir, que não foram desprezados, antes aceitos e retribuídos, 
como no-lo provam os frutos destes amores provindos: Rui Freire e Gomes 
Freire. 

Rui Freire, o primeiro dos filhos do Mestre de Cristo, legitimado por 
carta de 12 de Setembro de i36i (1), foi cavaleiro da Ordem de Santiago e 
nela comendador de Palmela e da Arruda. Comendador mor da Ordem 
parece (2) ter sido. Acompanhou ao mestre de Avis, servindo-o com dedica- 



(1) Chancelaria de D. Pedro 1, liv. fl. 63 v. — É este o único documento das chan- 
celarias onde se lhe chama Rui Nunes. 

(2) Fernão Lopes, Chronica de D. João I, part. II, cap. 129. Vide também epitáfio de 
sua neta D. Milícia de Melo, o qual se lê no § 25 do tít 3.° do liv. 5.° da Chronica dos Ere- 
mitas de Santo Agostinho de Fr. António da Purificação, onde vem transcrito com a data 
do ano certamente errada. Talvez se deva ler 1479 em vez de 1419, o que não tenho agora 
lazer de averiguar. E isto dizia eu no Diário Ulustrado, e acertei. Com a data de 1479 
encontro copiado o mesmo epitáfio na fl. 126 das Memorias Sepulchraes que para beneficio 
ia Historia de Portugal offereceu á Academia Real D. António Caetano de Sousa. É um 
precioso ms. na posse do conselheiro Venâncio Deslandes, ilustre administrador da Imprensa 
Nacional. 

vou 11 32 



25o 



Brasões 



çao, tanto no cerco de Lisboa (i), como em outras ocasiões. A êle se deve 
o escapar a cidade à traição urdida por D. Pedro de Castro e outros fidalgos, 
que projectavam na noite de 1 5 de Agosto franquear aos castelhanos o esca- 
lamento de uma parte das muralhas. A Rui Freire, como galego, falaram 
os conspiradores; porém êle, fiel vassalo e leal amigo, o foi logo descobrir 
ao mestre de Avis. Morreu Rui Freire sem descendência masculina. 

III 

Gomes Freire, segundo filho do mestre de Cristo, foi criado e pagem do 
mestre de Avis D. João, pupilo de seu pai. Serviu-o com dedicação, e foi 
dos poucos que tiveram prévio conhecimento do assassínio do conde de 
Andeiro, tragédia em que lhe foi distribuído um papel conforme aos seus 
anos, e que desempenhou cabalmente. Ficou o pagem às portas do paço, 
e, apenas avisado de que o assassínio estava executado, cavalgou, e a galope 
correu pela cidade direito às casas de Alvaro Pais bradando: 

— Matam o mestre! Matam o mestre nos paços da rainha! Acorrei ao 
mestre, que o matam ! — O que pôs em alvoroço todo o povo afeiçoado ao 
bastardo de D. Pedro. 

Na chancelaria de D. João I encontram-se várias mercês feitas a Gomes 
Freire nos anos de i386 e 1390(2) Entre elas está a de doação do senhorio 
de Bobadela, envolvido em outros bens, o qual depois foi confirmado de 
juro e herdade a D. Isabel Coutinho, mulher de Gomes Freire, neto do 
outro. 

Esta senhora foi sepultada na igreja velha de Santa Clara de Coimbra, 
e sobre o seu jazigo escreveram êste epitáfio: — Aqui ja\ D. Isabel Coutinha, 
filha de Gonçalo Va\ Coutinho, o qual venceu a batalha de Trancoso, mulher 
de Gomes Freyre, que morreu em Tangere (3). 



(1) Carta de doação de 17 de Junho de 1384 de todos os bens que o capitão tinha na 
cidade de Lisboa, do reguengo de Algés e de uma casa na rua Nova (Chancelaria de 
D. João I, liv. fl. 5). Foi esta carta dada em Lisboa durante o cêrco, e no próprio dia 
em que a armada do Pôrto chegou a Cascais. O capitão era Gonçalo Tenreiro, capitão 
mor das frotas, como o declara a carta de confirmação da precedente dada a Rui Freire em 
8 de Outubro de 1 385. (Ibidem, ú. 14.5 v.). 

(2) Liv. As. 32 e 24, liv. 2. , fls. 1 v., 25 v., 26 v. e 44. 

(3) P.e Luís Montês Matoso, Memorias Sepulchraes do Convento Real de S- Francisco 
da Cidade de Lisboa, etc, fl. 106 v. Pertence êste interessante manuscrito ao meu amigo 
conselheiro Venâncio Deslandes, que, com a sua provada amabilidade, mo emprestou, 

permitindo-me tirar dêle as indicações que entendesse. 



1 



Andradas 



25 i 



De Gomes Freire, o primeiro, provieram todos os verdadeiros Frei- 
res que tem havido em Portugal, os quais se ramificaram pela seguinte 
forma. 

João Freire, filho daquele Gomes Freire, sucedeu-lhe na casa, foi capitão 
na tomada de Ceuta e meirinho mor do reino (i), e morreu desastrosamente. 
Era êle muito dedicado a D. João I, e, ouvindo-o um dia queixar-se de certo 
senhor castelhano, que de el Rei mal dizia, protestou tomar-lhe a satisfação. 
Fez o seu testamento, instituindo a capela vulgarmente chamada dos Freires 
em S. Francisco de Beja, e partiu para Castela a cavalo. Passando em 
Évora de noite, quis dar de beber ao corcel, e levou-o a um poço à saída da 
porta de Alconchel junto à muralha; o animal porém espantou-se, empinou-se, 
e ferrou consigo e com o cavaleiro dentro do poço, que se ficou chamando 
de João Freire, e estava entupido ao tempo qm que Diogo Gomes de Figuei- 
redo conta o caso no seu Nobiliário, isto é, aí por 1670. 

Havia casado João Freire pela segunda vez com D. Catarina de Sousa, 
filha de Martim Afonso de Sousa, senhor de Mortágua, o patusco que em 



(1) João Freire parece ter sido monteiro mor e não meirinho mor. Pelo menos a abre- 
viatura, que por duas vezes se encontra em certo documento, é mais depressa a da palavra 
monteiro, do que a de meirinho. Este mesmo documento também se encontra transcrito 
nas cartas de confirmação na Chancelaria de D. Manuel, liv. 44. , fl. 89 v., e aí vem a abre- 
viatura m.° desenvolvida na palavra meirinho. É o tal documento uma carta dada em Sintra 
a 25 de Agôsto de 1425, na qual D. João I declara haver casado a D. Catarina de Sousa, sua 
criada, com João Freire, seu criado e monteiro mor, prometendo-lhe a ela quatro mil coroas 
de dote, das quais lhe manda ora pagar duas mil e pelas restantes lhe arbitra o serviço novo 
dos judeus de Beja. A referida carta foi confirmada à mesma D. Catarina em 10 de Janeiro 
de 1445, e 25 de Maio de 1458; ao marquês e à marquesa de Vila Real, neta da dita senhora, 
em 6 de Dezembro de i5oi; e finalmente à marquesa, já viúva, em 17 de Abril de i526. 
(Chancelaria de D. João III, liv. 16. , fl. 1 37). 

Este casamento, o segundo de João Freire, foi efectuado em 1417, entre 8 de Fevereiro 
e 10 de Março. Nesta data aprovou el Rei em Aldeia Galega o contrato de casamento de 
João Freire de Andrade, seu criado, monteiro mor, e vassalo, com a referida D. Catarina 
de Sousa (Chancelaria de D. João I, liv. 3.°, fl. 194). No documento transcreve-se uma 
procuração, que é da outra data, 8 de Fevereiro, e foi passada por João Freire a seu tio 
João Álvares Pereira (senhor da Feira, irmão de sua mãe). É curioso o papel, e mostra o 
extraordinário desapego do nubente, que não esteve para escolhas, talvez se tivesse dado 
mal da primeira vez, e agora autorizou o tio...; mas transcrevo que é melhor: «dou e 
outorgo todo meu comprido poder, que elle por mim, e em meu nome, possa tratar, e 
afirmar casamento para eu haver de casar com qualquer mulher destes reinos, que ele quizer 
e por bem tiver,. . . e para que por mim, e em meu nome possa receber, e receba, por mim 
por palavras de presente, como manda a Santa Egreja, qualquer mulher, que elle quizer e 
por bem tiver ». 

Não sei como lhe não encarregou também logo o baptizado. 



252 



Brasões 



Aljubarrota fez voto, se escapasse da batalha, de ir ter uma novena com a 
abadessa de Rio Tinto, que era irmã de João Rodrigues de Sá, o das Galés, 
que prometeu correr atrás dele e bater-lhe. Em todos os casos não é tão 
certo ter havido pancadaria, como o rezar-se a novena, pois que desta apa- 
receram os frutos em um menino, que depois foi o progenitor dos senhores 
de Gouveia, Condes de Redondo. 

Do referido casamento de João Freire nasceram: Gomes Freire, que 
seguirá, e João Freire de Andrada, que serviu com valor em Africa a 
D. Afonso V, que lhe fez mercê do senhorio de Alcoutim em 1465, e de 
quem foi aposentador mor(i). Sua filha e herdeira, D. Maria Freire, casou 
com D. Fernando de Meneses, i.° conde de Alcoutim em virtude deste casa- 
mento, e depois 2. marquês de Vila Real. 

Gomes Freire, irmão primogénito do senhor de Alcoutim, foi o 3.° senhor 
de Bobadela, senhorio que foi confirmado de juro e herdade a sua viúva, 
D. Ssabel Coutinho, como já lá acima disse. Destes senhores nasceram os 
três seguintes filhos varões: 

i.° — Luís Freire, que apesar de primogénito ficou excluído das terras, 
ou por ter casado com uma parenta sem dispensa e contra a vontade de 
el Rei, ou por ser homem de pouca conta, ou por D. Afonso V querer favo- 
recer a seu irmão João por ser genro de valido. Casou Luís Freire com 
D. Mecia da Cunha, filha de Fernão de Sá, 2. alcaide mor do Pôrto, e foi 
seu filho primogénito Gomes Freire de Andrada. Casou este com D. Cecília 
da Silva, filha de João de Sousa, o Romanisco (2). 

2. — Nuno Fernandes Freire, que serviu na índia, e parece ter vivido 
■em Beja, onde tinha umas casas que D. Manuel lhe doou em 1490, e onde 
tiveram assento muitos desta família. Por sua segunda mulher, D. Isabel 
de Almeida, foi bisavô de Bernardim Freire, comendador de Santa Eulália 



(1) João Freire de Andrada, senhor de Alcoutim, vila de que também foi alcaide mor, 
alcançou para ela carta de privilégios e liberdades dada em Ceuta a 7 de Outubro de 1458, 
e confirmada a seu genro, o Conde de Alcoutim, em 12 de Julho de 1497 (Chancelaria de 
D. Manuel, liv. 32.°, fl. 10). Parece ter casado pela primeira vez em Castela com D. Isabel 
Coutinho, viúva de D. Fernando de Cascais. Casou com D. Isabel de Meneses. (Vide nos 
Documentos de Marrocos de Pedro de Azevedo, tôm. I, pág. 258, 5q6). Era João Freire já fale- 
cido em 8 de Julho de 1474, em que el Rei tirou a sua filha a D. Maria Freire a dízima da alfân- 
dega de Alcoutim, dando-lhe por ela dezasseis mil reais de tença (Ibidem, fl. 5o). Havia 
sido casado com D. Leonor da Silva, a quem D. Afonso V, sendo ela já viúva confirmou a 
mercê, que por um alvará lhe havia feito ainda em vida do marido, de por morte deste ficar 
a sua filha D. Maria Freire a vila de Alcoutim. Tem o documento a data de 22 de Setembro 
de 147} (Chancelaria de D. Afonso V, liv. 26. , fl. i32). 

(2) Vide Livro primeiro dos Brasões, pág. 297. 



Andradas 



253 



na ordem de Cristo, e prisioneiro na de Alcácer Quibir, o qual morreu em 
Beja, deixando de sua mulher, D. Luísa de Faria, entre outros filhos a 
António Freire e Manuel Freire de Andrada. — António Freire sucedeu na 
casa, foi comendador de Santa Eulália e bisavô de Nuno Freire de Andrada 
e Castro, i.° conde de Camarido em duas vidas por decreto de 16 de Julho 
de 1822. Do conde foi filho primogénito José António Freire de Andrada e 
Castro em quem, por ser miguelista, se não verificou a segunda vida do título. 
Casou com sua prima D. Antónia Augusta Freire de Andrada, que veio a 
ser herdeira dos 3. 0S condes de Bobadela, como já vou dizer. Deste casa- 
mento nasceu única a senhora D. Maria Isabel Freire de Andrada e Castro, 
virtuosa representante e possuidora das casas de Camarido e Bobadela. — 
Manuel Freire de Andrada, irmão de António Freire, progenitor da casa de 
Camarido serviu na guerra e foi militar distinto. Casou com D. Joana de 
Brito, e foi avô de Gomes Freire de Andrada, i.° conde de Bobadela por 
carta de 20 de Dezembro de 1758, ilustre governador e capitão general do 
Rio de Janeiro durante perto de trinta anos(i). Lá morreu sem filhos em 
1763, e sucedeu-lhe seu irmão José António Freire de Andrada, 2. conde 
de Bobadela em sua vida, com mais duas fora da Lei Mental, por carta de 
9 de Maio de 1763. Dêle foi filho Gomes Freire de Andrada, 3.° e último 
conde de Bobadela, que faleceu em i83i, tendo casado com D. Ana Joaquina 
Maria do Resgate de Miranda Henriques, filha e herdeira dos i. os viscondes 
de Souzel. Nasceram quatro filhas: a primogénita D. Joana Isabel, casou 
com D. Nuno Manuel, filho segundo dos 4. 0S marqueses de Tancos, de quem 
teve um único filho que morreu criança; a segundogénita, D. Antónia Augusta, 
veio a ser sucessora e casou, como fica dito, com o filho herdeiro do i.° conde 
de Camarido, pelo que se juntaram as duas casas. — Do referido Manuel 



(1) «Atendendo aos distintos serviços que Gomes Freire de Andrade fez nos empregos 
de governador e capitão general do Rio de Janeiro e Minas, tenente general do exército, de 
primeiro comissário e plenipotenciário nas conferências sôbre os limites meridionais do es- 
tado do Brasil, e de general comandante do corpo de tropas auxiliares que o dito Senhor 
mandou para a redução dos> rebeldes que se levantaram nos sobreditos limites, atendendo 
também aos seus merecimentos qualidades, etc. fez-lhe mercê do título de conde da vila de 
Bobadela em sua vida e de uma comenda do lote de 600.000 réis, e porque o conde conti- 
nuou sempre a servir com igual distinção desde o mês de Outubro de 1758, em que o des- 
pachou na sobredita forma, até o mês de Janeiro dêste presente ano (1763) em que faleceu 
depois de haver cedido a casa em seu irmão José António Freire de Andrade, por os sobre- 
ditos motivos e por a memória de Gomes Freire se não perder, etc. ». Carta do título ao 
irmão com três vidas fora da Lei Mental. 9 de Maio de 1763 (Mercês de D. José, liv. 17. , 
fl. 404). Vide o liv. 86.° da Chancelaria de D. José, fl. 1 10. 



254 Brasões 

Freire de Andrada, progenitor da casa dos condes de Bobadela, foi bisneto, 
mas por outra linha, o famoso e malaventurado general Gomes Freire de 
Andrada, que foi enforcado junto à torre de S. Julião da Barra em 18 de 
Outubro de 1817. 

3.° — João Freire, que foi 4. senhor de Bobadela, Lagos da Beira e Fer- 
reira, por mercê de D. Afonso V de 4 de Dezembro de 1472. Casou com 
D. Maria da Silva, sepultada na Graça de Santarém (vide o epitáfio), filha 
de D. Afonso de Vasconcelos e Meneses, i.° conde de Penela e da condessa 
D. Isabel da Silva. Em seus descendentes se continuou a casa de Bobadela 
até seu quarto neto, o 9. senhor, Luís Freire de Andrada, que morreu a 4 
de Julho de 1674, incorporando-se então o senhorio na coroa por falta de 
descendência. Este ramo dos senhores de Bobadela foi o principal, o fidalgo 
da geração dos Freires. 

Deles a varonia persiste apenas, que eu saiba, na senhora das casas de 
Camarido e Bobadela, D. Maria Isabel Freire de Andrada e Castro. 



IV 

Os Andradas da casa da Anunciada procedem do famoso Fernand' Alvares 
de Andrada, escrivão da fazenda e tesoureiro mor de D. João III, homem 
inteligente e rico, que se inculcava parente dos Condes de Vilalva e An- 
drada. Concorreu muito para a edificação do mosteiro da Anunciada em 
Lisboa, e a capela mor da sua igreja lhe foi dada para jazigo por alvará de 
1542. A lápide de sua campa, de magnífico mármore e com o seu bra -ão 
em soberbo relêvo, encontra-se hoje no museu do Carmo. De sua mulher 
Isabel de Paiva teve Fernand'Alvares os seguintes filhos. 

i.° — Álvaro Peres de Andrada, que foi senhor da casa. Transmitiu-a 
a seus descendentes os Meneses, condes da Ericeira e marqueses do Louriçal, 
representados pelo Conde de Lumiares. Entre outros filhos teve a Fr. Ma- 
nuel da Conceição, eremita augustiniano, provincial da sua ordem, prègador 
distinto, e o publicador dos Sermões de seu tio Diogo de Paiva de Andrada, 
e dos Trabalhos de Jesus de seu outro tio Fr. Tomé de Jesus. 

2. — Francisco de Andrada, que foi guarda mor da Torre do Tombo, e 
cronista mor do reino. ■ E o autor da Chronica de D. João III, da Chronica 
de Jorge Castrioto, do Primeiro cerco de Diu, etc. Foi pai do segundo 
Diogo de Paiva de Andrada, autor do Exame de antiguidades, do Casa- 
mento perfeito, e do poema Chauleidos em latim. Ambos, pai e filho, são 
considerados como dos bons clássicos da língua. 



Andradas 



255 



3.° — João Álvares de Andrada, que foi tesoureiro mor como seu pai. 
Faleceu sem geração. 

4. — Diogo de Paiva de Andrada, que foi presbítero secular, doutor em 
Teologia, enviado ao concílio de Trento, contando apenas trinta e três anos 
de idade. Foi um teólogo insigne, cujos notáveis sermões reuniu em três 
volumes seu sobrinho, Fr. Manuel da Conceição, e cujas obras em latim são 
consideradas. Dele se conta, que, instado para pregar contra a sensualidade, 
respondera: — «Receio, falando dêste vício, ofender mais os ouvidos castos, 
que emendar os profanos». — Resposta digna, e teoria nem sempre prati- 
cada. 

5. ° — Fr. Tomé de Jesus, eremita augustiniano, fundador da reformados 
Grilos que se pôs em execução depois da sua morte. 

Ficou cativo na batalha de Alcácer. Durante o cativeiro com a mais 
acrisolada caridade rejeitou o resgate, e a melhor acomodação, para com a 
sua presença, e prática, confortar e animar aos companheiros da desven- 
tura. E o autor dos famosos Trabalhos de Jesus, obra cuja linguagem 
D. Francisco Alexandre Lobo não hesita em antepor às de Vieira e Fr. Luís 
de Sousa. 

6. ° — Fr. Cosme da Presentação, eremita augustiniano, e distinto cultor 
das letras, cuja prematura morte impediu a manifestação do talento. 

7. — D. Violante de Andrada que foi condessa de Linhares por casar 
com D. Francisco de Noronha, 2. conde de Linhares. 

Foi deveras notável esta plêiade de escritores ilustres, de cujo sangue 
provieram os dotes literários, que distinguiram os não menos famosos Condes 
da Ericeira seus descendentes. 

Estes Andradas tinham por armas em campo de oiro, banda de vermelho, 
saindo das bocas de duas serpes de verde, picadas de prata, e acompanhada 
de duas caldeiras enxequetadas de vermelho e prata, com as àsas garguladas 
no encaixe de uma cabeça de serpe de verde, linguada de vermelho. Timbre: 
serpe alada nascente de verde, e linguada de vermelho. 

V 

De Rodrigo Afonso de Andrade, que seus descendentes dizem ter, sido 
parente do mestre de Cristo D. Nuno Freire, descendeu um ramo de An- 
drades, que teve .seu solar em Montemor o Velho com sepultura na igreja 
de Santa Maria da Alcáçova da mesma vila. Era este jazigo no cruzeiro 
em frente da capela mor, e lá está uma lápide no chão com as armas dos 
Andradas, diferençadas por uma brica, posta no cantão sinistro do chefe, e 



256 



Brasões 



carregada de uma flor de liz em banda. Por baixo das armas está esta 
inscrição, que copiei no dia 9 de Setembro de 1894: 

S. A De Gaspar Da . 
Fonseca e andrade 
Fidalgo Da caza De S. 

MAG. E E DE S. A M. m D. LEONOR 
MASCARENHAS FALLECEO 

aos 12 de 9. BR0 Ano de 1559 

FILHA LEG. A DE NvNO MaSCA 

renhas De Freitas Fidalgo 
Da caza Do D to S or q en Seo 
Serviço Faleceo Em CocH 
in aos 3o De ívlho Anno de 

l52Õ E DE SEOS HERDR. os 

Ao que parece, o Rodrigo Afonso de Andrade, progenitor deste ramo, 
casou em Montemor o Velho com uma senhora Fonseca, de quem teve a Rui 
Pais de Andrade, e a Isabel de Andrade, cujo casamento referirei no capí- 
tulo VI. 

Rui Pais de Andrade foi senhor de um morgado em Ceiça, junto a Ourém, 
e possuidor de uma grande quinta em Cadima, termo de Montemor o Velho. 
Nesta vila viveu, e para o concelho dela alcançou, dizem, uma carta de 
muitos privilégios e isenções, que se guardava no arquivo da câmara, e que 
foi passada em Santarém a 24 de Março de 1447. Casou com Leonor Vaz 
de Novais, filha de Vasco Lourenço, dono da referida quinta, pessoa prin- 
cipal de Montemor, de quem dizem haver memórias dos anos de 1453 no 
arquivo da vila. Destes foi filho Diogo de Andrade, sucessor da casa e 
também morador na mesma vila, a quem foi passada uma carta de brasão 
das armas de Andrade, com a mencionada diferença da flor de liz, em 12 
de Agosto de 1 522(1). De Diogo de Andrade foi filho primogénito o refe- 
rido Gaspar da Fonseca e Andrade, e segundogénito Rui Pais de Andrade. 

Gaspar da Fonseca e Andrade é o que está sepultado na igreja da Alcá- 
çova, e sobre a campa tem o letreiro acima copiado. Em seus descendentes 
se continuou a administração do morgado dos Andrades de Montemor o 
Velho, ao qual pertence uma casa nobre na rua do Loireiro da mesma vila, 
e do qual é hoje possuidor D. João de Alarcão, que foi governador civil 
de Lisboa. 



(1) Chancelaria de D. João III, liv. fl. 45 v. 



Andradas 



Quando, para a copiar, pisei a lage que cobre o túmulo de Gaspar da 
Fonseca, mal pensava eu que debaixo dela uma criatura humana tinha pas- 
sado pelos mais angustiosos transes. Ali, no carneiro daquela pobre e triste 
igreja, foi sepultada viva uma desditosa rapariga protegida dos morgados. 
Teve ela um ataque, ficou como morta, pediram os pais licença aos fidalgos 
para a depositarem no seu jazigo, e tempos depois, tornando êste a abrir-se, 
encontraram o cadáver da mal-aventurada moça sentado no último degrau da 
escada, com a cabeça apoiada à mão ! 

; Que se passaria naquele coração ao sentir-se vivo dentro da sepultura! 
O vagaroso e inconsciente acordar, o zunido nos ouvidos, as picadas nos 
pés e mãos, um certo bem estar deslembrado; depois, num lampejo, a volta 
da razão e da memória, e logo o long, tvild and continuons shriek(\), ou 
bramido de agonia, morrendo nas espessas e húmidas paredes do carneiro, 
apagando-se, sem eco, nas pesadas trevas da sepultura ! 

Pobre rapariga ! ,;Quanto tempo te durariam os arrancos ? Muito, porque 
cada hora era um ano. 

Esta horrível história contou-me D. João de Alarcão, que, haverá trinta 
e bastantes anos, sendo êle criança, se lembra de ter ido com uma criada ao 
alto do castelo de Montemor o Velho, à igreja de Santa Maria, na ocasião 
em que se abria o carneiro, sepultura dos seus, para nele se recolher o 
corpo de uma senhora da família. Então é que se encontrou o cadáver da 
enterrada viva, e na imaginação da criança fez tal impressão a scena, que 
nunca mais a esqueceu. 

Rui Pais de Andrade, o irmão mais moço de Gaspar da Fonseca, consta 
ter entrado na tomada de Azamor em i5i3, e ter sido armado cavaleiro 
depois da vitória por D. João de Meneses que lá ficara por capitão. Foi 
pai de Rui de Andrade, cónego na colegiada de Ourém; e foi avô de Sebas- 
tião de Andrade Freire, que casou com D. Maria da Cunha, muito contra 
vontade dos pais dela, 8. a Senhora, que veio a ser, do morgado de Antanhol 
dos Cavaleiros. Nos seus descendentes, dos quais um foi Visconde de 
Maiorca, se continuou a casa. 

VI 

Isabel de Andrade, filha de Rodrigo Afonso de Andrade, atrás nomeado, 
casou com o capitão Gil Tomé Pais. A ela fá-la seu bisneto Miguel Leitao> 
de Andrada, filha do conde de Andrada em Galiza (2). Desculpa-me, meu 
caro Miguel, mas não tinhas razão. Era esta uma péchazinha da vaidade,. 



( 1 ) Poe, The premalure burial. 

(2) Miscellanea, pág. 284 mihi. 
voi . II 



33 



258 



Brasões 



de que tu padecias, bem desculpável no teu tempo, mas que bem risível 
seria hoje. Não, amigo, nem o Haro(i), nem o Gandara (2), nem os mais 
atribuem tal filha a D. Fernando de Andrada, conde de Vilalva e Andrada, 
e em contraposição os bons nobiliários portugueses dão á tua bisavó a filiação, 
que lhe assino aqui. 

Deste pecado venial de vaidade logrou decerto a absolvição o devoto fes- 
teiro de Nossa Senhora da Luz do Pedrógão, a quem dedica o seu livro, e 

Cos giolhos no chão, vos venho offrecelo. 

Agora do outro, do que já não era pecado, mas um grande crime, desse, 
se o praticou, mais custoso lhe teria sido alcançar o perdão. Mas cometê- 
-lo-ia ele ? 

Possuo um título dos Pais da letra de D. Afonso Manuel de Meneses, 
desembargador dos agravos, que aí por 17 14 escreveu o seguinte, depois de 
se referir à obra de Miguel Leitão: «O que acho de seus casamentos tam- 
bém é uma miscelânea, mas escrevo o que acho. Casou com D. .'. filha de 
Francisco de Figueiredo Ribeiro, e êle a matou, e devia a culpa (dela) não 
ser muito justificada, porque esteve (êle) por esta causa preso muitos anos. 
Casou também com Brites Leitão sua parenta... Casou também com 
D. Francisca de Sousa, a quem nomeia por testamenteira... Casou também 
com D. Inês de Atouguia, a cujos herdeiros deixa oitenta mil réis...» (3). 



(1) Nobiliário de Espana, vol. 2. , pág. i36 m/Aí. 

(2) Armas y triunfos de Galicia, pág. 538 vtihi. 

(3) O título de Pais escrito por D. Afonso Manuel de Meneses, e aproveitado para o 
texto, está no 18.° vol. de um Nobiliário de diferentes letras coordenado por Jorge Saltér 
de Mendonça. A propósito de trahalhos desta espécie lembrou-me o seguinte dito senten- 
cioso referido pelo P.e José Baptista de Castro no seu Mappa de Portugal, tôm. III, pág. 247, 
com respeito a um parente deste autor genealógico: «Porem sendo repetidas as diligen- 
cias, que se fizerão, para que o R. Doutor Joaquim Salter de Mendoça, Prior desta Igreja, 
me communicasse as noticias da dita Paroquia, se achou sempre nelle huma tal repugnância, 
que me resolvi procurallo em 1 r de Mayo de 1755, dizendo-lhe, que a impressão deste tomo 
tinha chegado aos termos de parar por falta das noticias supplicadas. A isto me respondeo 
reveso (sem mais informação da minha empreza) que não as dava, por quanto semelhantes 
obras erão inúteis; pois nellas se cometião muitos erros, por não serem escritos, e authen- 
ticados com documentos originaes ». 

Na mesma obra no vol. i5.° encontra-se, no título de Meneses, a autobiografia de 
D. Afonso. Parece-me interessante e curiosa por mais de um motivo, e por isso a porei 
em apêndice a êste estudo. Confesso, que não vem nada a propósito de Andradas, mas o 
que estou escrevendo, não são nenhumas memórias académicas, é uma espécie de salada 
russa, prato muito do meu agrado. 

Nisto imito a Miguel Leitão, que já chamava à sua Miscellanea, salada de várias plantas : 



Andvadas 



Não sou eu o primeiro, que dá esta notícia. Já o meu amigo e mestre, 
o visconde Júlio de Castilho, no-la apresentou na sua predilecta obra(i). 
Encontrou êle a novidade em um nobiliário também; no de Jacinto Leitão 
Manso de Lima, repositório vastíssimo de verdades e petas, que se guarda 
na Biblioteca Nacional de Lisboa. 

O meu autor é apenas mais velho, do que o de Castilho, uma dúzia e 
meia de anos, que tantos vão de 12 de Setembro de 1672 a 16 de Agosto 
de 1690. Um nobre de província passou a vida na Sertã, sua pátria, 
comendo os réditos de um beneficio na matriz de S. Pedro; o outro, fidalgo 
da corte, nela persistiu desde 1704, ocupando os lugares de desembargador 
da suplicação e dos agravos. 

Manso de Lima compulsou nos cartórios da Sertã, Pedrógão, e outros 
lugares próximos, muitos documentos nos quais nada encontraria acerca do 
funesto caso; mas como vizinho do Pedrógão, pátria de Miguel Leitão e 
habitação de gente sua, ouviria a tradição local, e dela lhe viria a notícia 
que divulgou, ou melhor, pretendeu divulgar. D. Afonso na sua qualidade 
de desembargador ouviria a memória, que do caso na relação, e na corte, 
ficaria. Poder-se-iam pois confirmar um com o outro estes dois depoimentos, 
e contestes fazerem as duas testemunhas prova, se eu não tivesse a certeza 
de que êles se tinham copiado um ao outro, ou ainda a um terceiro. 



« Como a estas nossas práticas lhe chamei Miscelânea, ou salada de diversas cousas mistu- 
radas » (Miscellanea, diálogo V). 

Acerca de Miguel Leitão de Andrada publicou o general Brito Rebelo um excelente 
artigo (Miguel Leitão de Andrade, apontamentos biográficos e testamento, no n.° 1 e seguintes 
do Archivo histórico portuguez), no qual, documentos à vista, nos dá, além de outras 
preciosas informações biográficas, a notícia exacta da ordem e número dos casamentos, e 
dos nomes das mulheres do autor da Miscellanea, o que tudo andava muito errado em 
quási todos os nobiliários, inclusive no de D. Afonso Manuel de Meneses que eu transcrevi. 

Pelo artigo cio General ficamos sabendo que Miguel Leitão casou a primeira vez, pelos 
anos de 1 583 ou 84, com sua prima Beatris de Andrade, que faleceu em fins de 1596, ou 
princípios de 1597. 

Em seguida, e depois de oito anos, pouco mais ou menos, de viuvez, e portanto pelos 
de 1606 como eu já calculára, tornou Miguel Leitão a casar, sendo então a noiva D. Inês de 
Atouguia, que parece não ter sido filha de Francisco de Figueiredo Ribeiro, como declaram 
vários genealogistas. Da morte desta mulher é que Miguel Leitão foi acusado, o que lhe 
rendeu alguns meses de prisão, da qual se livrou por Fevereiro de 1608, como eu já indicara, 
não parecendo mesmo admissível outra suposição. 

Solto Miguel Leitão, continuou ainda comtudo a correr o processo, o qual com certeza 
estava concluído em 1612. 

Em Julho do ano seguinte era já Miguel Leitão casado, pela terceira e última vez, com 
D. Francisca de Sousa, que lhe sobreviveu, tendo êle morrido a 7 de Setembro de 17J2. 

(1) Júlio de Castilho, Lisboa Antiga, i." parte, Bairro Alto, cap. 10. 



2ÔO 



Brasões 



Durante todo o século passado cultivou-se muito em Portugal a genea- 
logia, e havia entre os genealogistas relações cordiais e um verdadeiro 
comércio de informações. Descobria um dêles qualquer novidade, apressa- 
va-se em comunicá-la aos seus confrades em agradecimento de análogo obsé- 
quio, ou na esperança da reciprocidade. O pior era que, sendo a maior 
parte dêles nobres ou aspirantes a tal, cuidavam sobretudo da própria pro- 
sápia, ou da de seus mecenas e patronos. Daqui já o leitor vê o resultado. 
As novidades muitas vezes não eram achadas, eram fabricadas, bem como 
os documentos sobre que elas assentavam. E isto fazia-se com todo o des- 
caramento, bem como sem escrúpulo; aquele genealogista, a quem a novidade 
era levada, a aceitava, e punha nos seus livros, e até delas passava certi- 
dões. 

Não estou inventando. Leia-se a petição de revista de Francisco Xavier 
Teixeira de Mendoça na demanda sôbre a administração dos morgados do 
Marquês de Montalvão (i), leia-se, e lá se verá confirmado o que digo, e 
pior ainda. 

O próprio D. Afonso Manuel de Meneses foi apanhado na ratoeira. 
Chamado para testemunha no tal processo, vê-se obrigado a declarar, que 
passara uma certidão, em que constava o contrário do que tinha deposto. 
Confessa tê-la feito a pedido de Manuel de Carvalho e Ataíde, outro genea- 
logista, e por ter com êle amizade lha assinou, tal como êle já lha mandou es- 
crita, não escrupulizando com o ver nela declarada que se firmara na vista 
de documentos autênticos. Diz também que lha assinou para que o amigo 
« não concebesse o sentimento, de que a fé da sua asseveração perigava, ou 
se arriscava na censura dêle testemunha: porém que chegando a fé do jura- 
mento, nenhuma destas urbanidades podiam consistir, insto serem contra 
verdade » (2). 

Declarações análogas fizeram José Freire Montarroio, Belchior de Andrade 
Leitão, escrivão dos filhamentos, o P. M. Fr. Gaspar Barreto, e Manuel de 
Sousa da Silva. 

O P. M., que também tinha passado uma certidão, obrigado « pelos re- 
morsos de sua consciência, e preceito de obediência imposto pelo seu pre- 
lado, se achou precisado a jurar» para declarar que a sua certidão era 
mentirosa (3). 



( 1 ) Petição de revista que pedio Gonçalo Christovão Teixeira Coelho de Melo Pinto de 
Mesquita da sentença proferida a favor de Sebastião José de Carvalho e Melo, pág. 86 e 
seguintes. 

(2) Ibidem, pág. 87. 

(3) Ibidem, pág. 88. 



Andradas 



26r 



Manuel de Sousa da Silva, um genealogista muito considerado, confessa, 
que foi muito instado por Manuel de Carvalho e Ataíde para pôr nos seus 
livros o que constava dos tais instrumentos, que ele, Manuel de Sousa, 
provou ao apresentante serem mentirosos nos seus dizeres. A-pesar-disso, 
mais apertado por Manuel de Carvalho, que pretendia que a certidão , era 
inofensiva, e só «para entroncar bem a sua família», acabou por lhe fazer 
a vontade, e passou-lhe a certidão. Arrependido confessa mais, j que lha 
passou « dizendo nela, vira . . . em papéis autênticos » o que se pretendia, e 
o certificador sabia ser tão falso, como os tais documentos o eram ! Chega 
porém a ocasião do juramento, a consciência morde-lhe, ;e declara «que 
nunca em nenhum livro, nem outro papel autêntico, dos que tinha visto, 
achara, nem vira» aquilo que havia certificado ! (i). 

I Ora vá-se lá ser juiz com tais mordomos ! 

; Mas a que propósito trago eu isto tudo ? 

Ah! já sei. Foi para provar as relações que naqueles tempos tinham 
entre si os genealogistas, e que não é para admirar, que D. Afonso cá em 
Lisboa, e Manso de Lima lá na Sertã, se tivessem copiado um ao outro, ou 
a um terceiro. 

Que eles se copiaram vejo-o claramente, porque não só dizem a mesma 
coisa, como às vezes até pelas mesmas palavras. Ambos êles trazem o tes- 
tamento de Miguel Leitão datado do dia 28 de Setembro de 1627, em que 
êle declara cumprir setenta e quatro anos de idade. Ambos êles lhe põem 
a morte no dia 7 do mesmo mês de i63o. Aqui cabe uma rectificação, e 
importante, devida à liberalidade do meu amigo o general Brito Rebêlo. 
Miguel Leitão de Andrada teve mais dois anos de vida. A abertura do seu 
testamento foi sim a 7 de Setembro, mas de i632, e não de i63o. Encon- 
trou o general o documento na Tôrre do Tombo em papéis do convento de 
S. Domingos de Lisboa. Ambos êles o põem morando em Lisboa junto ao 
mosteiro de Sant'Ana. E desta proximidade, e do culto que tinha por Ca- 
mões (isto agora nenhum dêles o diz), resultou mandar Miguel Leitío 
colocar na parede à mão esquerda, entrando pela porta principal da igreja, 
em memória do grande poeta, que ali jaz, uns azulejos com uma tarja em 
volta, e no meio uma cruz e estes versos: 

O grão Camões aqui jaz 
Em pouca terra enterrado, 
Nas terras tão nomeado, 
Da espada tão efficaz 
Quanto na penna afamado. 



(1) Petição da revista cit., pág. 89. 



2Ó2 



Brasões 



Hoje já lá não está nada, a não serem os ossos do cantor dos Lusíadas, 
mas confundidos com outros (i). 

Ambos eles dizem que Miguel Leitão foi sepultado no capítulo de S. Do- 
mingos de Lisboa, em sepultura própria com suas armas, o que até certo 
ponto é encontrado por Barbosa Machado, que declara na sua Biblioteca 
Lusitana fôra o cadáver de Leitão transferido para o convento de Nossa 
Senhora da Luz do Pedrógão, para a sepultura de seu pai Belchior de An- 
drade. Ambos eles são concordes no seu desdém pela Miscelânea, a que 
chamam livro de pouca utilidade, génio simples, e estilo pedante, composto 
unicamente para dar notícia dos ascendentes do autor. 

Só Manso de Lima se adianta em dar á mulher morta o nome de D. Inês 
de Atouguia, porém logo a seguir ambos a fazem filha de Francisco de Fi- 
gueiredo Ribeiro. Advertirei que houve dois Franciscos de Figueiredo Ri- 
beiro, um tio, o outro sobrinho; e que a mulher de Miguel Leitão, a ter 
sido filha de algum, havia de ter sido de Francisco tio, pois que o irmão 
dêste, e pai do outro, se habilitou para cavaleiro de Cristo em i3 de Janeiro 
de 1 583, o que exclui a probabilidade de ter uma neta já casada em 1606. 

Da própria narrativa do funesto caso feita por Miguel Leitão no diálogo, 
décimo da Miscelânea, se pode marcar o ano de 1607, como tendo sido o 
da morte de sua primeira mulher. 

Diz ele: « emquanto o Marquez Visorrey que já era, e não o dom Pedro 
de Castilho Bispo, despachava o feito do meu livramento e soltura» (2). 
Donde se há-de concluir, que foi o bispo de Leiria que o mandou prender, 
e o marquês de Castelo Rodrigo soltar. 

Já contara que « mandou sua Magestade se me fizesse justiça ordinária, 
a cabo de cinco meses de Limoeiro. E tendo eu agravado da injusta prisão 
pêra a mesa da consciência ... se mãdou que eu era aggravado e que fosse 
solto » (3). 

Sucedeu a D. Pedro de Castilho o marquês de Castelo Rodrigo, que en- 
trou no govêrno em 2 de Fevereiro de 1608(4). Não foi decerto o seu pri- 
meiro acto o de mandar soltar a Miguel Leitão, tanto mais, que êste mesmo 
confessa, que o caso havia feito escândalo, e não só dera muito que falar na 
ocasião, como ainda então era muito falado. Dêmos ao vice rei um mês 
para estudar a questão, e seria portanto o autor da Miscelânea solto em 
princípios de Março. Esteve cinco meses preso, êle mesmo o declara, logo, 



(1) P. Sebastião de Almeida Viegas, A verdade acerca dos ossos de Luij de Camões. 

(2) Miscellanea, pág. 291, mihi. 

(3) Ibidem, pág. 288. 

(4) João Pedro Ribeiro, Dissertações, tom. 3.°, p. 2.*, pág. 211, mihi. 



Andradas 



263 



a prisão ocorreu em fins de Setembro, princípios de Outubro de 1607. 
Entre a morte da mulher, e a prisão do marido mediou algum tempo, o 
necessário para impetrar do governo de Madrid uma carta de seguro, que 
de nada valeu. Dêmos dois meses à ida e volta, e à conhecida delonga de 
todos os negócios na corte madrilena, e temos a morte da mulher aí por 
Julho ou Agosto daquele ano. 

Isto é para a data da morte; agora para a do casamento vê-se, que entre 
uma e a outra mediou, pelo menos, certo número de meses, pois que para 
o corpo de delito vieram, além do corregedor da corte, médicos, cirurgiões 
e parteiras. Estas, que hoje já não põem cruz branca à porta (tudo se vai) 
não costumam aparecer senão aos sete, oito, ou nove meses, e portanto lá 
vão atirar com o casamento pelo menos para os fins de 1606. 

Castilho viu o testamento de Miguel Leitão (1), e como na data e nos 
extractos, que dêle faz, concorda com os dois genealogistas, a que me tenho 
referido, fico tendo a certeza de que alguns deles, ou quem os informou, 
também viu o documento, e portanto merece-me crédito o que a mais nos 
manuscritos encontro. 

O Castilho, todo respeitoso, transcreveu só parte do testamento, e omitiu 
um legado, que eu não quero deixar ficar esquecido, porque mostra o homem 
e o tempo. Miguel Leitão, muito a sério, no seu testamento, com setenta e 
quatro anos de idade, isto é, com o pé na cova, lega sessenta mil réis a 
Nossa Senhora da Misericórdia do Pedrógão jcom a condição de alcançar do 
Senhor Seu Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, a salvação ! Gostava eu de 
saber a quem competia verificar, se a Legatária cumprira a cláusula, para 
lhe poder ser entregue o legado. 

Ai ! meu Miguel Leitão, pouca confiança tinhas na Virgem, ou muito re- 
ceavas a tua carga de pecados. Tu em vida gostaste bem da caturreira, e 
bastante caturrarias com os teus padrecas das festas, e ninfas, musas, e 
lindas donzelas pedroguenses, e com os meninos embaixadores, e o rei 
David bailando, e anjos, e virtudes, e potestades, et toul le tremblement. 
Sim, com esses todos caturrarias, tu que até connosco o fazes, querendo-nos 
fazer crer, que doze cavaleiros mascarados, que apareceram nas tuas festas, 
eram senhores de título, condes ou marqueses. Caturrão ! sim fôst«-lo, mas 
ao fazer do teu testamento, e tratando da tua alma, tu, tão devoto, não pen- 
savas na caturreira, não, e foi a sério, muito a sério, que deixaste os ses- 
senta mil réis à Nossa Senhora com a condição de te salvar. 

Encontra Castilho em Miguel Leitão, «como pensador, muito de Miguel 



(1) Lisboa antiga, cit., pág. 121. 



264 



Brasões 



de Montaigne, com igual bom senso, mas muito menos cultura e filo- 
sofia » ( 1). 

E verdade. Há semelhanças entre os dois em alguns pontos, mas noutros 
não. Ambos êles eram de condição singela, agasalhadora, de génio feliz e 
alegre. Ambos êles atiraram para o seu livro com o que viram, e como o 
viram; com as impressões que sentiram, e que traduziam, como sabiam, 
cada um consoante a sua inteligência, educação, e meio em que viveu. ;Mas 
que diferença no espírito e na vida! Miguel Leitão de medíocre cultura 
literária, de imaginação cheia de crendices, procurando aventuras e ajunta- 
mentos, viveu na corte, buscando a sua aldeia unicamente, quando nela havia 
festas, barulho, folguedos. 

Montaigne recebeu uma educação esmerada, a que os autores antigos e 
a poesia serviam de fundamento; educação que o seu extraordinário bom 
senso corrigiu, no que podia ter de demasiado ideal e poético, guardando 
dela unicamente a ditosa faculdade de tudo dizer e escrever com mimo e 
alegria. Logo que podia, fugia do bulício, escondendo-se na sua torre de 
Montaigne, naquele terceiro andar, onde viveu o melhor da sua vida, absorto 
nos seus pensamentos e reflexões, e entregue a uma certa preguiça laboriosa, 
que tão querida lhe era. 

Miguel de Montaigne preconizava, e queria para si « une pie glissante, 
sombre et muette » ; um ideal ! Miguel de Andrada, quando não tinha melhor, 
repicava os sinos, e deitava os foguetes no seu Pedrógão. Contudo há entre 
os dois um grande ponto de semelhança, que é o terem-se cada um dêles 
retratado no seu livro, com a diferença porém, que Montaigne com os seus 
Ensaios está nas cristas da serra; enquanto Andrada com a sua Miscelânea 
apenas galgou as faldas. 

Eu tenho por Miguel Leitão uma grande amizade, mas não me impede 
ela de ser justo; e ainda que a afeição fosse tão grande, que me obcecasse 
o espírito, parece-me que nunca me atreveria a pensar dêle, o que o ilustre 
crítico Sainte Beuve diz de Montaigne. Eu não poderia chamar a Leitão o 
nosso Horácio, dizendo que o era, tanto na substância como no modo, e até 
na expressão, que muitas vezes se eleva às alturas de Séneca (2). 

Miguel Leitão denomina modestamente o seu livro uma salada; e ainda 
que êle é decerto mais do que isso, contudo nunca senhora nenhuma portu- 
guesa se lembrou de lhe chamar «mon bréviaire, ma consolation, et la patrie 
de mon ame et de mon esprit», como ao livro de Montaigne chamou a con- 



(1) Lisboa antiga, cit., pág. 92. 

(2) Sainte Beuve, Causeries du lundi, vol. 4. , pág. 80, mihi. 



And radas 



26 5 



dessa de Albany(i). É verdade que é muito provável não ter a Miscelânea 
passado jamais pelas mimosas e aristocráticas mãos de nenhuma dama por- 
tuguesa; é mais do que provável, é quási certo, atenta a singular educação 
que se usa dar às meninas da nossa sociedade. Ensina-se-lhes francês, 
inglês, alemão, pelo menos o suficiente para nestas línguas chilrearem nas 
salas, mas português, mas história e literatura portuguesa, 1 quem é que 
quere saber disso (2)? Uma senhora inglesa pode ser bastante ignorante 
sobre o que se tem passado fora da sua ilha; mas envergonhar-se-ia se 
conhecesse mais do estranho, do que do caseiro. Cá entre nós uma senhora 
quási que cora se tiver de mostrar, que sabe mais do que ter sido Camões 
o autor dos Lusíadas, ou D. Afonso Henriques o vencedor da batalha de 
Ourique. Por isso ousadamente posso afirmar, salvas honrosíssimas excep- 
ções, que de Miguel de Montaigne ainda poderão algumas senhoras portu- 
guesas ter notícia pelo seu La Place, ou outra selecta, que esteja agora em 
moda; mas que de Miguel Leitão nem o nome provavelmente encontraram 
nos Logares selectos, quando, abafando bocejos, tiveram de os ler. 

Egoístas eram ambos os Miguéis, e tanto o francês como o português, 
estimando ambos o género humano, cada um se preferia a si próprio a toda 
a humanidade. 

Foram contemporâneos, mas não tiveram decerto conhecimento um do 
outro, ainda que o cavaleiro de Cristo sobreviveu quarenta anos ao de 
S. Miguel, que morreu em 1592, tendo nascido em 1 533, vinte anos antes 
de Miguel Leitão. E ainda que desde a primeira aparição dos Essais, que 
é de i58o, até ao ano de i632, em que o autor da. Miscelânea morreu se 
tivessem feito mais onze edições do livro francês, não creio que Miguel 
Leitão jamais o lêsse, mesmo até porque o não entenderia. 

Agora compare-se a sorte dos dois livros. Os Essais têm tido cente- 



(1) A princesa Aloísia de Stolberg, viúva do famoso pretendente Carlos Duarte (traduza 
à D. João I), e companheira amantíssima do não menos famoso conde Vítor Alfieri. 
(2; A êste respeito aqui vai um caso passado comigo. 

Haverá oito ou nove anos (em datas sou uma desgraça). O falecido Visconde de Alen- 
quer e eu interessávamo-nos por que na câmara dos pares fôsse aprovado um projecto de 
lei, autorizando um nosso parente, que viera de Paris com um curso completo qualquer de 
preparatórios, a matricular-se na Escola do Exército, ou na Escola Politécnica, já me não 
lembro. Levámos o projecto à mão dos diferentes membros da comissão de instrução pú- 
blica da câmara, os quais eram quási todos, ou todos, professores de escolas superiores. 
Com razão tratavam êles de inquirirem, antes de darem o seu voto, qual o desenvolvimento 
que no tal curso tinham as sciêncius matemáticas e naturais, ao que muito satisfatoriamente 
se podia responder; nenhum porém se lembrou de preguntar pelo português, e o projecto 
de lei passou, e o rapaz matriculou-se numa escola superior, sem ter um único exame da 
sua língua. 

vol. 11 34 



266 



Brasões 



nares de edições, estão traduzidos em várias línguas, e milhares de pessoas 
vivas de todas as raças cultas os têm lido, ou pelo menos deles têm conhe- 
cimento. A Miscelânea, coitadita ! teve a sua primeira edição cm 1629, e 
uma segunda em 1867, e haverá vivos duas dúzias de portugueses caturras 
que a tenham lido, e outras duas dúzias, -que a conheçam de nome. 

Bem dizia não sei quem, Teixeira de Vasconcelos ? que escrever em por- 
tuguês é pôr um anúncio no seu quintal. 

Outra dessemelhança entre os dois: Montaigne casou uma só vez depois 
dos trinta anos, e fez óptima vida durante vinte e oito anos com sua mulher, 
que lhe foi uma companheira dedicada. Ao passo que os casamentos de 
Miguel Leitão são uma miscelânea, como diz o desembargador, ou uma 
salada com tempêro trágico, como pretendem. 

Mas tu não foste um assassino, Miguel Leitão, ou, se mataste tua mulher, 
serias apenas um vingador da tua honra ultrajada, pondo em prática séculos 
antes o tue-la de Dumas filho. 

Tu, não estando inocente, não terias o arrojo de prometer no Limoeiro à 
tua Patrona uma grande festa no Pedrógão, se ela te pusesse solto e livre; 
tu, que a caminho para cumprires tua promessa, passaste, tão descuidado e 
alegre, em fins de Agosto de 1612, ali em baixo, por aquela estrada fora, 
tão entretido, conversando com o teu companheiro, que, aposto, nem deste fé 

da velha quinta da Aldeia, 

que já aqui estava no seu oiteiro, quási escondida pelos seus olivais; tu, que 
apesar da arrelia de veres desamarrar a barca de Sacavém sem ti, ias de 
tão bom humor, que até achaste menos má a detestável água da fonte da 
Talha; tu não trazias no peito os remorsos daquele grande atentado 

contra uma fraca dama delicada. 

Mas, 

que é isto ? — pensei eu — Que é isto ? é curiosíssimo ! 

; então não estava eu, o menos poeta dos homens, o metrificador de régua 
graduada, a encher de versos a minha rasteira prosa ! Ora pois ! Juízo e 

ponto final. 

VII 

Tem havido mais ramos de Andrades, todos pretendendo derivar-se do 
tronco principal, Freire de Andrada, ou aparentar-se com os do Conde de 



Andraclas 



267 



Villalva; porem são relativamente obscuros, e creio até, que extintos, ou 
pouco menos. 

Lembrarei os Andrades do morgado da Torre da Sanha de que foi último 
administrador João de Andrade Corvo, ministro de estado. Os Andrades 
de S. Vicente da Beira, e os de Monsanto, dos quais um ramo entrou na 
casa dos Geraldes da Idanha, hoje representados pelo Marquês da Graciosa; 
e outro ramo há a que pertenceu por linha feminina o ilustre lente de botâ- 
nica e par do reino, José Maria Grande. Foi êste prestante português tio 
avô do general José Maria Grande,, que no seu retiro da quinta das Asso- 
madas, junto a Portalegre, dedica os seus ócios a estudos históricos e genea- 
lógicos. 

A um dêstes Andrades de Monsanto, Fernão de Andrade Calvo, cavaleiro 
fidalgo, morador naquela vila, e filho de António Calvo e de Leonor de An- 
drade, foi passada carta de brasão em 26 de Abril de 1 586. Não foi o 
documento registado na Tôrre do Tombo, mas possui-o o seu descendente 
o general José Mana Grande a quem agradeço o favor de me ter dado uma 
cópia dele, bem como de outro que em seguida a èste referirei. 

Por esta carta de brasão, que foi registada a As. 12 do livro competente 
do cartório da nobreza em 20 de Novembro de 1617, consta que as armas 
dadas a Fernão de Andrade Calvo foram as seguintes: « Esquartelado: ao 
primeiro dos Calvos que trazé o campo esquartelado, ao primeiro de ver- 
melho e cinco fivelas de prata em aspa, c ao segundo de azul e cinco vieiras 
de prata em aspa, e assi os contrários, e sobretudo hú escudinho douro e 
nelle hú Hão pardo de sua côr, e ao segundo do primeiro dos Andrades que 
traze o cãpo de verde e húa banda de vermelho acuticada douro que a té na 
boca duas cabeças de serpes douro armadas de vermelho, e assi os contrá- 
rios. Elmo de prata aberto guernido douro, paquife de prata e vermelho, e 
prata e azul, e ouro e verde, e ouro e vermelho. E por Timbre dous pes- 
coços de serpes douro retorcidos hú cÕ o outroj, armados de vermelho, postos 
em fugida e por defereça húa moleta douro». 

A um irmão deste Fernão de Andrade Calvo, por nome Francisco Dias 
Calvo, outrosim morador em Monsanto, já lhe havia sido dado, por carta de 
3i de Janeiro de 1 583, brasão também das armas dos Calvos e Andrades, 
porém com uma flôr de liz de prata por diferença, e por timbre o dos 
Calvos, que é o leopardo do escudo. Desta carta de brasão não existe 
igualmente o registo na Tôrre do Tombo; a cópia, porém, a que me reporto, 
é de toda a confiança. 

Houve também uns Andrades, alcaides mores de Almeida, e lá mora- 
dores, aos quais Fr. Bernardo de Brito chama Freires Balieiros, e que faz 
descender do mestre D. Nuno Freire por um filho, que em mais parte nenhuma 



268 



Brasões 



se encontra nomeado. Basta-lhes a paternidade de Bernardo para eu os 
pôr muito de quarentena. Ainda assim direi que a um dêles, Cristóvão de 
Andrade, criado do Marquês de Vila Real e morador em Almeida, foi pas- 
sada uma carta de brasão em 11 de Junho de 1529, na qual se lhe deu por 
armas o escudo esquartejado de Andrades e Britos, com o timbre dos pri- 
meiros (1). Nesta linha houve mais criádos da casa de Vila Real, que pro- 
tegeria estes Andrades por serem ainda seus parentes pela marquesa D. Maria 
Freire. Essa protecção alega Fr. Bernardo de Brito para provar o paren- 
tesco, se é que ela não foi coincidência bem aproveitada, que nenhuns laços 
de sangue cimentariam. 

Na ilha da Madeira também se encontram uns Andrades descendentes de 
Fernão Dias, que era de plebeia origem, como se colhe do que dizem os 
documentos que vou aproveitar. 

«Dom Joham . . . fazemos saber que conheçemdo nos a bondade descricã 
e onesto uiuer de Joham fernamdez do arco, e asy auemdo Respeito aos 
muytos seruiços que a EIRey meu Sennor e padre que deus tem, e a nos 
com sua pcsoa, e homes tem feitos asy nas tomadas darzilla e tanger em 
africa como em outras partes . . . uos fazemos fidalguo de cota darmas, e a 
todollos que de uos descenderam e descenderem ... e uos apartamos, e 
tiramos do numero, c comto da jente popullar, e uos damos estas armas 
pintadas e asemtadas na presente carta em este escudo do qual escudo he ho 
campo douro, e nelle um sagitario .s. (scilicet) ametade que he home bramco, 
e a metade que he cauallo preto, e o arco de metades .s. a costa de prata e 
o de demtro delle uermelho com as empolgueiras negras, e a corda de prata, 
e a frecha verde, e bramqua, e o ferro preto as quaes foram hordenadas per 
alguarue dallem maar em africa nosso Rey darmas per nosso expreso man- 
dado . . . dada em uiana dapar daluito a xxviij dias de feuereiro. Ruy de pina 
a fez de mil iiij c lxxxv anos (2)». 

Por esta carta de brasão de 28 de Fevereiro de 1485 se vê que João Fer- 
nandes do Arco foi apartado e tirado do número e conto da gente popular. 
Ora o Fernão Dias, de quem vêm os Andrades da Madeira, era filho de 
Diogo Fernandes, e irmão do referido João Fernandes do Arco; assim o 
declara a sua carta de brasão. Como êles eram ricos teceram-lhes genealo- 
gias esclarecidas, quando a verdade é o que ficou dito no documento extrac- 
tado. 

Ao nomeado Fernão Dias foi-lhe passada a carta de brasão em 17 de 
Abril de i528, e nela, além de se lhe declararem os parentescos já indicados, 



(1) Chancelaria de D. João III, liv. 17. , fl. 139. 

(2) Liv. 2. de Místicos, fl. 120. 



Andradas 



269 



se diz ser êle morador na ilha da Madeira. As armas são alguma coisa dife- 
rentes das que haviam sido dadas ao tio, e por isso as descreverei: « o campo 
douro e nelle um sagitario, metade homem e metade cavallo (o homem de 
sua côr, o cavallo entre murzelo e castanho escuro) com o arco armado das 
mãos de vermelho, e a corda de prata e a frecha empenada de verde; e por 
differença o compaz (?) azul na primeira ponta. Elmo de prata cerrado, 
paquife douro e de verde e por timbre meio sagitario com seu arco» (1). 

Outros mais Andrades tem havido, e haverá, mas parece-me que já 
basta. 

APÊNDICE 

AUTOBIOGRAFIA DE D. AFONSO MANUEL DE MENESES (2) 

« D. João Manuel de Meneses (foi) filho quarto de D. Afonso de Meneses, 
um dos fidalgos que aclamaram a el Rei D. João IV de quem foi mestre 
sala, e de D. Joana Manuel de Magalhães (8. 0S senhores da Ponte da Barca). 
Serviu na guerra da Aclamação, onde foi capitão de infantaria, e teve pro- 
messa de um governo competente à sua qualidade. Teve o hábito de Cristo 
com uma tença de duzentos mil réis na alfândega da Figueira. Viveu em 
Ponte de Lima por razão de seu casamento. Foi muito moderado em dis- 
pêndios, de sorte que juntou muito dinheiro com a circunstância, de que, 
nem na sua pessoa, nem no trato de sua casa, havia miséria, nem coisa que 
fôsse para estranhar, conservando sempre muito respeito a sua pessoa, sem 
faltar às urbanidades das pessoas principais daquela terra. Comprou várias 
fazendas para o acrescentamento da casa, e entre elas a fazenda de Agra, 
junto ao rio Minho, que o povo reputa um condado. Instituiu por sua her- 
deira a misericórdia da vila da Ponte da Barca. Fez seu testamento em 3 
de Dezembro de 1701, depois o acrescentou; não lhe vejo abertura, nem assi- 
nado o acrescentamento, mas lançado já nas notas em 14 do mesmo mês de 
Dezembro, dito ano, a requerimento da viúva sua mulher. Faleceu em 7 de 
Setembro de 1701 (há por força engano nestas datas) na sua quinta de Ar- 
gemil, frèguesia de S. Emilião de Mariz, termo de Barcelos, arcebispado de 
Braga. 

Casou com D. Francisca Luísa de Mendoça, filha herdeira de Francisco 



( 1 ) Chancelaria de D. João III, liv. 1 1 .*, fl. 52. 

(2) Vide nota 3, pág. 253. Advertirei que me não prendi com a ortografia, nem com a 
pontuação, mas o mais vai tudo, e o itálico é meu. 



270 



Brasões 



Ferreira Furtado (senhor de casa em Barcelos e Mari\, e representante do 
grande Duarte Pacheco). Ela fez testamento e morreu na quinta de Cani- 
delo em 8 de Novembro de 1707. Teve (filhos): 

D. Francisco (Furtado de Mendoça, que foi senhor da casa). 

D. Joana Maria Manuel de Mendoça, que morreu moça. 

Teve (D. João Manuel de Meneses), antes de casar, trato, com enganos 
de casamento, com Maria da Silva, moça donzela, natural da freguesia de 
Avanca, bispado do Pôrto, filha de Matias da Silva e de sua mulher Domingas 
de Basto, da dita freguesia de Avanca. Dela teve a 

D. Afonso Manuel de Meneses que nasceu em 2 de Outubro de 1672; 
consta do livro dos baptizados da dita frèguesia de Avanca, fl. 70. Foi legi- 
timado por el Rei D. Pedro II em 26 de Janeiro de 1679. Foi dispensado 
para benefícios menores e para os maiores, excepto bispados, i5 calendas 
Março 1686, e calendas Agosto 1(592. Foi feito moço fidalgo, e depois de 
clérigo passou a fidalgo capelão em 29 de Março de 1707, cobrando sempre 
a vestiaria de fidalgo capelão. Teve o hábito de Cristo com cem mil réis 
de tença na alfândega do Pôrto. Foi armado cavaleiro em Nossa Senhora 
da Conceição de Lisboa pelo Marquês de Cascais, D. Luís António de Castro, 
com assistência de todos seus filhos, e os de D. Lourenço de Lancastre; e 
tomou o hábito no convento de Tomar em 1 de Setembro de i685, de que 
fez profissão em Coimbra, por especial alvará, nas mãos de Fr. Martinho 
Pereira, lente que era de véspera de teologia e D. Prior de Tomar, no seu 
colégio de Coimbra em 16 de Novembro de 1698. 

Foi doutor por exame privado na faculdade dos sagrados Cânones; fez 
conclusões pequenas em 23 de Fevereiro de, 1692, em toda a postila das 
substituições do Dr. Manuel da Costa de Almeida, lente de véspera de 
Cânones e deputado do Santo Oficio, e depois desembargador do paço. Fez 
o acto de bacharel em 1 de Abril de 1693; o de formatura em 4 de Março 
de 1Õ94; o de suficiência em 3 de Julho de 1694; o de conclusões magnas 
em 17 de Julho de 1694, em toda a postila de electione, composta por Pedro 
Ribeiro do Lago, que fôra lente de prima de Cânones; e exame privado em 
21 de Julho de 1694. Em todos os quais actos foi o luzimento tão grande, 
como podia ser o desejo. 

As informações foram de muito bom estudante, que são as maiores. Na 
ocasião de fazer as informações quis Diogo de Andrade Leitão, lente de vés- 
pera de Leis e depois conselheiro da fazenda, singularizar, com algum penacho 
a António Teles da Silva, que depois foi (lente) condutário, e era filho do 
i.° Marquês de Alegrete, Manuel Teles da Silva, grande valido. E tinha 
razão para o exaltar, porque foi um dos maiores talentos do seu tempo, e o' 
que fez os dísticos, que hoje se acham nas obras novas da Universidade; 



Andradas 



271 



mas os mais votos lhe estranharam muito aquele obséquio, que, como cor- 
tesão, queria fazer, porque era em prejuízo de D. Afonso, dizendo-lhe, que 
tudo o que ele quisesse acrescentar em abono de António Teles, haviam eles 
de escrever em favor de D. Afonso. E neste último ano de Coimbra foi 
D. Afonso deputado do reitor, e foi o deputado eleito no claustro para a 
eleição, que fez o reitor Rui de Moura Teles, depois arcebispo de Braga, na 
pessoa de Nuno da Silva Teles, irmão do dito António Teles. 

Foi D. Afonso beneficiado na colegiada de Freixo de Espada-Cinta, bene- 
ficio que lhe deu seu tio D. José de Meneses em 16 de Abril de 1695, de 
que tomou posse em 26 do dito mês e ano. Foi arcediago de Braga, e o 
caso é digno de saber-se. 

Na procissão do Corpo de Deus ia D. Afonso, e junto ia o padre João 
Araújo, secretário do dito seu tio D. José. Apareceu à sua janela, para 
adorar a Nosso Senhor, o arcediago de Braga, José de Magalhães Machado, 
velho e achacado, que, havia dois anos, havia renunciado em Pedro de 
Távora, sem acabar de se concluir nas bulas. Disse o dito secretário para 
D. Afonso: 

— Faça V. S. a que aquele arcediago morra em quinze dias, que eu lhe 
prometo, que vá com a sua murça nesta procissão no ano que vem, sem 
embargo da sua renúncia. 

D. Afonso respondeu a esta ridicularia, dizendo, que, se assim havia de 
ser, lhe dava licença, que matasse também algum cónego, para que fossem 
então companheiros, como ali o iam sendo. 

Aó que disse o secretário, que êle se contentava com uma tercenaria, 
porque, tendo-a, estava muito próximo a ser abade na sua terra, por per- 
tencer aos tercenários. 

Foi esta prática em 2 de Junho de 1696, em que caiu o dia de Corpo de 
Deus. Morre o arcediago em 7 do dito mês e ano, e foi D. Afonso provido 
em 19 de Setembro de 1695, e tomou posse em 28 do dito mês e ano. 
Poucos dias depois do arcediago morre um tercenário, saiu logo provido o 
dito secretário, e em menos de dois anos feito abade na sua terra, e se veri- 
ficou tudo o que zombando havia dito. 

Teve D. Afonso uma pensão de sessenta mil réis no bispado de Lamego, 
porque da mesma lotação vagou então uma em favor da mitra, e seu tio 
D. José (de Meneses), sendo bispo (de Lamego) pediu a el Rei que a desse 
a D. Afonso, por que logo entrasse a cobrar, e que renunciava a pedir outra 
maior segundo a sua qualidade. Assim veio a bula para os sessenta mil 
réis, que seu tio aceitou em i5 de Julho de 1687, e para êste efeito lhe havia 
o dito seu tio dado em Lamego as ordens menores em 8 de Março de 1686. 
Para tomar as de epístola foi de Braga a Lamego, onde em 24 de Setembro 



272 



Brasões 



de 1 69D lhas deu o bispo D. António de Vasconcelos, que depois o foi de 
Coimbra; e indo D. Afonso de jornada apear-se à porta do dito bispo D. An- 
tónio, êle o não deixou sair para outra parte, e o teve por seu hóspede, tra- 
tando-o em aqueles (dias) com a magnificência que era do seu génio. 

Tomou as de evangelho e missa em Coimbra da mão do bispo conde 
D. João de Melo nos dias 2 e 25 de Março de 1697. 

Foi D. Afonso deputado e promotor do Santo Ofício de Coimbra, pro- 
vido pelo inquisidor geral D. Fr. José de Lancastre, bispo que havia sido de 
Leiria, por aviso do secretário do conselho de 22 de Dezembro de 1696, 
antes de cujo aviso lhe chegou, o que lhe fez o mesmo inquisidor geral desta 
forma : 

«Tenho assignado as provisões de promotor e deputado para v. m. cê 
servir na inquisição de Coimbra, e por não constar da parte certa onde o 
acharia a v. m." este aviso, lho não tem dado o secretário do conselho, 
como fará com a noticia que v. m." me dá nesta sua carta, que recebo neste 
correio; e como v. m. c: ' tiver concluída a ocupação que o detém nessa cidade, 
se poderá dispor a vir continuar com a de Coimbra, em que espero faça 
grandes serviços a Deus, e me augmente a satisfação com que estou deste 
despacho, que será meio para v. m." lograr os maiores. Deus lhos conceda 
com muitas felicidades e guarde muitos anos. Lisboa e de novembro 17 
de 1690. O bispo inquisidor geral». 

Em 19 de Dezembro de 1695 foi à mesa de Coimbra o aviso para dar 

posse a D. Afonso, que tomou e deu juramento em (1); e depois 

começou a servir em Lisboa em (2). 

Foi D. Afonso beneficiado na igreja do Salvador de Rèsende, bispado 
de Lamego, por apresentação do abade Manuel Rodrigues Espinosa, o qual 
escreveu a D. Francisca Josefa de Vilhena, mulher do almirante D. Fran- 
cisco de Castro, dizendo que queria dar aquele benefício a quem sua senhoria 
quisesse. Ela lhe pediu que remetesse a apresentação em D. Afonso, o 
que o abade fez em 8 de Abril de 1704; e a dita D. Francisca lha remeteu 
a D. Afonso, que tomou posse em . . . 

Foi D. Afonso reitor do seminário de Braga, nomeado por seu tio 
D. José (de Meneses, que de bispo de Lamego passara a arcebispo de Braga), 



(1) Segundo o P. Fr. Pedro Monteiro tomou posse de promotor em 3 de Novembro de 
1696, e de deputado em 3o de Janeiro de 1697. Noticia geral das inquisições, no 3.° vol. 
dos Documentos da Academia, pág. 5 1 1 e 504. 

(2) "Segundo o mesmo foi em 6 de Dezembro de 1704. (Ibidem, pág. 594. 



Andradas 



273 



cujo provimento lhe fez com o fundamento de que outros arcebispos fizeram 
o mesmo provimento em sobrinhos seus. 

Foi D. Afonso nomeado por el Rei D. Pedro II em desembargador do 
Porto, e mandou el Rei ao secretário de estado José de Faria lhe fizesse o 
aviso pela secretaria de estado, sem embargo de ser uso naqueles provi- 
mentos fazer-se pelo desembargo do paço. Isto por atenção à pessoa de 
D. Afonso, que não fez exame vago, porque neste tempo tinha já cinco anos 
de serviço do santo ofício, privilégio que até ali não estava tão claro, como 
ficou com o exemplo de D. Afonso. 

Tomou posse do lugar do Porto em 29 de Agosto de i/o3, de que passou 
para a casa da suplicação, e tomou posse em 27 de Novembro de 1704, 
onde com muito poucas interrupções servia de agravos, e em alguns feitos 
particulares serviu de juiz da coroa, e ultimamente foi provido em o lugar 
de agravos de propriedade, de que tomou posse em 5 de Julho de 1710. 

Criou-se D. Afonso em poder de sua mãe até à idade de três anos, em 
que seu pai, que então se achava já casado, o trouxe para casa, onde em 
espaço de dois anos teve três vezes bexigas, em cujas curas sua madrasta 
fazia o ofício de mãe. Sendo de cinco para seis anos o trouxe seu pai para 
casa de D. José de Meneses (depois arcebispo de Braga), onde este seu tio 
lhe assinou logo por mestre o seu secretário Luís Baptista de Sequeira, na- 
tural de Torres Novas, familiar do santo ofício, que depois, sendo D. José 
bispo de Lamego, casou com Leonor do Couto Caldeira, natural da vila de 
Espadanedo, em Cima de Douro. O qual (mestre) lhe ensinou tudo o de 
que se necessita até ler e escrever, e com estas doutrinas é que saiu 
D. Afonso de Guimarães com seu tio (o D. Prior) D. José para o Algarve 
(para onde estava nomeado bispo), que também levou para seu pupilo a 
D. João de Lancastre, filho de D. Lourenço de Lancastre e de D. Isabel de 
Meneses. Ambos êstes D. Afonso e D. João começaram a estudar latim no 
colégio da Companhia de Faro, tendo também em casa mestre, o padre 
Domingos Gonçalves Foreiro, que era o esmoler, e em Lamego lhe deu 
D. José a abadia de Vilarouco. Estando D. Afonso já capaz de ir para 
Coimbra se lhe dilatou êste princípio de estudos, assim porque seu compa- 
nheiro D. João se não adiantava, como porque por êsse tempo se começou 
a alterar a habitação do Algarve com a mudança de D. José para bispo de 
Lamego, de donde começou os estudos de Coimbra com seu companheiro 
D. João, que foi para o Colégio de S. Paulo e ambos foram por D. José 
seu tio recomendados ao dr. Manuel da Costa de Almeida, lente de véspera 
de Cânones. 

Pelos anos em que D. Afonso fez o acto de bacharel, se achava o colégio 
de S. Paulo ardendo em parcialidades, peores que as de guelfos e gibelinos. 
vol. 11 35 



274 



Brasões 



Eram parcialidade do Minho: António Teixeira Álvares, depois desembar- 
gador do paço, João Rodrigues Pinto, António Lopes de Carvalho, depois 
desembargador de agravos, Alexandre Ferreira, depois deputado da mesa 
da consciência e secretário do embaixador Marquês de Abrantes em Madrid. 
E parcialidade de Lisboa: Lourenço Brandão, Manuel da Cunha Sardinha, 
depois procurador e conselheiro da fazenda, Pedro Sanches Farinha, depois 
reitor da Universidade. Querendo a parcialidade do Minho dar a beca a 
D. Afonso, Pedro Sanches soube vencer ao dito António Lopes de Carvalho 
em modo que se ficou: dando a beca a . . . Salema, cunhado dos desembar- 
gadores Mousinhos (i), que então se achavam com grande poder. Enfadado 
seu tio D. José (de Meneses, que havia sido reitor da Universidade) desta 
acção, pela parte em que aquele colégio lhe era obrigado, recorreu a Mar- 
celiano Coelho, colegial de S. Pedro, que desejava muito a ocasião de dar 
gôsto a D. José, e para isto bastava que fosse obra contra o outro colégio. 
Também isto se frustou, porque nêsse tempo se achava empenhado o secre- 
tário Mendo de Foios por um seu parente, Francisco Guedes, e nestas duas 
acções saiu D. Afonso preferido por dois, que ambos não valiam um. 

Depois de acabadas estas dependências e pretensões da Universidade de 
Coimbra, é que D. Afonso foi provido do arcediagado de Braga e não sem 
cuidado, porque para o haver de conseguir, se despachou, logo que morreu 
seu antecessor, um postilhão para Roma a Madrid (sic) por parte de 
D. Afonso, ou para melhor dizer, de seu tio D. José, e outro por parte de 
Pedro de Távora, em cujo favor havia anos se tinha feito a renúncia. E o 
vencimento esteve em o procurador de Pedro de Távora almoçar, e o de 
D. Afonso, que era o Marques Peres Vergueiro, logo que recebeu a carta 
do correio foi à dataria por um nih.il transeat, e o procurador de Pedro de 
Távora mandou lhe dessem de almoçar depressa, que tinha um negócio. 
Nesta dilação se perdeu êle, e adiantou o outro, de sorte que, tendo o pro- 
curador de Pedro de Távora metido já na componenda o dinheiro das bulas, 
se lhe restituiu e anulou a graça, o que fez grande admiração em Roma, e 
deu causa a um novo decreto sôbre semelhantes contendas. 

Pouco tempo depois de resolvidas estas dúvidas morreu seu tio D. José, 
e lhe foi nomeado sucessor D. João de Sousa, bispo então do Porto, irmão 
do conde de Redondo, Fernão de Sousa. O cabido de Braga o mandou 
cumprimentar por D. Afonso, e pelo tesoureiro mor Feliciano de Moura. 



(i) Era António Salema Cabral, irmão de D. Josefa Leocádia Coutinho, e de D. Ana 
Luísa Coutinho; a primeira casada com o desembargador do paço Gaspar Mousinho de 
Albuquerque, e a segunda casada com o irmão deste, o desembargador de agravos Francisco 
Mousinho de Albuquerque. 



Andradas 



275 



yeiu D. Afonso a Lisboa com esta incumbência, alojou-se no quarto do con- 
vento de S. Bento da Saúde, ou dos Negros, como vulgarmente se diz, e 
feita a função a que era mandado, pôs em prática dois projectos que tivera 
seu tio D. José: primeiro, de enviatura para Roma; segundo, o santo ofício. 

Soube disto D. Fr. António Botado, irmão do secretário de estado Mendo 
de Foios Pereira, que o arcebispo seu tio havia feito seu bispo de anel, e 
foi feito com o título de Hiponia, cujas bulas lhe chegaram já morto D. José. 
E com o título de amisade e de obrigação à memória do arcebispo D. José, 
e ainda ao mesmo D. Afonso sobre resolução do cabido nesta matéria, e 
com todas estas circunstâncias, disse a D. Afonso, que, quanto ao santo 
ofício falasse com o inquisidor geral, e quanto a Roma deixasse isso por 
sua conta; e que de nenhum modo falasse com o marquês de Marialva 
D. Pedro de Meneses, que havia razão para isso; e que se recolhesse logo 
a Braga, porque não sucedesse que o inquisidor geral, vendo-o em Lisboa 
ocioso, não desconfiasse ser desejo de corte, porque isso no seu génio faria 
uma grande impressão. Assim o fez D. Afonso, porque não tinha coisa 
alguma por tão sincera como a palavra do dito bispo de Hiponia. 

Passado algum tempo se resolveu a escrever na pretensão ao marquês 
D. Pedro de Meneses, que lhe respondeu arguindo-o de lhe não ter falado 
nesta matéria, em que já o não podia servir, porque o bispo de Hiponia 
lhe tinha pedido com grandes instâncias o mesmo para si ! 

Veio D. Afonso para o santo ofício de Coimbra, e se lhe assinou a casa 
que fica dentro do Pátio da Inquisição á mão direita, sendo presidente da 
mesa João Duarte Ribeiro, colegial que fora de S. Pedro, natural de Lisboa, 
e filho de um volanteiro, que depois foi do conselho geral, e comissário da 
cruzada, e eleito bispo de Portalegre, que não aceitou. Era a sua condição 
soberba, vingativa e desejosa de que tudo lhe rendesse respeito; e todas 
estas coisas fazia com um título de santidade e de amisade. D. Afonso se 
nao sentia de humor aditício; os criados de umas e outras casas, que todas 
estavam debaixo da mesma chave, não se acomodavam àquela união; e 
daqui resultou desgostar-se D. Afonso em modo, que pôs o fito na vida do 
serviço de el Rei, que teve, conservando o santo ofício. 

Neste serviço de el Rei foram maiores as tormentas, porque sobre uma 
demanda que D. Afonso teve por razão de uma quinta, que diz ter em Bem- 
fica junto de Lisboa, se embaraçou esta pretensão com o empenho e favor 
do secretário de estado Diogo de Mendoça Corte Real. D. Afonso se quei- 
xava dele, e êle se queixava de D. Afonso, em modo que el Rei D. João V 
mandou em 17 de Outubro de 1710, que dentro em três dias saísse de 
Lisboa por espaço de dois meses, em distância de vinte léguas, e foi 
D. Afonso para a vila de Abrantes. 



276 Brasões 

Cuidava D. Afonso, que com aquela demonstração estava satisfeito o 
melindre daquele secretário, porém restituído D. Afonso a Lisboa, se foi 
continuando no poder e na raiva, em modo que em 7 de Março de 17 16 se 
fez um decreto, que dizia: «Por justas e graves razoes que me foram pre- 
sentes, e de que estou plenamente informado que tocam ao serviço de Deus 
e meu, sou servido escusar ao desembargador D. Afonso Manuel de Meneses, 
desembargador dos agravos. O chanceler da casa da suplicação, que serve 
de regedor, o tenha assim entendido para o não admitir mais na relação. 
Lisboa, 7 de Março de 1716». 

Foi este decreto à relação na terça feira seguinte com todo o segredo, 
para que presencialmente se intimasse a D. Afonso, que muito por acaso 
não foi nesse dia à relação; e o secretário Bartolomeu de Sousa Mexia, que 
o era das mercês, fazendo-lhe escrúpulo aquele vicioso despacho, escreveu 
a D. Afonso na mesma terça feira pela manhã, dando-lhe em nome de el Rei 
conta da resolução. A esta notícia, que nem foi imaginada, nem o podia 
ser, porque não havia para isso fundamento, sucedeu, passados poucos dias, 
escrever o secretário do conselho geral do santo ofício uma carta a D. Afonso, 
em que lhe dizia, tinha que comunicar com êle um negócio de importância. 
D. Afonso, que já sabia, o que pelas casas de conversação se dizia, que 
também o santo ofício entendia com êle, respondeu ao secretário, que, se o 
negócio era como ministro, mandasse buscar o regimento, porque êle não 
queria ser já ministro do santo ofício, e ainda que na carta não diz a razão, 
esta era porque o inquisidor geral, que então era o em." 10 cardial da Cunha, 
era também grande valido. E D. Afonso se desgostou muito, de que destas 
uniões de validos resultasse saber-se nas casas de conversação, quais eram 
os desígnios do santo ofício. 

Depois de chegarem estas notícias ao cardial, mandou êste certificar a 
D. Afonso, que o seu intento não era o que D. Afonso supôs, que era 
somente cuidar em arbítrio, para que emquanto durasse em el Rei a sanha 
com que se achava, se abstivesse D. Afonso com algum pretexto de ir ao 
santo ofício, e que de alguma sombra desta imaginação resultou viciar-se 
nas casas de conversação, o que se dizia. 

Atormentado D. Afonso com um decreto tão impensado, começou a cuidar 
na fonte de que êle emanou; e assentou consigo não tomar resolução apres- 
sada, porque depois se não arrependesse. Soube que todo o mundo cen- 
surou aquele procedimento; soube que tudo foi feito pelo poder e pelo ódio 
de Diogo de Mendonça, e com isto se sossegou D. Afonso para muitas con- 
sequências daquela acção. 

A pedra fundamental dêste projecto Mendoçal foi introduzir no coração 
de el Rei, que D. Afonso olhava para pessoa do agrado de el Rei, o que foi 



1 



Andradas 



277 



tão bem sugerido, que a vida de D. Afonso andou algum tempo arriscada, e 
a livrou Deus por conta da inocência em que se achava. Assim o disse 
a D. Afonso o marquês de Gouveia D. Martinho Mascarenhas. 

Feita esta diligência, se fizeram a el Rei umas petições; e para Diogo de 
Mendonça se mostrar desinteressado dizia a el Rei, que êle não podia crer 
tal de D. Afonso; mas que S. M. sempre devia informar-se para castigar a 
quem tinha o atrevimento de acusar um tão bom ministro; e que para essas 
informações era pessoa sem suspeita o padre Francisco Pedroso da congre- 
gação do Oratório, que era um padre muito grande moralista, mas muito 
grande hipócrita, e maior asno. 

Postas estas coisas no tal Francisco Pedroso, lhe disse Diogo de Men- 
donça: 

— Eu tenho pena de ver caluniado D. Afonso, mas é coisa dura que êle 
faça esta e aquela insolência, e v. rev. ma não poderá achar a verdade disto 
senão em José Lobato, cura de Bemfica, homem de grande inteireza e conhe- 
cimento dêstes particulares. 

DispÕe-se logo Francisco Pedroso a fazer a diligência com o dito cura, 
que era o que criava em casa das suas comadres os filhos de Diogo de Men- 
donça, e o seu maior valido. Para êste efeito fingiu o padre Pedroso vir 
fazer uma missão a Bemfica, onde depois de prègar a doutrina sã (ad instar 
do mestre queimado António Homem Leitão) se punha à noite em casa do 
cura em modo de tribunal, em que Francisco Pedroso inquiria, e o padre 
Manuel Rodrigues, seu companheiro, é o que escrevia. As testemunhas 
eram uns homens rebuçados mandados pelo cura, que lá davam os nomes, 
que lhes parecia, e sabe Deus quem êles eram. E se sabe que se meteu 
êste arbítrio em cabeça a Francisco Pedroso, porque, se assim não fôsse, 
ninguém se arriscaria a ir jurar com medo de D. Afonso, que para êste 
efeito supuzeram ser um leão. E o que se entende que saiu dêstes dois 
menígrepos, e de tanta cautela em segredo, e desta missão fingida, foi o 
dizer-se que D. Afonso falava com uma mulher, que direitamente é esperar-se, 
que parisse um monte, e que nascesse um rato muito pequenino. 

Nêste mesmo tempo se encomendou outra devassa a Manuel Lopes de 
Barros, corregedor do crime da corte, filho de um sapateiro de Santarém, 
porque, querendo fazer fortuna, se ofereceu a Diogo de Mendonça. Este (o 
Barros) fez perguntas pela demanda, e algumas pessoas inquiriu muito por 
um bem extravagante artigo de ter D. Afonso mandado a uma pessoa em 
segredo para Castela. Satisfez Manuel Lopes de Barros a sua comissão, e 
o fizeram logo desembargador do paço, que logrou muito pouco tempo, 
levando para o outro mundo a nova de sua filha se namorar de um castelhano, 
estando esposada com um homem de Setúbal. 



278 



Brasões 



Emquanto Manuel Lopes de Barros fazia à custa de D. Afonso este mere- 
cimento para o que desejava, não cessava o P. e Francisco Pedroso, porque 
consta que em um dia foram à igreja do Espírito Santo buscá-lo quatro 
mulheres, que todas se confessaram côm êle, e a matéria da confissão era 
D. Afonso; o que se soube por Manuel Martins Toscano, a quem Francisco 
Pedroso tinha no Espírito Santo homisiado, e teve ocasião de ver no seu 
bufete os apontamentos que fez Francisco Pedroso. Não quis contudo o 
Toscano declarar os artigos. 

Desta emboscada saiu primeiramente o dito decreto de 7, ou como quei- 
ramos dizer, de 10 de Março de 1716, por que se dizia convinha ao serviço 
de Deus e de el Rei, que D. Afonso não fôsse ministro. E disse Bartolomeu 
de Sousa Mexia, secretário das mercês, que êle não fizera aquele decreto, 
mas o mandara trasladar do que por letra própria escrevera Francisco Pe- 
droso. A causa de sair primeiro êste decreto foi porque se entendeu, que 
D. Afonso se retirasse logo a Braga, e ficasse cá o campo mais desembara- 
çado para execução dos desejos. 

Feita esta façanha saiu em . . . outro decreto, pelo qual mandou el Rei 
anular as sentenças que D. Afonso tinha alcançado (na demanda sôbre a 
quinta em Bemfica atrás referida), e que de novo se julgasse tudo e se exe- 
cutasse dentro de seis meses, e que para relator nomeara a Manuel Lopes 
de Barros, e adjuntos Belchior do Rego de Andrade, depois procurador da 
fazenda, e Luís da Costa de Faria. 

Sai logo Manuel Lopes de Barros com um despacho, que dentro em 
quinze dias dissesse cada uma das partes, tudo o que tivesse para dizer. 
Satisfaz D. Afonso, e com grande trabalho, porque tinha os seus livros em 
Bemfica em um monte, enquanto se não faziam as estantes. Faz-se o feito 
concluso, e, o que os letrados acharam para admirar, é que o relator, no 
dia em que se votou, levou para fundamento do seu voto uns tais autos, que 
o cura de Bemfica tinha feito fabricar em outra cabeça, de cujos autos se 
não deu cópia a D. Afonso. Finalmente vota o dito Barros, como queria 
Diogo de Mendonça, porém os adjuntos votaram o contrário, e concluíram 
em que tudo estava bem sentenciado no artigo em que se arguia nova simu- 
lação; e só emendaram a sentença em uns artigos de liquidação. 

E por que todo o mundo acabe de entender o que são coisas de validos 
e poderosos, emquanto se supôs que a sentença havia de ser contra D. Afonso, 
se coarta o tempo de seis meses; como se viu o contrário, ainda duram os 
seis meses neste ano de 1736 em que escrevo isto. 

Primeiro que se julgasse de novo a causa, andaram os autos por várias 
casas'particulares a rever. Se era voto que servia, ficava valendo; se não 
servia, era nulo. Consta que fizeram papel de revedores dos autos vários 



 



Andradas 



279 



frades menígrepos, dos quais morreu Francisco Pedroso e o dito Manuel 
Rodrigues de um achaque apressado. Francisco Barreto, do conselho geral 
do santo ofício, que morreu sem querer tomar o Senhor por viático, senão 
depois de grandes instâncias. D. Francisco de Sousa, comissário da cruzada, 
que morreu no dia em que se levantou de uma doença já como são. Fran- 
cisco de Almeida e Brito, desembargador dos agravos, que morreu com uma 
manceba em casa. João Duarte Ribeiro, comissário da cruzada, que morreu 
também extravagantemente ... do Rego, que era o criado de el Rei, que 
tinha à sua conta a guarda da pessoa com quem primeiro foi criminado 
D. Afonso por sua via, morreu de uma extravagante moléstia com uma infi- 
nidade de dores. 

Paulo de Carvalho de Ataíde, arcipreste da patriarcal, diz que lhe foram 
estes autos uma vez, e devendo ir segunda, não foram, porque acharam que 
não votava pelo que queria Diogo de Mendonça. E, sendo chamados por 
Diogo de Mendonça à secretaria, Lopo Tavares de Araújo e Paulo de Car- 
valho de Ataíde, para que dissessem a razão que tiveram para proferir sen- 
tença por D. Afonso, deu Paulo de Carvalho as razões, porém Lopo Tavares 
respondeu, que, quando julgava uma causa no seu bufete, não cuidava de 
dar razão dela senão a Deus, e que, acabada de sentenciar, se esquecia da 
razão que havia de dar aos homens. 

No meio tempo desta infelicidade de D. Afonso se conheceu em el Rei 
grande desagrado do que tinha resolvido contra D. Afonso, e a cuja 
resolução se opunha sempre Diògo de Mendonça, ora com diligências que 
dizia eram para isso necessárias, ora com outras dúvidas, que êle sabia 
excelentemente excitar, para que nunca se chegasse a conclusão. Nisto 
era Diogo de Mendonça tão destro, que como prolóquio se dizia: Des- 
pacha-se o que Diogo de Mendonça quer, e se êle não quer nunca se des- 
pacha. 

Muitas vezes gabou el Rei as letras de D. Afonso, e em uma com espe- 
cialidade, porque fazendo o mesmo D. Afonso um requerimento em matéria 
diversa, mas com alegações de direito, e indo D. Afonso falar a el Rei, lhe 
respondeu el Rei: 

— Já despachei êsse requerimento; o papel está muito douto, muito fino, 
folguei muito de o ver, e li tudo. 

Cujas palavras foram acompanhadas de tais acções, que os circunstantes 
perceberam delas, quanto nas palavras se podia encerrar. 

Ainda no tempo de estar D. Afonso fora da graça de el Rei, indo ver ao 
sr. infante D. Manuel, quando veio de Alemanha, o recebeu êste infante, 
dizendo-lhe: 

— Aqui vem um fidalgo que foi sempre da minha maior estimação. 



28o 



Brasões 



Por estes tempos sucedeu morrer Diogo de Mendonça repentinamente» 
em 9 de Maio de 1736 das sete para as oito horas da manhã. 

Soube-o logo D. Afonso a tempo, que estava resando por umas contas, 
e lhas aplicou logo, e voltando-se para uma imagem de Nossa Senhora, lhe 
disse: 

— Vós, Senhora, sabeis que eu não havia de perdoar a Diogo de Men- 
donça, emquanto êle me pudesse restituir, agora que êle não pode, eu lhe 
perdoo a êle, e por êle ofereço já de aqui a missa de amanhã. 

Com efeito lha foi dizer de corpo presente no dia seguinte na igreja de 
Bemfica, e depois lhe rezou um responso, e assistiu a todo o ofício até o 
enterrarem; e o que nesta parte fez por piedade, achou depois por toda a 
corte aceito como generosidade. 

Vindo o sr. infante D. Manuel de Belas, em 7 de Setembro de 1736, 
para o paço por causa de que fazia anos a rainha D. Maria Ana de Áustria, 
deixou um recado a D. Afonso, que o esperava hoje e já no convento da 
Convalescença, onde havia de ouvir missa. Foi logo D. Afonso, e acabada 
a missa lhe disse o dito senhor, que o chamara para jantar com êle. Res- 
pondeu-lhe D. Afonso, que faria o que S. A. mandasse, sem embargo de ter 
já jantado, e que êste era o caso, em que habent saepe repetita leporem. 

Caminhando para o refeitório mandou o dito senhor tomar assentos na 
forma seguinte. Ao guardião a sua mão direita, a um frade velho a esquerda, 
D. Afonso ao pé do guardião, o camarista, que era Rodrigo de Figueiredo, 
ao pé do frade velho, a D. Rodrigo de Lancastre, que o ia acompanhando, 
ao pé de D. Afonso, tudo na mesa travessa; aos moços da guarda-roupa na 
mesa da parte esquerda, a que se seguia a comunidade, e nada da banda 
direita. 

Houve várias saúdes, o dito senhor fez a primeira a D. Afonso, e dizendo 
em abono de D. Afonso muita coisa, basta referir esta: se seria possível 
haver pessoa, a quem não fôsse D. Afonso de grande estimação. 

Depois no paço disse D. Afonso ao dito senhor: 

— V. A. me fez jantar segunda vez, e lá vai o jejum, de que me não 
lembrei com a vaidade do seu favor. 
Ao que êle respondeu in promptu: 
— Beata oblivio». 

Com êste latim acaba a autobiografia de D. Afonso Manuel de Meneses. 
Em seguida porei a apreciação, que de sua pessoa e escritos fez um seu con- 
temporâneo, D. António Caetano de Sousa. 

« A viveza natural, a que a natureza ajuntou hum engenho sublime com 
continuada applicação ao estudo da jurisprudência, o distinguirão na sua pro- 



Andradas 



281 



fissão, e fará celebre o seu nome, se sair á luz para beneficio da Republica 
das letras a sua vasta Obra, que tem quasi acabada, com o titulo Commen- 
taria ad Ordinationem Lusitanam, que divide em cinco tomos, Obra em 
que brilham igualmente os ápices da Jurisprudência, que os primores da 
erudição, a qual nos fez mercê de mostrar, e vimos com grande gosto; delia 
já faz menção o Abbade de Sever na Bibliotheca Lusitana, que se imprimio 
em 1741. Não só a profissão lhe levou o cuidado, porque com muito se 
applicou á Historia, e á Genealogia, como dissémos no Apparato desta 
Obra ». 

Pouco mais poderei acrescentar. Debalde procurei nas Gavetas de Lisboa 
a notícia da morte de D. Afonso; mas dos seus escritos posso conjecturar 
sucederia ela em 1746 ou 1747. 

No seu nobiliário ainda pôs a nova, que do baptismo de seu sobrinho 
neto D. António José de Meneses deu a Gaveta de 16 de Novembro de 1745. 
Depois disso não escreveu mais nada, e pela Ga\eta de 1748 se sabe, que a 
25 de Janeiro daquele ano, se baptisou uma sua sobrinha, irmã do referido 
D. António. 

Este silêncio em homem de mais de setenta e três anos, e o trémulo da 
letra da última notícia, são sintomas assustadores. 



VOL. U 



36 



XVI 
ALMEIDAS 



XVI 




Brasões da Sala de Sintra, Vol. H. 



De vermelho seis besantes de oiro entre uma dobre cruz e bordadura do 
mesmo. Timbre: águia de vermelho, armada e membrada de oiro, e carre- 
gada dos seis besantes do escudo sôbre o peito. 

A respeito do escudo são todos concordes; agora, quanto ao timbre, é 
que a variedade é grande. No Livro da Torre do Tombo, fl. n, e em 
carta de brasão de 1 536 (i) é a águia de negro e besantada de oiro. No 
Thesouro da nobreza de Fr. Manuel de Santo António, A-28, é igualmente 
a águia negra, mas só tem nove besantes, três no peito e três em cada asa. 
Em cartas de brasão de i532, 1 533 e i538(2); na Monarchia lusitana, 
parte III, liv. n.°, cap. 2(3); na Benedictina lusitana, parte II, pág. 464; e 
nos Blasones de Portugal, do P. Purificação, fl. 44, declara ser a águia de 
vermelho e besantada de oiro. Em carta de brasão de 1342(4) é a águia 
como a precedente, com a única diferença de ser armada e membrada de 
oiro. A águia de vermelho carregada somente de seis besantes sôbre o 
peito aparece no Thesouro da nobreça de Francisco Coelho, fl. 38. 

Pela razão alegada no artigo dos Pereiras (5) deve-se preferir a descrição 
do Livro da Torre do Tombo. 



(1) Chancelaria de D. João III, liv. 23.°, fl. 69 v. 

(2) Ibidem, liv. 18. , fl. 1 16; liv. 45. , fl. 12 v.; liv. 46. , fl. 72 v.; e liv. 44. , fl. 46. 

(3) No lugar citado no texto, descrevendo o erudito Fr. António Brandão as armas dos 
Almeidas, diz serem em « campo vermelho tres besantes de ouro, etc. »; emenda porém este 
êrro na tabela das erratas que antepôs à obra. Noto o erro e a emenda, porque é curioso 
que, por não terem reparado nesta, incorreram naquele autor da Nobiliarchia portuguesa, 
António de Vilasboas e Sampaio, o do Divertimento erudito, Fr. João Pacheco, e o da Poli- 
tica moral e civil, Damião António de Lemos Faria e Castro. O êrro dos três besantes 
existe na edição de i632, a primeira daquela parte da Monarchia; não verifiquei se se repete 
nas seguintes reimpressões. 

(4) Chancelaria de D. João III, liv. 32.°, fl. 71. 

(5) Brasões, I, pág. 299. 



286 



Brasões 



I 

OS AMORES DE D. LEONOR TELES 

Quando D. Fernando, depois do assassínio de D. Pedro I de Castela, 
invadiu a Galiza em i36g, um dos lugares daquela província que mais fes- 
tejaram a sua vinda, e onde êle mais tempo persistiu, foi a Corunha. 

Era então a pessoa principal da terra um escudeiro chamado João Fer- 
nandes de Andeiro, que logo tomou voz pelo rei de Portugal. E, quando 
êste embarcou ao constar-lhe a aproximação de Henrique II, ficou Andeiro 
servindo sob as ordens do mestre de Cristo D. Nuno Freire, fronteiro 
daquela comarca. 

Terminada a guerra, assinou-se a paz em Alcoutim a 3i de Março de 
1 37 1 , e nela se capitulou a entrega das praças castelhanas de que D. Fer- 
nando estava de posse. Como nestas se compreendesse a Corunha, passou 
João Fernandes de Andeiro para Inglaterra. Neste reino soube êle ganhar 
as graças e a confiança de João de Gante, Duque de Lancastre, filho segundo 
de Duarte III, e que, por ser casado com D. Constança, filha de D. Pedro I, 
se intitulava rei de Castela. 

Para tornar efectivas as suas pretenções ao trono, convinha ao inglês ter 
um aliado na península; não só para acrescentamento das suas forças, mas 
também para ter território amigo, onde pudesse desembarcar e concentrar as 
suas tropas. Com êste intento mandou a D. Fernando, na qualidade de seus 
embaixadores, o cavaleiro João Fernandes de Andeiro e o escudeiro Roger 
Hoor, que chegaram a Braga, onde então se achava o rei, no verão de 1372. 

Assentadas as condições da aliança, não chegou esta a tornar-se efectiva, 
porque Henrique de Castela não deu a isso tempo, invadindo Portugal 
ainda em fins de Setembro desse ano. 

O resultado da campanha é sabido. Algumas povoações de Portugal 
foram saqueadas; Lisboa padeceu um apertado cêrco, e finalmente, inter- 
vindo a mediação do legado do papa, se fizeram as pazes de Valada em 19 
de Março de 1 373 . Uma das condições delas foi a expulsão de Portugal de 
vinte e oito castelhanos, que andavam ao seu serviço, e um dos quais era 
João Fernandes de Andeiro. 

Parece portanto ter Andeiro permanecido neste reino, desde que apre- 
sentou as suas credenciais ao rei, até à paz(i). 

(1) Os documentos parecem comprová-lo. Em 27 de Novembro de 1372 passou D.Fer- 
nando uma procuração a João Fernandes de Andeiro e ao chantre Vasco Domingues para 



Almeidas 



287 



l Assistiria êle durante estes oito meses na familiaridade da rainha ? 
Pode ser; ^ e quem sabe se não datarão já daqui, não digo os amores, mas 
o agrado de D. Leonor pelo fidalgo galego ? 

Em 5 de Agosto de 1372 estava D. Fernando em Braga (1). Aqui recebia 
os embaixadores (2), e persistia até 20 (3). A 22 estava em Famalicão (4), 
a 23 em Homem (5), e no Pôrto a 29(6). Depois de pouca permanência 
nesta cidade continuou para o sul, achando-se já a 5 de Setembro em 
Buarcos (7). Desta vila passou a Mogofores, Tentúgal, Coimbra, e outra 
vez Tentúgal, gastando nestas jornadas o mês de Setembro. A 2 de 
Outubro estava em Montemor-o-Velho(8), a 5 novamente em Buarcos (9), e 
a 6 em Tentúgal, onde descansou uns dias; mas, já a 11, estava em Re- 
veles (10), a 12 em Coles (11), e finalmente a 22 em Leiria (12). Aqui per- 
maneceu todo o resto do mês e o de Novembro, saindo ainda assim, de vez 
em quando, em excursões pelos arredores. 

tratarem com Duarte III (Visconde de Santarém, Quadro elementar, vol. XIV, pág. 52); 
porém, só a 1 de Junho do ano seguinte de 1373, é que o rei de Inglaterra nomeou os pleni- 
potenciários que se avistaram com os portugueses (Ibidem, pág. 55). Isto parece indicar 
que só pouco antes chegaria Andeiro a Londres. 

(1) Chancelaria de D. Fernando, liv. i.*, fl. 109, carta de legitimação de Fernão Pires; 
ibidem, fl. 110 v., carta de confirmação de privilégios ao abade e couto de Tibaes. 

(2) Fernão Lopes, no cap. 67 da Chronica de D. Fernando, diz que fôra em Braga, e 
no mês de Julho, a recepção dos embaixadores. Seria naquela cidade, mas naquele mês 
não. A 3o de Junho estava D. Fernando em Guimarães (apresentação da igreja de S. Pedro 
de Fróis, liv. i.° da Chancelaria, fl. 108), e lá persistia ainda em 8 de Julho (doação de 
Borvão de Junhais, ibidem, fl. 108, e privilégios à cidade de Lamego, ibidem, fl. 108 v.). A 
1 3, 1 5 e 18 de Julho estava no Pôrto (mercê aos moradores de Montemor-o-Velho, ibidem, 
fl. 108; confirmação de privilégios ao concelho de Bragança, ibidem, fl. 108 v.; e apresentação 
da igreja de Santo Estêvão de Vila, ibidem). A 20 estava outra vez em Guimarães (privilé- 
gios à vila de Guimarães, ibidem, fl. 108 v.), e a 29 outra vez no Pôrto (composição entre 
os mercadores do Pôrto e os mestres e senhores de navios, ibidem, fl. 109). Vê-se portanto, 
que no mês de Julho não foi a Braga. ' 

(3) Cliancelaria de D. Fernando, liv. fl. 109 v., 1 10, 1 10 v., 1 1 1 e u 1 v., em várias 
cartas de 10, 12, i3, i5, 17, 18, 19 e 20 de Agosto, todas datadas de Braga. 

(4) Supra, fl. 111, carta de confirmação da vila de Cascais a Gonçalo Lourenço do 
Avelar. 

(5) Supra, carta de doação de Vila Chan e Lalim a Afonso Rodrigues de Magalhães- 

(6) Supra, carta de doação de Cunha a Gil Fernandes de Outiz. 

(7) Supra, fl. 112 v. ; carta de mercê de julgado a Senhorim. 

(8) Supra, fl. 1 14; carta de legitimação de Martinho, filho de Lourenço Vicente, clérigo. 

(9) Supra, fl. 1 1 3 v. ; cartas de privilégios aos moradores de Coimbra. 

(10) Supra, carta para se entregar o castelo de Salvaterra a Lourenço Gonçalves. 

(11) Supra, fl. 1 1 3 ; carta em que a rôgo da rainha manda acabar com a almotaçaria no 
Pôrto. 

(12) Supra, fl. 1 1 3 v. e 114; cartas de várias doações a Gonçalo Teles, e a outros. 



288 



Brasões 



Os reis da primeira dinastia percorriam cada ano uma parte do seu 
reino, para com os próprios olhos verem as necessidades dos povos e reme- 
diarem a elas. Estas jornadas, apesar dos maus caminhos, eram feitas com 
certa rapidez e em boa ordem, como o farei notar pelos seguintes factos. 
D. Fernando, estando aqui em Leiria, assinou uma carta na manhã de 23 
de Outubro (i), e na tarde desse mesmo dia já estava em Monte Real, 
catorze quilómetros ao sul, e com o seu desembargo montado por forma 
que pôde outorgar nessa mesma tarde duas doações (2). Facto análogo 
sucedeu no regresso, pois que a 25 assinou um documento em Monte Real (3) 
e outro em Leiria (4). 

Os meses de Dezembro e Janeiro passou-os o rei, ora em Tentúgal, ora 
em Pereira, ora em Coimbra, e nesta cidade ainda se achava a i3 de Feve- 
reiro de 1373 (5); porém a 23 já estava em Santarém (6). 

Desde meado Setembro que o rei de Castela tinha entrado em Portugal, 
e estava em Viseu esperando pelos reforços para continuar a invasão, quando 
D. Fernando andava passeando pelo reino, e à primeira vista parece, que 
pouco preocupado com os sucessos iminentes. Mas não seria tanto assim, 
e o facto de se encontrarem, expedidas nestes meses, poucas cartas régias 
de pagamento de seus maravedis aos fidalgos com obrigação de servirem 
com um determinado número de lanças, explica-se pela desgraçada reforma 
das chancelarias feita depois de 1469(7); e porque também muitos desses 



(1) A de entrega do castelo de Alter do Chao a Álvaro Mendes de Cáceres, supra } 
fl. 112 v. — Alvaro Mendes de Cáceres, doação de juro e herdade do julgado de Algodres e 
de Fornos com seus termos na correição da Beira, com as jurisdições, excepto as apelações. 
Aveiro, 3 de Janeiro de 1410 (i3/2). Chancelaria de D. Fernando, liv. fl. 89 v — A 
Álvaro Mendes de Cáceres, nosso vassalo, doação por juro e herdade do julgado de Pena- 
verde com seu termo e jurisdições, salvo as apelações do crime e a correição. Coimbra, 
23 de Fevereiro, Afonso Peres a fez, era de 1410 (1372). Ibidem, fl. 100 v. 

(2) Supra, fl. 106 v. e 114; cartas de legitimação de Maria Afonso filha de D. João 
Afonso de Albuquerque e mulher de Gonçalo Teles, e de doação dos direitos reais do Sa- 
bugal a Rui Vasques de Cidade. 

(3) Supra, liv. fl. 114; carta de doação da renda da mouraria de Évora a Rui Mar- 
tins Toscano. 

(4) Supra, fl. 114 v.; carta de doação de Lavar a Pedro Afonso de Lagela. 

(5) Supra, fl. 1 18; aforamento de casas em Lisboa, juntas com as Fangas da Farinha,a 
Rui Lopes. 

(6) Supra, fl. 120; carta em que dá Almeida para o termo de Castelo Branco. 

(7) No liv. i.° da Chancelaria de D. Fernando, fl. 1 1 1, 1 12 e 1 15 encontram-se seis cartas, 
datadas desde 20 de Agosto até 1 1 de Novembro, para pagamento de seus maravedis a dife- 
rentes indivíduos, somando apenas sessenta e quatro as lanças com que êles se obrigavam 
a servir. Na mesma chancelaria, e do mesmo tempo, se encontram naquelas, e nas pró- 
ximas folhas, mais dezaseis cartas de pagamento de seus maravedis, ou quantias, a outros, 



Almeidas 



289 



pagamentos seriam feitos a dinheiro, e não com a consignação de rendas. 
Meado Fevereiro partia D. Fernando para Santarém, a fim de se pôr à frente 
das suas tropas, e pouco depois chegava o exercito castelhano à vista de 
Coimbra, em cujos arrabaldes permaneceu uns dias sem acometer a cidade. 

D. Leonor Teles, pelo estado adiantado de sua gravidez, não tinha podido 
acompanhar seu marido, e, permanecendo em Coimbra, lhe nasceu, durante 
o tempo que os castelhanos estiveram à vista, uma filha, que depois se 
chamou Beatris, e foi rainha de Castela (1). 

; Ficaria João Fernandes de Andeiro em Coimbra com a rainha? jSe 
ficou, que ocasião tão propícia não foi esta, para se insinuar no ânimo de 
Leonor Teles, enfêrma, e receosa não só pelo seu estado, mas também pelo 
possível assédio da cidade ! Um cavaleiro aprimorado e insinuante, porque 
decerto o era, e muito, este homem, que a toda a parte onde chegava cap- 
tava as boas graças do soberano: em Portugal as de D. Fernando; em Ingla- 
terra as do rei titular de Castela; 1 um sedutor ambicioso, em suma, perderia 
tão bom ensejo de alcançar influência sôbre a rainha, sobre a mulher for- 
mosa? Decerto que não; mas a cruel cláusula da expulsão, imposta por 
Henrique II nas pazes de Valada, veio atalhar os possíveis devaneios do 
fidalgo galego. 

Caminho do desterro passou João Fernandes de Andeiro pela Corunha que 
saqueou, e, embarcando em seu porto, se dirigiu a Inglaterra, onde já se 
achava a 16 de Junho de 1 373 . Nesta data se assinou um tratado de paz e 
amizade celebrado entre D. Duarte III, e D. Fernando e D. Leonor, que 
eram representados pelo Andeiro e por Vasco Domingues, chantre de 
Braga (2). 

Na noite de 29 para 3o de Maio de 1379 morreu Henrique II em Santo 



não se declarando se diziam respeito a serviço passado, ou futuro, e isto por aqueles docu- 
mentos estarem lançados apenas por ementa. Afora estas cartas, decerto existiam nas 
chancelarias originais muitas outras análogas, que não foram trasladadas para os livros re- 
formados; pois que, de frequente repetição da apostila — escusada — que se encontra no 
chamado liv. 3.° da Chancelaria deste rei, que é original, se vê quão numerosos foram os 
documentos desprezados. A respeito desta reforma, executada por Gomes Eanes de Azu- 
rara, vejam- se as Memorias do Real Archivo de João Pedro Ribeiro, pág. 21 e 171. 

Maravedis era a designação que tinha o sôldo que o rei dava, principalmente aos nobres, 
para o servirem em campanha; designação, que lhe provinha por naturalmente ser pago 
naquela moeda. Contia era também uma espécie de sôldo, mas vitalício, e maior ou menor, 
conforme a nobreza do acontiado, que era sempre vassalo, título da maior graduação 
naqueles tempos. 

(1) Fernão Lopes, Chronica de D. Fernando, cap. 72; D. Pedro Lopez de Ayala, Cró- 
nica dei Rey D. Enrique II, ano 8.°, cap. 1 e 6. 

(2) Rymer, Fcedera conventiones, etc, edição de Haya, vol. VI, pág. 8. 

vol. 11 3j 



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Brasões 



Domingo de la Calzada; e D. Fernando, nunca olvidadas as humilhações re- 
cebidas do seu vencedor, julgou chegada a ocasião de se desafrontar na 
pessoa do novo rei, cuja estrela não seria tão brilhante, como a de seu pai. 
Sentindo-se fraco para sozinho arcar com as forças de Castela, mandou 
secretamente cartas a Inglaterra, com cuja côrte sempre encobertamente 
trouxera falas. Essas cartas tinham por fim assentar com os tios do rei de 
Inglaterra os artigos de um tratado de mútuo auxílio contra o rei de Castela, 
cujos domínios os aliados partilhariam; e eram elas dirigidas a João Fer- 
nandes de Andeiro, que D. Fernando sabia ter grande entrada, não só nos 
palácios do duque de Lancastro, e do conde de Cambridge, mas até no paço 
do próprio Ricardo II, sobrinho dos dois. 

King Richard the second, John of Gaunt, duke of Lancaster, Edmond 
of Langley, earl of Cambridge e depois duque de York; só nos falta Boling- 
broke, para nos acharmos em plena tragédia de Shakspeare; je que tra- 
gédia ! 

João de Gante, o sogro do nosso D. João I, é o leal cavaleiro, o famoso 
guerreiro, o venerando ancião, que profundamente magoado pelo assassínio 
de seu irmão Glocester, intimamente desgostoso com o ultrage feito a seu 
filho Bolingbroke, e receoso pelo futuro, atira, moribundo, à cara do rei, do 
sobrinho, com todos os seus crimes, e acaba por amaldiçoá-lo, dizendo-lhe: 

Live in thy shame, but die not shame with thee! 
These words hereafter thy tormentors bel 

Ricardo II é o rei por direito divino, o ungido do Senhor, o régio liber- 
tino egoísta, que pelo uso e abuso da realeza absoluta se foi transformando 
em déspota, e por fim em tirano. E o homem tão convencido da sua essência 
quási divinal e da sua tradicional prerrogativa, que aos primeiros rebates da 
revolução apenas opõe o seu pasmo pela audácia, a sua confiança no amor 
da terra inglesa ao seu rei: 

Dear earth, I do saluie thee with my hand, 
Though rebels wonnd thee with their horses^hoofs: 
As a long parted mother with her child 
Plays fondly with her tears, and smiles in meeting; 
So, weeping, smiling, greet I thee, my earth, 
And do thee favonr with my royal hands. 



Almeidas 



This earth shall have a feeling, and these stones 
Prove armed soldiers, ere her native King 
Shall f alter under foul rebellious arms. 

Firme neste suposto amor, e convencido de que «nem toda a água do 
áspero tormentoso mar poderia lavar o sagrado óleo da fronte do rei, do 
ungido do Senhor», espera que a Providência se encarregue de o salvar. 
Rápido vem o desengano diante do geral abandono; e da extrêma presunção 
cai o rei no extremo e quási cobarde desalento: 

77/ give my j eiveis 

And my large kingdom for a little grave, 
A little, little grave, an obscure grave. 

Segue-se a abdicação, o encarceramento, a morte violenta, diante da 
qual ressurge contudo o ânimo do rei, do cavaleiro, que, depois de matar 
dois dos agressores, caindo por sua vez ferido, exclama em últimas palavras: 

Mount, mount, my soul! thy seat is up on high; 
Whilst my gross Jlesh sinks downward here to die(i). 

E uma grande tragédia, e foi um grande poeta que a pôs em verso, mas 
não é só isso, é também um grande ensinamento mesmo para os reis de 
agora, que, se já não podem exercer uma tirania activa (chama-se-lhe assim), 
espoliando os seus súbditos e mandando assassinar seus parentes, podem 
pela sua indiferença e abandono exercer uma sorte de despotismo passivo, 
que deixe algemar a nação e entregá-la à ruína. A diferença hoje é que em 
vez de um Bolingbroke surgirão talvez mil, dez mil, um milhão. 

j Ainda mal encetei este volume e já começo a devanear, tendo prometido 
a mim mesmo de ser breve e curto ! ; Homem de pouca palavra, volta ao 
teu assunto! 

Deixei a João Fernandes de Andeiro entregue das cartas do rei de Por- 
tugal, por este dirigidas ao rei de Inglaterra e a seus tios. 

Desempenhou o encarregado a sua missão a contento de todos, e breve- 
mente, acordadas as condições, partia Andeiro para Portugal portador de 



(i) Desculpe o leitor todos estes versos em inglês, mas eles são belíssimos, e eu não os 
saberia traduzir. 



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Brasões 



uma carta credencial e plenipotenciária de Ricardo II, datada de 23 de Maio 
de i38o(i). 

Desembarcando incógnito no Porto dirigiu-se Andeiro a Estremoz, onde 
então permanecia a côrte, e aí se avistou com D. Fernando em Julho (2). 

No castelo de Estremoz, onde morrera Santa Isabel em 4 de Julho de 
i336 e D. Pedro I em 18 de Janeiro de 1367, residia então D. Fernando; e, 
assim como o sítio fora fatal à vida de sua bisavó e de seu pai, seria fatal 
à honra dele. Junto ao paço elevava-se a alta tôrre que ainda hoje se admira, 
e nela, pela fresquidão que lhe provinha das espessas muralhas e desafogados 
ares, costumavam, o rei e a rainha, ir passar a sesta naqueles dias abrasa- 
dores, que gera o verão no Alentejo. 

Nesta tôrre é que ocultamente foi alojado João Fernandes de Andeiro, e 
nela persistiu escondido durante algum tempo. Depois de despedida a côrte 
entrava o embaixador, quando D. Fernando e D. Leonor estavam sós, e 
então conversavam, expunham os seus planos, discorriam sôbre os meios de 
os pôr em execução, e assim passavam os longos dias de Julho. Sucedeu 
às vezes que D. Fernando, logo que acabava de dormir, saía, ou por dis- 
farce, ou por necessidade, e então ficavam sós D. Leonor e Andeiro. 

Nestas entrevistas brevemente, talvez auxiliado pelas recordações dos 
disvelos havidos durante os angustiosos dias de Coimbra, substituiu o amor 
à politica; e D. Leonor rendida se entregou nos braços do cavaleiro galego. 

No curto prazo de um mês, ou talvez ainda menos, e manifestamente 
com poucas ocasiões por lhas tolher a presença do rei, conseguiu Andeiro 
não só ser amado de D. Leonor, como inspirar-lhe violenta paixão. 

A rainha orçava então pelos trinta anos (3), idade perigosa, e era «lavrador 



(1) Visconde de Santarém, Quadro elementar, tôm. 14, pág. 64. 

(2) Em Estremoz no tempo das sestas, diz Fernão Lopes no cap. u5 da Chronica de 
D. Fernando. As cartas de ratificação das alianças com o rei de Inglaterra foram passadas 
em Estremoz a i5 de Julho (Visconde de Santarém, Quadro elementar, tôm. 14, pág. 66). 
A 20 de Junho estava D. Fernando em Portalegre (apresentação da igreja de S. Pedro de 
Lisboa, liv. 2. da Chancelaria, fl. 63 v.). De Estremoz são datadas várias cartas desde 1 de 
Julho (privilégios aos moradores de Ferreira de Aves, liv. 2. , fl. 65) até 4 de Agosto (sen- 
tença sôbre certas rendas da comenda de Castro Marim, liv. 2. , fl. 97 v.). E a 26 de Agosto 
data de Torres Novas a carta de couto de certa herdade (liv. 2. , fl. 68 v.), Conclui-se 
daqui que D. Fernando residiu, neste ano de i38o, durante todo o mês de Julho e alguns 
dias de Agosto em Estremoz. 

(3) D. Leonor casara nos fins do verão ou princípios do outono de 1371 com D. Fer- 
nando (Monarchia lusitana, parte 8.", liv. 22. , cap. 21). A êsse tempo havia já uns três anos 
que ela era casada com João Lourenço da Cunha (Fernão Lopes, Chronica de D. João 1, 
parte I, cap. 177) e portanto teria efectuado este casamento em i368. Supondo-se-lhe nesta 
ocasião dezoito anos, vê-se que completara os trinta neste ano de i38o. 



Almeidas 



de Vénus e criada em sua corte». João Fernandes de Andeiro, além de 
esbelto, galanteador e insinuante, era estrangeiro e vinha de uma corte muito 
mais polida e lustrosa, onde tinha aprendido modos delicados, e de onde 
trazia trajos aprimorados, que muita influência exerceriam sobre o ânimo de 
D. Leonor. Além disto, nove anos de casamento com o mulherengo e pouco 
viril Fernando, eram tempo, mais que suficiente, para embaciar o amor da 
rainha, em cujos extremos não tenho obrigação de crer. Havia mais um 
certo tom romanesco naquele mancebo disfarçado, correndo aventuras. 
Mas todos estes atractivos, tão próprios para exaltar a paixão de D. Leonor, 
ainda que um pouco atenuados pela existência da mulher legítima e filhos do 
namorado, deviam ser energicamente combatidos no ânimo da rainha pelos 
perigos que ia correr. Tudo se pôs de parte, e mais uma vez Amor venceu. 

Devia ter sido linda D. Leonor Teles. O retrato que dela nos deixou 
Fernão Lopes é como segue: «Esta Rainha Dona Lianor, ao tempo que a 
elRei tomou por molher, era bem mançeba em fresca hidade, e igual em 
gramdeza de corpo; avia louçaão e graçioso geesto, e todallas feiçoões do 
rostro quaaes o dereito da fremosura outorga; tal que nenhuuma por estomçe 
era a ella semelhável em bem parecer, e dulçidom de falia, sofremdonos 
porem de a prasmar dalguumas cousas, em que nom onesto e muy sollta- 
mente: ouve gramde e vivo emtemdimento por afortellezar seu estado, tra- 
gemdo a seu amor e bem queremça assi as gramdes pessoas como as pe- 
quenas, mostramdo a todos leda conversaçam, com graada prestamça e 
muitas bemfeiturias. E por quamto ella era çerta, que nom prazia aas 
gentes meudas de ella seer Rainha, segumdo se mostrara em Lixboa e em 
outros logares, e ainda dalguuns gramdes duvjdava mujto, trabalhousse de 
aver da sua parte todollos moores do reino per casamentos, e grandes offi- 
cios, e fortallezas de logares que lhes fez dar, como adeante ouvirees . . . 
Era mujto graada e liberal a quaaes quer que lhe pediam; em tanto que 
numca a ella chegou pessoa por lhe demandar merçee, que dantella partisse 
com vaã esperamça. Era aimda de mujta esmolla e mujto caridosa a todos, 
mas quanto fazia todo danava, depois que conheçerom nella que era lavrador 
de Vénus, e criada em sua corte: e fallamdo os maldizemtes, prasmavomna 
dizendo, que todallas criadas daquella senhora se fimgem sempre mujto 
amaviosas, por tanto que o manto da caridade que mostram, seia cobertura 
de seus desonestos feitos » (i). 

O moral estava na proporção inversa do físico. O modo como foi tra- 
tado o povo de Lisboa por se ter mostrado hostil ao seu casamento, e que 
Alexandre Herculano nos pintou; e sobretudo a aleivosa traição executada 



(i) Chronica de D. Fernando, cap. 65. 



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contra a própria irmã, nos fazem encarar com horror a memória de Leonor 
Teles. 

A par destes delitos, não é menos imperdoável a forma do seu proceder 
com respeito ao marido. Este, tudo por ela sacrificou; ela, não hesitou em 
arrastar pelas mais ignominiosas veredas para satisfação dos seus caprichos 
de orgulho ou de lascívia. 

Ou fosse que Fernando assim pagasse 
O peccado que tinha comettido, 
E por um estrangeiro a um Rei deixasse, 
A que elle deixar fez ao seu marido : 
Ou que amor por costume lhe tirasse 
Da honra, e do logar, todo o sentido, 
Tão publico isto a todos parecia, 
Que sem temor e espanto se dizia. 

Deixei os dois pombos arrulhando na torre de Estremoz, de onde todavia 
as conveniências políticas em breve afastaram a João Fernandes de Andeiro. 
Depois de tudo bem debatido e considerado, mandou D. Fernando ao embai- 
xador, que saísse disfarçado da vila, e só nas proximidades de Leiria, simu- 
lando vir em procura do rei de Portugal se declarasse por quem era. Isto 
foi combinado com o intento de enganar ao rei de Castela, pois que D. Fer- 
nando, assim que lhe fôsse comunicada a suposta nova do aparecimento em 
Portugal do cavaleiro galego, o mandaria imediatamente prender. Execu- 
tando-se à risca o traçado, foi preso o Andeiro no castelo de Leiria, de onde 
foi sôlto ao cabo de alguns dias, mas com ordem formal de sair para fora 
do reino sob pena de morte. Por êste modo salvando as aparências, se re- 
cambiou o embaixador para Inglaterra. 

Um ano depois, a 19 de Julho de i38i, chegava a esquadra inglêsa a 
Lisboa e nela voltava João Fernandes de Andeiro para não tornar a sair 
dêste reino, senão na qualidade de embaixador a Castela. 

Continuaram então os amores da rainha, e com pouco resguardo; e dêste 
tempo em diante é que data o escândalo. 

A primeira manifestação oficial do agrado de D. Leonor foi a concessão 
do título com a doação do condado de Ourém, que vagara pela morte de 
1 D. João Afonso Telo, sucedida nos fins do ano de i38i, ou princípios de 
82(1). 

Era bem raro então o título de conde, único que existia; e, se já não 
havia um só conde, como nos reinados precedentes, eram contudo apenas 



(1) Vide vol. I, pág. 1 18. 



Almeidas 



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cinco, e todos eles próximos parentes por consanguinidade, ou afinidade, da 
casa real. 

Eram eles: o conde de Arraiolos, D. Alvaro Pires de Castro, irmão de 
D. Inês de Castro e tio dos infantes D. João e D. Denis; o conde de Neiva, 
D. Gonçalo Teles, irmão da rainha D. Leonor; o conde de Seia, D. Hen- 
rique Manuel de Vilhena, tio materno do rei; o conde de Viana, D. João 
Afonso Telo, primo com-irmão da rainha; e o conde de Barcelos, D. João 
Afonso Telo, irmão da mesma (1). 

Deste tempo em diante é que data o escândalo dos amores da rainha com 
João Fernandes de Andeiro, disse eu acima. 1 Mas haveria na realidade o 
escândalo ? Existiriam mesmo os amores ? 

Quem no-lo afirma é Fernão Lopes, porém a sua imparcialidade nesta 
parte não pode merecer inteira fé. 

Ayala, cronista contemporâneo que tratara com D. Leonor, nem palavra 
nos diz, por onde sequer possamos suspeitar de leve a existência do caso. 

Este ponto da nossa história está infelizmente, como muitos outros, por 
esclarecer, e não é decerto numa semana que êle se pode estudar (2). 

Conta-nos Fernão Lopes que, estando a corte em Évora no verão de 
1 382, entraram um dia no paço pela calma os condes de Neiva e de Ourém. 
Vinham êles afrontados do calor, e, quando chegaram à câmara da rainha 
para onde se dirigiam, caía-lhes o suor em baga pelo rosto. Vendo-os 
D. Leonor naquele estado, rasgou um seu véu e repartiu-o entre os dois, 
para que cada um com a sua metade se limpasse. João Fernandes de An- 
deiro com o seu pedaço de véu na mão deu umas voltas pela sala, e, quando 
lhe pareceu ocasião oportuna, ajoelhou-se aos pés da rainha, como que para 
lhe agradecer o mimo, e baixinho, não se julgando escutado, lhe disse: 

— Senhora, mais chegado e mais usado queria eu de voz o pano, quando 
mo houvésseis de dar, do que êste que me dais. 

O galanteio, um pouco apimentado, mas ao tom do tempo, foi recebido 
com risos e mostras de agrado. Não foi porém dito tão de manso, que o 
não ouvisse Inês Afonso, uma dona da rainha, que ali estava, mulher de 
Gonçalo Vasques de Azevedo, primo segundo de D. Leonor. 



(1) Neste sítio, em nota, dava eu no Diário Illustrado a lista dos condes vitalícios que 
houve em Portugal durante a primeira dinastia. Agora suprimo aqui a nota, para, em 
apêndice a êste volume, apresentar uma relação não só daqueles condes, como de todos os 
titulares que existiram até à ocupação dos Felipes. 

(2) Isto escrevi eu no Diário Illustrado de 14 de Março de 1 885 ; não tornei mais a 
pensar em tal, confesso-o, senão agora ao rever das provas ; e seguirei para diante, prefe- 
rindo não acrescentar nada ao que vai no texto, a demorar a impressão, deixando o caso 
para resolver aos historiadores, o que eu estou bem longe de ser. 



Brasões 



Inês repetiu-o ao marido, que se não calou; e poucos dias depois, refe- 
rindo-se a rainha com louvor aos costumes dos ingleses e dos que com êles 
lidavam, de que era muito apaixonada, aproveitou Gonçalo Vasques a oca- 
sião para lhe retorquir: 

— Certamente, senhora, porém, quanto a mim, seus costumes em algumas 
coisas não me parecem tão bons como os vós louvais. 

— Em quais? — perguntou a rainha. 

— Senhora, não é bom costume, nem muito de louvar a nenhum, o que 
muitos deles usam; que, se alguma dona ou donzela, por sua mesura lhes 
dá algum véu ou jóia, êles se chegam, e á orelha lhes dizem: Mais chegados 
e mais usados os queríamos, do que aqueles que nos dão. 

A rainha entendeu, mas então disfarçou; porém pouco depois chamou a 
Gonçalo Vasques de Azevedo, aparte, e o avisou. 

— Gonçalo Vasques, eu bem sei que vossa mulher foi quem vos disse 
o que vós ainda agora me dissestes; mas sêde certo que vós e ela o não 
lançastes em poço vazio, e prometo-vos que ambos mo pagareis mui 
bem. 

Efectivamente foi êste um dos motivos que deram lugar, segundo o cro- 
nista relata, à prisão do mestre de Aviz e de Gonçalo Vasques, efectuada 
pouco depois. O outro motivo, alegado por Fernão Lopes, era o de ter 
Gonçalo Vasques denunciado os amores de D. Leonor a seu tio o conde 
D. João Afonso Telo; mas esta razão, se existiu, já era antiga, pois que o 
conde então era morto. 

Presos no castelo de Évora tiveram os dois próceres as vidas em grave 
risco, e, se escaparam, não foi porque faltasse a vontade de os matar. 
Porém, vendo as dificuldades que no caso se ofereciam, resolveu D. Leonor 
aparentar de clemente. 

Ordenou fossem soltos, e viessem à sé ouvir missa juntamente com ela. 
Assim o fizeram, e terminado o ofício divino lhe beijaram a mão, e cumpri- 
mentaram os fidalgos presentes, um dos quais era o conde D. João Fernandes 
de Andeiro. v 

A saída da igreja tomou a rainha o braço do conde, e deu o mestre de 
Aviz o seu à jovem infanta D. Brites, e assim atravessaram o vasto terreiro, 
e desceram a escadaria, ao fim da qual estavam as andas da rainha e a 
hacaneia de sua filha. 

Ao lado de D. Leonor, que então andava no seu estado interessante, foi 
caminhando o conde de Ourém. Atrás, levando de rédea a infanta, ia o 
mestre, e junto com os mais fidalgos Gonçalo Vasques de Azevedo os seguia. 
Desceram entretidos em alegre conversação direito ao paço, a cuja porta em 
breve chegaram. Aí lhes disse a rainha para subirem, e comerem com ela. 



Almeidas 297 

1 * 

Não lhes agradou muito o convite, pois recearam os quisessem envenenar; 
porém era impossível a recusa. 

Na câmara da rainha estavam as mesas armadas. Ela se estirou numa 
cama junto à sua, e o mestre se sentou na cabeceira da outra, tendo a seu 
lado o conde de Andeiro, e na sua frente a Gonçalo Vasques. Terminado 
o jantar, emquanto serviam as frutas, começou a rainha a falar nas suas 
jóias, e nos preços que lhe haviam custado. Então se levantou o conde da 
mesa, e se aproximou da rainha, e ela, tirando do dedo um anel com um 
rubi, cujo preço acabava de exaltar, lhe disse bem alto para todos ouvirem 
e em som de provocação: 

— João, toma êste anel. 

— Não tomarei — disse ê!e. 

— E por quê ? 

— Porque tenho mêdo digam de ambos. 

— Toma o que te eu dou, e diga cada um o que quiser. 
E assim o fizeram, e as murmurações cresceram. 

Pouco tempo depois, em Elvas, a 19 de Julho de i382, nasceu um filho 
à rainha, e os maldizentes afirmaram ser seu pai o conde de Andeiro, e não 
el Rei, que, por estar doente, havia já tempo que vivia separado da mulher. 

Sucedendo morrer a criança quatro dias depois, foram a êste facto buscar 
confirmação para o seu dito, espalhando, que fora o próprio rei, que a 
afogara no colo da ama. 

Em Maio do ano seguinte, montando D. Fernando a casa de sua filha 
D. Beatris, nomeou para seu mordomo mor ao conde de Ourém; e seguindo 
a côrte caminho de Elvas a celebrar as bodas da infanta, diz o cronista, que 
el Rei, de Almada para onde o trouxeram já muito doente, chegara a ordenar 
a morte do conde, e que, se a ordem se não executou, foi devido unicamente 
às admoestações do escrivão da puridade. 

I Como conciliar as provas de valimento dadas por D. Fernando publica- 
mente ao conde, com os tenebrosos projectos maquinados no gabinete? 
Atribuíndo-os a cobardia?. a doblês de carácter? Mas nesse caso era em 
todos mui curto o brio, e nem D. João I, o seu herói, escapa às insinuações 
de Fernão Lopes. 

; Efectivamente afirma o cronista, que o mestre de Aviz se prontificara 
dali a tempos, aceitando a idea de Alvaro Pais, a casar com a rainha, com 
a mulher duas vezes adúltera ! 

,jVirá ainda D. Leonor a ter, como Lucrécia Bórgia, a quem o nosso 
grande historiador já a comparou, quem a queira reabilitar ? 

Não serei eu decerto, que agora o tento, e árdua me parece a tarefa. 

Continuando as murmurações dos nobres e do povo, veiu entrementes a 
vol. 11 38 



298 Brasões 

» 

falecer D. Fernando a 22 de Outubro de 1 383, pouco menos de um mês 
depois de à rainha ter nascido outra filha, cuja paternidade também foi lan- 
çada em conta do Andeiro. 

; El Rei morreu em Lisboa, para onde viera de Almada, depois de meado 
de Setembro, e causam dó as providências, que êle mandou adoptar, afim 
de não ser visto pelo povo, tal era o seu estado ! Veiu de noite, as portas 
e as janelas nas ruas do trânsito todas fechadas, nem uma candeia acesa, 
nem uma pessoa na rua. Pobre rei ! 

O seu entêrro foi tristíssimo. Deitado numas andas, amortalhado no 
hábito de S. FYancisco, foi levado aos ombros de quatro possantes frades, 
quási sem mais acompanhamento. 

Na própria noite da morte do rei abalou João Fernandes de Andeiro 
para a sua vila de Ourém, onde estava a condessa e os filhos. Lá perma- 
neceu até ser convocado pela rainha, para assistir às solenes exéquias que 
em Lisboa se iam celebrar em honra de D. Fernando. 

Já então por todo o reino começava o amor da independência, qual leva- 
dura, a fazer fermentar as massas populares. Sobretudo na capital estavam 
os ânimos exaltados. 

Contra o conde de Ourém, nos nobres por inveja do valimento, no povo 
por ódio do estrangeiro, se dirigiam de preferência as iras de todos. Ma- 
quinada a sua morte, foi o feito cometido ao mestre de Aviz, ou por ser o 
mais animoso, ou por ter mais possibilidade de levar a cabo a empresa, ou 
finalmente por dêle provir a idea. 

Logo depois do saimento de D. Fernando nomeou D. Leonor Teles, que 
regia os reinos em nome da filha, ao mestre de Aviz por fronteiro de Entre 
Tejo e Guadiana. Saiu D. João de Lisboa; porém, chegando ao Tojal, 
parou, decidido a tentar o assassínio. Enviou então o seu veador, Fer- 
nand'Alvares de Almeida, à rainha, a preveni-la de que no dia seguinte êle 
voltaria, afim de lhe pedir aumento de forças. 

Efectivamente no dia seguinte, em que se contavam 6 dias do mês de 
Dezembro de i383, pelas nove horas da manhã, chegava o mestre de Aviz 
aos paços de apar S. Martinho, onde a rainha pousava. Com êle vinham 
Fernand'Alvares de Almeida, comendador de Juromenha na ordem de Aviz 
e seu veador, Lourenço Martins de Leiria, Vasco Lourenço Marinho, Lopo 
Vasques, cavaleiro da ordem de Aviz, Rui Pereira, irmão de Nun'Álvares, 
Gomes Freire, pagem do mestre, e mais vinte escudeiros. 

Vinham todos armados à ligeira com cotas e braçais, e espadas à cinta, 
e, quando se apearam à porta do paço, já estavam prevenidos dos intentos 
de D. João, que mandara igualmente avisar a Alvaro Pais, o antigo chanceler, 
que tinha grande influência sôbre o povo da capital. 



Almeidas 



299 



A rainha pousava na sua câmara sentada no estrado, tendo em roda de 
si algumas das suas damas; conversava baixinho com o conde de Ourém, 
que viera ajoelhar-se ante ela. Num banco sentavam-se os condes de Bar- 
celos e de Arraiolos, e Fernão Afonso de Samora e Vasco Pires de Camões. 

Naquele tempo assomou o mestre à porta, e penetrou com todo o seu 
séquito, apesar do porteiro lhe querer permitir unicamente a ele a entrada, 
por não ser costume, estando a rainha de nojo, receber a todos. 

— Assentai-vos — lhe disse D. Leonor depois de feita a reverência e as 
mesuras costumadas em tais recebimentos. E, continuando: 

— Eh ! 1 pois, irmão, que é isso ? 1 a que tornastes de vosso caminho ? 
— Tornei, senhora, porque me pareceu que não ia desembargado como 

cumpria. Vós me ordenastes que tivesse cargo da comarca de Entre Tejo 
e Guadiana, se por ventura el Rei de Castela quisesse vir ao reino, quebrando 
os tratados; e porque aquela fronteira é extensa, e nela há grandes e pode- 
rosos senhores, e entre êles o mestre de Alcântara; e porque aqueles, que 
vós assinastes para a guardarem comigo, me parecem poucos, pelo que 
tornei, para me dardes mais vassalos, afim de vos poder bem servir, segundo 
cumpre à minha honra e ao vosso serviço. 

— Está bem — respondeu a rainha. — Chamem a João Gonçalves, e digam- 
-lhe que veja o livro dos vassalos daquela comarca, e que declare ao mestre 
quantos e quais são, e que lhe desembargue tudo aquilo de queêle haja 
mister. 

E emquanto o escrivão da puridade acudia trigoso e se sentava à mesa 
com seus escrivães a examinar o livro, convidavam os condes ao mestre, 
cada um de per si, para jantar com êles. O conde de Ourém era o que 
mais instava. 

— Já tenho prestes o comer — a todos respondia o mestre — que o mandei 
fazer pelo veador. 

Porém quando o conde de Barcelos o convidou, lhe disse baixinho e dis- 
farçadamente: 

— Conde, ide-vos daqui que logo quero matar o conde João Fernandes. 

— Não vou, não — lhe respondeu D. João Telo — antes ficarei para vos 
ajudar. 

— Não assistireis, pois rogo-vos todavia, que vos vades daqui e me aguar- 
deis para jantar; porque eu, Deus querendo, tanto que isto fôr feito, logo 
irei comer convosco. 

A rainha, a quem a presença do mestre, acompanhado pelos seus vas- 
salos armados, causava susto, dirigindo-se a todos em geral, disse: 

— Santa Maria vai ! como os ingleses hão mui bom costume que, quando • 
estão em tempo de paz, não trazem armas nem curam de andar armados; 



3oo 



Brasões 



mas trazem boas roupas, e as mãos alvas como de donzelas. Quando estão 
em guerra, então é que trazem armas, e usam delas como todo o mundo sabe. 

— Senhora — acudiu o mestre — é mui grande verdade; porém isso fazem 
eles, porque têm muito a miúde guerra e poucas vezes paz, e podem-no mui 
bem fazer; mas a nós pelo contrário, porque temos por miúdo paz e poucas 
vezes guerra; e, se no tempo da paz não usássemos das armas, quando 
viesse a guerra, não as poderíamos suportar. 

Entretanto passava o tempo; a hora do jantar aproximava-se, e, despe- 
dindo-se o conde de Barcelos, foram os mais seguindo o seu exemplo, até 
que, ficando só o conde João Fernandes de Andeiro, este de novo insistiu 
com o mestre dizendo-lhe: 

— Vós, senhor, todavia haveis de comer comigo. 

— Não comerei — tornou o mestre — porque tenho feito de comer. 

— Sim, comereis. Emquanto vós falais vossos requerimentos, irei eu 
mandar aprontar o jantar. 

— Não vades. Eu vos hei de dizer uma coisa, antes que me vá, e logo 
me quero ir, porque já são horas de comer. 

Então despediu-se da rainha, tomou o conde pela mão, e dirigiu-se com 
ele para uma grande sala que ficava contígua, e que servia de antecâmara. 
Para aqui os seguiram todos os amigos do mestre, indo Rui Pereira e Lou- 
renço Martins de Leiria mais próximos. 

Naquele tempo, aproximando-se os dois Joões de uma fresta, ficaram 
todos os mais quedos, e disse o mestre baixo ao conde: 

— Conde, eu me maravilho muito de vós serdes homem a quem eu bem- 
queria, e de trabalhardes para minha desonra e morte. 

— Eu, senhor? Quem vos tal coisa disse, mentiu-vos mui gram mentira. 
E então o mestre de Aviz, que mais tinha em vontade de o matar, do 

que de estar com êle em razões, puchando de um cutelo comprido, mandou- 
-lhe um golpe à cabeça. 

Atordoado com a ferida, que contudo não era mortal, procurava o conde 
refugiar-se na câmara da rainha; porém Rui Pereira, que mais perto dele 
estava, lhe enviou uma estocada com que logo o matou. 

Mandou então o mestre a todos, que embainhassem as espadas, que ao pri- 
meiro golpe tinham lançado fora. E em especial ordenou a Fernand'Alvares 
de Almeida e a Lourenço Martins de Leiria, que cerrassem as portas, e fossem 
avisar o pagem, que ficara junto ao portal, para correr pela cidade, gritando que 
acudissem ao mestre, e ir por esta forma dar parte do sucedido a Alvaro Pais. 

A rainha, ouvindo na próxima câmara o súbito rumor, levanta-se espan- 
tada, manda ver o que é, e, assim que o sabe, exclama: 

— Oh ! Santa Maria vai ! ; Mataram-me nele um bom servidor ! e sem 



Almeidas 



3oi 



merecer, pois que o mataram, eu bem sei porquê. Mas eu prometo a 
Deus de ir de manhã a S. Francisco e mandar lá fazer uma fogueira, e nela 
darei tais provas da minha inocência, como nunca mulher alguma fez por 
coisas destas (i). 

Por esta forma morreu, depois de uma vida de gosos e aventuras, um 
dos vultos menos simpáticos da nossa história. 

II 

JOÃO ÁLVARES DE ALMEIDA 

Um dos companheiros do mestre de Aviz nesta empresa foi o seu veador 
Fernand'Álvares de Almeida, comendador de Juromenha na sua ordem, e 
i.° alcaide mor de Abrantes. Acompanhou sempre a D. João a quem serviu 
com dedicação, antes e depois de rei, e lhe mereceu confiança, a ponto de 
ser escolhido para aio de seus filhos. 

Era o cavaleiro da linhagem dos Almeidas, e foi o progenitor do mais 
brilhante ramo, que dêsse tronco nasceu. 

Não é possível hoje deduzir desde o seu princípio as linhas desta família, 
ainda que se lhe conheça com todas as probabilidades a remota origem. 

As suas armas são muito semelhantes às dos Meios. O seu solar, a 
aldeia de Almeida no antigo julgado de Azurara da Beira, ficava muito pró- 
ximo da vila de Melo, solar daqueles, d Terão estas famílias origem comum? 

1 Enlaçar-se-iam estreitamente por casamentos ? (2). 

No antigo julgado de Azurara da Beira, que hoje forma parte do 
concelho de Mangualde, e no meio das actuais frèguesias da Cunha 
Alta, Freixiosa e Mesquitela, fundou João Fernandes, pelos anos de 1223 
a 124D, uma aldeia que em 1 258 se chamava de Almeida (3). Dela tomou 



(1) Fernão Lopes, Chronica de D. João I, part. I, cap. 10 e 1 1 a quem sigo quási literal- 
mente. 

(•2) No convento de Cristo de Tomar, na Sacristia Velha, em uma pequena lápide, 
lê-se: Esta : capela : mandou : fazer/ vaasco : goncalvez : dalmey / da : cavaleyro : e sua : 
molher / mecia : loureco : amos : do ifa /nte : don : anrryq : e foy : feyta/ era : do saluador : 
de mill : cccc : xxbi / — Luciano Cordeiro, Inscripçôes portuguesas, pág. 9 da Arte portu- 

GUEZA. 

(3) Nas Inquirições da era de 1296, ano de Cristo de 1 258, se lê: «Item Johannes Do- 
minici de Cuia alta juratus et interrogatus dixit quod Johannes Fernandi dictus Almeyda 
compravit et ganavit de hereditatibus forariis Régis de termino de Zurara, scilicet. forarie 
de Caballana et hoste et anuduva et collecta voce et calumpnia. . . et Johannes Fernandi 



302 



Brasões 



o fundador o apelido, que transmitiu a seus descendentes com a proprie- 
dade (i). 

Fora este João Fernandes, que já era falecido em 1258, senhor da quinta 
do Pinheiro na actual freguesia de Mangualde, então de Azurara; e havia 
sido filho de Fernão Canelas, também senhor da dita quinta (2) e bem assim 
da de Canelas, ambas na mesma freguesia (3). 



fecit unam aldeyam que vocatur Almeyda in médio de istis villis (Albergaria de sub castello 
de A furara já muito despovoada, Cuia Alta, Freixeosa Alta, Mesquitela e Freixeosa Perra (?) 
que está despovoada) forariis Régis sicut scriptum est supra et in istis hereditatibus quas 
compravit et ganavit forarias Régis. Et modo Martinus Laurencii maritus de muliere que 
fuit de Johanne fernandi et filii de Johanne fernandi habent ipsam villam dalmeyda et nullum 
fórum faciunt Regi de ea. Interrogato si Johannes Fernandi habebat antea in ipsis locis 
aliquam hereditatem de patre vel de avo sive ex parte uxoris sue dixit non. Interrogato de 
tempore quod Johannis fernandi compravit vel ganavit illas hereditates in quibus fecit ipsam 
villam dixit quod tempore Régis Sancii frater istius Régis.» — Livro i.° de Inquirições de 
.D. Afonso III, fl. 33 v. 

(1) Nas Inquirições da era de i326, ano de Cristo de 1288, chegando a alçada no jul- 
gado de Azurara à freguesia de S. Julião de Azurara, se lê o seguinte depoimento: «Lou- 
renco domingues de Cães jurado e perguntado se em esta freguesia ha casa de cavalleiro ou de 
dona que se defenda per onra disse que ha hi uma quintaa que chamam almeida que foi de 
João Fernandes e ora é de seus filhos e disse que a viou onrrada e disse que onrra toda a 
aldeia que é herdamento destes filhos dalgo que não entra hi o mordomo delrei por peitas 
voz e coomha mais cheguaas o Juiz a direito e não entra hi mordomo delRey e tragemno 
per onrra. » Liv. 4. de Inquirições de D. Denis, fl. 48. 

(2) Nas Inquirições da era de 1296, ano de Cristo de 1258, se lê: «Martinus Martini 
clericus sancti Juliani juratus dixit quod Fernandus Canelas compravit tempore domni Régis 
Sancii avi istius Régis (Afonso 111) villam de pineiro forariam Régis de Caballaria de hoste 
et anuduva voce et calumpnia et collecta et de maiordomo et modo filii de Johane Fernandi 
de Almeida habent ipsam hereditatem et dant de ea collectam et addit quod domnus Petrus 
Portugal qui tenebat terram de domno Rege Alfonso pater istius Régis filiavit ipsam villam 
de pineiro Fernando Canelas pro sua foreira Régis. Et Fernandus Canelas dedit ei fideius- 
sorem pro ad judicium Régis super hereditate ipsa et fuerunt ad Regem super pacto ipsius 
hereditatis et addit quod comparavit. Fernandus Canelas ipsam hereditatem de Petro boõ. 
et de Martino Petri de san Cosmadi et de aliis. Martinus abbas quondam judex dixit simi- 
liter. sed dixit quod audivit dicere quod comparat eã de Petro brõ et de Martino petri de 
san Cosmado. Dominicus Rubeus dixit similiter et dixit quod sapit eam forariam, Johannes 
Fáber dixit similiter et addit quod in pineiro absconderunt unam Caballaria et non habet 
inde Rex nisi V ficulnee qua sunt Regalenga. Petrus Fáber dixit similiter et dixit quod 
totus pineiro fuit forarius Régis.» Liv. i.° de Inquirições de D. Afonso III, fl. 34. Da 
posse da quinta do Pinheiro pelos filhos de João Fernandes de Almeida e do patronímico 
dêste, se pode conjecturar com evidência que o fundador da aldeia de Almeida era filho de 
Fernão Canelas. 

(3) Nas Inquirições da era de 1296, ano de Cristo de 1238. se lê: «Martinus Martini 
clericus sancti Juliani juratus et interrogatus dixit quod villa de Canelas est Caballaria Régis 
foraria per usum et fórum de 2urara et Fernandus Canelas habuit eam de compra de tem- 



Almeidas 



3o3 



Nas quintas do Pinheiro e de Canelas, e na de Almeida, tinham os 
senhores dela fundado cavalarias, como se vê pelo conteúdo das inquirições 
citadas nas notas; e, além destas cavalarias, ainda Estêvão Eanes, cavaleiro, 
filho de João Fernandes de Almeida, possuía parte de outra na Freixiosa (i). 

Estas cavalarias eram muito vulgares na Beira, e a cada passo nas inqui- 
rições de D. Afonso III e D. Denis se encontram, designadas por esta forma, 
muitas propriedades. Consistiam elas, seguindo a definição de Viterbo, em 
uma « quinta, fazenda, ou prédio, que estava destinada à manutenção de 
gente militar, e que só para a milícia, e com o intuito dela, se concedia, ou 
talvez em recompensa dos serviços feitos na paz ou na guerra » (2). Quem 
as concedia era o rei que « as dava a quem, e pelo tempo, que muito lhe 
aprazia» (3); e algumas vezes eram concedidas «com obrigação de fornecer 
certo número de cavalos para determinada expedição militar» (4). 

Outras cavalarias havia que se chamavam cavalarias de honra, que eram 
perpétuas e só se davam a ricos homens, e que nada têm que ver com as 
das quintas do Pinheiro, Canelas e Almeida. Estas foram das temporárias 
e pertenciam à classe daquelas muitas, que em resultado das inquirições re- 
feridas se fizeram lançar em devasso; isto é, se tornaram públicas e sem 
privilégios; umas, por ter acabado o prazo da concessão; outras, porque 
abusivamente tinham sido arvoradas em terras privilegiadas pelos seus pró- 
prios fundadores ou possuidores. 

Os moradores do julgado de Azurara da Beira eram, desde antigos 
tempos, muito pródigos em conceder aos de fora as honras de cavaleiros, 
fazendo-os primeiro seus vizinhos pela concessão do mais insignificante bem 
de raiz, até de uma árvore (5). Este abuso, ainda que foi reprimido, não 
cessou de todo, e o Fernão Canelas é um exemplo. Pelas inquirições se vê 



pore domini Régis Sancii avi istius Régis (Afonso 111). Interrogatus si antea Fernandus 
Canelas habebat in zurara aliquid de património vel de avolenga dixit non. Martinus abbas 
dixit similiter et addit quod Canelas fuit de hominibus villanis forariis Régis. Dominicus 
Rubeus dixit similiter.» (Liv. 1° de Inquirições de D. Afonso III, fl. 34 v.). 

(1) Nas Inquirições da era de 1296, ano de Cristo de 1258, se lê: « Johannes dominici 
de Cuia Alta.. . dixit quod Marina Gonçalvi filia de Gonsalvino de Cazuraes vendidit Suerio 
Menendis scutario unam quartam de Caballaria foraria Régis per usum de zurara. in Frei- 
xeosa Alta. et modo Stephanus Johannis miles filius de Johanne Ferrandi de Almeida habet 
ipsam quartam de ipsa Caballaria et modo nullum fórum facit Regi nisi quod dat in collecta 
tantum. lnterrogato de tempore quo Suerius Menendi compravit istam hereditatem dixit 
tempore Régis Sancii fratris istius Régis ». (Liv. i.° de Inquirições de D. Afonso 111, fl. 33 v.). 

(2) Fr. Joaquim de Santa Rosa de Viterbo, Elucidário v. Cavalaria I. 

(3) Ibidem, v. Cavalaria I. 

(4) Ibidem, v. Cavalaria IV. 

(5) Elucidário, cit., v. Maladia II. 



3o4 



Brasões 



que êle veio de fora, e comprou ou ganhou, isto é, adquiriu bens no concelho, 
onde seus antepassados nada possuíram, e encontra-se imediatamente arvo- 
rando as suas quintas em cavalarias. 

E antiga na família de Almeida a posse do castelo de Vilharigues, e da 
próxima quinta do Espírito Santo da Cavalaria; porém, ainda que na 
Beira, são situados estes bens em ponto mui diferente, pois que o são no 
couto do Banho, actual concelho de Vouzela. 

Esta cavalaria, a da quinta do Espírito Santo, foi como as outras, e até 
de plebeia origem (i), e só nos fins do século xv é que entrou na família 
dos Almeidas. 

Pelo que fica dito se vê que proveio esta geração de João Fernandes, 
filho de Fernão Canelas, e fundador da aldeia de Almeida no então julgado 
de Azurara da Beira. Como os Almeidas se elevaram muito teceram-se-lhes 
genealogias fabulosas, sendo o inventor da mais antiga delas o famoso 
Fr. Bernardo de Brito, que inventou muita outra coisa. 

Na Chronica de Cister, no cap. 6.° do liv. 5.°, conta o cronista da ordem 
a vida de Pelaio Amato ou Amado, que êle diz ter sido valido do conde 
D. Henrique e fundador do antigo mosteiro de Bouro situado no actual con- 
celho de Amares; e conta-a com tantos pormenores que parece ter tratado 
com o próprio. Depois de inventado o Pelaio e a Múmia, sua desditosa 
esposa, continua a fértil imaginação do bernardo manifestando-se nos descen- 
dentes que lhe atribui. 

Do suposto Pelaio faz êle neto a Pay Gutterres, o Almeidão, a porque 
cobrou de mouros o castelo de Almeida», derivando dêste facto o apelido 
para seus descendentes. Inventa com o maior desplante o bom do frade 



(i) No liv. 4. das Inquirições de D. Afonso 111 a fl. 5o v. na freguesia de S. Maria de 
Vouzela do julgado de Lafões assentaram os inquiridores o seguinte depoimento: « Johan 
domingues de vouzela jurado e perguntado sse em esta freguesia ha cassa de caualeyro ou 
de dona que sse defenda per onrra. disse que ha hi húa quintaa que chama ouelharigues e 
foi de miguei eanes e ora he de seus netos e disse que a uiou onrrada e disse que onrra 
esta quintaa tes (sicj Casaes que hi ha que nõ entra hi o mordomo dei Rey pero peitãende 
a uoz e a comha ao mordomo mays penhora o con o porteyro. Item disse que no loguar 
que chama uouzela ha húa Caualarya domées lauradores que he caualarya dei Rey e pero 
nõ entra hi mordomo dei Rey mays entra hi o porteyro e peita ende a uoz e a Comha mays 
nõ entra hi o mordomo dei Rey. Item disse que no loguar Ouelhargues son. tres Casaes da 
Egreia de Vouzela e trageos a Egreia por onrra per Razõ que forõ domées filhos dalguo 
e nõ leixã hi entrar o mordomo dei Rey pero peita ende voz e Comha. perguntado sse estas 
onrras forõ feytas per Rey disse que nõ que o el soubesse, perguntado de que tépo disse 
que o nõ sabia sse nõ que o uiou assy ussar». 

Estas inquirições são da era de i3a6 (1288 A. D.) e portanto foram tiradas trinta anos 
depois das primeiras citadas acima. 



Almeidas 



3o5 



nomes, factos históricos, fundações romanescas, tudo que lhe passa pela 
cabeça. Com a sua bela linguagem, se Fr. Bernardo de Brito tem vivido 
dois séculos depois, dava um esplêndido autor de romances históricos (i). 

Continuaram os Almeidas vivendo obscuramente nos seus solares da 
Beira formando diferentes ramos, que hoje é impossível fundamentadamente 
ligar a um tronco comum. 

Darei notícia dos principais, e serei breve, quanto puder, para não te 
enfadar de mais, amigo leitor. 

III 

A DESCENDÊNCIA DE FERNÃO CANELAS 

Não sei de família portuguesa em que mais se tenha errado, não só na 
sua origem, como nos seus primeiros ramos. 

Quanto à origem já deixei referido o que dos documentos se colhe; 
quanto aos seus mais antigos ascendentes direi o que de análogas fontes 



(i) Quando eu escrevia estas coisas no Diário Illustrado, recebi muitas cartas de várias 
pessoas, que mostravam interessar-se pelo meu trabalho, mas, com raras excepções, era 
unicamente pela parte que lhes podia dizer respeito. 

Uns, queixavam-se de os não ter nomeado nesta ou naquela família, a que certamente 
(lá na opinião deles), pertenciam; outros, lembravam-me que, em tratando da linhagem tal, 
os não esquecesse; je até houve um que chegou a ameaçar-me, se eu não dissesse que a 
família da mulher, a dos Silvas, era a mais nobre geração sublunar ! 

Trago isto a propósito do Pelaio Amado inventado por Fr. Bernardo de Brito, e apro- 
veitado com alvoroço por muitos outros patranheiros. Deste Pelaio se julgava descendente 
um dos meus consulentes, que em carta muito delicada se mostrava pouco disposto a deixar 
de acreditar na existência de tal figurão. Alegava êle que a um seu bisavô havia sido pas- 
sada uma carta de brasão em que se remontava a ascendência da família até Pelaio Amado, 
e que sendo documento oficial não devia ser mentira. 

Por aqui se vê, que ainda há quem tome a sério as ascendências das cartas de brasão; 
pois fiquem sabendo que poucos mais vastos repositórios de mentiras haverá, do que são as 
genealogias das tais cartas, do século xvu para cá. 

A coisa fazia-se, e faz-se, assim : O pretendente juntava, ou junta, alguns documentos 
provando ser filho e neto de fulanos, e, se não sabia por sua mão tecer a ascendência daí 
para trás, entendia-se com alguns dos muitos genealogistas encartados, que sempre por aí 
formigaram (Baretti em 1760 diz que os portugueses só tratavam de genealogia, roupas, 
mulheres, prazeres e cortesias), e que lhe arranjava obra asseada, às vezes talvez a trôco de 
algum pinto, melhor ou pior disfarçado. Apresentada aquela ao escrivão da nobreza, êste 
levado pela sua geralmente bem provada ignorância, e pela consideração que lhe merecia o 
famo:o genealogista autor do papel, aceitava-o como oiro de lei, quando a maior parte das 
vezes não passava de reles pechisbeque. 

VOL. II 3g 



3o6 



Brasões 



tenho apurado, advertindo já o leitor, de que, o que vai ler, é muito diferente 
do que eu próprio deixei escrito no Diário Illustrado. 

E tradição relatada em nobiliários antigos e conservada até nossos dias, 
que a família de Almeida foi desde tempos imemoriais senhora da quinta do 
Espírito Santo da Cavalaria no concelho de Vouzela, e do próximo castelo 
de Vilharigues, a que também em documentos se dá o nome de Ovelharigues. 
É mais uma lenda que tenho de destruir, como já fiz à da existência de Pe- 
laio Amado e de seu neto Almeidão, supostos progenitores da linhagem. 

A quinta de « ualherigues » e herdades de Ventosa, que partiam com o 
termo de Quintela, pertenceram a Vasco Lourenço da Fonseca e sua mulher 
Margarida Anes, que tudo venderam a Gonçalo de Monte, vassalo de 
D. Pedro 1. O novo proprietário por escritura feita no Bom Jardim, termo 
da Sertã, ém 5 de Agosto da era de i3g5 (1 357 A. D.) fez daqueles bens 
doação em morgado ao menor Diogo Alvares, filho de D. Alvaro Gonçalves 
Pereira, doação que El rei confirmou a 20 de Maio de i3go, (i36i) em 
Elvas (1). Como foi que depois a quinta passou para os Almeidas, que j 
a possuíam em 1476, é que eu não sei; mas vejo que anteriormente ao sé 
culo xv não foram dela proprietários, e que isso está muito longe de se 
tempo imemorial. 

Da quinta da Cavalaria consta ao certo a ocasião em que entrou para a 
família, e já a vou declarar. Antes porém direi que é ela efectivamente uma 
quinta antiga, pois que em i5 de Outubro da era de 1396 (i358 A. D.) foi 
coutada a « quinta da Cavalaria em Vouzela, julgado de Lafões, » a Gonçalo 
Mendes de Vasconcelos «cavaleiro de nossa corte», declarando-se que já 
propriedade gozava desde tempos antigos deste privilégio que havia sid 
confirmado pelos reis anteriores (2). Nos Vasconcelos, descendentes de 
Gonçalo Mendes, se conservou a posse até seu quarto neto D. João de Vas- 
concelos, 2. conde de Penela, que pelos anos de 1497 vendeu a quinta com 
licença régia a Fernando Lopes de Almeida, cavaleiro da casa de El rei, 
que lhe confirmou os antigos privilégios da propriedade em 17 de Maio d 
referido ano (3). 

Este documento é precioso. Serve não só para mostrar o tempo em que 
a quinta da Cavalaria entrou na família dos Almeidas, mas também para 
nos provar que Duarte de Almeida, o famoso Decepado, nunca foi senhor 
de tal quinta, e que até não eram seus descendentes, nem talvez parentes 
próximos, os Almeidas donos dela. A coisa já aqui está clara, mas deixe 



(1) Chancelaria de D. Pedro /, liv. fl. 53 v., envolvido em outros documentos. 

(2) Chancelaria de D. Manuel, liv. 3o.°, fl. 100. 

(3) Ibidem, liv. 3o.°, fl. 100. 



Almeidas 



3oj 



estar o leitor, que eu lhe prometo de lha pôr logo mais transparente do que 
a água do Sado na barra de Setúbal. 

Arredada por esta forma a tal preconizada posse imemorial desta quinta 
dos Almeidas, que dela foram senhores, tenho de passar estes, que não re- 
montam ale'm do século xv, à segunda plana, e de procurar as sucessões aos 
Almeidas antigos, de que tenho encontrado memória. Quási tudo quanto 
vou dizer é diferente do que se acha escrito e ate' impresso; mas irei sempre 
com todo o cuidado, tacteando o terreno, firmando-me em documentos, e 
aceitando muito pouco do que dizem os linhagistas, mentirosos por ofício ou 
amor próprio. Seja eu muito embora omisso; prefiro muito essa pecha à 
de demasiadamente crédulo e fácil; e, se alguém me suposer vaidades, res- 
pondo-lhe com o que deixei escrito na pág. 29 do i.° volume. 

Fernão Canelas foi senhor das quintas do Pinheiro e de Canelas na fre- 
guesia de Azurara, e pai de João Fernandes, fundador da aldeia de Almeida, 
já falecido em 1258. Foi este, como acima fica dito, o chefe e progenitor 
da família e talvez seja avô de outro João Fernandes de Almeida, que se diz 
ter sido pai de Lourenço Anes de Almeida, cuja existência está provada. 

Foi em Lourenço Anes de Almeida que se reatou a sucessão da linhagem, 
e é este o seu mais antigo progenitor depois dos fundadores da geração, e 
portanto o renovo de onde saiu toda a ramagem. Foi Lourenço Anes 
alcaide dos castelos de Linhares e Castelo Mendo por duas cartas de El rei 
D. Fernando ambas de 2 de Março da era de 1405 (1367 A. D.), e que estão 
na sua chancelaria registadas uma após outra (1). Advertirei que nesses 
tempos o alcaide do castelo, como o foi Lourenço Anes, correspondia ao 
que depois se chamou alcaide mor. 

Desse fidalgo foi filho Martim Lourenço de Almeida, alcaide do castelo 
da Covilhã, e senhor do couto de Alcambar com seus moinhos, no almoxa- 
rifado da Guarda, por carta de b de Abril da era de 1442 (1404 A. D.) (2). 

Foi vassalo de D. João I, e tão seu aceito, que a seu rogo doou El rei a 
terra e celeiro de Mossâmedes, no julgado de Lafões, a seu parente João de 
Almeida, para quem a pediu, alcançando carta em Viseu a 3o de Janeiro da 
era de 1448 (1410) (3). 

Gozava de uma tença de cem mil libras pagas no almoxarifado da Guarda, 
e que recebeu nos anos de 143 1 a 1435 inclusive, pelo que se vê que ainda 



(1) Liv. 1.», fl. i3 v. 

(2) Chancelaria de D. João I, liv. 3.°, fl. 6 v. 

(3) Ibidem, fl. 108. 



3o8 



Brasões 



vivia neste último ano(i). Casou, segundo dizem os nobiliários, com Inês 
Vaz de Castelo Branco, filha bastarda de Martim Vaz de Castelo Branco 
alcaide da Covilhã e Moura, e monteiro mor (2). E provável ser isto exacto, 
atendendo a muitos descendentes deste casamento se terem apelidado Al- 
meidas Castelos Brancos, e a dois bisnetos se terem chamado Martim Vaz; 
um de Almeida, outro de Gouveia. 

De Martim Lourenço de Almeida foram filhos, Pero Lourenço de Almeida 
e Martim de Almeida. Deles tratarei um após outro. 

Pero Lourenço de Almeida, almotacé mor, foi, com Diogo Fernandes de 
Almeida, vedor da fazenda, e com o filho deste, Lopo de Almeida, também 
vedor da fazenda e depois i.° conde de Abrantes, um dos três grandes vultos 
da família dos Almeidas no reinado de D. Afonso V. De roda dêles têm 
agrupado os genealogistas os mais membros da família, e dêles quiseram 
derivar diferentes ramos. Para os da casa de Abrantes, que teve suces- 
sores directos, que logo se distinguiram pelo título de dom tomado em 
seguida à criação do condado, fácil foi a tarefa. Para os Almeidas de Pero 
Lourenço, como êste não tivesse tido filhos, a casa passasse para seu irmão, 
e os filhos dêste tivessem vivido em relativa obscuridade, foram muito 
caprichosas, confusas e erradas as deduções genealógicas tiradas pelos linha- 
gistas, que nunca se prenderam com coisas poucas, e a quem foi sempre fácil 
dizer tão depressa branco, como logo preto. 

Pero Lourenço durante muito tempo passou por ter sido o pai do famoso 
Duarte de Almeida, o Decepado; foi preciso que aparecesse impressa uma 
sentença pela qual se provava que aquele tinha morrido sem filhos, para 
que êle fôsse apeado de pai do herói (3). Então arranjaram os escrevinha- 
dores de famílias um Pero Lourenço de Almeida, que não tivesse sido almo- 
tacé mor, e a êste conservaram a paternidade, o que levianamente, agarrado 
aos seus nobiliários em que tanto cria, seguiu Camilo Castelo Branco (4). 
Outros viraram de bordo, e trataram de filiar ao alferes de Toro em qual- 
quer Almeida, mais ou menos inventado também. 

(1) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 18. , fl. 63. 

(2) S.» de Simão Vas de Castello Branco bisneto legitimo de Martim Lourenço de Al- 
meida reposteiro mor de El Rey Dom João o primeiro e de D. Leonor Vasques de Castello 
Branco f. de Martim Vasques de Castello Branco monteiro mor deste Reyno seu terceiro avo. 

Escudo partido em pala, na i." Castros de 6 arruelas (é confusão, há de ser Almeidas), 
na 2." leão rompente. 

Sepultura na igreja da Misericórdia do Louriçal, no corpo da igreja, junto aos degraus 
da capela mor. 

[Carta de Aníbal Fernandes Tomás, Figueira, 12-VIH-903]. 

(3) António da Gama, Decisionum, pág. 368 mihi. 

(4) Noites de insomnia, n.° 4, pág. 77. 



Almeidas 



309 



O verdadeiro Pero Lourenço de Almeida foi almotacé da corte, como se 
lhe chama na carta de nomeação, ou almotacé mor, como é designado nos 
mais documentos de D. Duarte. Logo depois da morte deste rei foi confir- 
mado no ofício pelo infante D. Pedro, regente em nome de D. Afonso V, 
por carta de 28 de Novembro de 1438(1). Por este documento consta que 
Pero Lourenço fora criado da rainha D. Leonor, para cujo bando se encostou, 
quando começaram as diferenças, e com ela estava nos fins do ano seguinte 
em S. Antão do Tojal. Aqui, reunindo-se o conselho, distinguiu-se por 
mais sisudo e politico o voto de Pero Lourenço, cuja opinião contudo não 
prevaleceu (2). 

Ida a rainha, depressa se congraçou o almotacé mor com o infante 
D. Pedro, a quem Martim de Almeida, seu irmão, merecia confiança (3); ou 
talvez que nem mesmo tivesse chegado a cair-lhe no desagrado. O caso é 
que o regente, em Penela, a 23 de Outubro de 1443, lhe coutou um rio em 
frente da sua quinta de Vila Corça, termo de Viseu, desde o pôrto de Fagil, 
até aos moinhos de Pequim (4); e a 8 de Março de 1443, em Santarém, lhe 
doou para si, seus herdeiros e sucessores, a quinta de Marim no termo de 
Tavira, que havia sido de Sancho Gomes (do Avelar) e indevidamente de 
outros depois da sua morte, em que havia vagado para a coroa (5). Ainda 
outra mercê lhe fez o mesmo príncipe em Lisboa a 6 de Setembro de 1448, 
que foi a da capela instituída por Lourenço Martins do Avelar, da qual fôra 
último administrador legal o já nomeado Sancho Gomes do Avelar, que por 
sua morte indevidamente a deixara a outro (6). 

Destas boas relações com o regente se não gabou o almotacé mor depois 
do desastre da Alfarrobeira. A quinta de Marim não sei o destino que deu, 
mas parece-me que a vendeu, ou trocou; para o rio de Vila Corça alcançou 
nova carta de encoutamento em 10 de Janeiro de 1400, encobrindo a ante- 
rior (7); e para a capela de Lourenço Martins, só depois de tudo esquecido, 



(1) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 18. , fl. 9 v. 

(2) Pina, Chronica de D. Afonso V, pág. 2S5. 

(3) Ibidem, pág. 3 11. 

(4) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 35.°, fl. 24 v. — Em i5 de Novembro de 1 36 1 fôra- 
-lhe já coutado o rio como se vê do seguinte extracto da carta régia : « Querendo fazer 
graça e mercê a Pero Lourenço, pousentador da infanta D. Leonor minha filha, temos por 
bem e coutamos-lhe um rio, que vai por diante á sua quinta que chamam Villa Corça, que 
é em termo de Vizeu, assim como vai por diante á dita quinta des o porto de Fagil até aos 
moinhos de Pequim, termo de Azurara, &. Lisboa i5 de Novembro era de 1429 (1391). 
— Chancelaria de D. João I, liv 4.», fl. 122 v. ». 

(5) Ibidem, liv. 25.°, fl. 69. 

(6) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 12. , fl. 17 v. 

(7) Ibidem, liv. io.°, fl. 20 v. 



3io 



Brasões 



e de estar bem seguro da graça de D. Afonso V, é que dêle impetrou em 
Santarém, a i5 de Abril de 1457, a carta de confirmação (1). Por ela não 
só se lhe reconheceu a posse da capela, cuja administração era a êle mais 
devida, do que a outra pessoa, por motivo daqueles que a primeiramente 
ordenaram (2); mas também se lhe concedeu o direito de por sua morte a 
nomear em quem quisesse, e até, no caso dêle morrer sem testamento, 
seguir a capela com os mais bens a seus herdeiros e sucessores. 

Parece contudo, que não teria sido muito preciso encobrir as suas rela- 
ções com o infante D. Pedro, ou por elas haverem sido pouco íntimas, ou 
porque êle soube logo inclinar-se ao bom lado. Digo isto, porque pouco 
mais de um ano depois da morte do regente, a 17 de Julho de 1450, fazia 
D. Afonso V mercê ao almotacé mor de uma tença de quatro mil trezentos 
e cinquenta e oito reais brancos e quatro pretos, à razão de trezentos e ses- 
senta e cinco reais brancos por mês, a contar do primeiro de Janeiro daquele 
ano (3). A suspeita converte-se em certeza por Pero Lourenço servir a 
D. Afonso V na guerra contra o infante D. Pedro; como consta de uma carta 
de perdão dada a Afonso Gonçalves em 20 de Junho de 1449 (4). 

Em 145 1 a 22 de Outubro já Pero Lourenço de Almeida era casado com 
Inês Gomes do Avelar (5), que a 1 1 de Março do ano seguinte teve mercê 
de uma tença de seis mil reais (6). Era ela filha de Guiomar Gonçalves de 
Azevedo e de seu marido Sancho Gomes do Avelar, senhor de Cascais, da 
quinta de Marim, de umas casas na Alcáçova de Lisboa, e da capela de 
Lourenço Martins do Avelar, que vinha a ser primo com-irmão de seu pai (7). 
Teve Inês Gomes um irmão, e várias irmãs, umas freiras, e outra, Leonor 
de Azevedo, mulher de Alvaro Rodrigues Valente. Dêstes cônjuges era 
filha Maria de Azevedo, que sua tia Inês Gomes do Avelar criara desde 
pequena, e a quem perfilhou por escritura de 9 de Maio de 1467, confirmada 
por D. Afonso V em 11 de Março de 1460(8). Esta sobrinha e herdeira da 



( 1) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 37. , fl. 107 v. 

(2) O parentesco neste documento apontado como existente entre Lourenço Martins 
do Avelar, instituidor da capela, e Pero Lourenço de Almeida, seu administrador, provinha, 
me parece, por afinidade e pela mulher do almotacé mor, que era Avelar. 

(3) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 34 o , fl. io3 v. 

(4) Ibidem, liv. 20. , fl. 43. , 

(5) Naquela data foi nomeado escrivão da moeda de Lisboa Pedro Vasques, sobrinho 
da mulher do almotacé mor. Ibidem, liv. 37. , fl. 5r. 

(6) Ibidem, liv. 12. , fl. 28 v. 

(7) Do instrumento de partilha, adiante citado, não constam os apelidos do pai nem da 
mãe, mas creio não errar, dando-lhes os do texto aproveitando induções tiradas deste mesmo 
documento e de outros. 

(8) Estremadura, liv. 5.°, fl. 197. 



Almeidas 



3n 



mulher do almotacé mor veio a casar em 1465 ou 66 com Duarte de Almeida 
o Decepado. 

Pero Lourenço e sua mulher Inês Gomes, achando-se velhos, sem filhos 
e sem esperança de os ter, e desejando ela dotar a sua referida sobrinha 
para a poder bem casar, resolveram fazer entre si partilha de seus bens. 
Alcançaram para isso um alvará de autorização de El rei, passado em 7 de 
Abril de 1457, e a i5 de Outubro do mesmo ano, em Lisboa, nas casas de 
morada do almotacé mor, na Alcáçova à porta dos paços de El rei, lavraram 
e assinaram a sua escritura de partilhas. Além de certos bens, que logo 
nomearei e que continuaram comuns ao casal para sustentação deste, divi- 
diram o resto em dois quinhões. Um quinhão foi formado das seguinte par- 
celas: dezasseis marcos de prata doirada em taças de bastiães e agumis, 
apreçado o marco a mil e quinhentos reais, avaliado tudo em vinte e quatro 
mil e quarenta reais; trinta e quatro marcos de prata chã, avaliado o marco 
a mil e quatrocentos reais, importando em quarenta e sete mil e seiscentos 
reais; duas colhares (sic) de duas onças de prata apreçadas em trezentos e 
cinquenta reais e dez reais em dinheiro. Somava a prata toda setenta e dois 
mil reais, a que se juntou, para completar o primeiro quinhão, um casal em 
Rio de Moiro. O segundo formou-se com o lugar e assentamento no Bar- 
reiro do Ribatejo, julgado de Alhos Vedros, com o casal de Montijo, e 
umas casas na Alcáçova de Lisboa, pegadas com as de morada, e partindo 
pelos outros lados com as casas de Fernão Gonçalves, salgador dos coiros, 
e com rua pública que vai para o castelo. 

Feitos os quinhões ofereceu-os Pero Lourenço a sua mulher, à escolha 
dela, que preferiu o primeiro, ajustando logo com o marido a venda do casal 
de Rio de Moiro, o que ele se obrigou a cumprir em certos pagamentos. 

Além dos bens nomeados permaneceram comuns ao casal os seguintes: 
uma quinta em Rio de Moiro, termo de Cascais, que é de pomares, vinhas 
e assentamento de casas; uma quinta na ribeira de Odivelas, a que chamam 
a Paiã, com seu assentamento de casas, vinhas, herdades, montados e suas 
pertenças, tudo em têrmo de Lisboa; e as suas casas de morada na Alcáçova 
á porta dos paços de El rei. Mais prédios se nomeiam ainda, que parece 
terem também ficado comuns, e que pelo menos se não partilharam. Eram 
eles: três moradas de casas em Lisboa, que traziam aforadas, duas na rua 
das Esteiras e uma à Ponte dos Paus; e bens na comarca da Beira: em 
Darei(i), terra de Azurara; em Vila Corça, têrmo de Viseu; e na Enco- 



(1) Houve uns Almeidas Vasconcelos morgados de Darei, não sei se por qualquer forma 
se poderão entroncar nos Almeidas do almotacé, e nem mesmo sei se não será mera coin- 
cidência, que é o mais provável. 



3 1 2 Brasões 

berta, terra de Penalva. Os bens da Beira tinham combinado com Martim 
de Almeida, irmão de Pero Lourenço, vendê-los êle por vinte mil reais se 
topasse a quem, e logo dele receberam a dita quantia por empréstimo. Re- 
solvem agora que, se Martim de Almeida quiser ficar com os bens pela refe- 
rida quantia lhos venderão, e a cumprir com esta disposição obrigam a seus 
herdeiros. 

Outros bens se não mencionam na referida escritura de partilha, e só se 
declara mais a referida tença que Inês Gomes tinha e com que ficou, e 
umas dívidas a que ela ficou também obrigada, e que eram: uma à irmã 
dela, Leonor Gomes de Azevedo, freira no mosteiro de Semide, proveniente 
dos bens que lhe haviam comprado das heranças de Sancho Gomes e Guio- 
mar Gonçalves, pais de ambas elas, e da de seu irmão João Gomes; a outra 
dívida era também a uma irmã de Inês, Guiomar Lopes de Azevedo, freira 
em Tarouquela. 

Da escritura alcançaram os cônjuges confirmação de El rei em Sintra a 
8 de Novembro de 1457 (1). 

Escuso de encarecer a preciosidade das informações que êste documento 
me subministrou, em resultado das quais posso assegurar muita parte do 
que irei dizendo, sem estar agora, aqui, a fazer comentários, que dariam 
unicamente lugar a repetições. 

Mais nada sei do almotacé mor Pero Lourenço de Almeida, só que ainda 
era vivo e estava em Santarém no dia 9 de Janeiro de 1460 (2). De sua 
mulher ainda menos sei, e por conjectura suponho que entre êles é que seria 
tratado o casamento da sobrinha dela, Maria de Azevedo, com Duarte de 
Almeida, sobrinho direito não afirmarei, mas talvez filho de primo com-irmão 
dêle. 

Pero Lourenço de Almeida foi sepultado na igreja da Graça de Lisboa, 
segundo o declara em seu testamento seu sobrinho neto Martim Vaz de Al- 
meida, instituidor do morgado da Paiã, como logo referirei. 

Martim de Almeida, o irmão de Pero Lourenço, foi fidalgo muito conhe- 
cido na corte, e justador afamado. Em 1434, com seu tio Pero Vaz de 
Castelo Branco e outros, fez parte da quadrilha de aventureiros que, capita- 
neados por João de Melo, foram à ponte de Orbigo a três léguas de Astorga 
disputar o assinalado passo honroso de Suero de Quinones, onde Martim 
de Almeida correu catorze carreiras, quebrando três lanças (3), 



(1) Místicos, liv. 3.°, fl. 296. 

(2) Foi naquela data uma das testemunhas em uma procuração passada por Diogo da 
Silveira, escrivão da puridade, a qual se achava junto a uns autos. — Severim de Faria, 
Torre do Tombo, vol. 2. , fl. 333 v. da minha cópia. 

(3) Libro dei passo honroso, pág. 32 e seguintes, mihi. Nestas justas que duraram de 



Almeidas 



3i3 



Foi Martim de Almeida, provavelmente pela sua legítima paterna, her- 
dado na Beira nos coutos de Viseu e por isso lhe deu D. Duarte para aquela 
correição privilégio de vassalo, que foi confirmado no reinado seguinte a 9 
de Janeiro de 1439(1); mas foi morador em Santarém. Não se suponha 
que eu faço confusão entre dois Martins de Almeida contemporâneos, porque 
tenho aqui presente e clara uma carta dada em Sintra a 18 de Novembro 
de 1460, pela qual D. Afonso V, como se não tivesse existido a precedente, 
que lhe não foi apresentada por ser do infante D. Pedro, renova o privilégio 
de fidalgo para as justiças da correição da Beira a «Martim de Almeida, 
cavaleiro, nosso vassalo, morador em Santarém, criado de El rei meu pa- 
dre » (2). 

E este o mesmo Martim de Almeida, cavaleiro de Santarém, que em fins 
de 1440, quando a rainha D. Leonor abalou de Almeirim para o Crato em 
revolta aberta contra o infante regente, ficou, por ordem deste, depositário 
dos bens dos moradores da casa da rainha que fossem encontrados no lugar 
de onde retirara (3). E também o mesmo que quatro anos depois, a 29 de 
Dezembro, foi nomeado coudel de Santarém por cinco anos (4). Ainda é o 
mesmo que tinha desde o tempo de D. Duarte uma tença de trinta e quatro 
mil duzentos e oitenta e seis reais, paga no almoxarifado de Santarém, e 
que D. Afonso V lhe confirmou em Évora a 27 de Abril de 1450(0). É 
finalmente o mesmo que só alcançou carta de privilégio de vassalo em forma 
a 5 de Fevereiro de 1454(6). 

Sucedeu Martim de Almeida na capela de Lourenço Martins do Avelar 
a seu irmão o almotacé mor (7), e dêle herdou ainda outros bens, e entre 
estes a quinta da Paiã em Odivelas, a qual, sem disso se fazer alardo, entrou 
na posse dos Almeidas muito antes da famosa quinta da Cavalaria, pcis que 
esta só foi adquirida em 1497 por Fernão Lopes de Almeida; e a outra já 
em 1457 constituía um dos bens partilháveis da Pero Lourenço de Almeida. 
Tudo isto lá fica atrás provado. 

12 de Julho a 9 de Agosto de 1434, estiveram desde o princípio o rei de armas Portugal e 
seu passavante Sintra. Muitos cavaleiros lá foram correr suas lanças, tendo a quadrilha de 
João de Melo entrado na liça no dia 23 de Julho. O D. João de Portugal, que lá apareceu, 
não era contudo português, mas sim filho do conde de Buelna, D. Pedro Nino, e neto por 
sua mãe do infante D. João, filho de D. Pedro I. 

( 1 ) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 26. , fl. 160. 

(2) Ibidem, liv. 12. , fl. :32 v. 

(3) Pina, Chronica de D. Afonso V, pág. 3i 1. 

(4) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 25.", fl. 71. 

(5) Ibidem, liv. 34. , fl. 61. 

(6) Ibidem, liv. io.°, fl. 20. 

(7) Gama, Decisionum, pág. 36S, mihi. 

vol. u 40 



3 14 



Brasões 



Martim de Almeida já era falecido em 1488, ano em que a referida capela, 
por êle nomeada em sua filha Brites de Almeida, foi confirmada ao marido 
-desta, Pedro de Gouveia (1). O resto da sua casa, pelo menos a quinta 
da Paia e vários prédios em Lisboa, passaram porém a seu filho primogé- 
nito. 

Não se pode nomear ao certo a mulher de Martim de Almeida, pois que 
o seu nome se não encontra em documentos contemporâneos (2). Contudo, 
dizem os nobiliários, citando alguns o testamento de Fr. Lopo Dias de 
Aragão, comendador do Mercado da Guarda, documento que eu não vi, e 
dizem-no também alguns papéis jurídicos inclusos em autos (3), que aquele 
fidalgo fôra casado com Maria de Orneias, da ilha da Madeira (4). 

Nomeiam-se muitos filhos a Martim de Almeida; os certos são: Fernão 
de Almeida, que sucedeu na casa, de quem logo me ocuparei; Diogo de Al- 



(1) Supra. 

(2) Contemporâneo dêste Martim de Almeida, senhor da quinta da Paia, existiu outro 
que porém já era falecido com certeza em 1455, e provàvelmente em 1442. 

Este outro Martim de Almeida foi casado com Isabel Gonçalves, colaça de el Rei 
D. Duarte e ama de D. Afonso V, à qual D. João I havia dado mil coroas em casamento 
com Martim, e à qual já viúva deu D. Afonso V uma tença de vinte mil reais por carta de 
18 de Julho de 1455. (Chancelaria de D. Afonso V, liv. i5.°, fl. i3o). 

A pedido da mesma Isabel Gonçalves «nossa ama» mulher que havia sido de Martim de 
Almeida, fez o dito rei mercê da carta de privilégio de serviços a João de Almeida, morador 
na Pederneira, em 10 de Setembro do mesmo ano. (Ibidem, fl. 86 v.). 

Este João de Almeida deverá ser o mesmo, também morador na Pederneira, que era 
colaço de Martim de Almeida, o cavaleiro da nossa casa», ao qual se passou carta de privi- 
légios em i3 de Junho de 1434, confirmada em i3 de Janeiro de 144.2, não se nomeando já 
então a Martim, por onde se pode entender que era morto. (Ibidem, liv. 2. , fl. 1 36 v.). 

De Martim de Almeida e de sua mulher Isabel Gonçalves foi filha Leonor de Almeida, 
colaça de D. Afonso V, que lhe prometeu mil coroas de oiro em casamento com Lourenço 
de Beça, seu fidalgo, e, emquanto lhas não pagava, lhe mandou passar padrão de dez mil 
reais de tença no almoxarifado de Santarém por carta dada em Évora a i3 de Abril de 1450. 
(Ibidem, liv. 34. °, fl. 91. v.). — Em documento de 1 1 de Outubro de 1446 aparece um Martim 
de Almeida casado com uma irmã de Fernando Afonso Colaço, morador em Santarém. 
(Ibidem, liv. 5.°, fl. 79, Arquivo histórico português, III, pág. 436). Este Fernando Afonso 
Colaço era irmão de Isabel Gonçalves, mulher de Martim de Almeida, mencionado na nota. 
(Vide Genealogias impressas de Canais, pág. 5o). 

(3) Registo do Real Archivo da Torre do Tombo, liv. 43. °, fl. 1 33 v. 

(4) Existiu próximo a estes tempos um Martim de Almeida, que do Funchal em 1 de 
Abril de i5oi mandou uma carta a el Rei, pela qual se vê que não havia muito que chegara 
à Madeira, onde fôra tratar de negócios relativos aos quartos, e, alardeando serviços, pede 
o ofício, que vagara, de procurador dos direitos reais na ilha. (Corpo chronologico, part. I, 
maç. 3, doe. 5o). 

Talvez que este Martim de Almeida seja o que casou com Maria de Orneias. 



Almeidas 



3i5 



meida, que nas listas de D. Afonso V aparece como escudeiro fidalgo com 
mil reais de moradia nos anos de. 1476, 80 e 84, sendo algures designado 
por ser do couto de Viseu, e noutro lugar por sobrinho do almotacé mor; 
mas não é, nem pode ser, o Diogo de Almeida, que em 1488 foi confirmado 
na escrivaninha dos contos do almoxarifado da Guarda, como se lê em alguns 
nobiliários; e Beatris de Almeida em quem seu pai nomeou a administração 
da capela de Lourenço Martins do Avelar, e que foi mulher do licenceado 
Pedro de Gouveia (1). 

Também se diz ter sido filho de Martim de Almeida um Lopo Vaz de 
Almeida, de quem fazem descender os Almeidas Castelos Brancos dos coutos 
do Louriçal; porém, quando se pensou em apresentar a estes como opoentes 
à denunciada capela da Paiã, os fizeram descendentes de Simão Vaz de 
Castelo Branco, irmão do pai do instituidor do vínculo (2). 

Fernão de Almeida, o filho mais velho de Martim de Almeida, foi moço 
fidalgo na lista de 1469, e escudeiro fidalgo com mil reais de moradia nas 
listas de 1479 e 84. Foi senhor da quinta da Paia, que herdou de seu pai, 
bem como aquelas três casas em Lisboa, duas na rua das Esteiras e uma 
na Ponte dos Paus, que haviam já sido de seu tio o almotacé mor. Em i523, 
por escritura de 9 de Outubro, aforou em primeira vida aos frades da Pie- 
dade de S. Domingos de Azeitão um prazo junto à sua quinta da Paiã, prazo 
que depois se chamou quinta da Azenha Velha, nome por que ainda hoje é 
conhecido (3). Casou Fernão de Almeida com Maria Gil Magra, filha de 
Gil Gonçalves Magro e irmã de Rui Gil Magro (4). Dizem que os cônjuges 



(1) Gama, Decisionum, pág. 368. 

(2) Registo do Real Archivo, etc, liv. 43. , fl. i33 v. 

(3) Padre José Baptista Pereira, actual prior de Carnide, Memorias de Carnide, ms. 
com muita investigação, feita toda sôbre documentos, e que pena será se não fôr impressa. 
As Memorias estão actualmente publicadas em O Instituto de Coimbra. 

(4) Cit. Registo, liv. 27. , fl. 3 1 5. — Rui Gil Magro foi efectivamente capitão e anadel 
mor dos bèsteiros da câmara de D. João II, por carta dada em Évora a 20 de Abril de 1491, 
a qual Rui de Pina fez. (Chancelaria de D. João 77, liv. io.°, fl. 29 v.). Néla se declara suceder 
Rui Gil a Francisco Portocarreiro, que se finara, e se lhe dá poder para escolher e examinar 
todos aqueles bèsteiros que para a câmara real forem pertencentes, e assim para pôr p>or 
anadéis, escrivães e oficiais dos ditos bèsteiros, quaisquer pessoas que lhe aprouver, etc. 
D. Manuel confirmou-lhe o ofício por carta dada em Estremoz a 18 de Janeiro de 1497. 
(Chancelaria de D. Manuel, liv. 27. , fl. 14 v.). 

A respeito de Francisco Portocarreiro temos a carta de besteiro da câmara a João 
Afonso, ourives, morador em Évora, dada nesta cidade a 24 de Novembro, por Gil Fernandes, 
cavaleiro de sua casa e seu escrivão da câmara e comendador da Azambuja e Vila Nova, 
que ora per seu especial mandado tem carrego de anadel mor dos ditos bèsteiros da câmara 
em logo do dito Francisco Portocarreiro, ano de 1489. (Chancelaria de D. João 77, liv. 17. °, 
fl. 25); e ainda temos outra carta «feita em Évora a 3o de Abril, el Rei o mandou por Fran- 



3i6 



Brasões 



ainda eram parentes por ter sido mulher de Gil Gonçalves, que foi morador 
em Évora, Joana Palha de Almeida, filha de um Mera Palha de Almeida, 
do sangue desta geração (i). Rui Gil Magro, o cunhado de Fernão de Al- 
meida, foi anadel mor dos besteiros de D. João II e D. Manuel, e teve um 
irmão cavaleiro da casa de el Rei, que se chamou Diogo Gil Magro, e foi 
assassinado no castelo de Arraiolos pelos filhos de Alvaro Mendes do Es- 
porão. 

Fernão de Almeida, sua mulher e seu filho primogénito, foram todos se- 
pultados na igreja da Graça de Lisboa, porém em túmulo apartado do de 
Pero Lourenço de Almeida, que também lá jazia. De Fernão e de Maria 
Gil nasceram estes filhos: 

i.° — António de Almeida, que seguirá. 

2. — Martim Vaz de Almeida, que foi fidalgo da casa real, e sucedeu, 
parece que directamente a seu pai por já ser morto seu irmão, nos princi- 
pais bens da casa. Foi por este facto senhor da quinta da Paiã em Odivelas, 
do prazo de Azeitão, depois denominado quinta da Azenha Velha, nos mesmos 
sitios, onde ainda possuía outros prédios, de duas casas na rua das Esteiras 
em Lisboa, e de outra na mesma cidade à Ponte dos Paus, bens de que 
formou um morgado, que instituiu em seu testamento^ anexando-o à capela 
que já possuía na igreja da graça de Lisboa. Foi o testamento feito em 
Carnide a 1 1 de Abril de 1 555, estando o testador muito doente, e tanto 
que quatro dias depois, a i5, morreu solteiro. Mandou-se enterrar na refe- 
rida igreja no jazigo e sepultura de seu pai, mãe e irmão, e no caso da dita 
sepultura estar por qualquer motivo estorvada, manda que se levante na 
mesma igreja o túmulo de Pero Lourenço de Almeida, almotacé mor, e aí 
o lancem à banda esquerda (2). Por aqui se vê que Martim Vaz dispunha 
da sepultura de Pero Lourenço, como seu representante que era. Nomeou 
para primeira administradora do morgado a sua sobrinha Maior de Almeida, 
e a seus descendentes, e na falta ao irmão desta Afonso Lopes de bulham. 

cisco Porto Carreiro, cavaleiro de sua casa e anadel mor dos seus besteiros da camará», de 
1490. (Chancelaria de D. João II, liv. i3.°, fl. 123 v.). 

Além deste oficio teve êle também o de recebedor do tesoiro de D. João IÍ, e no Corpo 
chronologico, no maç. 2. da i. a parte, existem muitos mandados passados a Rui Gil desde 
22 de Janeiro até i3 de Dezembro de 1493. Não foi porém só neste ano que ele teve cargo 
da dita recebedoria; dela esteve também entregue nos quatro anos de 1491 a 1494, como 
consta da carta de quitação que D. Manuel lhe mandou passar em Lisboa a )3 de Outubro 
de 1 5 1 4. (Chancelaria de D. Manuel, liv. 1 1.°, fl. 1 15). Este documento, muito interessante, 
já o fiz imprimir no Jornal do Comércio, de 3 de Maio de 1902. Quando a quitação foi 
dada, já Rui Gil era falecido, mas existiam sua viúva Isabel de Figueiredo e filhos menores. 

(1) Os autores heráldicos usam dar aos Palhas as armas dos Almeidas. 

(2) Memorias de Carnide, cit.; Registo, cit., liv. 27. , fl. 3oõ. 



Almeidas 3 1 7 

Impõe, além de certas obrigações de missas ditas na igreja da Graça, o uso 
do apelido de Almeida aos administradores, que serão sempre desta linhagem; 
e a exclusão das fêmeas, havendo varões, e a dos bastardos. D. Maior de 
Almeida casou com D. Pedro de Meneses, e em 1602 residia na sua quinta 
de Paiã(i); porém em 1618 já tinha morrido sem deixar filhos, tendo sobrevi- 
vido a seu nomeado irmão, que em 1 S78 falecera também sem descendência (2). 
E logo nesta ocasião efectivamente, como só dois séculos depois se senten- 
ciou, vagou o morgado ou capela de Paiã para a coroa, por se terem extin- 
guido sem sucessão os dois chamados, e porque os Almeidas, descendentes 
do irmão do instituidor, o eram por bastardia, que estava excluída da sucessão. 
Porém ainda a êste tempo não caíram estes prédios na posse da coroa. 
D. Maior de Almeida nomeou o morgado em Gaspar Cota Falcão, seu 
primo segundo, pela linha dos Magros, por serem ambos bisnetos de Gil 
Gonçalves Magro. A Gaspar sucedeu seu filho Martim Cota Falcão, e por 
morte dêste passou o vínculo a seu parente Miguel Soares de Vasconcelos, 
quarto neto por uma linha de França Monizes do referido Gil Gonçalves 
Magro. Quere dizer, que logo depois da morte da primeira chamada, 
começou o morgado de Paiã a andar em indivíduos que não eram da geração 
dos Almeidas, e que portanto não o podiam administrar, em virtude do que 
expressamente deixara determinado o instituidor. Em 1618 porém principiou 
um pleito que durou a bagatela de sessenta e sete anos, até nele se lavrar a 
primeira sentença, a qual é de 2 de Novembro de i685. Por ela foi man- 
tido na posse do morgado o referido Vasconcelos, \ apesar de não ser do 
sangue dos Almeidas, diz a própria sentença ! e excluído da administração a 
autor, João Freire de Almeida Castelo Branco, porque, ainda que era Al- 
meida, o não era contudo por linha legítima. Com razão se não conformou 
êste com a sentença, e, apelando, lhe foi desembargada a administração da 
capela da Paiã pela casa da suplicação no ano de 1697(3). A João Freire 
tornarei a referir-me logo, e então resumidamente narrarei o que mais sucedeu 
-à quinta. 

3.° — Diogo Fernandes de Ajmeida que foi cavaleiro de Rodes, tendo 
para entrar na ordem tirado, segundo dizem, em Lisboa, a 27 de Maio de 
i5ií, uma inquirição de testemunhas provativa da sua ascendência. Em 
1 555, em seguida à morte de seu irmão Martim Vaz, foi administrador da 
•capela de Lourenço Martins do Avelar, sendo já então comendador de Mon- 
touto, Elvas, Serpa e Moura. Vivia o comendador de Rodes Diogo Fer- 



(1) Memorias de Carnide, cit. 

(2) Registo, liv. 43 .°, liv. 1 33 v. 

(*) Registo do Real Archivo da Torre do Tombo, liv. 27. , fl. 3 10 e seg. 



1 



3i8 



Brasões 



( 



nandes de Almeida em Carnide em 1570, quando foi preso pela inquisição- 
de Lisboa um seu sobrinho, ignoro por que banda, chamado Diogo de Al- 
meida (1). Mais nada sei do comendador. 

4. — Francisco de Almeida que também foi cavaleiro da ordem de 
S. João de Rodes. 

5.° — Leonor de Almeida, que foi mulher de António Lopes de Bulham, 
senhor do morgado de Bulhaco da família de S. António. Deste casamento 
nasceu Afonso Lopes de Bulham, que morreu sem descendência na de 
Alcácerquibir (2); Manuel Lopes de Bulham, padre da companhia; e D. Maior 
de Almeida mulher de D. Pedro de Meneses, o Púcara Velha, tio do 2. conde 
de Tarouca, e senhora, que foi, dos morgados de Bulhaco e da Paiã, dos 
quais, um passou por sua morte a D. Manuel Alvares da Cunha, e o outro 
a Gaspar Cota Falcão. 



(1) Tem o processo de Diogo de Almeida o n.° 240 dos da inquisição de Lisboa, e é 
curioso por muitos motivos, mas sobretudo por que nos vem mostrar, que a famosa intei- 
reza do Santo Ofício também se dobrava, quando dava de frente com poderosos. Diogo de 
Almeida denunciou a D. Fulgêncio, prior de Guimarães, e tio do duque de Bragança. 
Assarapantaram-se os inquisidores, e recorreram ao inquisidor geral o cardeal infante 
D. Henrique. Mandou-lhes este o seu capelão Domingos Simoes, secretário do conselho 
geral da inquisição, levando instruções verbais e uma carta credencial para o inquisidor 
geral Simão de Sá Pereira. Apresentou-se o capelão em mesa a 12 de Maio de iSyo, e deu 
a ler a carta toda cautelosa, em que, referindo-se «aquella pessoa dantre douro e Minho 
sobre que me screuestes», manda dar crédito a tudo quanto o portador disser. A carta é 
datada de Almeirim a 10 do referido mês. 

As instruções verbalmente dadas ao emissário e que «s. Al. por ser o caso de tanta 
importância não quiz sobriso escreuer», mandam observar rigoroso segredo sobre o sucesso, 
obrigando todos os que dêle tivessem conhecimento a novos juramentos. Determinam 
mais que «se risque nos autos o nome da tal pessoa e se faça nêles termo a requerimento 
do promotor de como se riscou por mandado de s. Al....»; que se traslade uma pública 
forma autêntica de tudo que constar para se mandar ao cardeal a fim de êle ver o que lhe 
cumpre fazer; que tudo, que mais acrescer contra a tal pessoa, se tome em papel separado 
«e se nomee-por foão»; que «s. Al. toma o negocio a seu cargo e lhe dará o despacho que 
verão»; e que se proceda contra os mais. 

Não sei que castigo o cardeal daria ao parente, pois que, se o privou da abadia de S. Sal- 
vador de Travanca, por isso o indemnizou em dinheiro. Talvez lhe mandasse rezar uns 
poucos de terços, ou até de rosários, o que D. Fulgêncio fez sossegadamente em Guimarães,. 
Tratando de S. Guálter, emquanto outros gemiam por toda a vida nas galés. E o pior foi 
que se não guardou o segredo, porque um dos presos gritava pelos corredores dos cárceres 
a propósito do D. prior de Guimarães, nomeando-o pelo seu nome: «Com esse Christo 
está ! » 

(2) [Afonso Lopes de Bulhão faleceu em 8 de Junho de 1577 na freguesia da Sé de Lisboa 
deixando por testamenteira sua irmã, conforme se lê no registo daquela freguesia recente- 
mente publicado. — Nota da revisão]. 



Almeidas 



António de Almeida, o «irmão maior» (1) de Martim Vaz de Almeida 
instituidor do morgado da Paia, morreu provavelmente em vida de seu pai 
Fernão de Almeida, deixando de Isabel Soares a outro António de Almeida 
-que foi criado em casa de seu tio Martim Vaz, que em seu testamento por 
descargo da sua consciência lhe emprazou o prazo de Azeitão, hoje quinta 
da Azenha Velha em Odivelas (2). Saiu êste prédio (3) por algum tempo da 
família, não sei como, mas a ela voltou em 17 de Setembro de 1721 por 
compra feita por Martim Vaz de Almeida Castelo Branco, quarto neto do 
segundo António de Almeida, que fora casado com Isabel Dias de Figuei- 
redo (4), de quem teve a Marcos de Almeida Castelo Branco. Foi êste 
casado com Lucrécia Ribeiro de Cosgaia, de quem teve única a D. Maria de 
Almeida, mulher de Luís Freire de Andrade, cavaleiro fidalgo e da ordem 
de Cristo. Dêste casamento nasceu primogénito João Freire de Almeida 
Castelo Branco (5) que pela referida sentença de 1G97 veio a ser o 5.° senhor 
do morgado da Paiã, de que depois dêle houve estes administradores: sua 
filha D. Feliciana Josefa de Almeida Castelo Branco, casada com Sebastião 
de Freitas de Macedo, provedor dos contos do reino; seu neto Martim Vaz 
de Almeida Castelo Branco, que nasceu a 28 de Agosto de 1688 e morreu 
a 17 de Setembro de 1763; e seu bisneto António José de Almeida Castelo 
Branco, que morreu pelos anos de 1780, sem deixar filhos. Então passou 
o morgado a sua prima, filha de seu tio Diogo Fernandes de Almeida Cas- 
telo Branco, D. Ana Clemência de Almeida Castelo Branco, que foi a 9.* e 
"última administradora do morgado, ou capela da Paiã, a qual, sendo denun- 
ciada à coroa, lhe foi tirada por sentença de 24 de Janeiro de 1801 (6), con- 
firmada na Relação em 20 de Fevereiro de 1812 por não ter sido possível 
provar a legitimidade do segundo António de Almeida (7). Morreu D. Ana 
Clemência solteira, na Paiã, em 20 de Setembro de 1806, sucedendo-lhe na 
demanda e noutra capela que ela tinha em Palaios, têrmo de Alenquer, sua 



(1) Registo do Real Archivo, liv. 7>-]. n , fl. 3 10 v. 

(2) Memorias de Carnide, cit. 

(3) Esta pobre quinta da Azenha Velha é hoje memorável pela estada ali do grande 
poeta Castilho, que em 6 de Maio de 1839, vindo de casar na igreja das Chagas, se recolheu 
àquele risonho ermo a passar a lua de mel. Lá compôs algumas das suas poesias, e lá viveu 
feliz. {Memorias de Castilho, liv. III, cap. XXIII). 

(4) Registo do Real Archivo, liv. 27 .°, fl. 3 1 5. 

(5) Em 7 de Janeiro de 1700 teve carta de brasão (escudo esquartelado de Almeidas e 
Castelos Brancos, com uma estrela por diferença), tendo apresentado a sentença por que 
-lhe foi julgado o morgado da Paiã. (Brasões inéditos, n.° 275). 

(6) Registo do Real Archivo, etc, liv. 27. , fl. 3i5; « Memorias de Carnide, cit. 

(7) Ibidem, liv. 43.°, fl. i35. 



320 



Brasões 



irmã D. Feliciana Josefa de Almeida Castelo Branco, que morreu a 14 de 
Fevereiro de 1812 (seis dias antes de confirmada a sentença, que lhe tirou o 
morgado de seus maiores) viúva de António de Melo da Silva e Vasconcelos, 
que havia falecido a 4 de Novembro de 1810(1). E parece que então se 
extinguiu esta linha. 

Do referido João Freire de Almeida Castelo Branco, 5.° senhor do 
morgado da Paiã, foi sobrinho Manuel de Almeida Castelo Branco, que 
morreu em 22 de Dezembro de 1743, deixando instituído em testamento 
o morgado da Luz que nomeou em sua filha D. Maria Inácia de Almeida 
Castelo Branco, que a 8 de Janeiro de 1 -52 casou com o ministro residente 
da Prússia, Hermano José Braamcamp. 

IV 

DUARTE DE ALMEIDA, O DECEPADO 

De roda do velho tronco dos Almeidas, que no precedente capítulo levantei 
de suas raízes, se lançaram vários ramos, dos quais os mais chegados a ele 
são os que vêm de Duarte de Almeida, o Decepado, e de Gonçalo Pires 
de Almeida, i .° senhor de Mossâmedes. Depois, mais afastados, e, se não 
ramos do mesmo tronco, de certo vergônteas frondosas da mesma raís, se 
nos oferecem os Almeidas das casas de Abrantes e da Cavalaria. Além 
destes, muitos ramúnculos haverá, mas dêles não tratarei para poupar ao 
leitor e a mim. 

Será o assunto deste capítulo Duarte de Almeida, o famoso alferes da 
batalha de Toro; no seguinte irão os senhores de Mossâmedes, depois os 
condes de Abrantes, a linha que se apelidou do Sem daqueles derivada, e 
por último os Almeidas da Cavalaria. 

; Não posso dizer quem foi o pai de Duarte de Almeida! 

Aquele que os nobiliários antigos lhe dão, Pedro Lourenço de Almeida, 
já, com documentos à vista, provei que não o podia ter sido. Desprezando 
as invenções dos genealogistas, direi que me inclino a que o Decepado tivesse 
sido filho de um João Fernandes de Almeida, cavaleiro fidalgo com mil e 
quatrocentos* reais de moradia em 1462 nas listas de D. Afonso V (2). O 
facto de êle ser cavaleiro fidalgo mostra que já não era novo ao tempo, pois 
que, não pertencendo a família principal, só depois de muitos serviços alcan- 



(1) Memorias de Carnide, cit. 

(2) Provas da Historia genealógica, vol. XI, pág. 26. 



il 



Almeidas 



321 



çaria aquêle foro. Mais ainda; por não tornar o cavaleiro a aparecer nas 
listas, posso supor que morreria por aqueles anos próximos; e finalmente 
vejo que Duarte de Almeida deu ao seu primogénito o nome de João Fer- 
nandes, que iria buscar a seu pai, bem como deu ao segundogénito o de 
Sancho Gomes tirado da familia de sua mulher. Está nas regras: ao pri- 
meiro filho o nome do avô paterno; ao segundo o do avô materno, fazendo 
neste caso de avô e bisavô, porque este era o pai daquela tia que perfilhou 
a mulher do Decepado, deixando-lhe todos os bens, como já indiquei, e logo 
repetirei. 

Fiquemos pois nisto; porque, havendo a certeza de ter existido um João 
Fernandes de Almeida, que pelo tempo em que viveu podia ter sido pai do 
alferes de Toro, não é, suposição muito arriscada o atribuir-lhe tal filho. 

E, já que estou em maré de conjecturas, continuarei por mais um pedaço 
nelas, antes de entrar na realidade dos factos, não podendo daí vir mal 
algum, porque o leitor já está avisado de que se trata apenas de possibili- 
dades, que quando muito serão prováveis. 

E evidente que Duarte de Almeida, como lá adiante direi, foi parente de 
Pero Lourenço de Almeida, e parente próximo. Como poderia isso ser? 
Talvez da seguinte maneira. 

Suponho João Fernandes de Almeida, o cavaleiro fidalgo, filho de Fer- 
nand' Anes de Almeida, que foi legitimado por carta dada em Viseu a 27 de 
Julho da era de 141 5, ano do nascimento de 1377(1). Por esta carta se vê 
que se não tratou de legitimar uma pessoa vulgar, pois que nela se habilita 
o agraciado a herdar os bens de seu pai e mãe e parentes, assim como se 
fôsse fidalgo nado legítimo. O pai foi João Fernandes, clérigo de ordens 
sacras, a mãe Sancha Fernandes de Almeida, mulher solteira. 

Vejo a fidalguia do rapaz na pessoa da mãe, atentando a que nestes 
tempos poucas vezes, mesmo às senhoras principais, se dava o apelido nos 
documentos, e a que foi esse apelido o que o filho adoptou; vejo o nome de 
João Fernandes no pai do legitimado, que por esse motivo o daria a seu 
filho; vejo finalmente a carta passada em Viseu, onde, nos coutos, era a casa 
dos Almeidas do almotacé mor, como já disse. 

Pôsto isto, e continuando com as conjecturas, suponho Sancha Fernandes 
de Almeida, a seduzida pelo padre, a mãe de Fernand'Anes de Almeida, a 
avó do cavaleiro fidalgo João Fernandes de Almeida, a bisavó do Decepado; 
suponho-a, repito, irmã de João Fernandes de Almeida, bisavô do almotacé 
mor, e portanto este e Duarte de Almeida terceiros primos. 



(1) Chancelaria de D. Fernando, liv. 2.», fl. 12. 

YOL. U 



41 



322 



Brasões 



Mas acabemos com suposições, e vamos à realidade histórica firmada em 
documentos. 

Duarte de Almeida, sendo «fidalgo de nossa casa», alcançou carta de 
privilégios para seus mordomos, amos, etc, em 20 de Junho de 1461 (1). 
Em 1464, sendo «cavaleiro de nossa casa» teve doação em sua vida das 
quintas do Fairro e de Martanes, ou Marta Anes, nos bairros de Santarém (2). 
Foi dada esta carta em Évora a 23 de Julho, e nela posso ver a recompensa 
do denodo, com que no princípio do mesmo ano havia Duarte de Almeida 
defendido a bandeira real, de que era alferes, na triste expedição da serra 
de Benacofu em Africa (3). Exercia ele então o cargo de alferes menor na 
vez do alferes mor o conde D. Duarte, que naquela empresa morreu, coman- 
dando a rectaguarda do exército, pelo que não podia exercer o ofício. 

Pouco depois disto casou Duarte de Almeida, o que sei por um documento 
que infelizmente não nomeia a mulher do valente guerreiro. Em Santarém, 
a 10 de Março de 1466 foi-lhe concedido um alvará para se lhe assentarem 
nos anos de 1467 e 68, e pagarem, os dois terços das mil e oitocentas coroas 
de oiro, à razão de cento e vinte reais cada uma, que lhe haviam sido desem- 
bargadas de seu casamento, e isto um têrço em cada ano, pois que no cor- 
rente já se lhe havia feito pagamento do primeiro têrço (4). 

Dizem alguns nobiliários que a mulher do Decepado se chamou Maria de 
Azevedo, e que era filha de Alvaro Rodrigues Valente, senhor da Louzã, e 
de sua mulher Leonor de Azevedo. Acertaram ! Pelo menos, o que se 
apura dos documentos, não vai contra isto. 

Inês Gomes do Avelar, mulher de Pero Lourenço de Almeida, por escri- 
tura de 9 de Maio de 1457 perfilhou a sua sobrinha e criada de pequena, 
Maria de Azevedo, filha de sua irmã Leonor de Azevedo e de seu marido 
Alvaro Rodrigues Valente, já finado; e não só a perfilhou, como logo a no- 
meou por sua universal herdeira. Foi confirmada a perfilhação por D. AfonsoV 
em 11 de Março de 1460(5). 

Depois disto a mesma Inês Gomes com seu marido Pero Lourenço, sendo 
ambos velhos e sem filhos, resolveram de comum acordo fazer partilha dos 
bens do casal, afim de ela poder dotar a sua referida sobrinha Maria de 

(1) Chancelaria de D. João II, liv. i3.°, fl. 102, onde vem transcrita na de confirmação 
de 8 de Julho de 1490. 

(2) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 8.», fl. 108 v. 

(3) Azurara, Chronica do Conde D. Duarte, cap. penúltimo. 

(4) Chancelaria de D. João III, liv. 47. , fl. 145, e liv. 14. , fl. i35. 

(5) Estremadura, liv. 5.°, fl. 197. 



Almeidas 



323 



Azevedo, para assim a bem casar. Foi celebrada a escritura entre os côn- 
juges, depois de alcançada licença régia por alvará de 7 de Abril de 1457, 
em Lisboa a i5 de Outubro do mesmo ano(i). O contracto foi assinado 
por eles nas suas casas de morada na Alcáçova de Lisboa, onde o casal 
possuía ainda outras casas, que ficaram no quinhão de Pero Lourenço, em- 
quanto as outras, as de morada que eram à porta dos paços de el Rei, per- 
maneceram comuns aos cônjuges em sua vida com outros bens para susten- 
tação do casal. 

Anos depois comprou D. Manuel a Duarte de Almeida por oitenta mil 
reais umas casas na Alcáçova de Lisboa, para as derribar, e no chão delas 
continuar a obra que andava fazendo das estrebarias. Da referida quantia 
lhe passou um alvará, cuja data ignoro, mas que havia de ser anterior a 
1509, ano em que o Decepado já era morto, como logo direi (2). Esta casa 
havia de ser aquela à porta dos paços de el Rei, onde moravam o almotacé 
mor Pero Lourenço de Almeida, e sua mulher Inês Gomes do Avelar, a 
cuja meação o prédio viria a pertencer, e que por sua morte o deixaria à 
sobrinha Maria de Azevedo, a mulher de Duarte de Almeida. 

Também confirma este parentesco da mulher do Decepado, o facto de 
ele possuir em Sintra um pomar que havia sido de Sancho Gomes do Ave- 
lar (3), que é o pai de Inês Gomes, e portanto avô materno da sobrinha 
desta, Maria de Azevedo, a mulher do alferes. De reforço a todo o prece- 
dente vem também o facto de Duarte de Almeida ter tido um filho, que os 
nobiliários não nomeiam, que se chamou Sancho Gomes de Almeida, que 
era moço fidalgo nas listas de 1469 e 1474, e escudeiro fidalgo com mil tre- 
zentos e setenta e cinco reais de moradia nas de 1476, 77 e 84(4). Outra 
proveniência não podia ter o nome do rapaz, senão a que vinha de seu bi- 
savô materno, que era demais o pai da tia amiga e bemíeitora. 

Em 147 1 já existiam filhos dêste casamento. Sabe-se isto, não só pelo 
que acabo de referir, mas também pelo que diz uma carta dada em Arzila 

(1) Místicos, liv. 3.°, fl. 296. 

(2) Consta o contracto da carta de tença de cinco mil reais de juro e herdade, em sa- 
tisfação dos referidos oitenta mil reais. Foi a carta passada a 9 de Março de 1509 a favor 
de João Fernandes de Almeida, filho mais velho de Duarte de Almeida, e, compreendida 
noutra de confirmação, se encontra na Chancelaria de D. João III, liv. 3j.°, fl. 104, e noutra 
de padrão de tença no liv. 56.°, fl. 266 v. 

(3) Este pomar foi coutado a Duarte de Almeida juntamente com dois casais, que 
àcêrca dêle possuía, por carta de 22 de Abril de 1472, que está na Chancelaria de D. Afonso V 
no liv. 29. , fl. 20 v.; e que foi confirmada ao mesmo em i5 de Julho de 1490, mudando-se 
aí por engano o sexo ao antecedente dono, a quem se chama Sancha, como consta da 
Chancelaria de D. Manuel, liv. i3.°, fl. 25. 

(4) Provas da Historia genealógica, vol. II, págs. 43 e outras. 



324 



Brasões 



a 26 de Agosto daquele ano, pela qual D. Afonso V, querendo galardoar os 
serviços de D. Duarte de Almeida, fidalgo da sua casa, nele e em seus filhos, 
lhe faz mercê de por sua morte as quintas já nomeadas do Fairro e de Mar- 
tanes ficarem a seu filho primogénito em sua vida, pela guisa por que o pai 
as tem (1). 

Dois dias depois de tomada a praça de Arzila, no meio das preocupações 
da conquista, desgostos pelas mortes de leais servidores, não esquece ao 
africano a recompensa dos serviços de Duarte de Almeida, que decerto 
haviam de ter sido valiosos na empresa, apesar de nela a bandeira real ter 
sido levada pelo alferes mor conde de Valença. 

Se não fôsse a menção acima feita e tirada da Chronica do Conde D. Duarte 
de Azurara, não saberíamos que Duarte de Almeida já tinha exercitado o 
cargo de alferes menor da bandeira; e não o saberíamos, porque o primeiro 
documento em que ele é nomeado com êste ofício, é numa carta de seis mil 
reais brancos de tença, passada em Santarém a 29 de Abril de 1472 (2). 

Decidida por Afonso V a invasão de Castela nos primeiros meses de 
1475, não só o rei se preparou para a empresa, que tão funesta lhe seria, 
mas também o seu alferes mor que em Évora, a 29 de Março alcançou 
licença para poder arrendar as suas rendas (3); o que significava o poder 
levantar dinheiro, antecipando rendimentos. 

Contudo não se aprontou Duarte de Almeida tão rapidamente, como 
desejaria, pois que tendo começado a invasão em Maio, quem até 1 de 
Outubro sempre trouxe a bandeira real, foi Vasco da Gama (4); porém já a 
21 do mesmo mês estava o alferes em Samora, onde D. Afonso V lhe fazia 
mercê de mais quatro mil reais de tença, além de outra que já tinha (5), e 
que era a de seis mil reais acima apontada. 



d) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 34. , fl. 141 v. 

(2) Ibidem, liv. 29. , fl. 20 v. 

(3) Ibidem, liv. 3o.°, fl. i35 v. 

(4) Carta de oito mil reais brancos de tença dada em Arevalo a Vasco da Gama «nosso 
cavalleiro» em 1 de Outubro de 1475, pelos serviços feitos nos reinos de Castela aonde des 
a nossa entrada atee ora em elles sempre nos trouue a nossa bandeira». 

Imprimiu esta carta por inteiro o general Brito Rebelo nos seus Navegadores e explo- 
radores portugueses, a pág. 5o do vol. XIII da Revista de educação e ensino. 

Nomeando-o aqui, seria uma feia ingratidão da minha parte, o não declarar bem alto, 
quanto estou obrigado àquele amigo pelo auxílio que me tem dado nestes meus estudos. 
O general Brito Rebelo conhece a Torre do Tombo por dentro e por fora; êle sabe não só 
onde se encontram os livros, mas até sabe o que êles têm dentro; ele lê aquelas medonhas 
letras, como quem lê num livro primorosamente impresso; êle tem na cabeça um vastíssimo 
repositório de história, fruto de muito trabalho, paciência, investigação e estudo. 

(5) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 3o.°, fl. 37. 



Almeidas 



325 



Continuou Duarte de Almeida na guerra sempre ao lado do rei, que se 
lhe ia mostrando bom amigo, premiando-lhe os serviços. A i5 de Novembro 
de 1475, em Samora, dá D. Afonso V a Duarte de Almeida «fidalgo da 
minha casa e meu alferes » a sobrevivência da mercê da terra e celeiro de 
Maçamedes (Mossâmedes) na comarca da Beira e termo de S. Pedro do Sul 
para seu filho primogénito, como ora o alferes a tinha de el Rei(i). E mais 
claramente o torna a repetir em outra carta de 29 do mesmo mês, na qual 
declara, que havia feito doação a Duarte de Almeida e a seu filho, da refe- 
rida terra de Mossâmedes em seguida à morte de um Luís de Almeida, que 
a possuía, e a cujos descendentes voltou, como lá adiante direi. Continua a 
carta dizendo, que requerendo o alferes que, se a todo o tempo a referida 
terra lhe fôr tirada, lhe seja dada outra tão bôa, el Rei assim o resolve 
«pelos muitos e continuados serviços que me tem feitos assi nestes meus 
regnos de Castella como nos de Portugal e Africa, onde me sempre serviu 
mui bem e lealmente . . . e por esta minha carta encomendo e rogo a meu 
príncipe e meu filho que sob pena de minha benção que assim o faça » (2). 

Notáveis palavras ! e tão notáveis que análogas eu bem desejaria ver em 
data posterior à batalha de Toro. 

Foi provavelmente em má cópia de extractos dêste documento, encon- 
trada por Camilo Castelo Branco em algum nobiliário, que êle fundamentou 
parte do que com muita confusão e pouco acêrto diz de Duarte de Almeida 1 
no número 4 das Noites cie Insomnia. Camilo cila uma carta dada em 
Samora em 1475, na qual, diz êle, se dá o título de alferes mor ao Decepado, 
e a qual, continua, está a fl. 17 do o livro que serviu na chancelaria de 
D. Afonso V». A chancelaria de D. Afonso V consta de trinta e oito livros, 
e não de um só; em nenhum dêles na fôlha 17 está a doação a Duarte de 
Almeida de nenhum reguengo no concelho de Lafões; entre os bastantes 
documentos que existem, em que é declarado o posto militar de Duarte de 
Almeida, em nenhum é êle nomeado por alferes mor, e isto pela simples 
razão de que nunca o foi. O seu cargo, a que também se dava o nome de 
alferes menor, ou alferes pequeno, era o de alferes nas vezes do alferes 
mor; e só o exerceu durante o reinado de D. Afonso V(3). Também nunca 
foi senhor da quinta da Cavalaria, nem foi filho de Pedro Lourenço de Al- 



(1) Chancelaria de D. Afonso V, liv. 9. , fl. 19 v. 

(2) Ibidem, liv. 26. , fl. 178. 

(3) Aparece Duarte de Almeida classificado de alferes mor em uma cópia de uma carta 
de brasão de 1494 passada a Henrique de Almeida, a qual existe na Biblioteca Pública de 
Évora, e que está impressa a pág. 641 do Archivo heráldico do visconde de Sanches de 
Baena. Este documento, além de ser único na afirmativa, é-nos conhecido apenas por uma 
cópia, o que acaba de lhe tirar todo o valor. 



1 



3 2 6 



Brasões 



meida, como Camilo, continuando enganado, declara. No mais está quási 
certo, isto é, em êle não ter vivido pobre; mas foi pelo que já tinha antes 
da batalha, pois que depois desta apenas se lhe confirmam uns foros para o 
filho depois da sua morte, e se lhe dá uma tença de dez mil reais. Mais 
nada; e ainda D. João II encontrou maneira de lhe apanhar a tença. 

Estamos quási no dia da batalha, em que Duarte de Almeida pelo seu 
valor se imortalizou; porém, ainda antes dela, em 19 de Janeiro de 1476 
em Toro, lhe deu D. Afonso V os foros das casas da rua Nova da Judiaria 
em Santarém que haviam vagado por morte de Vasco Fernandes de Gou- 
veia (1). 

Chegou emfim o dia 1 de Março de 1476(2), dia triste, agreste e chuvoso. 
Nas margens do Douro feriu-se à tarde a batalha, que nós nomeámos de 
Crasto Queimado, e hoje com os espanhóis chamamos de Toro. Foi aí que 
Duarte de Almeida duramente conquistou a honrosa alcunha do Decepado, 
que a história lhe consagrou. 

Estando a batalha perdida pela parte do exército comandada por 
D. Afonso V, e tendo fugido o rei, foi o alferes assaltado por muitos caste- 
lhanos, que pretendiam arrancar-lhe a bandeira e a vida. 

Com a espada na mão direita se defendia Duarte de Almeida, segurando 
a bandeira com a esquerda, até que de um golpe lha deceparam. Larga a 
espada e com a mão que lhe fica, empunha a haste com que se vai defen- 
dendo, até que outro golpe lhe decepa a segunda mão. Então, com os cotos 
e com os dentes agarra a sua querida bandeira, que os inimigos lhe não con- 
seguem arrancar, senão quando êle cai crivado de feridas, e moribundo (3). 

Isto é o que diz o cronista. O rei porém foi menos explícito, e as suas 
palavras em Toro, um mês depois do sucesso, são estas, referindo-se à ba- 



(1) Chancelaria de D. João II, liv. i3.°, fl. 99 v. 

(2) Pina diz que a batalha de 'foro foi a uma «6.» feira primeiro de março de 1476 », e 
portanto no dia 1 que nesse ano calhou à 6.* feira (pág. 556). — Góis na pág. 289 diz a mesma 
coisa. — D. João II na carta à cidade do Pôrto (Dissertações, IV, part. II, pág 174), seis anos 
depois, põe a batalha a 2 de Março. Ele ordena que se faça uma procissão todos os anos 
nesse dia 2 de Março, em comemoração da sua vitória, mas acrescenta logo que nesse ano 
de 1482, por já se não poder fazer no dia competente, seja celebrada a festa na primeira 
6. â feira seguinte. Parece ter ficado mais fixado na memória o dia da semana que o do mês. 
— Çurita, IV, fl. 253 v., diz que na noite da 6." feira i de Março é que os portugueses acor- 
daram de partir e o fizeram ao dia seguinte, e nesse é que teve lugar a batalha. — O Rei de 
Castela na sua carta à cidade de Baeza também diz que a batalha foi a 1 de Março (Aiviaes 
das sciencias e letras, I, fl. 719). A carta foi escrita a 1 depois da meia noite e portanto já 
no sábado, dia seguinte ao da batalha. — Batalha de Toro, vide Documentos de Évora, vol. II, 
págs. 1 3 1 e 157. 

(3) Rui de Pina, Chronica de D. Afonso V, pág. 562. 



1 



Almeidas 



talha que tinha ferido com D. Fernando: « na qual o meu alferes foi mui 
derribado e mui ferido, e a minha bandeira fóra do seu poder» (i). 

Era realmente para lamentar, que uma insígnia, defendida com tanto 
primor e galhardia, ficasse presa do inimigo. Mas não sucedeu assim. Outro 
valente, Gonçalo Pires, escudeiro do senhor de Ferreiros e Tendais, « der- 
ribou um dos contrários, que a dita minha bandeira tinham em seu poder, e 
lha tomou, e a entregou ao Príncipe meu filho, que ahi mais acerca era com 
sua batalha » (2). Palavras que são confirmadas sete anos depois por D. João II 
na carta de brasão, dada em 4 de Julho de 1483, ao mesmo Gonçalo Pires, 
então já escudeiro de el Rei, documento em que se diz que, «sendo tomada 
pelos contrários a bandeira do dito rei (D. Afonso V) . . . e levando-a um 
cavaleiro . . . Gonçalo Pires ... o encontrou, e derribou, e com grande pe- 
rigo de risco de sua pessoa lha tomar durando o exercício da dita batalha 



(1) Chancelaria de D. Manuel, liv. 37. , fl. 72, na carta de tença de cinco mil reais 
brancos a Gonçalo Pires, carta que na nota seguinte irá impressa na íntegra. 

(2) Palavras da carta de tença dada por D. Afonso V a Gonçalo Pires, e por D. Manuel 
ao mesmo confirmada, e que diz isto : * 

o Dom manuell &c. A quantos esta nosa carta vire fazemos saber que por parte de g.° 
(Gonçalo) piz (Pires) bandeira nos foy apresentada uma carta do Snor Rey dom a° (Afonso) 
meu tyo que d's (Deus) tem da quall o teor tal he — Dom afons per graça de d's Rey de 
castella de llyam de purtugall de tolledo de cordua sseujlha de murcia de jahen dos algarues 
daque e dalém mar e africa e de Gibaltar das aljaziras Snor de bizcaia e de molina a quantos 
Esta mjnha carta virem faço saber que g° piriz escudeiro de g° vaaz pinto de meu conselho 
me fez huú muj asijnado seruiso ê esta batalha que ora ouue com elRey dom fernando na 
quall o meu alferez foy muj deRibado e muj ferido E a mymiha bamdeira fora de seu puder 
e o dito g° piz como boõ e nobre e home que me desejaua serujr ell derribou huú dos con- 
trairos que a dita minha bandeira tynha c seu poder e lha tomou e a emtregou ao príncipe 
meu f. u que hi majs acerqua era com sua batalha pollo quall serujço lhe eu som em mujta 
obrigaçã de lhe fazer mujta mercê e acrecemtamento por semelhante seruiço e querendo 
lho é alguma parte goallardoar como a my cabe e assj por lhe fazer graça e mercê tenho 
por bem e me praz que elle tenha deste janr. que ora pasou de iiij c lxxvj £ djamte e cada 
huú anno de temça e quanto a mynha mercee for cinquo mjll Rs branquos os quaaes man- 
damos aos vedores da mymiha fazemda dos meosRegnos de purtugall que lhe façã assentar 
e os meus liuros delia e lhe dem logo cartas de desébargo delles nos assentametos pera 
lugar honde lhe sejã muj be pagos e asy di e djante e cada huú anno e per sua guarda e 
lembrança mjnha lhe mandej dar esta minha carta de padrã per my asinnada e assellada 
dada e a mynha cidade de touro a iij dias do mes dabrjll pero de payua a fez anno do nac'» 
de nosso Sennor Jhs x° de mjll e iiij c lxxvj pedindonos o dito g° piz por mercê que asy lha 
cõfirmassemos e visto per nos seu Requerjmêto e querendo lhe fazer graça e mercê temos 
por bé e lha confirmamos e auemos per confirmada asy e na maneira que e ella he con- 
teúdo e mandamos que asy se cupra e goarde dada e euora a xij dias de mayo andre diz 
(Dias) a fez anno do snííor Jhs x° de mjll iiij , lRvij (i4gj). — Chancelaria de D. Manuel, 
liv. 37. , fl. 72. 



328 



Brasões 



e per si logo no-la trazer, como de todo bem somos em conhecimento e 
lembrança» (i). 

Nesta façanha não entrou Gonçalo Pires sozinho, e pelo menos mais 
outro português nela o coadjuvou. E o que se deve colher do que diz outra 
carta de tença, da qual devo o conhecimento à benevolência de um amigo. 

Diogo Gomes de Lemos, fidalgo da casa do príncipe D. João e soldado 
na sua hoste, batalhou em Toro, e, acontecendo a bandeira real ser tomada 
pelos castelhanos, êle o a fez principalmente recobrar, encontrando e derri- 
bando um cavalleiro dos ditos inimigos, que a dita bandeira tinha». Isto 
diz o príncipe seis dias depois da batalha em uma carta de dezoito mil reais 
brancos de tença (2). 



(1) Consta da carta de brasão passada em Évora a 4 de Julho de 1483 a Gonçalo Peres. 
Nela se diz : 

«Dom Joham... fazemos saber que... avendo nos Respeito como gonçalo pires escu- 
deiro de nossa Casa he delia (honra ) merecedor por boõs e leais seruiços que fez a EIRey meu 
Sefíor e padre que d's tem. E a nos assy nas partes dafrica como nos Regnnos de Castella 
E principalmente por na batalha que o dicto Sefíor que d's té e Nos com elle nos dictos 
Regnnos de Castella em Crasto queimado ouuemos com EIRey dom fernando, da qual 
apesar dos adverssarios ficamos louuado d's vencedores no campo, sendo tomada pellos 
contrayros a bandeira do dicto Rey meu Sefíor, antes da nossa victoria, e levandoa huõ 
caualeiro do dicto Rey dom Fernando, o dicto gõçalo Piriz como home esforçado leal, e 
desejador da honrra do dicto Rey meu Sefíor, e nossa, e de nossos Regnnos, o encontrar e 
deRybar, e com grande perigo de Rysco da sua p a (pessoa) lha tomar, durando o exercício 
da dita batalha, e per sy logo nolla trazer como de todo bê somos em conheçimento, e 
lembrança, e querédo lhe esto em alguúa parte gualardoar. . . Temos por bé, e. .. o sepa- 
ramos do Numero deplebco E o abilitamos, e fazemos nobre de Cota darmas. E lha damos, 
e outorgamos com apelido de Bandeira que elle gonçalo Piriz, e sua dereita linhajem se 
chamaram, e poderá chamar, e outros nanhuús nã. estas armas com este escudo pintadas 
hordenadas per portugal nosso Rey darmas. As quaaes êle, e os que delle desçenderem 
per linha direita. . . avemos por bem que tragam. . . E por tanto encomendamos ao prin- 
çepe... E a todolos duques Condes prelados barões, e Rycos homés fidalgos, Caualeiros 
Escudeiros Corregedores Juizes Justiças. . . E mandamos a cada huú em seu lugar que ajam 
asy o dicto gonçalo pirez bandeyra por nobre de Cota darmas. E asy os que dêle descen- 
derem, por entitolados do apelido de bandeira como dicto he... dada em a nossa cidade 
deuora aos quatro dias do mes de Julho anno. . . de mil e iiij c lxxxiij annos.» 

Em cota à margem tem a descrição das armas por esta maneira: «A saber, o escudo 
uermelho E nelle húa Bandeyra quadrada de ouro: E nellahum leão rompente azul, armado 
lingua, dentes, E unhas de uermelho. E a Haste da Bandeyra de ouro. E a bandeyra com 
hum filete de prata em quadra. Paquife de Prata e azul. Elmo de Prata cerrado: guarnecido 
de ouro. E a mesma Bandeyra por timbre (a.) Luis ferreira dazevedo ». 

Está tudo no liv. i.° dos Místicos, fl. 234 v. 

(2) Devo o conhecimento diste interessante documento à liberal benevolência do general 
Brito Rebelo, que mo apresentou, autorizando-me a dêle dar uma cópia, que é a seguinte: 

« Dom Johã et cet. 1 a quamtos esta nossa carta vire fazemos saber que em a batalha 



Almeidas 



329 



Daqui poderá concluir-se que os feitos de Gonçalo Pires e de Diogo de 
Lemos se referem a duas bandeiras diferentes ? Parece-me que não. 

E certo que na batalha de Toro se perderam mais do que uma daquelas 
insígnias, pois que, tendo sido o exército real derrotado, é evidente que nas 
mãos dos castelhanos caíram, além da real, muitas bandeiras de fidalgos, e 
mesmo de têrços de alguma vila ou cidade, se por lá já disso havia. Mas 
a bandeira real era só uma. Assim o dá claramente a entender o nosso 
cronista (1). Assim o certifica o próprio rei de Castela na sua carta à cidade 
de Baeza, dizendo que foi « tomado su pendon de las armas Reales é muerto 
el alferes é tomadas las mas de las outras vanderas » (2), que Pulgar diz 
terem sido oito, que foram levadas para Samora (3). E até dos três docu- 
mentos transcritos nas notas se há-de entender que a bandeira real era só uma. 

Na mercê da tença a Diogo Gomes de Lemos por carta passada em 
Toro a 7 de Março de 1476, isto é, seis dias depois da batalha, diz o pría- 
cipe D. João: «aconteceu de a bandeira real do dito Senhor ser tomada». 
Na carta de tença a Gonçalo Pires, documento também passado em Toro 
pouco depois da batalha, a 3 de Abril, mandou escrever D. Afonso V por 
duas vezes a palavra «a minha bandeira». Na carta de brasão concedida 
já por D. João II, mas em que ele diz estar « bem em conhecimento e lem- 
brança», declara o soberano que foi tomada pelos contrários «a bandeira do 
dito rei meu senhor ». Parece-me pois não dever restar dúvida da referência 
ser sempre à mesma bandeira, e que esta, a retomada por Gonçalo Pires e 
Diogo Gomes, foi a real, o estandarte de D. Afonso V. 

I Poder-se-há então duvidar de qual dos dois valentes a tomou ? Também 
creio que não. 



de crasto queimado que EiRey meu S or e eu com sua Snoria ouuemos com el Rey de cezilia r 
aconteceu de a barnd" Reall do dito ^nnor ser tomada ê" poder dos Imigos e D° gomez de 
lemos fidallgo de nossa cassa que com nosco era na nossa batalha, a fez primcepalmête rre- 
cobrar êcontrando e derribando huú caual ro dos ditos Imigos que a dita bamd* tinha pollo 
quall Nos avemdo Respeito ao dito seruiço e queremdo lhe por ello fazer graça e mercee, 
teemos por bê" e nos praz que elle tenha e aja de nos de teemça des prirn™ dia de jan° que 
ora passou da pressemte era e diamte ê quamto nossa mercee for, dezoyto mill rrs bramcos 
dos quaaes auera pagamemto per carta que em cada huu anno tirara de nossa fazemda 
sseg** nossa hordenamça e por certidã dello lhe mamdamos dar esta nossa carta asinada 
per nos e asellada do nosso sello dada ê" a cidade de touro a vij ds do mes de marso xpouã 
de bairros a ffez anno de mill e iiij e Lxxvj ». 

Está no liv. i.° do Cartório de Santiago, fl. i35 v., e o príncipe D. João dispunha naquele 
tempo dos bens da ordem de Santiago por ser mestre dela. 

(1) Pina, Chronica de D. Afonso V, em várias partes, e por exemplo na pág. 558. 

(2) Coleccion de documentos inéditos para la historia de Espana, tôm. XIII, pág. 399. 

(3) Chronica de los Reyes Catholicos, fl. 71 da edição de 1 565. 

vol. 11 42 



33o 



Brasões 



Gonçalo Pires a derribou um dos contendores)) que tinham a bandeira 
real em seu poder, e a levou ao príncipe. Diogo Gomes de Lemos teve 
parte muito principal no feito « encontrando e derribando um cavalleiro» dos 
inimigos que a bandeira tinham; mas não foi ele que a levou ao príncipe. 

Daqui o que se deve concluir, é que, como aliás era bem natural, entre- 
gues da bandeira de D. Afonso V estavam mais do que um castelhano, e é 
isto mesmo o que nos diz o cronista dos reis Católicos por estas palavras: 
«El Cardenal (D. Pedro Gonzalez de Mendoza, el gran cardenal de Espana) 
dexo en aquel lugar encomendado el estandarte a dos cavalleros, que llamavan 
el uno Pedro de Velasco, y el otro Pero Vaca, los quales lo tornaron a 
perder » (i). 

Na batalha perdeu-se o estandarte real, e foi depois recuperado. Nisto 
não pode haver dúvidas, e não são precisas mais citações, espanholas ou 
portuguesas. Foi ele defendido com valor, também é certo; ,jmas perdeu 
Duarte de Almeida os braços em sua defensão? ,jmas foi o alferes levado 
preso e moribundo para Samora ? 

Na primeira parte quero crer; na segunda lá me custa, porque sei que 
ele, menos de dois meses depois, a 26 de Abril, já estava outra vez em 
Toro. Mas na mutilação acredito, apesar de não encontrar nenhum docu- 
mento que a prove, porque não julgo possível inventar descaradamente seme- 
lhante mentira em tempos tão próximos do sucesso. 

Rui de Pina em i5o4 tinha já escrita a Chronica de Afonso V{2). Na- 
quele ano talvez que ainda Duarte de Almeida vivesse, pois que a 24 de Fe- 
vereiro de i5o2 ainda não era morto, e só tenho a certeza de que havia 
deixado já de existir a 9 de Março de i5og(3). Rui de Pina, o primeiro 
historiador que conta o facto de terem decepado as mãos ao alferes, não in- 
ventava semelhante história na cara de tanta testemunha presencial, que 
ainda havia de existir; em frente do próprio herói, que morava logo ali em 
Santare'm, que muitos da côrte